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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Uma questão de social-democracia

por Amato, em 26.09.19

Gostava de discorrer um pouco sobre um ponto que considero que esta campanha eleitoral teve a virtude, mesmo que por mero acaso ou imponderável acidente, de iluminar. Refiro-me à questão ideológica dos partidos que compõem o espectro político nacional.

 

A questão veio ao de cima quando a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, afirmou em entrevista de pré-campanha, que o programa do seu partido, tido pela maioria inculta do povo português como um partido de extrema-esquerda, era, afinal, social-democrata.

 

Quem acompanha a minha escrita sabe bem que nada disto me surpreende, nem um pouco, indo exatamente de encontro ao que penso. As propostas do Bloco, independentemente da multiplicidade de tendências que possam coabitar no seu seio, são de cariz marcadamente social-democrata, de natureza meramente redistributiva, keynesianas até, se preferirmos. Dito de outro modo, trata-se de um partido do sistema que procura corrigir o sistema e não transformá-lo. E o sistema é o sistema capitalista burguês.

 

Durante esta semana, soubemos também do apoio de um reputado economista português, Ricardo Paes Mamede, à CDU. Nas redes sociais, o economista elencou as cinco razões porque votaria CDU, não obstante as diferenças ideológicas que mantinha com a coligação que integra PCP e Verdes. Ricardo Paes Mamede é daquelas escassas personalidades que vale a pena ouvir e ler no panorama nacional. Pessoa culta, ilustrada e estudiosa, fala e escreve de forma fundamentada e faz uso de uma argumentação lógica que é muito rara nos dias de hoje. A respeito do título deste texto, vem-me à memória uma monumental lição que Ricardo Paes Mamede deu, há umas semanas, ao triste e ínscio João Miguel Tavares acerca do conceito de social-democracia do qual este último fazia boçal uso.

 

Confesso que, quando tomei conhecimento do apoio de Ricardo Paes Mamede à CDU, desencadeou-se dentro de mim um sentimento de profunda alegria. Em primeiro lugar, pela personalidade em causa. Em segundo lugar, porque a ideologia comunista precisa exatamente de gente com qualidade intelectual, e particularmente da área económica, que a defenda não na base do chavão e das palavras de ordem, mas na base da argumentação racional.

 

Com o passar do tempo, todavia, a minha alegria esmoreceu-se, pelo menos em parte. Ricardo Paes Mamede não é um economista marxista, é social-democrata assumido e alguma coisa tem que estar seriamente errada quando sociais-democratas apoiam comunistas. É que os sociais-democratas têm em vista a correção dos defeitos do sistema capitalista através de apoios, subsídios e intervenções estatais. Os comunistas lutam pela transformação do sistema, pelo derrube do capitalismo, pela criação de uma sociedade nova e diferente, com diferentes alicerces filosóficos. Os sociais-democratas atuam a jusante; os comunistas agem a montante. A interseção é vazia, não há ponto de encontro, não há compromisso possível. A menos que algo esteja muito distorcido.

 

Então, dei por mim a refletir que o problema será do nosso panorama político que está tão empurrado para a direita que os sociais-democratas foram deixando cair a máscara de tempos ideologicamente mais quentes e assumiram-se como descarados liberais, enquanto que os partidos de esquerda foram circunscrevendo a sua veia revolucionária aos seus inflamados discursos, deixando para as suas práticas apenas umas envergonhadas medidas sociais-democratas.

 

É por isso que eu considero um pouco triste e bastante surreal ver os mais destacados líderes do PCP, o Partido Comunista Português, vangloriarem-se nas redes sociais com o apoio de Ricardo Paes Mamede. Eles não entendem, não conseguem ver que o apoio de um social-democrata ao seu partido acaba por ser um atestado passado a uma doença ideológica grave que afeta o seu país e o seu partido. Para um comunista, o apoio de Ricardo Paes Mamede não deve ser motivo de particular orgulho, mais do que aquele que advém de um qualquer anónimo.

 

Por ventura, a culpa será minha. Será erro meu acreditar ainda que o PCP mantém intacta a sua espinha dorsal revolucionária e transformadora da sociedade. Mas essa é, afinal, a única razão pela qual voto e votarei CDU nas próximas eleições. Ao contrário de Ricardo Paes Mamede, não preciso de cinco razões para votar CDU, não preciso de fazer um rol, não preciso de as elencar, apenas preciso de uma razão: acreditar na transformação da sociedade, numa sociedade de paz, fraternidade e cultura, livre do capitalismo ou qualquer uma das suas versões de exploração dos homens.

 

A minha razão é acreditar que a CDU representa este meu sonho, mesmo que na CDU o sonho possa servir apenas para animar festas e discursos e seja convenientemente esquecido no pragmatismo inexorável e desprezível das opções que se tomam sobre a inércia dos dias.

Sobre a propaganda dos fundadores

por Amato, em 01.08.16

Há muitas individualidades que, no seu espaço de comentário, perdem demasiado espaço a escrever não sobre o que é a realidade, mas sobre o que era suposto que esta fosse. E seja este um exercício não completamente inútil, a verdade é que a repetição do mesmo não nos faz avançar um milímetro que seja no nosso caminho coletivo, sendo verdade que a descrição da história do que era suposto que tivesse sido não nos conduz a lugar nenhum.

