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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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A História do pensamento único

por Amato, em 08.07.19

Era já domingo há algumas horas. Uma luz trémula amarelava o espaço. Procurava escapar, ainda, ao final do dia anterior e ia, assim, dando clicks aleatórios no ecrã, em busca de não sei bem o quê. O país entrou já no seu período sazonal merecido de estupidificação. Este ano não há campeonato do mundo ou europeu, mas o futebol inunda o espaço mediático. Como sempre. Discute-se o nada, horas a fio.

 

No DN vim a descobrir uma entrevista de Ernest Oberländer Târnoveanu, diretor do Museu Nacional de História da Roménia. A propósito da sua visita ao nosso país para inaugurar uma exposição sobre os principados romenos, patente no Mosteiro da Batalha, Târnoveanu falou ao DN sobre alguns aspetos gerais da história do seu país. O título da entrevista era, desde logo, prometedor: A independência romena não foi um presente dado pelos russos.

 

O que despertou o meu interesse àquela hora avançada era precisamente saber mais sobre esta animosidade, sobre este ódio, que parece visceral, que os romenos nutrem pelos russos. Não é sentimento que seja exclusivo dos romenos, diga-se. Ao longo das minhas viagens, encontrei semelhante animosidade em países como República Checa, Eslováquia, Hungria, Bulgária, Polónia e, também, nos três irmãos do Báltico, Estónia, Letónia e Lituânia.

 

A entrevista tem algumas partes com interesse como não poderia deixar de ser. A história da Roménia está intimamente ligada ao império romano, à sua cisão e, particularmente, à sua metade oriental resultante, o império Bizantino de Constantinopla, mais tarde chamado Otomano aquando da conquista pelos turcos. Como naturais guardiões do Danúbio, avenida que liga as extremidades da Europa, os principados que deram origem à Roménia contemporânea assumiram desde sempre uma relevante importância estratégica comercial e, daí, a história daquele lugar sobre a barriga da Europa é repleta de desventuras e acontecimentos fascinantes.

 

Não desiludindo as minhas expetativas, Târnoveanu é lesto a incluir os russos na conversa. Os russos são pintados como uma espécie de inimigos mortais, as suas ações são revestidas de duplicidade e de infâmia, ao passo que os romenos, investidos de uma certa incapacidade ou inocência, vão sendo permanentemente enganados e roubados. Este quadro atinge o seu apogeu com o comunismo e a era de domínio soviética. Nas palavras de Târnoveanu: “Foi uma pilhagem em larga escala, maior ainda que as pilhagens turcas e mongóis juntas”. Atente-se bem na hiperbolização utilizada, pois ela é marcante no que concerne ao revestimento ideológico da narrativa.

 

Não deixa de ser surpreendente que um país, ou conjunto de principados, permanente sob domínio ou influência de estrangeiros, permanentemente cobiçado e invadido, seja por turcos otomanos, seja por austro-húngaros ou polacos, eleja os russos como alvo, mais que primordial, das suas antipatias e dos seus ódios.

 

Tomo a liberdade de adivinhar o pensamento que assalta agora mesmo o meu caro leitor neste ponto da sua leitura: este Amato, por ser comunista, não consegue ver o quanto o comunismo suprimiu aqueles povos de leste. Adivinhei? Deixem-me assegurar-vos, pois, que a minha posição neste texto não se inspira na ideologia e de ideológica apenas se apossa da lógica para construir pensamento sobre o assunto.

 

Quando me dedico ao estudo e reflexão das páginas da História só uma coisa tem o condão de me arrepiar o ser. Essa coisa é o pensamento único, os factos indiscutíveis e insofismáveis, as verdades evidentes. O tema em questão é um bom exemplo disto mesmo: na Roménia, assim como noutros países, é difícil encontrar uma pessoa capaz de tecer um elogio que seja ao regime pró-soviético que vigorou no seu país. É quase como se houvesse um pacto silencioso entre todos, uma história combinada de antemão. Acreditem que eu dou de barato que em muitos desses regimes foi feita muita coisa desprezível e repugnante, mas é difícil de acreditar que apenas tenha sido feito isso e que nada de positivo resulte quando se olha sobre o ombro para esses tempos. Em seguida, deixo alguns pontos que me fazem duvidar da verdade destes discursos. Centrar-me-ei no exemplo romeno, embora os argumentos possam ser igualmente aplicados noutros contextos.

