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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Uma viagem da Venezuela até à Arábia Saudita

por Amato, em 24.09.18

A última semana brindou-nos com uma reforçada ofensiva mediática contra o governo venezuelano ou o “regime de maduro” nas palavras dos media portugueses. É engraçado que não há um jornal, não há uma rádio, não há uma televisão neste país que diga algo de diferente sobre o tema, que aponte qualquer defeito àquela oposição sustentada pelos states e pela CIA. Pelo contrário, todos afinam pelo mesmíssimo diapasão.

 

O que pensar disto? O que pensar que não que aquele Maduro é mesmo um louco que está a desgraçar aquele país? Não interessa que o Papa, insuspeito de ser comunista, por definição do seu próprio cargo, tenha apontado o dedo por mais que uma vez à oposição classificando-a como a grande promotora da instabilidade nas ruas da Venezuela e acusando-a de não querer a paz. Não interessa que José María Aznar, antigo primeiro-ministro espanhol conservador — também por isso insuspeito de ser comunista ou qualquer coisa afim — tenha, enquanto mediador do conflito, acusado a oposição de não querer chegar a qualquer acordo para colocar um fim à violência nas ruas. Nada disto interessa. Os media, como cães de caça bem mandados, têm um objetivo e perseguem-no até ao fim.

 

É engraçado que, em Portugal, apesar da grave crise que nos afetou em 2011, chegámos mesmo a um ponto em que, nas palavras dos nossos governantes, não havia dinheiro para pagar os serviços públicos até ao final desse ano, nunca os supermercados deixaram de ter produtos e de ter as suas prateleiras repletas. Isto do retalho é uma coisa engraçada, com efeito. Não é por haver menos dinheiro que os produtos deixam de ser comercializados. Podem é vender-se mais lentamente. No entanto, na Venezuela os supermercados estão vazios. Porque será? Mas não se preocupem os burgueses médios de ascendência portuguesa que por lá andam a esconder os seus produtos em armazéns. Não se preocupem. Podem continuar a especular os preços e a causar o caos nesse país chamado de Venezuela porque o nosso governo, o mesmo que pouco se importa que em Portugal as grávidas sejam despedidas, que os trabalhadores sejam constantemente humilhados pelos patrões como no caso daquela trabalhadora daquela corticeira cheia de prémios de excelência, esse mesmo governo vai em vosso auxílio e não deixará que o governo venezuelano vos faça mal.

 

É que isto da Venezuela é uma situação complexa. Como é que um país que, do dia para a noite, se vê privado de metade das suas receitas, por uma inexplicável descida dos preços do petróleo — ah, mas a gasolina continua caríssima! —, pode sobreviver? Tivesse a Venezuela o proveito da fama que tem e tomado conta dos meios de produção e esta brincadeira teria sido diferente...

 

Mas essa inexplicável descida dos preços do petróleo... deixa-me a pensar... e esta semana a Alemanha juntou-se aos Estados Unidos como fornecedora de armamento à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos. Hum... Será pagamento pelos serviços prestados para baixar os preços do precioso combustível fóssil?

 

Será?

 

Há poucos dias, um grupo de terroristas alegadamente financiado pela Arábia Saudita, Emirados e Israel atacou o Irão. Pois é... O Irão é que é aquele país mau, terrorista, não é? Os Estados Unidos são os democratas, certo? Os alemães são os íntegros? Na Arábia Saudita as mulheres não usam burca? Ai usam? Ah! E a Venezuela, por mais eleições democráticas que promova, é uma ditadura, de acordo? Que rica lógica que para aqui vai! Que rica lógica que esta comunicação social putrefacta nos vende! Lavagem cerebral da melhor!

 

 

A taxa Robles como pretexto para falar de impostos

por Amato, em 12.09.18

A discussão em torno da taxa Robles, a taxa que o Bloco de Esquerda pretende implementar sobre a atividade de especulação imobiliária, levou-me a refletir sobre o regime fiscal mais geral que nos é imposto, enquanto sociedade que somos.

 

Devo dizer que, quanto mais reflito sobre o assunto, mais reforço a minha aversão natural a esta tendência da sociedade, enquanto um todo, mas que se realça particularmente na atividade de alguma esquerda política, que consiste em procurar corrigir os desequilíbrios endémicos de um regime, de um sistema — chamemos-lhe capitalismo —, com a complexificação do sistema fiscal, entenda-se, com a adição de múltiplas taxas e impostos.

 

Sou contra isso e sou contra impostos progressivos e escalões. Que esta minha posição fique clara desde já.