 

Por razões meramente conjunturais, o tópico que tem suscitado maior interesse é a chamada “Europa dos fundadores”, a tal Europa da “solidariedade”. Já escrevi neste blog sobre o assunto. Fui muito claro na exposição do logro e, mais do que isso, da armadilha económica e financeira que essa “Europa dos fundadores” lançou sobre todos os países ao seu alcance, tendo-os capturado com sucesso, Portugal incluído. Não me repetirei neste espaço, não obstante não me furtarei a sublinhá-lo: essa “Europa dos fundadores” nunca existiu na realidade, não foi um projeto, não foi mais que um canto de sereia.

 

Um outro tópico que também é chamado aqui e ali por algumas individualidades, nomeadamente por Pacheco Pereira, é o “PSD de Sá Carneiro”, que é um subtópico da temática mais geral denominada a “social-democracia dos fundadores”. Há aqui uma mistura injucunda de idealismo, inocência e de estupidez.

 

Quando se cria uma ideia, seja ela qual for, ela vem acompanhada de camadas e camadas de boas intenções e de propaganda. É natural que assim seja. A necessidade de que seja vendida a ideia, de que seja aceite pelas multidões, é superlativa relativamente à verdade ou à autenticidade da coisa. É por isso que é fundamental separar o que é pragmático do que é abstrato e, embora seja importante dispor de memória para refrescar o mundo contemporâneo — que, em regra, não a tem — das boas intenções anunciadas para que nunca as percamos de vista, é totalmente infrutífero insistirmos nessa lembrança com o intuito objetivo de reavivar a identidade de uma coisa que, simplesmente, nunca se corporizou ou que nunca deixou o seu estádio gasoso e idílico.

 

Esse é precisamente o caso da temática da “social-democracia dos fundadores”. Creio que também já escrevi algures neste blog sobre isto. Discorria, então, sobre aquilo a que chamei de “sistema social europeu”, intimamente ligado à social-democracia europeia. Creio que retomar a sua leitura ajuda a separar aquilo que, nesta matéria, se prefigura como o trigo e aquilo que mais não será que vulgar joio no que é politicamente pragmático, isto é, no que realmente é social-democracia, e no que é politicamente relativo, ou seja, mera contingência para a sobrevivência política.

 

A social-democracia nunca foi essencialmente distinta do que é hoje, as condições de hoje é que são — elas sim — diferentes do que eram em meados do século XX ou no período pós-grandes-guerras. Nesses períodos, era necessário estabelecer diferenças marcantes com o Marxismo, ao mesmo tempo que roubar ao Marxismo as suas principais bandeiras. Daí obtermos uma visão muito mais suave e progressista dos movimentos sociais-democratas desses tempos.

 

Mas ainda que a social-democracia fosse efetivamente diferente do que é hoje, ainda que, por momentos, pudéssemos crer piamente em toda a propaganda da sua fundação, isso teria como consequência o fim, o colapso, de toda a ideologia social-democrata contemporânea face às evidências da história. Não pode a social-democracia subsistir igual a si própria, fiel ao sistema capitalista, assistindo em simultâneo a esse mesmo sistema desmantelando todo e cada membro do estado social, do sistema de previdência e assistencial. Passado mais de um século, a social-democracia que, na sua fundação, se opunha ao Marxismo essencialmente por não ser revolucionária, observa o sistema capitalista tão igual como então na promoção das desigualdades e na manutenção dos poderes burgueses. Se a tudo isto a social-democracia assiste desde a privilegiada cadeira do poder não se opondo e respondendo politicamente de modo concomitante, então devemos desvalorizar a chamada “social-democracia dos fundadores” do mesmo modo que desvalorizamos os anúncios de detergentes que prometem lavar toda a loiça com uma só gota de produto. É a mesma coisa: chama-se propaganda.

 

Para além disso, quem são estes “fundadores”? Poderia realmente a social-democracia ser aquilo que era prometido, quando as vozes que o anunciavam provinham sobretudo das cavidades mais conservadoras da sociedade? De onde vieram Sá Carneiro e seus companheiros, se não da Assembleia Nacional fascista?!

 

http://www.cartoonistgroup.com/properties/anderson/art_images/cg52a72086ae085.jpg

 

Analogamente, a verdade é que não podemos tomar este governo PS como exemplo, como é óbvio, daquilo que é a natureza desse partido claramente enquadrado no espaço social-democrata. Não é por ter acontecido uma aliança parlamentar com partidos de esquerda, de natureza totalmente circunstancial e com o único objetivo de sobrevivência política, que se pode apagar uma história inteira de acordos, entendimentos, alianças e políticas... à direita.

 

O que aconteceu nesta legislatura é pontual, passageiro e de natureza particularmente incómoda para o PS. Se António Costa não tivesse feito o que fez, hoje muito provavelmente estaria morto politicamente. Também o PS se denomina socialista, também na sua fundação se dizia a favor da igualdade e dos direitos dos trabalhadores, também se colou ao movimento comunista enquanto isso lhe pareceu interessante e também contribuiu, como partido de poder, para o estado lastimável da sociedade portuguesa, engolida a tragos decididos pela ávida gula do monstro capitalista. Também sobre o PS podemos falar dos “fundadores”, mas não vale a pena: é só propaganda... É só propaganda.

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Amato

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