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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

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A sociedade, segundo Zeca Afonso

Nas vésperas da comemoração de mais um aniversário da data, deparei-me com este vídeo da Associação José Afonso, excerto de uma entrevista a Zeca Afonso em 1984:

 

 

Os jovens, e digo os jovens de todas as classes, estão um pouco à mercê de um sistema que não conta com eles, que hipocritamente fala deles. O 25 de Abril não foi feito para esta sociedade, para aquilo que estamos a viver.

 

Aqueles que ajudaram a fazer o 25 de Abril não foram só aqueles que o fizeram, imaginaram uma sociedade muito diferente da atual que está a ser oferecida aos jovens. Os jovens deparam-se com problemas tão graves ou talvez mais graves do que aqueles que nós tivemos que enfrentar, o desemprego, por exemplo, e, por vezes, não têm recursos. O sistema ultrapassa-os, o sistema oprime-os, criando-lhes uma aparência de liberdade.

 

Eu creio que a única atitude foi aquela que nós tivemos — nós, eu refiro-me à minha geração — de recusa frontal, de recusa inteligente, se possível, até, pela insubordinação, se possível, até, pela subversão, do modelo de sociedade que lhes está a ser oferecido com belos discursos, com o fundamento da legalidade democrática, com o fundamento do respeito pelos cidadãos, pelos direitos dos cidadãos.

 

É, de facto, uma sociedade teleguiada de longe por qualquer FMI, por qualquer deus banqueiro, que é imposta aos jovens de hoje. Tal como nós, eles têm que a combater, têm que a destruir, têm que a enfrentar com todas as suas forças, organizando-se para criar essa sociedade que têm em mente que não é, com certeza, estou convencido, a sociedade de hoje.

 

José Afonso, 1984

 

Fiquei muito sensibilizado ao ouvir esta entrevista. Primeiro, pela atualidade da mesma, quer pelo conteúdo propriamente dito — uma sociedade governada por um “deus banqueiro” com uma “aparência de liberdade” —, quer pela birra deste ano dos liberais em quererem fazer parte das comemorações do 25 de Abril. Vem, de facto, muito a propósito: “Aqueles que ajudaram a fazer o 25 de Abril não foram só aqueles que o fizeram, imaginaram uma sociedade muito diferente da atual que está a ser oferecida aos jovens”.

 

Segundo, por uma questão de memória. Tal como o capitalismo americano converteu Che Guevara numa marca, em mais um produto lucrativo, identificando-o com uma atitude rebelde genérica e desprovida de conteúdo, também o capitalismo português fez, de certo modo, o mesmo com Zeca Afonso. É normal, hoje, ver os filhos dos que não quiseram o 25 de Abril, os descendentes dos PIDEs, os amantes da “ordem” e da “disciplina” do estado novo e do fascismo, hoje convertidos em “liberais democratas”, cantarolarem as melodias eternizadas por Zeca Afonso e, até, vestirem t-shirts com a sua cara estampada. Tornou-se normal, na nossa sociedade, associar Zeca Afonso a uma atitude rebelde genérica contra o fascismo e dissociar a sua música de uma mensagem e posicionamento políticos concretos.

 

Ainda bem, por isso, que ainda existem estes testemunhos gravados. Se não existissem, eu próprio, na minha senilidade crescente, começaria a duvidar de mim mesmo.

 

 

publicado às 07:28

O meu 25 de abril não é o mesmo que o teu

Aproxima-se rapidamente o dia em que se comemoram 46 anos desde o 25 de abril de 1974, uma data histórica e ímpar para Portugal e que, independentemente das opiniões, marcou a entrada do país na modernidade.

 

A história de Portugal é marcada por um conservadorismo recorrente e insistente, de braço dado com um não menos irritante provincianismo. O país dos “brandos costumes”, das fezadas sebastiânicas em noites de nevoeiro, sempre de olhinhos brilhantes, boquiabertos, em direção à virtude estrangeira relativamente à incapacidade nacional e sempre, sempre, fazendo mundos e fundos, gastando o que tinha e o que não tinha, para impressionar os poderes além fronteiras. Ainda hoje vemos isso mesmo, vemos claro este padrão comportamental diante de nós, como nos ajoelhamos perante a autoridade europeia e não apenas, como fazemos de tudo para sermos os bons alunos de políticas que, em última análise, apenas lesam os nossos legítimos interesses.