 

E quem tem a displicência de considerar tudo isto sinónimo de esquerda, pois deve rever bem os seus conceitos, porque isto nada tem que ver com esquerda. Não se confunda a ferramenta com o objetivo.

 

O regime fiscal de um país deve ser claro e deve ser muito simples, por princípio. Isto quer dizer que não deve ser muito mais que um flat tax, ou seja, um imposto percentual único sobre os rendimentos auferidos. A proporcionalidade do imposto e, portanto, a sua justiça ficam garantidas à partida, por definição.

 

É claro que 25% de 500 é muito mais significativo do que 25% de 100000, no que àqueles que auferem as respetivas quantias diz respeito, mas este único argumento dos defensores de escalões na taxação dos rendimentos só tem sustentação porque existe uma outra injustiça a montante: vivemos numa sociedade onde existem assimetrias na distribuição dos rendimentos que deveriam ser consideradas inaceitáveis, mas, não obstante, são consideradas naturais. O problema reside justamente aqui.

 

O que eu não aceito é que se procure minorar um problema de base criando um outro problema. Porque os escalões e as taxas são injustos. Porque é que alguém que em Portugal ganha 7000 euros paga 14,5% de imposto e alguém que ganha 8000 euros paga 23%? O primeiro fica com 5985 euros e o segundo com 6160 euros, ou seja, apenas mais 175 euros, quando antes de impostos tinha feito mais de 1000 euros! Isto é justo? Isto é decente? É evidente que não assim como é evidente que o que seria mais justo era, se entendermos que efetivamente 7000 e 8000 euros são as remunerações adequadas e legítimas perante a exigência das funções desempenhadas, que ambas pagassem exatamente o mesmo imposto percentual para que, pagos os impostos, se mantivesse a justeza da diferenciação entre vencimentos.

 

A complexificação do sistema fiscal é indesejável, não apenas porque promove a evasão fiscal nos rendimentos fronteira dos escalões, mas também porque se constitui como um inimigo natural dos mais frágeis no mercado laboral. Estes, face à sua relação de dependência patronal, não podem fugir à máquina fiscal, em contraponto com os mais fortes, com mais rendimentos, que detêm escritórios de advogados a trabalhar ativamente, quer na ativação de alçapões à lei, quer na sua feitura, numa relação de total promiscuidade com os governos.

 

A lei fiscal deve ser simples, para ser mais transparente. Para ser mais justa. As injustiças devem ser combatidas à partida, na fonte. O problema está na forma como a distribuição da riqueza é feita nesta sociedade capitalista e como essa mesma riqueza se vai acumulando cada vez mais nos bolsos de alguns poucos. Escalões e taxas, como esta taxa Robles é exemplo, servem para mascarar a realidade, são apenas fogos de vista para o povo se entreter, mas que, a prazo, acabam por se revelar perniciosos precisamente para esse mesmo povo que prometem, à partida, proteger.

Este governo é um logro

por Amato, em 02.09.18

Este governo é um logro. Aceitem o facto. Dormirão melhor, logo à noite, se o fizerem. Nada é sincero. Nada é franco. Nada é honesto.

 

A última novidade já nem foi capaz de produzir em mim vestígio de indignação. Pelo contrário, serviu de pretexto para uma boa barriga de risadas. No final da semana, anuncia-se entusiasticamente que se pretende fazer retornar os nossos emigrantes através de uma redução ao nível do IRS. A medida, patética à partida, porque apenas um débil mental pode imaginar a existência de um emigrante que seja que volte ao nosso país por causa de um alívio tópico no imposto, nem foi capaz de se sustentar por mais que um dia! No dia seguinte, com efeito, os jornais gritaram em uníssono que tal medida era pior do que o regime fiscal para estrangeiros que já existe.

 

O que dizer disto?

 

Relembremos as cativações orçamentais que representam evidentes engodos aos orçamentos de estado, e suas intenções, apresentados e negociados no parlamento.

 

Relembremos as promessas sobre as carreiras dos professores, feitas apenas para ludibriar por mais um ano os sindicatos e os parceiros parlamentares e não para serem cumpridas.

 

Relembremos a proposta das reformas antecipadas, um autêntico escárnio sobre quem trabalha e sobre a realidade do mercado de trabalho contemporâneo e que não afetará, seguramente, mais que uma mão cheia de cidadãos.

 

Relembremos o que dizia Mário Centeno há quatro anos e o que diz agora, enquanto presidente do eurogrupo.

 

É isto. Nada é sincero. Nada é franco. Nada é honesto.