 

Em primeiro lugar falemos do passado, isto é, do passado anterior ao regime comunista pró-soviético na Roménia. Como já foi dito, a região a que hoje se chama Roménia foi consecutivamente dominada politicamente por poderes estrangeiros. Desses sucessivos domínios resultou uma terra ocupada por uma espécie de camponeses nómadas, que se refugiavam nos bosques, nas montanhas e nos vales dos rios, sempre em movimento, sem nunca se fixarem. Em meados do século XX, a Roménia era pouco mais que um país retirado da idade das trevas, de um cristianismo ortodoxo extremamente conservador, uma sociedade em tudo medieval, pouco evoluída tecnologicamente, pouco civilizada e parada no tempo.

 

É curioso perceber o olhar algo terno que os romenos contemporâneos dedicam a esses tempos e a admiração que especialmente dedicam aos ocidentais que sempre os dominaram. Não se pronunciam grandes críticas, não se apontam dedos. É uma história que é aceite na sua plenitude porque formou o caráter e a identidade comuns a todos os povos romenos.

 

Já é revelador, todavia, perceber que os romenos raramente se referem aos alemães e, particularmente, a Hitler e ao nazismo. Nesta entrevista que dá o mote a esta reflexão, Târnoveanu não os refere uma única vez. Por que é que eu adjetivo o facto de revelador? A Alemanha nazi, na antecâmara para a Segunda Guerra Mundial, começou por invadir e ocupar uma série de países na Europa central e de leste: Áustria, Hungria, Polónia, Roménia e Bulgária, entre outros. Estes países serviram como passadeira vermelha para o Terceiro Reich se colocar às portas da Rússia antes de a invadir sem uma prévia declaração de guerra. Os recursos desses países — e isto, sim, trata-se de um facto indesmentível — foram totalmente usurpados e colocados ao serviço do exército nazi. Admira-me que, na sua entrevista, Târnoveanu não dedique uma única palavra a este assunto. Admira-me que não reconheça a evidência da exploração do seu país pelo regime ideologicamente mais hediondo de que há memória. Adiante.

 

Quando o exército vermelho libertou a Roménia, juntamente com muitos outros países, do jugo nazi, foi instaurado um regime socialista pró-soviético. Durante esse regime a Roménia atingiu os mais elevados índices de bem estar e de desenvolvimento da sua história. Não existe comparação possível relativamente a domínios como a educação, a cultura, a saúde, a habitação, o trabalho ou o aquecimento. Os russos dotaram o país das estruturas necessárias para o catapultar para a era moderna como casas, escolas, universidades, hospitais, canalização ou condutas de aquecimento. Índices como a mortalidade na infância, a esperança média de vida ou a alfabetização falam pelo que foi feito nessa altura e pelo que nunca havia sido feito anteriormente, particularmente pelos admirados ocidentais. A Roménia deixou de ser um país de camponeses incultos para se tornar num país de escritores e cientistas.

 

A independência romena não foi um presente dado pelos russos? Talvez não, Sr. Târnoveanu. O que os russos deram aos romenos foi muito mais do que independência. Por que razão Târnoveanu, ou qualquer um dos conterrâneos que representa, não é capaz de reconhecer qualquer uma destas virtudes? Por que é que, pelo contrário, prefere deixar frases como aquela a propósito dos soviéticos: “Foi uma pilhagem em larga escala, maior ainda que as pilhagens turcas e mongóis juntas”?