 

Fomos para além da troika. Somos conservadores relativamente aos próprios conservadores, porque só assim podemos ser os bons alunos. Só assim podemos ser reconhecidos. Nada se compara com a espetacularidade do cortejo que, pelas ruas de Roma, marcou a entrada da embaixada portuguesa no Vaticano em 1514, um desfile que incluía leopardos, cavalos persas e um elefante indiano. Nada se compara com isso. Mas é exatamente esse deslumbramento, esse desesperado desejo de reconhecimento que eu chamo de atitude provinciana e que tem sido nota dominante na nossa, em todo o caso, brilhante e longa história enquanto nação.

 

A esta história de serventualismo impuseram-se exceções não muito frequentes e, ainda assim, por ventura mais odiadas do que admiradas. Uma delas, a mais recente, foi o 25 de abril de 1974. A revolução abriu portas a uma criação cultural e artística sem precedentes, a dinâmicas sociais que se julgavam inexistentes e permitiu que lográssemos compor uma lei fundamental que ainda hoje, virado um milénio de costumes, é motivo de estudo e é altamente considerada pelo seu alcance progressista.

 

O 25 de abril foi, com efeito, muito mais do que uma simples revolução para operar uma mudança de regime. Para muitos, foi uma revolução que pretendia a transformação das dinâmicas da sociedade, foi o resultado natural da falência de um modelo económico, mais do que de um regime político. Para muitos a revolução tinha um alcance diferente, lançando as bases para uma sociedade mais igualitária, sem classes, avessa à concentração de riqueza, pelo desenvolvimento do país e pelo bem estar de todos os cidadãos. Os conceitos de liberdade e de democracia não se esgotavam em meras encenações protocolares quadrienais: eram conceitos materializados no fim da fome, na habitação, educação, cultura e saúde para todos, no pleno emprego.

 

Este 25 de abril, pode-se dizer, foi efémero mas, todavia, as ondas de choque que provocou na nossa sociedade, que nunca deixou de lado o seu conservadorismo e o seu provincianismo de estimação, foram suficientes para influenciar o rumo do país durante décadas. O estado social criado, os direitos civis e laborais conquistados aí estão como prova viva do que escrevo.

 

É com tristeza que assisto ao desmantelar contínuo desse legado do 25 de abril de 1974 operado através da própria democracia. É com tristeza que vejo os ponteiros do relógio inverterem o seu movimento.

 

E é por isso que existem dois 25 de abril, duas revoluções. Existe a revolução dos progressistas, dos sonhadores, dos revolucionários, dos utópicos. Essa ficou aquém dos sonhos e da utopia mas foi maravilhosamente transformadora. E, depois, existe a revolução dos provincianos, dos conservadores, dos servis, daqueles que, em boa verdade, também estavam bem providos com o estado novo. Para esses, a revolução foi apenas uma transição, uma mudança de caras e hoje, mais velhos, mostram-se incapazes de esconder um certo saudosismo.

 

Para os primeiros é verdadeiramente impensável não se celebrar esta data histórica tão transformadora que foi, tão influenciadora que ainda hoje é. E é impensável que essa celebração não ocorra na casa da república e da democracia representativa que o 25 de abril concebeu. Para os segundos é mais que natural que tal celebração não tenha lugar ainda por cima quando tal disputa retira múmias dos respetivos sarcófagos, reaviva fantasmas, potencia fraturas sociais tão apetitosas politicamente nos dias de hoje.

 

O essencial da polémica em torno das celebrações do 25 de abril é este. O resto é conversa fiada de gente sem respeito e sem amor à data e para os quais a revolução não significa nada.

publicado às 17:01

Podem Os Verdes ensinar alguma coisa ao PCP?

O PCP parece empenhado em desconsolar com as suas intervenções todos os progressistas que possuem um sistema nervoso central um bocadinho maior que um feijão germinado. Hoje, na sessão parlamentar de comemoração do vinte e cinco de abril, Jorge Machado foi o escolhido pelo PCP para discursar. Naquela oportunidade importante — que muitos canais televisivos transmitiram em direto — para se passar uma mensagem política foi absolutamente penoso acompanhar as palavras de Jorge Machado.

