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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Descargos de consciência

por Amato, em 21.11.19

Há sempre um irritante que efervesce quando uma pessoa morre. Sabem? É aquele elogio de caráter obrigatório que brota das bocas com facilidade, porque a morte tem este peculiar condão: faz da pessoa mais vil a mais virtuosa num passo de magia, entre um estalar de dedos. Era o “amigo do seu amigo”, era o “grande homem” e outras generalidades que tais.

 

O caso de José Mário Branco não é exatamente este: pessoa generosa, altruísta e solidária, que dedicou a sua a vida à luta por esses valores e por uma sociedade bem diferente daquela onde nasceu e onde, infelizmente, não merecia ter morrido. Estes predicados foram essenciais para catapultar a sua arte na escrita e composição de canções para os sublimes patamares da eternidade.

 

Já o escrevi aqui, algures, que a diferença entre um artista comum e um grande artista é exatamente esta: a existência de um propósito maior que o egoísmo e que a ambição, a presença de valores que superem o próprio artista, que a obra produzida seja mais que um mero exercício de excreção do que vai na alma, masturbatório, egocêntrico. A grande obra é a que se inspira nas gentes e inspira as gentes. A grande obra é a que é a expressão da vida coletiva e não apenas da vida individual. E José Mário Branco tinha exatamente esse ingrediente. Muita gente desconhece, mas várias obras eternizadas na voz de Zeca Afonso e de outros grandes cantores eram da autoria de José Mário Branco. Esta, de Sérgio Godinho, também.

 

Por que comecei, então, do modo como comecei? Porque os elogios que se multiplicam a José Mário Branco são vazios. Porque as palavras não têm correspondência com a realidade. Porque não se pode elogiar a vida de um homem ao mesmo tempo que se vive a própria vida de um modo diametralmente oposto. Ou, se se pode, trata-se de uma autocrítica. Caso contrário, é hipocrisia pura. É oportunismo. É falso elogio. A sociedade que abundantemente elogia José Mário Branco é a antítese dos seus valores, é a razão de ser das suas angústias.

 

Querem elogiar José Mário Branco? Vivam a própria vida como ele viveu a dele. Tomem as opções que ele tomou em cada dia. E, no mais, deixem-se de palavras. As palavras são fáceis. São descargos de consciência.

 

José Mário Branco. Foto tirada de https://vilanovaonline.pt/wp-content/uploads/2019/11/jos%C3%A9-m%C3%A1rio-branco-fb-Webp.net-resizeimage-ec.jpg

 

Que força é essa, amigo?

por Amato, em 13.10.19

 

Vi-te a trabalhar o dia inteiro,

Construir as cidades p'ros outros,

Carregar pedras, desperdiçar

Muita força pra pouco dinheiro,

Vi-te a trabalhar o dia inteiro,

Muita força pra pouco dinheiro.

 

Que força é essa que força é essa que trazes nos braços?

Que só te serve para obedecer que só te manda obedecer?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo,

Que te põe de bem com outros e de mal contigo?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo?

 

Não me digas que não me compr'endes

Quando os dias se tornam azedos,

Não me digas que nunca sentiste,

Uma força a crescer-te nos dedos,

E uma raiva a nascer-te nos dentes,

Não me digas que não me compr'endes.

 

Que força é essa que força é essa que trazes nos braços?

Que só te serve para obedecer que só te manda obedecer?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo,

Que te põe de bem com outros e de mal contigo?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo?

Uma hierarquia de necessidades do ser humano

por Amato, em 26.03.15

No seu artigo de 1943, “A Theory of Human Motivation”, Abraham Maslow estabeleceu a chamada Pirâmide de Necessidades, construção que lhe concedeu a imortalidade no universo da psicologia moderna.

 

A pirâmide não era mais do que uma hierarquização de necessidades que, de uma maneira geral, abrangem todo o indivíduo social, começando com as necessidades mais básicas, na base, e subindo, camada a camada, até ao topo para necessidades secundárias ou mais sofisticadas. A ideia subjacente à idealização da pirâmide era de que existe uma lógica de priorização no universo de todas as necessidades do ser humano.

 

Inicialmente, Maslow elaborou uma pirâmide com apenas cinco tipos de necessidade.

 

Na base pontificavam as chamadas necessidades psicológicas que tinham a ver com o acesso a alimento, água, ar, roupa e abrigo e, também, com as necessidades sexuais. Estas eram, segundo o autor, as necessidades mais básicas que cada ser humano tinha que suprir para poder funcionar corretamente.

 

Seguidamente, na camada superior, surgiam as necessidades de segurança, cujo nome é suficientemente elucidativo (segurança pessoal, financeira, de saúde, ...).

 

A terceira camada da pirâmide designa-se por necessidades de amor ou de pertença. Tratam-se de necessidades de se sentir amado e importante num certo contexto micro-social.

 

Na penúltima camada observamos as necessidades de estima. É curiosa a criação desta camada separadamente da anterior. Falamos das necessidades em se ser reconhecido socialmente, em se sentir estimado no coletivo social em que se insere, de se sentir importante na função que desempenha na sociedade, em ter uma boa autoestima e um bom autoconceito.

 

No topo da pirâmide atingimos as necessidades de autoatualização que têm a ver com a necessidade do ser humano desafiar os seus limites, reformular objetivos de vida e superar as suas próprias metas.

 

Toda esta construção é bastante discutível e a hierarquização das necessidades foi fortemente atacada no mundo científico por diversas razões válidas. O próprio Maslow viria a reformular a sua pirâmide acrescentando mais dimensões para além das cinco apresentadas inicialmente e introduziu também um juízo crítico de contexto na sua análise. Todavia, a ideia sempre me pareceu assaz interessante e empiricamente comprovável. Como pode uma pessoa pensar em cultura, educação de estômago vazio? Como é que se pode suprir certas necessidades sem se suprir outras, mais prementes? Como podemos ter democracia perante uma população assimétrica em termos das suas necessidades?

 

A pirâmide de Maslow fez-me lembrar esta música do Sérgio Godinho, a qual já mencionei aqui.

 

 

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