 

Já sabemos que, na opinião dos romenos, no tempo dos nazis ou de outros que os precederam não aconteceram grandes “pilhagens”. E hoje em dia, como é? Sim, porque o comunismo já abandonou a Roménia há uns bons trinta anos. Não sabem? Deixem-me que vos diga, então: a Roménia não tem nada de seu, nem empresas, nem recursos, nem serviços; os seus vastíssimos recursos fósseis são drenados para as grandes potências capitalistas mundiais que deixam ficar pequenas migalhas à população romena; o povo vive miseravelmente mas agora pode dizer, com orgulho e propriedade, que tem ricos e que vive em democracia e liberdade. Acresce ainda que encontrei na Roménia as mais obscuras igrejas ortodoxas de toda a Europa, igrejas mal iluminadas, repletas de fieis divididos por género, com um culto perfeitamente retrógrado, com as mulheres tapadas da cabeça até aos pés de onde apenas um singular olhar inquisidor sobre os turistas, desobedientes ao seu código ético, conseguia escapar.

 

Ao mesmo tempo, atualmente a Roménia empenha-se com todas as suas forças para que a acolham na família da União Europeia. A adesão à NATO foi instantânea, mas a União Europeia é mais exigente. Por parte da Roménia, dado o seu quadro histórico, seria de esperar alguma cautela e até aversão à dominação estrangeira, mas tal não se verifica. Pertencer ao clube dos países ricos é uma ilusão muito apetecível. Bem fariam se olhassem com olhos de ver para o exemplo português.

 

Podia ainda falar de Ceausescu e das marcadas diferenças e divergências entre o regime comunista romeno e a União Soviética, que também concorrem para o desmascarar deste discurso parcial e desequilibrado pintado a uma só cor. Podia, mas o texto já se prolongou para além da conta.

 

Termino reconhecendo o quão fácil é, portanto, entender a razão de ser do pensamento único romeno. Como se costuma dizer, o coração quer o que o coração quer. E o que o coração quer é igreja, poucas obrigações de estudar ou trabalhar, pouco trabalho, dinheiro fácil, sonho americano, poder ser rico, ou melhor, poder ter mais dinheiro que o vizinho ao lado. E é por isso que os russos são o demónio. É por isso que o comunismo foi horrível, ao contrário de qualquer outro poder incluindo o nazismo. Ernest Oberländer Târnoveanu é uma personalidade simbólica, porque é mais do que o diretor do Museu Nacional de História da Roménia: é uma espécie de clérigo deste pensamento dominante. Ave ocidente. Ave livre mercado. Ave capitalismo.

Brexit: esqueçam o fish and chips

por Amato, em 21.06.19

Em julho 2016, já lá vão três anos, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, renunciou ao seu cargo quando o povo que representava decidiu, em referendo, pela saída do Reino Unido da União Europeia. Do alto da sua sapiência, a velha “democracia” britânica, a mesma que sustenta uma câmara de quase oito centenas de lordes que mais não fazem do que mandar um bitaite aqui e ali, decidiu — David Cameron tinha formado governo há pouco tempo, afinal — nomear o nome que se seguia na hierarquia do Partido Conservador, no caso, uma senhora a fazer lembrar a ignóbil Margaret Thatcher, chamada de Theresa May.

 

May ocupou o seu tempo enquanto primeira-ministra do Reino Unido a negociar um acordo para a saída do seu país da União Europeia procurando, deste modo, cumprir a vontade do povo que representava. Com efeito, podemos afirmar com propriedade que em tudo o resto as ilhas britânicas congelaram: durante três longos anos — e a farsa parece que ainda está para durar — a política daquele país reduziu-se ao brexit. De forma um tanto ou quanto surpreendente, volvidos três anos sobre o referendo, todos os acordos que May conseguiu estabelecer com os seus interlocutores europeus foram sucessivamente rejeitados pelo parlamento britânico que, inclusivamente, rejeitou também a possibilidade de saída do país sem acordo.