 

Apesar de ser já um parlamentar experiente, Jorge Machado revela-se perfeitamente inapto na arte da oralidade, perfeitamente incapaz no discurso, tanto pela forma como pelo conteúdo do mesmo. Incapaz de uma qualquer alteração na entoação discursiva, o monocórdico e aborrecido Machado fez o que pôde, e o que pôde foi, como seria de esperar, confrangedor, dispersando-se no acessório, no abstrato e perdendo o essencial e o concreto.

 

É preciso dizer, é preciso berrar, talvez, aos ouvidos da malta parlamentar do PCP que um discurso não deve ser uma introdução de uma tese de doutoramento. Um discurso deve ser focado em dois ou três pontos, no máximo, que se pretendem transmitir, deve ser objetivo, claro e apelativo, devendo ir de encontro ao público ao qual se destina a mensagem. Quem escreve os discursos no PCP, todavia, parece não perceber nada sobre o assunto.

 

Seria interessante que o PCP desviasse a atenção para o seu lado, para a sua própria criação política, Os Verdes, e para o brilhante discurso de Heloísa Apolónia. Foi objetivo, foi claro, foi focado e interessante em conteúdo, tendo tocado em tudo o que era necessário tocar no que diz respeito à ocasião e também à ordem do dia. Foi um discurso bem entoado.

 

Se calhar estou a ser injusto e o discurso de Jorge Machado nem foi tão mau assim. Eu é que não fui capaz de ouvir com atenção. E isso é um problema que o PCP não percebe, mas que talvez Os Verdes lhe possam explicar.

publicado às 11:58

Primeiro de Maio de 2016

Este ano, por capricho dos deuses, talvez — quem sabe? —, aconteceu que o Dia da Mãe coincidiu com o Dia do Trabalhador. Aconteceu. A casuística do calendário tem destas coincidências: aconteceu que o primeiro domingo de Maio coincidisse com o dia primeiro dia do mês. Para lá de anotarmos os óbvios matizes de infelicidade que envolvem esta coincidência, é porventura mais interessante contemplarmos os dados novos que esta casualidade nos fornece para além de qualquer tipo de dúvida.

 

Com exceção de um ou outro comunista, de uma ou outra pessoa abençoada com o dote de um punhado de convicções mais sólidas e menos triviais, a web encontra-se inundada no dia de hoje das mais diversas mensagens frívolas de celebração do Dia da Mãe, ao mesmo tempo que o Dia do Trabalhador é desprezado quase que por completo. Bem entendido, a casualidade que acontece hoje e que atrás qualifiquei de infeliz possui a propriedade de provar como uma parte substancial da população desvaloriza o Dia do Trabalhador em face de um qualquer pretexto. O pretexto deste ano foi o Dia da Mãe.

 

Não é que o Dia da Mãe não tenha a sua relevância. Trata-se, sem embargo, de uma importância com um nível muito diferente da do Dia do Trabalhador, um dia que se associa às maiores conquistas laborais e às mais revolucionárias modificações sociais do último século.

 

É ajuizado notar que a população das redes sociais não pode ser considerada representativa da população do país. Evidência desta última afirmação é, por exemplo, as extrapolações de intenção de votos que se fazem em altura de eleições com base na popularidade nas redes sociais e que saem, em regra, furadas. Mais: a parte da população que festeja o Dia do Trabalhador não comenta usualmente na rede, vai para a rua celebrar.

 

Isto não quer dizer, todavia, que não seja possível extrair certos padrões comportamentais e reacionais com um certo grau de representatividade a partir das redes sociais. Aliás, se assim não fosse e se as redes sociais não assumissem uma relevância importante e crescente, não se investiria tanto e cada vez mais no seu estudo.

 

Sob outra perspetiva, este afastamento da generalidade da população do Dia do Trabalhador encerra em si próprio uma derrota de um certo sistema de valores que, de forma mais ou menos subliminar, vinha presidindo à nossa sociedade. São os valores que originaram a Revolução de Abril, a escrita da Constituição e que inspiraram o mais geral Sistema Social Europeu, como assim é chamado.

