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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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A questão da confiança

por Amato, em 04.07.15

Antonio Fernandez - Restauração de Portugal e Morte de Miguel Vasconcelos

Ouvimos esta frase dita de forma desgarrada: “conquistámos a confiança dos mercados”. Ouvimos e aceitamo-la como se de uma conclusão óbvia se tratasse. Ouvimo-la sem que na nossa mente burile qualquer princípio de interrogação, sem que germine o que quer que seja que não seja uma aceitação dogmática que surge não se percebe bem de onde.

 

Há mais frases como esta, “conquistámos a confiança dos mercados”. São frases que aparecem e se repetem à exaustão, qual sound bite, e de tanto repetidas conquistam uma credibilidade que é de plástico, que é não é orgânica, que, em verdade, não é nada. Nada.

 

A montante da questão é importante perceber o que é isso de “mercados”. É importante que se conheçam os rostos que agem confortavelmente a coberto da palavra. A existência sem rosto torna-se mais fácil. É uma existência que transcende o mundo dos homens, daqueles que todos os dias saem de casa à procura de trabalho e de sustento para si e para os seus. E, por isso, parece que não é de pessoas como nós, iguais a nós, de que falamos. Parece que estamos a falar de semideuses. Muitos desses vivem mais perto de nós do que pensamos. Estão mesmo aqui ao lado. Todavia, escondendo-se atrás da palavra “mercados”, que mais não é que uma palavra que representa o corporativismo burguês contemporâneo, parece que podem e que mandam mais do que realmente podem e mandam. Parece que são mais importantes do que o resto, mais importantes do que o sol, o vento e a chuva. Parece que são mais importantes do que os homens que todos os dias se levantam à procura de trabalho e de sustento. E, então, resulta natural a existência de governos totalmente colaboracionistas com os interesses e o proveito destes tais de “mercados”.

 

A jusante da questão vem o conceito de “confiança”. De que confiança estamos a falar? E o que fizemos nós para conquistar tal confiança? Ninguém pergunta? Ninguém questiona a moralidade da coisa? Que confiança é esta de “Só te empresto dinheiro se cortares o teu braço esquerdo”? O que é isto? Destruímos a nossa economia de uma forma dramática, sem precedentes, numa política de terra queimada declarada. Remetemos uma boa parte da nossa mão de obra a um destino de emigração. Desbaratámos de forma irremediável cada instrumento de influenciação económica de que dispúnhamos. Desequilibrámos descaradamente o mercado laboral e a balança distributiva de rendimentos no seio da nossa economia de tal forma que diminuímos dramaticamente as condições de vida de um português médio e condenámos assustadoramente as retribuições para o estado de qualquer eventual laivo de crescimento económico. Neste processo multiplicou-se a dívida, prolongando-se um estatuto a todos os níveis de estado-escravo ou estado-servo ao nosso país. A isto se chama ganhar a confiança dos mercados. A isto eu chamo de mediocridade moral, baixeza política.

 

A questão da confiança é crucial. É crucial para percebermos quantos como Miguel de Vasconcelos temos no meio de nós, quantos é necessário não arremessar da janela do paço real onde nos desgovernam a mando de alemães e afins, mas arremessar para uma cela escura ou, melhor, para fora das nossas fronteiras, com o correspondente pontapé no traseiro, para irem morrer longe, bem longe, das nossas praias.

Um estudo sobre o sound bite

por Amato, em 13.01.15

“Give me a dozen healthy infants, well-formed, and my own specified world to bring them up in and I'll guarantee to take any one at random and train him to become any type of specialist I might select – doctor, lawyer, artist, merchant-chief and, yes, even beggar-man and thief, regardless of his talents, penchants, tendencies, abilities, vocations, and race of his ancestors. I am going beyond my facts and I admit it, but so have the advocates of the contrary and they have been doing it for many thousands of years.”

— John Broadus Watson, in Behaviorism

 

Quando em 1913 John Watson publicou o manifesto comportamentalista, ou behaviorista, com o título “Psychology as the Behaviorist Views It”, estabeleceu as bases para muito mais do que um ramo teórico de uma ciência. E as consequências eram mais do que esperadas e conscientes, acredito.

 

Com efeito, rapidamente as aplicações revolucionárias e ambiciosas que o Comportamentalismo prometia foram tomadas pelo estado natal de Watson com tremendo interesse, de tal forma que rapidamente o ramo substituiu a ciência-mãe em termos de projeção. O que era a Psicologia se não o Comportamentalismo?

 

As aplicações do Comportamentalismo inserem-se num grande saco chamado de propaganda. Propaganda através do condicionamento: frases subliminares, criação orientada de ficção, criação de falsos modelos sociais, cinema, banda desenhada, heróis, séries policiais, anúncios, ... Tudo isto podemos observar todos os dias: basta ligar a televisão, ler o jornal, ver os cartazes na autoestrada ou ouvir um anúncio entre músicas da rádio. E a mensagem passa, ainda que rejeitada inicialmente. Permanece nalguma camada do subconsciente a marinar e a condicionar de alguma forma as nossas opções e as nossas opiniões quando realmente precisarmos de as tomar nas nossas mãos. Nesse momento, as opções que tomarmos já não serão apenas nossas, mas antes um produto de todo este processo.

 

O sound bite é isto mesmo. É algo que inunda os meios de comunicação e abafa tudo o resto. Obriga-nos a concentrar no que os autores pretendem e não necessariamente no que realmente é o mais importante. Como um som, uma mensagem, que fica ali, a martelar continuamente na mente. Faz com que um telemóvel novo seja mais relevante do que um livro, ou com que um jogo de futebol seja mais importante do que um hospital sem médicos, enfermeiros, técnicos e macas.

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