 

Não restou, portanto, outra alternativa ao pálido deja vu de Thatcher que não o de apresentar a sua demissão, algo que viria a acontecer em maio passado. Sem vislumbres de querer defender a senhora, a verdade é que por estas horas, Theresa May deve andar a perguntar-se porque cargas de água se meteu nestes trabalhos, porque razão deixou de fazer as suas coisas e levar os seus netinhos à escola, porquanto a sensação que efervesce é que, fizesse o que fizesse, conseguisse o acordo que conseguisse, o resultado final seria sempre o mesmo e o parlamento far-lhe-ia a cama bem feita como, aliás, fez. Foram três anos bastante inúteis, inexoravelmente perdidos, para o Reino Unido.

 

Chegados a este ponto, há uma conclusão que emerge como óbvia e que resulta quer de todo o processo dirigido por May quer dos recentes resultados das eleições europeias que concederam uma incontestável vitória ao partido do brexit formado especialmente para a ocasião: o Reino Unido necessita de uma clarificação política. Não se trata apenas de nomear o próximo na lista de sucessão ao cargo: trata-se de remodelar o parlamento de acordo com a vontade popular e isso só poderá ser feito antecipando eleições e dando voz ao povo britânico.

 

Todavia, a velha “democracia” britânica, seguramente aconselhada de forma superior pela sua câmara de quase oitocentos lordes, prepara-se para ignorar o óbvio e dar lugar ao próximo. Que lição — particularmente dedicada a todos aqueles apaixonados pelo exemplo inglês — que esta democracia nos dá!

 

O próximo a aguardar impacientemente a sua vez parece ser um tal de Boris Johnson, uma imitação infeliz de Donald Trump, que será o que tem sido ao longo da sua oportunista carreira política: uma voz pouco sensata, pouco culta e pouco inteligente no panorama britânico e europeu. Mas, em boa verdade, o nome do próximo em linha de sucessão não é muito relevante aqui para o caso: o impasse parlamentar permanece perene com a mudança de nomes e não parece ter uma resolução à vista caso se mantenha a correlação de forças que existe atualmente.

 

Talvez seja esta a ideia. Talvez a estratégia britânica passe mesmo por uma procrastinação indeterminada da tomada de decisão com respeito à sua saída da União Europeia. Afinal, manter um pé dentro e um pé fora da Europa sempre foi a especialidade britânica. Esqueçam lá o fish and chips.

Como é que o Brexit se tornou num enxovalho à democracia?

por Amato, em 16.03.19

Como é que foi?

 

Quer dizer, fez-se um referendo, fez-se campanha pelo sim, fez-se campanha pelo não, o povo foi chamado a dizer de sua justiça, a maioria disse sim e, passados três anos da consulta popular, nada aconteceu.

 

Bem entendido, o primeiro-ministro demitiu-se, foi substituído, a substituta andou durante a maior parte destes três anos a negociar não se sabe bem o quê — tenho ideia que a ideia será fazer o Brexit mantendo tudo na mesma no que à alta finança diz respeito — e agora anda a tentar aprovar esse deal no seu parlamento onde tem sido objeto de debate por brexiters e remainers que não se entendem — claro que não se entendem! Como é que se haviam de entender? — a não ser em rejeitar continuamente qualquer acordo e qualquer alternativa.

 

Como é que o Brexit se tornou num enxovalho, neste lamentável enxovalho, à democracia?

 

Se o povo britânico decidiu sair da União Europeia, coisa à qual nunca, verdadeiramente, pertenceu, então que saia. A saída devia ser inevitável e inexorável com ou sem acordo entre as partes. Depois, então, negociaria tudo aquilo que entende negociar com a União Europeia assim como o faz com qualquer outro país. Mas não era exatamente isso que era pretendido, autonomia e soberania? Claro que há consequência económicas envolvidas! É natural que as haja: afinal, cada opção política que se toma tem um preço. Podemos não o ver nitidamente — como nós, portugueses, não o vimos quando aderimos à União —, mas ele existe — começamos a vê-lo agora, claramente. Ao invés, a classe política do Reino Unido prefere alimentar este folhetim parlamentar degradante ao mesmo tempo que não dá cumprimento ao desejo expresso do seu povo.