 

Olhemos em nosso redor para o que é concreto e para o que é palpável: carga fiscal e mercado laboral idênticos aos tempos da troika. O povo que trabalha concordará se tiver os olhos abertos. Em quatro anos, vê o seu salário igual, inalterado, congelado. Em quatro anos, vê os preços dos produtos, da alimentação, da gasolina, da renda de casa, muitíssimo mais caros. O resto é propaganda.

 

Este governo é um logro.

A política e a batata frita

por Amato, em 26.08.18

Há três tipos de pessoas, no que às batatas fritas diz estrito respeito.

 

Há aquelas que gostam de batatas fritas e só comem batatas fritas, pois, mesmo que eventualmente não morram de amores por elas, consideram que não há melhor forma de confecionar a batata do que fritando e nenhum outro alimento fornecerá níveis de satisfação e saciedade semelhantes. Assim, passam uma vida inteira a ingerir convictamente batatas, e apenas batatas, na sua variante frita.

 

Depois, há aquelas que gostam de batatas fritas e consideram os seus méritos, mas apreciam também outras formas de confeção da batata, isto é, conferem algum relevo à batata assada, a murro, à batata cozida e até mesmo ao puré de batata. Bem vistas as coisas, são pessoas que, tais como as do primeiro grupo, também só comem batatas, fazendo, todavia, questão de variar a forma como as ingerem.

 

Finalmente, consideremos as pessoas, verdadeiramente revolucionárias no que à batata frita diz respeito, que creem que a batata frita e a batata per si são extremamente redutoras no contexto do hidrato de carbono de uma alimentação saudável. Com efeito, consideram também o arroz, a massa, assim como leguminosas importantes como o feijão, a lentilha, a ervilha e o grão de bico.

 

Assim como relativamente à batata frita, também a política pode gerar semelhante divisão da população. Na minha ótica, o nosso problema assenta no facto de termos demasiados indivíduos pertencentes ao primeiro e ao segundo grupo de pessoas. Normalmente, ao primeiro grupo chamamos de “direita” e ao segundo de “esquerda”, mas isto são apenas meras designações. São pessoas que concordam com o essencial que é comer batata e comer batata a vida inteira, seja ela frita ou de outra forma qualquer, e não consideram alternativas. Perdão: na frase anterior troque “batata” por “capitalismo” e “frita” por “selvagem” ou “liberal”, que é menos agressivo. Assim, compreende-se melhor.

 

Faltam pessoas do terceiro grupo, verdadeiros revolucionários, que ousem imaginar, sonhar com outras formas, com outros modelos políticos! E que não temam fazê-lo! É fundamental fazê-lo. A estes por convenção chamamos de “radicais” ou “comunistas”. Sem estes, estamos condenados à estagnação, à autofagia e à implosão da humanidade.

Génova e Entre-os-Rios

por Amato, em 18.08.18

Olhar para a tragédia ocorrida em Génova — sim, para variar, esta é uma verdadeira tragédia — com a queda de uma ponte que fazia parte do trajeto quotidiano de largos milhares de italianos, usada por muitos outros turistas europeus e mundiais para iniciarem a sua exploração do país por terra, pela Ligúria, Toscana, Piemonte, Lombardia, tem, como consequência imediata, acordar a minha escassa memória. Lembro-me de uma outra ponte que caiu, de uma outra tragédia que se abateu, entretanto esquecida.

 

Corria o terceiro mês do primeiro ano do novo milénio do calendário gregoriano. Ao quarto dia desse mês, um dos pilares da ponte Hintze-Ribeiro, que ligava Castelo de Paiva a Penafiel, na região de Entre-os-Rios, desabou levando ao colapso de um dos tabuleiros da ponte e, por consequência, à morte de cinquenta e nove pessoas que faziam, na altura, a travessia.

 

Há sempre o perigo da injustiça, da falta de bom senso, do oportunismo, até, quando se procura esboçar paralelismos rápidos entre situações com semelhanças imediatas e evidentes mas com contextos necessariamente diferentes. Sinto-me, todavia, forçado a fazê-lo. Ainda disponho de alguma memória e, por isso mesmo, a escrita destas palavras resulta inevitável.

 

Vou começar por contar o que aconteceu em Portugal nos tempos que se seguiram à tragédia. Salto aquela parte de mediatização da dor e de histeria dos meios de informação que durou o que tinha a durar mas não merece ficar na história. O governo passou incólume pela tragédia através da oportuna demissão voluntária do então Ministro do Equipamento Social de seu nome Jorge Coelho. Isto da responsabilidade política é coisa de natureza singular e sinistra. O ministro demitiu-se, o governo passou incólume, nenhuma consequência efetiva do ponto de vista da lei foi extraída disso, ninguém, por parte do governo, pagou pelo que aconteceu. Pelo contrário, algum tempo depois, o mesmo Jorge Coelho viria a ser contratado para um alto cargo na Mota-Engil, uma das maiores empresas de... construção civil e obras públicas.

