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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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A corrida ao espaço — uma retrospetiva reflexiva

por Amato, em 11.06.19

Hoje dei por mim a folhear documentos antigos e a relembrar alguns momentos da história da corrida ao espaço (Space Race), uma disputa científica que opôs os Estados Unidos da América (EUA) à então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e teve o condão de alimentar a imaginação dos homens e mulheres da época de ilusões e esperanças com o quebrar da derradeira fronteira.

 

O final da Segunda Grande Guerra deixou a geopolítica mundial nas mãos de duas superpotências: os EUA, a nação que mais cresceu e lucrou com as duas Grandes Guerras através das exportações massivas para os vários lados dos conflitos e da dívida gerada no processo; e a URSS, uma nação jovem, fortemente massacrada na pele pelas duas Grandes Guerras, com grandes carências, mas que vinha aproximando-se dos EUA nos domínios da indústria e da economia e ultrapassando largamente os EUA no que diz respeito a todos os índices sociais, de educação e de saúde.

 

A criação da NATO, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, por parte dos EUA, que tinha como objetivo inscrito e declarado o combate ao comunismo, foi o mote para a instituição de um clima de hostilidade entre as duas potências, estes dois regimes tão díspares, tão diametralmente opostos, tão contraditórios do ponto de vista filosófico e de valores, que vigorou até praticamente ao final do século passado, e ao qual se convencionou chamar de “Guerra Fria”.

 

Olhando para a poeira desses tempos passados, uma das facetas mais interessantes e entusiasmantes dessa Guerra Fria foi, sem dúvida, a corrida ao espaço. Na segunda metade do século XX, sobretudo, as duas potências digladiaram-se numa disputa científica pelos maiores feitos no que diz respeito à conquista do espaço. Para os EUA, esta contenda significava uma categórica afirmação de superioridade própria, do país relativamente aos outros e à URSS, mas também uma superioridade dogmática do capitalismo relativamente ao comunismo. Para a URSS, significava a sua afirmação no mundo, do seu projeto e do seu ideal e, claro, também uma vitória da convicção no comunismo sobre o capitalismo.

 

Ao contrário do que muita gente pensa, ou adivinha sem saber, a guerra do espaço foi inicialmente amplamente ganha pela URSS que venceu sucessivas batalhas infligindo aquilo que os próprios media americanos descreveram como duros golpes e tremendas humilhações aos EUA. Em agosto de 1957, a URSS lançou o primeiro satélite no espaço, o Sputnik. Os EUA ficaram incrédulos por terem sido tão completamente ultrapassados pelos seus rivais. Tanto assim foi, que os jornais encheram-se de críticas, chegando mesmo a acusar o sistema educativo americano da culpa daquela derrota pela sua incapacidade ou inépcia em formar bons valores na ciência. Um mês depois, a URSS lançava a Laika no espaço, o primeiro animal a orbitar o planeta, abrindo as portas para o ser humano seguir-lhe as pisadas.

 

Para adicionar escândalo a esta dupla derrota, os EUA apressaram-se a lançar em dezembro de 1957, apenas quatro meses depois do lançamento do Sputnik, o satélite Vanguard que, depois de subir uns poucos metros, explodiu em chamas. A resposta dos EUA à URSS revelou-se patética. O Vanguard ficou conhecido pela alcunha pouco abonatória kaputnik. Mas a história não ficou por aqui.

 

Em abril de 1961, Iuri Gagarin, soviético, tornou-se no primeiro astronauta, ou cosmonauta como os russos chamavam. A bordo da nave Vostok, Gagarin deu uma volta completa em torno do planeta e regressou em segurança. Neste ponto, a URSS superava os EUA em todos os domínios da corrida ao espaço.

 

Completamente derrotados e desacreditados, os EUA lançaram-se num ambicioso objetivo em serem os primeiros a pisar a superfície da Lua, eles que estavam tão ultrapassados e atrasados em tudo o resto. Houve nesse objetivo algo de simbólico mais do que qualquer outra coisa. Na altura, ninguém que fosse minimamente sério na área espacial conseguia perceber muito bem a razão de ser de tamanha empreitada que não fosse simplesmente a capitalização em termos de reputação e glória. Tal veio, com efeito, a consumar-se em julho de 1969. Neil Armstrong, americano, tornou-se no primeiro homem a pisar a face da Lua. As imagens da façanha foram transmitidas em direto pelas televisões. As suas palavras, Um pequeno passo para um homem, um gigantesco salto para a humanidade, ficaram para sempre gravadas nos corações de todos.

 

Hoje em dia, evidências várias apontam para a encenação da expedição: a bandeira esvoaçando com o vento lunar, as sombras suspeitas, as incríveis parecenças com filmes de Hollywood que tinham sido realizados há pouco tempo e muitas outras coisas, mas sobretudo, a incapacidade tecnológica americana na altura para realizar o feito. É claro que o mito ficou e perdurará contra todas as evidências que vão sendo, cirurgicamente, apagadas dos cantos das páginas da História, nem que não seja pelo inexorável desaparecimento das poucas pessoas que, como eu, sabem e têm memória. Não fugindo à regra, a minha vez também chegará. Quando a última voz dissonante deixar de se ouvir e, enfim, desaparecer, entraremos numa consonância perfeita de uma só narrativa dogmática de vozes inconscientes e ignorantes. Porque quem domina o mundo dita também o que os livros de história nos contam.