 

Este Sistema Social Europeu, como já tive oportunidade de escrever anteriormente, foi produto da confrontação entre os regimes capitalistas ocidentais e os regimes socialistas de leste, tendo sido a forma encontrada pela Europa de desmobilizar uma crescente onda popular que, dentro de portas, ambicionava para si os direitos que se dizia que as populações de leste usufruíam. Hoje este confronto não existe mais e, lentamente mas a passos muito seguros, o Sistema Social vai sendo desmantelado peça por peça e, com ele, o Dia do Trabalhador esvazia-se de sentido e de relevância junto das populações, as quais, encontram-se já perfeitamente reformatadas ao ocidente capitalista e não conseguem ver nele, no Dia, qualquer tipo de significado.

http://www.socialistalternative.org/wp-content/uploads/2014/04/thumb.php_.jpg

publicado às 11:37

Isto muda devagar

“Tu, que és professor, tens que ajudar a mudar isto”.

“Mudar? A que te referes?”

“Esta juventude... Só se fores tu a incutir-lhes os bons valores.”

“Faço o que posso.”

“Só se fores tu... para isto ir mudando... devagarinho...”

“Mas sabes?”

“O quê?”

“Isto dos bons valores não é coisa que se ensine.”

“Explica?”

“Ajuda, claro, mas não é coisa que se ensine. Quer dizer: com o Português e a Matemática.”

“Hum?”

“O sentido de solidariedade, de justiça, de igualdade, vêm de cá de dentro, daqui... do coração. Ou os tens ou não os tens.”

“Mas ajuda saber umas coisas...”

“Claro! Mas olha: o vinte e cinco de abril de setenta e quatro parece que foi ontem, mas já passaram quarenta e dois anos!”

“É verdade.”

“E nestes anos o que aconteceu? Acaso consideras que esta nova geração, a mais e melhor formada de todas as gerações, é mais solidária, mais justa e mais igualitária?”

“Não me parece.”

“A mim também não.”

“O que fazer, então?”

“Continuarei a fazer o meu trabalho, a minha parte.”

“Isto muda devagar.”

“Devagarinho.”

“Tão devagar que às vezes até parece que anda para trás.”

“Mas não anda.”

“Não, não anda.”

 

static.blastingnews.com/media/photogallery/2015/4/25/main/o-cravo-como-simbolo-do-25-de-abril_315389.jpg

publicado às 16:43

As responsabilidades do vinte e cinco de abril

Neste dia vinte e cinco de abril que passou ouvi muitas pessoas dizerem que a revolução dos cravos não foi bem sucedida, que não temos um país melhor e que, por isso, a celebração do dia resulta falsa, pois o insucesso não deve ser celebrado.

 

Oponho-me vigorosamente a esta linha de pensamento, não obstante compreenda algum do sustentáculo argumentativo. Oponho-me fundamentalmente porque o vinte e cinco de abril de mil novecentos e setenta e quatro fez, e foi muito bem sucedido, em precisamente aquilo a que se propunha fazer, a saber:

 

  1. Reestabeleceu a República parlamentar multipartidária e plural, baseada em regras democráticas bastante equitativas.

 

  1. Implementou um sistema de iguais direitos para todos os cidadãos independentemente do sexo, religião, crença política ou religiosa, ou qualquer outra característica potencialmente diferenciadora.

 

  1. Aplicou todos os recursos para retirar o país da ignorância abjeta em que havia sido mergulhado e deu um forte impulso para tal.

 

  1. Criou o sistema nacional de saúde e de pensões para garantir um apoio, na saúde e na velhice, a cada cidadão.

 

  1. Iniciou uma reforma agrária e uma política de distribuição de riqueza mais equilibrada, através de medidas concretas como o aumento do salário mínimo, a redução do horário de trabalho, a criação do décimo terceiro e do décimo quarto mês, entre muitos, muitos outros direitos que hoje, curiosamente, estão a ser retirados um a um.

 

  1. Construiu, enfim, um conjunto de leis base, a Constituição da República, ainda hoje uma das mais avançadas no mundo, que englobou tudo o que acima foi dito e que apontou um caminho de igualdade, solidariedade e de fraternidade, em todos os aspetos da sociedade.

 

O vinte e cinco de abril fez tudo isto e, eventualmente, mais qualquer coisa de que agora não me recordo. Fez muito. Deu de mão beijada ao povo português a possibilidade deste escolher os seus representantes. Por conseguinte, não se assaquem quaisquer responsabilidades ao vinte e cinco de abril que o vinte e cinco de abril não tem.

 

publicado às 10:09

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