 

Não é isto verdadeiramente incrível? Um governante responsável político pela queda de uma ponte é contratado para uma posição de destaque numa empresa de construção civil e obras públicas, que por acaso é a campeã dos concursos públicos e das adjudicações diretas neste país. Imagine-se se a mesma lógica fosse aplicada aos outros setores do país? Um professor que não dá a matéria e falta às aulas promovido a diretor da escola? Um médico que, por negligência profissional, prejudica a saúde dos seus pacientes promovido a diretor de um hospital?

 

Ao mesmo tempo, aventou-se que a razão da queda da ponte, há muito tempo sinalizada pelas sucessivas inspeções, ficou a dever-se à excessiva atividade de extração de areias do rio que conduziu a uma debilitação do suporte de um dos seus pilares que cedeu com o aumento do caudal do rio originado pelas chuvas daqueles dias. Moveram-se processos contra as empresas de extração de areia. Ninguém — absolutamente ninguém! — foi condenado. O governo pagou indemnizações aos familiares das vítimas, participou em homenagens e erigiu um monumento perto do local da tragédia. Os corpos de algumas das vítimas nunca chegaram a aparecer.

 

Não sei o que se vai passar agora em Itália, não sei como vai ser a sequência dos eventos após a queda da ponte de Génova. No fim de contas, pode até ser que tudo seja muito parecido com o caso português. De momento, gostava de salientar algumas diferenças.

 

O governo italiano parece ter assumido uma atitude muito diferente para com a empresa privada que geria a Ponte Morandi imputando-lhe responsabilidades claras e exigindo consequências legais e criminais. Aqui, em Portugal, ainda hoje as coisas são distintas. As empresas privadas recolhem os dividendos da exploração das estradas e das pontes através das portagens e ainda recebem complementos estatais para garantir lucros, para além das obras das pontes serem asseguradas pelo estado. É o caso, por exemplo, das obras que se avizinham na Ponte 25 de Abril. São as vantagens das privatizações no seu mais brilhante esplendor.

 

O povo italiano também parece ser feito de uma outra massa do que o povo português. De Itália, chegam notícias de que diversas famílias rejeitaram participar no funeral coletivo promovido pelo governo italiano e fazer parte do que consideram ser uma farsa, pelo facto do governo ser o último e principal responsável pelo ocorrido. Em Portugal não foi assim. Parece que não há nada que uma indemnização e um monumento não resolvam.

 

Entretanto, ainda me recordo de especialistas que, na altura da queda da ponte portuguesa, em 2001, diziam que outras pontes portuguesas corriam idênticos riscos. Em dezoito anos nada aconteceu. Não há-de ser nada, portanto.

A era da pseudociência II

por Amato, em 12.08.18

Temos que ter plena consciência disto: vivemos numa era em que os lideres conseguem justificar, categoricamente, que o problema dos incêndios se deve a alterações climáticas sem que haja qualquer voz que se erga para dizer o contrário. Por ventura, será verdade? Sejam, pois, bem vindos à era da pseudociência que serve de suporte para se levar a cabo a destruição de qualquer conceito de bom senso nas sociedades em que vivemos.

 

Patrocinados pela classe burguesa e com o intuito do exercício do controlo global das massas, a pseudociência estende os seus tentáculos a todas as áreas humanas. Baseia-se em estudos encomendados e pouco sérios, interpretados pelos media de uma forma ainda menos séria, e cujas conclusões enviesadas colhem os frutos desejados na histeria mediática com que são lançadas e na incapacidade de compreensão das massas, que sempre se deixam conduzir mais pela emoção do que pela razão.

 

Nestas matérias, repare-se, os cientistas nunca são ouvidos. Quanto muito, vai-se buscar um qualquer chefe de laboratório, muito versado em comunicação e diplomacia político-económica, que, por vezes até, colhe os louros de toda a equipa que lidera, mas com conhecimento medíocre dos temas. Há uma razão para isto. A pseudociência funciona ao contrário da verdadeira ciência. A ciência procura a verdade das coisas, do funcionamento do mundo, seja ela qual for. Elabora as suas experiências nesse sentido. Já a pseudociência procede exatamente ao contrário: procura as experiências que, de algum modo, conduzam às conclusões que pretende anunciar à partida.