 

Como é que o Brexit se tornou num enxovalho à democracia?

 

É fácil.

 

Primeiro, porque a classe política britânica utilizou o Brexit, e lançou-o no seio das suas populações, como arma populista de jogatana política.

 

Segundo, porque grande parte da população viu no Brexit, muitos de forma verdadeiramente inocente, a solução das suas frustrações sociais legítimas jamais atendidas pelas políticas centrais britânicas.

 

Terceiro, porque o Brexit veio a corporizar um sentimento de inveja, xenófobo e racista latente na sociedade britânica, fruto de muitas transformações que ao longo de décadas mudaram a sua face.

 

Quarto, porque um segmento da sociedade britânica considera absolutamente intolerante esta crescente veia autoritária, prepotente, arrogante e opressora da União Europeia, desta União Europeia germânica que com um banal agitar de dedos faz dançar o patético fantoche francês sobre o seu colo.

 

Quinto, porque a classe política, aquela que no primeiro ponto desencadeou todo este processo, está mais preocupada em assegurar os interesses da sua gorda burguesia do que em cumprir a vontade do seu povo.

 

Conheço várias personalidades — vocês também devem conhecer, estou certo — que gostam de fugir às questões e ao debate apontando a agulha para o chamado “exemplo britânico” no que a uma democracia “madura” diz respeito. Pessoalmente, sempre abominei este provincianismo de se pensar que os outros são melhores do que nós e que é no estrangeiro que se encontra a virtude. A minha resposta é sempre a mesma: viaja! Vai ver o mundo! Porque é mesmo isto: quando não viajamos acreditamo-nos no que nos dizem.

 

No século XV, por exemplo, antes da epopeia dos descobrimentos, dizia-se que o mar abaixo de Marrocos não era navegável, que era repleto de monstros marinhos que engoliam embarcações de uma só vez e que terminava num precipício sem fim. E nós acreditávamos. Foi preciso ir até lá para se ver a verdade. Voltando à questão, nunca tomei lições do que quer que fosse, muito menos de democracia, de um país monárquico com uma câmara de mais de setecentos lordes sustentados a peso de ouro pelo erário público. Sempre me causou impressão. Mas para os outros, aqueles que andam sempre com o “exemplo britânico”  na ponta da língua, a situação atual deve causar algum embaraço.

Sem esquerda verdadeira, resta a direita, PS incluído

por Amato, em 13.04.17

Catarina Martins bem pede a António Costa, “Vá lá, Sr. Primeiro-ministro”, só para ouvir “Não pode ser, Sra. deputada”. Jerónimo de Sousa confessa-se muito desiludido com as propostas do governo, “Não se pode dar um passo maior que a perna”, diz Costa, e Jerónimo quase que chora. E toda esta charada prossegue a cada sessão parlamentar.

 

Bloco de Esquerda e, sobretudo, Partido Comunista Português mostram-se disfarçadamente envergonhados, como dois partidos emasculados ideologicamente. É a venda do Novo Banco, é o processo de recapitalização da CGD, é o sucumbir na questão das SWAPS com o Banco Santander, é a obsessão com os défices e as metas artificiais europeias — únicos objetivos governativos —, é a ausência de nenhuma transformação efetiva na sociedade, é o contribuir para uma solução governativa indubitavelmente preponente do caminho da direita para as sociedades e para os povos.

 

António Costa ainda se dá ao descaramento de vir dizer que quer repetir os acordos na próxima legislatura, ainda que venha a conseguir maioria absoluta. Pois como não quererá ele isso?! Tivesse tido Costa maioria absoluta e PCP e Bloco nunca votariam a favor destes orçamentos de estado e destas soluções para a banca e para a economia. E esta realidade apenas concorre para o enxovalho a que estes partidos estão visivelmente votados e ao qual o eleitorado — já avisei por mais que uma vez — não é alheio.

 

É preciso dizê-lo e nunca é demais repeti-lo. Este governo é idêntico ao governo anterior: tem um estilo diferente, mas a sua proposta para o país é a mesma, o seu modelo é o mesmo, a sua ideologia é a mesma.

