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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Café antropológico

por Amato, em 22.03.16

Hoje tomava o café no sítio do costume e falava com o empregado que me atendia, um tipo simpático que trabalha uma obscenidade de horas consecutivas todos os dias. O tema era o terrorismo e os ataques recentes na Bélgica. O tema era esse mas até podia ser outro qualquer, em boa verdade.

 

“A solução para isto era fazer grandes muros em redor dos países e correr com os muçulmanos daqui para fora”, dizia ele. Eu disse-lhe: “o problema está nas gerações e gerações de emigrantes desenraizados, arrumados em guetos, a ganhar metade pelo seu trabalho do que um belga ganha”. Mas ele não concordou com o que eu disse e retorquiu com uma meia-dúzia de disparates aos quais nem me dei ao trabalho de responder.

 

Enquanto terminava o café, via o ser impaciente em que se tornara. A impaciência nascia da minha concessão do duelo. Ele sentiu que estava a ser desconsiderado. Enrubesceu e prosseguiu, acabrunhado, mudo, com a sua labuta.

 

Da minha parte não havia muito mais a fazer. Quando discuto com alguém não carrego preconceitos ou pré-julgamentos sobre o meu interlocutor para o debate. Apraz-me trocar ideias com todos sobre o que quer que seja e a todos trato por igual. Mas ali não havia mesmo mais nada a fazer. Não havia nada mais a retorquir. O meu interlocutor já sabia tudo sobre o assunto e não estava muito interessado na minha opinião. Se ele pudesse, ele mesmo sairia do seu posto de trabalho e erigiria com os seus próprios braços os muros de que me falava, tal era a sua convicção.

 

Porque é que são normalmente as pessoas que mais trabalham, as que mais são exploradas pelo seu próprio trabalho, as mesmas que nutrem os sentimentos mais invejosos para com o próximo? Porquê? E, acrescento, porque são também os mais resignados, os mais conformados e os menos sonhadores? Porque razão são estes usualmente os menos camaradas e solidários para com os colegas e os mais bajuladores dos seus patrões?

 

Estas questões deveras intrigam-me e, acredito, nelas radica o sucesso e a aceitação do sistema capitalista entre os povos do mundo, em geral. Na resposta a estas perguntas figurará a chave para uma inversão de mentalidades e de sistema.

Nostalgia do regresso ao futuro

por Amato, em 27.10.15

 

Neste fim-de-semana que passou revi todos os filmes da trilogia Regresso ao Futuro. No final da maratona, não pude deixar de sentir uma nostalgia à flor da pele.

 

Na década de oitenta havia um certo espírito de audácia, de desafio, de sonho, que pairava no ar, que se respirava a plenos pulmões. Estou seguro disto que escrevo porque me lembro bem da doçura desse ar, do sorriso com o qual olhava em frente. A nostalgia sentida vem daí, dessas memórias de trinta anos ou mais.

 

Nos anos oitenta parecia que tudo era novo e parecia que podíamos imaginar o futuro como quiséssemos. Parecia que, independentemente da loucura dos nossos sonhos, tudo seria concretizável no futuro.

 

Hoje, quinze anos volvidos no novo milénio, o sentimento dominante é precisamente inverso ao dos anos oitenta. Hoje o tempo é de resignação. Resignação é a palavra de ordem. Resignação é o lema. A vida é como é, nunca foi melhor e nunca poderá ser melhor. Esta é a verdadeira justificação das nossas escolhas políticas. Esta é a razão de ser de tudo e do mundo que se apresenta hoje aos nossos olhos.

 

Nada faria prever que após um século XX de tantas transformações, de tanto sonho e utopia, de tanta emancipação de povos, de homens e de mulheres, que o século XXI fosse o ano da domesticação dos povos. O futuro é hoje. O futuro é resignação. A nostalgia nasce daqui.

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Amato

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