 

Se há área do conhecimento humano onde é mais visível este processo de charlatanice, a ação clara da pseudociência, é a área da climatologia. É que nós vamos sendo conduzidos a conclusões com base numa análise do clima quase ano a ano quando — qualquer cientista da área nos dirá — conclusões sobre o clima têm que ser baseadas em dezenas de séculos, milénios de dados! As alterações climáticas são muito lentas! Simplesmente não existem alterações radicais de um ano para o outro!

 

Serve isto para apontar o dedo à situação. Não, os incêndios em Portugal não se devem a alterações climáticas. Nem estes, nem os do passado, porque os incêndios têm sido uma marca neste país há décadas a esta parte. Se os incêndios fossem resultado de alterações climáticas, então também aconteceriam em Lisboa, nas grandes cidades, nos parques e nos espaços verdes. Mas não acontecem, pois não? Pensemos nisto. E pensemos também nos eucaliptos que crescem aos milhares em Pedrógão, nas terras queimadas, em Monchique e ao longo de todo o país. Lembremo-nos que os incêndios começaram a ser uma constante no nosso país quando aderimos à União Europeia, então Comunidade Económica Europeia. Já lá vai o tempo! Pode ser uma coincidência, eu sei. Nem me atrevo a referir as empresas de pasta de papel que tão importantes são para o nosso querido produto interno bruto. Tenho consciência disto. Vinha já alguém aí do governo defender a honra dessas e doutras empresas, porque são as empresas e os empresários que importam neste país. O PS sabe-o bem, como sabia o PSD. Pode ser que juntem os trapinhos no futuro. Há tanto o que os une... Agora, o que seria positivo era parar de usar as alterações climáticas como desculpa para os incêndios. Agradecia.

 

Nesta problemática, o que é grave é a verdadeira ciência estar a ser engolida, em largas colheradas, pela pseudociência. Não há, neste particular, propriamente grande motivo para espanto. Se retirarmos a liberdade à ciência para explorar o mundo, investigar os seus processos, chegar às suas conclusões livres de pressões e de constrangimentos, e a sujeitarmos, cada vez mais e cada vez mais aceleradamente, ao condicionamento do poder económico e dos seus interesses, então é perfeitamente natural que a verdadeira ciência deixe de existir, pelo menos na sua plenitude, e se converta em pseudociência. É natural: no final de cada dia, todos nós precisamos de pôr comida em cima da mesa.

A apologia do pecado

por Amato, em 05.08.18

O que é mais traumatizante no caso Robles não é o facto de se constatar que há um político no Bloco de Esquerda que não tem um pingo de vergonha na cara, nem de escrúpulos, nem de caráter. Com efeito, nem o Bloco de Esquerda é um partido de santos, nem a esquerda, em geral, é composta, apenas e em exclusivo, destes seres imaginários sem sexo.

 

O Bloco de Esquerda, em particular, parece ser profícuo em nos brindar com figuras muito mediáticas, nomeadamente no que concerne à autarquia da capital, que, uma vez conquistado o poder, tratam de arranjar a sua vidinha e esquecer a cartilha que levavam no bolso durante a campanha. Ou já se esqueceram de um tal de José Sá Fernandes? À terceira, isto é, ao terceiro eleito para a Câmara de Lisboa, será de vez. Acreditemos.

 

O que é, de facto, consternador, é a direita ter capitalizado com o fenómeno que teve assim o condão de difamar e descredibilizar o discurso da esquerda como um todo e de, ao mesmo tempo, encher o peito da abjeta direita política e da sua práxis mundana de promiscuidade com o mundo dos negócios. Em linguagem religiosa, foi como se tivesse resultado uma apologia definitiva do pecado que se deduziu diretamente do apontar do dedo aos defeitos de caráter dos evangelistas.

 

Não. Não é assim. Não aceito esta lógica. Não aceito que Assunção Cristas e seus acólitos malfeitores possam sair disto por cima, como se toda a patifaria que aprontaram durante largos anos no governo, no domínio do mercado de arrendamento e noutros, pudesse ser apagada simplesmente porque do outro lado havia uma pessoa pouco séria. Que apague aquele sorrisinho prepotente que leva, por estes dias, nos lábios!

 

Não deixo de sublinhar, todavia, a forma patética com que o Bloco de Esquerda lidou com todo este caso. Justifica, desculpa, não se demite, demite-se, não se desculpa, não se justifica, admite-se um erro. Afinal houve um erro. Ficam na memória as tristes figuras de Mariana Mortágua, Catarina Martins e Francisco Louçã procurando, no mais exclusivo espaço mediático, justificar o injustificável. O Bloco de Esquerda é isto, infelizmente. Não se nota evolução.

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