 

Agora, PCP e Bloco de Esquerda preparam-se para se agarrar à questão europeia como desculpa esfarrapada para o que não foi feito. O Bloco de Esquerda, particularmente, até já inverteu o que vinha dizendo sobre a Europa, propondo já a saída do Euro, como se isso se tivesse tornado numa evidência agora e já não o fosse antes. A isto se chama um partido invertebrado ideologicamente, alterando de rumo de acordo com os ventos como se de um barco à vela se tratasse.

 

O futuro avizinha-se tenebroso. Sem esquerda verdadeira, resta a direita, PS incluído, para prosseguir a destruição ou, quanto muito, o adiamento do país que poderíamos ser.

A direita precisa de ser derrotada no seu próprio jogo

por Amato, em 12.04.17

O economista Octávio Teixeira escreveu um artigo no passado dia 6 de abril que considero precioso. Nele, são desmontados, um por um, todos os argumentos que, como bichos papão, a direita burguesa atira para os olhos do povo quando se fala em Portugal sair da moeda única.

 

Acho que faz muita falta derrotar a direita no seu próprio jogo. A esquerda perde-se muitas vezes numa dicotomia ideológica com a direita que sempre considerei não ter qualquer razão de ser. Aliás, pergunte-se a um português médio e ele vos dirá que a direita é mais confiável com as “contas” e com as “finanças” e que a esquerda preocupa-se mais com as “desigualdades” e com os “aspetos sociais”. Esta ideia geral é um disparate e quem a alimenta ou é um ignorante ou quer fazer dos outros burros. Como duas faces da mesma moeda, a parte social e a parte económica de uma sociedade são indissociáveis. Alterações numa implicam alterações na outra, nem se pode governar um país a pensar apenas numa destas facetas.

 

O artigo original encontra-se aqui, hospedado no jornal online AbrilAbril, um espaço alternativo que merece um lugar nos favoritos do browser da internet. Realço, todavia, a parte que considero importante ser veiculada.

 

  1. «A moeda desvalorizava-se brutalmente, a inflação aumentava bastante, ocorreria uma forte desvalorização dos salários.»

 

A verdade é que a moeda se desvalorizará tanto quanto o exige a necessária reposição dos equilíbrios macro na economia portuguesa. Nem mais nem menos «brutal» do que isso, pois será dirigida pelo Banco de Portugal e não deixada à livre flutuação nos mercados financeiros. E é falsa a sugestão implícita dos Euro-terroristas da igualdade entre taxa de desvalorização, taxa de inflação e redução dos salários.

 

Quanto à inflação importada, será muito menor que a taxa de desvalorização (cerca de um quarto) pois o peso das importações no consumo privado é cerca de 26%. E o choque será apenas inicial, rapidamente regressando ao nível da inflação «estrutural» (veja-se o exemplo recente da Islândia). Isto no máximo, porque existem estudos mostrando que a evolução da taxa de câmbio se transmite de forma parcial e diferida no tempo e nem sempre na sua totalidade.

 

No que respeita aos salários, nada obriga a que tenham de ser reduzidos em termos reais por efeito do aumento da inflação e muito menos ao nível desta. É possível indexar os salários e as pensões de reforma à taxa de inflação, de forma a manter intacto o seu poder de compra e, simultaneamente, reforçar a legislação laboral e o nível de emprego que tenderão ao aumento dos salários.

 

  1. «Ocorreria um forte agravamento das dívidas do Estado, dos bancos e das empresas, porque temos a nossa dívida expressa em euros.»

 

Pelo contrário, em termos reais as dívidas ao exterior seriam reduzidas por efeito da desvalorização da nova moeda. Desde logo porque a desvalorização permite tornar sustentável a trajectória da dívida, com o crescimento temporário da inflação e com o retorno do crescimento económico.