 

Acredito que os melhores engodos são efetuados a uma audiência com disponibilidade para ser enganada. Todos os sinais indicavam que a caminhada na Lua seria um engodo. Os EUA não tinham capacidade para o fazer. Mas nós quisemos acreditar no que víamos. Os nossos olhos brilhantes, ávidos, como os de uma criança que vê pela primeira vez as luzes do Natal, quiseram acreditar-se. Não há razão, não há verdade, que seja mais forte do que isso.

2 de maio de 1944

por Amato, em 03.05.16

Daqui por pouco mais de um mês, a 6 de junho, a comunicação social capitalista fará eco de mais um aniversário do Dia D, ou o Desembarque da Normandia das tropas aliadas norte atlânticas e a tomada da Alemanha ocidental nazi em 1944. Este constitui, com efeito, um dos momentos mais marcantes da História do Homem, infelizmente não pelas razões mais óbvias.

 

Mais de dois meses antes da ocorrência deste evento, ocorrera outro, a 2 de maio, que consistiu no final da Batalha de Berlim, que tivera o seu início a 16 de abril, e que resultou numa derrota tão definitiva do Terceiro Reich às mãos do Exército Vermelho soviético que o próprio Hitler, conjuntamente com um punhado dos seus mais próximos oficiais, pôs termo à sua vida, ainda a batalha não tinha assistido ao seu último tiro. Neste dia, 2 de maio de 1944, Berlim caíra, o regime nazi havia sido decapitado do seu cérebro e era uma questão de tempo para que a Segunda Grande Guerra se visse terminada.

 

http://cdn.theatlantic.com/assets/media/img/photo/2011/10/world-war-ii-the-fall-of-nazi-germany/w01_3c21804u/main_1200.jpg

 

 Chegados a este ponto, erguem-se duas questões:

  1. Por que razão os meios de comunicação ocidentais ignoram este evento — ontem passou completamente despercebido?
  2. Por que razão houve sequer necessidade para se fazer o Desembarque da Normandia e porque é que este evento é mais valorizado do que o anterior?

 

Para responder a estas perguntas e a outras é necessário desmistificar a forma como tradicionalmente a História é recontada.

 

A história oficial da Segunda Grande Guerra coloca os aliados europeus, Reino Unido e França, contra o eixo Alemanha-Itália, aos quais se juntaram ainda Estados Unidos da América e União Soviética, aos primeiros, e Japão, aos segundos. A verdade, porém, não poderia estar, desde logo, mais longe do que é contado.

 

A verdade é que, durante a maior parte da guerra, a União Soviética lutou sozinha contra a Alemanha nazi, a qual ia sendo suportada pela maior parte da Europa colaboracionista, incluindo Portugal, Espanha, França, Áustria, Polónia e tantos outros países europeus ou não, incluindo os Estados Unidos da América, cujas empresas conheceram um prospero período de crescimento enviando embarcações de mantimentos e munições para o outro lado do Atlântico que circulavam num comboio marítimo ininterrupto.

 

Enquanto o Terceiro Reich avançava pelos territórios russos quase sem oposição, massacrando milhares de soviéticos, os aliados ocidentais nada fizeram. Quando Hitler começou a bombardear Londres, ainda assim, poucos se começaram a levantar e os Estados Unidos, em particular, nada fizeram.

 

Nada disto é de estranhar. Para quem estuda a letra da História para lá das páginas mais superficiais percebe facilmente o fascínio que o Terceiro Reich e a figura de Hitler exerciam sobre os grandes dirigentes britânicos e americanos, sobre o capitalismo ocidental em geral, incluindo o “herói” Winston Churchill. Releiam-se os seus discursos. Neles encontrarão sempre uma preocupação maior com a ameaça comunista do que com a ameaça nazi. Se procurarem bem, asseguro-vos que também encontrarão elogios vários à personalidade de Hitler e às virtudes do nazismo.

 

Em boa verdade, os Estados Unidos nem chegam a entrar na Segunda Grande Guerra: entraram, isso sim, num conflito separado com o Japão em resposta a uns bombardeamentos. A interferência dos Estados Unidos no teatro de guerra europeu foi nula até... ao famigerado Dia D.

 

É neste contexto que o Dia D acontece. A Segunda Grande Guerra havia sido vencida pelos soviéticos que libertaram a europa do regime nazi e era necessário criar uma distração, fazer um desembarque épico com muitas mortes, muitas explosões ao bom estilo de Hollywood, para dar a impressão de se estar a ganhar qualquer coisa, a fazer qualquer coisa pela Guerra. E foi o que se fez. Sabe-se até que a intenção original era fazer o Dia D em maio, logo após a vitória soviética, mas tal não foi possível. Era impossível preparar todos aqueles adereços cinematográficos a tempo, em cima da hora.

 

O Desembarque da Normandia foi, com efeito, um ato bárbaro, uma operação militar que teve tanto de espetacular como de idiota, de suicidária, tendo enviado para a morte milhares de militares desnecessariamente. Nenhum general minimamente inteligente tomaria tal decisão. Foi um exibicionismo triste que serviu unicamente para marcar posição e como mote para o reescrever da História da Segunda Grande Guerra. E deu resultado. O desfecho da Guerra Fria, décadas mais tarde, também ajudou, é certo, mas deu resultado.

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