 

Mas também porque a maioria dessas dívidas foi emitida segundo a jurisdição nacional, pelo que pode e deve ser redenominada em escudos. Depois porque existe legislação da própria UE (Regulamento (CE) N.º 1103/97 do Conselho de 17 de Junho de 1997), relativa precisamente à passagem das dívidas denominadas em moedas nacionais para e denominação em euros, assumindo expressamente «que o reconhecimento da legislação monetária dos Estados é um princípio universalmente aceite», «que a confirmação expressa do princípio da estabilidade implicará o reconhecimento da estabilidade dos contratos e outros instrumentos jurídicos nas ordens jurídicas de países terceiros», e que «o termo "contrato", utilizado na definição do conceito de instrumentos jurídicos, deve incluir todos os tipos de contratos, independentemente do modo por que foram celebrados».

 

Acresce que, no que respeita às contas com o exterior, quer os bancos quer as grandes empresas têm débitos e créditos, havendo um efeito de compensação, ao menos parcial. Ou seja, as dívidas ao exterior não redenomináveis em escudos atingirão valores substancialmente menores que os nominais, sendo geriveis.

 

  1. «Verificar-se-ia uma fuga massiva de capitais, lançando o país na bancarrota.»

 

O risco existe, devendo-se sobretudo à desvalorização, que é necessária, e não à troca da moeda. Trata-se de uma questão tão velha quanto a respectiva solução: um rigoroso controlo dos movimentos de capitais. O Estado e o Banco de Portugal terão ao seu dispor os instrumentos necessários para o efeito. Aliás, temos um exemplo concreto e recente da sua aplicação: em Chipre, em 2013, o livre movimento de capitais foi bloqueado, e de forma eficaz. Este controlo foi pedido pela zona Euro, em nome dos «sagrados» interesses da banca. Foram os próprios «patrões» da moeda única que mostraram a possibilidade técnica do controlo de capitais e a aceitabilidade de o fazer dentro da UE.

 

Tenderá a implicar uma reforma do sistema financeiro interno e um aumento do controlo directo e indirecto do Estado sobre o sistema, o que também será positivo para combater a economia de casino.

 

  1. «Ficaríamos sujeitos a uma forte especulação cambial.»

 

Quanto mais a taxa de câmbio de uma moeda refectir os fundamentos económicos do país, menor é o risco da especulação dos mercados financeiros. E a própria integração no mecanismo de taxas de câmbio (que considero desejável) é um factor de redução do risco e dos custos de eventuais especulações. Para além do mais, olhe-se para a própria UE: há países que têm moeda própria porque apesar de cumprirem os critérios nominais necessários para integrar o Euro não querem fazê-lo. Nomeadamente, para além do RU de saída, a Suécia, a Dinamarca e a Polónia. Para além destes países terem resistido à crise melhor que os da moeda única, não consta que tenham estado sujeitos a grandes especulações cambiais.

 

  1. «O financiamento externo despareceria, o que paralisaria a economia.»

 

Há cinco anos consecutivos o País regista uma capacidade líquida de financiamento, o que significa que não necessita de financiamento externo.

 

Isto resultou quer do aumento da balança de serviços quer da redução do défice da balança de mercadorias, sendo certo que em parte esta decorreu do regime de austeridade. Mas com a desvalorização cambial é expectável que o saldo da balança de bens e serviços aumente ainda mais (que não pela via da redução do consumo), o que conduzirá a um maior e sustentado saldo positivo da balança corrente e ao aumento da capacidade líquida de financiamento da economia portuguesa.

 

Donde resulta que o problema do financiamento externo se coloca fundamentalmente em relação à dívida externa actualmente existente, a amortizar ao longo de anos, e que deverá ser reduzida no âmbito de uma reestruturação da dívida. Mas a perspectiva de aumento da solvabilidade do País, e consequente capacidade de reembolso, por efeito do forte crescimento, tende a reduzir o risco de dificuldades no financiamento externo, antes pelo contrário.

 

 

Um dia mais que passa

por Amato, em 12.07.16

Hoje viveu-se mais um episódio da novela de terceira categoria que roda em torno das sanções da União Europeia aos estados soberanos da Península Ibérica. O fim da novela parece estar longe, cada vez mais longe, à medida que esta se desenrola. O propósito da novela é eternizar-se para se eternizar, assim, deste modo, a ingerência declarada do eixo franco-alemão sobre a política e a gestão de todos e de cada um dos estados membros da União Europeia.

 

Desmonta-se, portanto, a charada. Cai a máscara a esta União de estados canalhas que, de um lado e de outro, se escudam por detrás de tratados, escondem dos seus povos a verdadeira batalha que está a ser travada, não em campo aberto, não segundo o ponto de vista dos vértices das lâminas desembainhadas ou do cheiro a pólvora explodida, mas dentro de gabinetes de imprensa sob declarações encharcadas em hipocrisia.

 

Nada disto é novo. Este processo de submissão dos povos pela dívida é uma réplica, talvez mais sofisticada, do que se passou na América latina no século XIX na sequência dos respetivos processos independentistas. Então, como agora, os países tomados na sua autodeterminação e na sua soberania pelos credores só puderam quebrar as suas grilhetas confrontando diretamente, frente a frente, olhos nos olhos, os seus credores, munidos de inabalável convicção. Aconselho a leitura deste artigo de Eric Toussaint para se saber o que não vem, nem nos livros de História, nem nos meios de comunicação do capitalismo ocidental.

 

Cada dia que passa em que Portugal permanece na União Europeia e no Euro é um dia mais que se perde para o país tomar nas suas mãos o seu próprio futuro, é um dia mais que passa de submissão aos poderes que nos espezinham.

Três factos impressionantes

por Amato, em 01.07.16
  1. O descaramento de Maria Luís Albuquerque. Não é um traço inédito da deputada e ex-ministra, já que é partilhado com uma porção considerável de outros seus pares, mas não deixa de ser impressionante. A falta de comedimento de Maria Luís Albuquerque quando aborda certos assuntos e opina sobre questões governativas faz-nos pensar duas vezes se aquela personagem terá sido mesmo a ministra das finanças do último governo. Ouvir Maria Luís Albuquerque falar no Parlamento e interpelar o atual governo faz-me duvidar da minha memória. Por momentos, penso que atingi um estado de senilidade.

 

  1. As inadmissíveis pressões europeias sobre Portugal, corporizadas naquela figura sinistra que dá pelo nome de Schäuble e parece que também é ministro das finanças da Alemanha. Schäuble parece retirado diretamente de há setenta anos, quando a Alemanha se autodenominava o terceiro reich nazi, e, com o estilo rude e mal humorado característico alemão, cospe barbaridades desconexas na cara dos mais altos representantes da nação portuguesa. A razão oficial parece ser umas décimas percentuais do nosso défice. Impressionante! E ainda há quem não encontre razões para mandarmos a União Europeia e o Euro dar uma curva! Não é preciso ir mais longe, basta ficar por aqui.

 

  1. As incríveis decisões do anterior e “seríssimo” Presidente da República Cavaco Silva. Alguém devia dedicar um tempinho para fazer uma estatística rigorosa sobre a proporção de individualidades com problemas na justiça que foram condecoradas por Cavaco Silva. O último caso foi o do Diretor do Museu da Presidência, Diogo Gaspar. Há crimes para todos os gostos, milhões de euros em causa. Adicionalmente, há ainda o caso do Mercedes de cerca de duzentos mil euros que Cavaco comprou com o dinheiro de todos nós e que andou a ser oferecido por aí sem ninguém o querer. Sabe-se que o Presidente Marcelo e o ex-Presidente Sampaio rejeitaram a oferta por considerarem a viatura demasiadamente luxuosa, que deve ser uma outra forma de se dizer insultuosa para o povo. Acabou o veículo nas unhas do motorista do Primeiro-ministro para usufruto deste último. É deste modo que a Presidência da República portuguesa consegue ser mais cara que a monarquia espanhola. Impressionante!

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