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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

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O ascendente da ética sobre a moral nas sociedades contemporâneas

por Amato, em 17.10.20

A ascensão das sociedades mais laicas em substituição daquelas de inspiração mais religiosa, mesmo que apenas consubstanciadas numa prática corrente e não na letra formal das constituições, teve inúmeras vantagens, quebrou decisivamente correntes que nos prendiam a um certo obscurantismo medieval, permitiu um sem fim de progressos sociais e científicos, mas também teve, observando a evolução antropológica das sociedades, o seu quinhão de consequências negativas.

 

Com efeito, esta progressiva transformação trouxe consigo uma perspetiva diferente sobre o Homem que deixou de ser visto como um mero subordinado aos ditames de Deus, mas antes como um ser individual e livre para gizar a sua vida, a escolher os seus princípios orientadores, os seus valores e os seus representantes na disputa política pública. Se Deus foi saindo paulatinamente da equação à medida que o Homem foi tomando o seu lugar no centro da existência, aqueles valores imutáveis e inquestionáveis com que este aprendia a viver desde o berço, e independentemente do seu berço, foram também sendo substituídos por princípios discutidos e negociados coletivamente, constantemente aferidos, corrigidos e reformulados. A moral, a moral religiosa, que vigorava de modo mais ou menos imutável, deu, pois, o seu lugar à ética, isto é, aquela disciplina que questiona e discute os princípios da moralidade.

 

Se pode ser verdade que, em muitas situações, que até podemos arriscar chamar, se assim o entendermos, de maioritárias, ética e moral mais não são que palavras sinónimas, também é verdade que aquela diferença fundamental entre elas tem o potencial de germinar numa sociedade mudanças dramáticas na forma como as pessoas entendem os seus valores e interagem entre si. Sublinhemos bem essa diferença primordial.

 

Daquela discussão aflorada acima, na qual a ética coloca em evidência os princípios morais de natureza cultural e histórica, colocando-os em causa, surge um conjunto de princípios discutidos, negociados e aceites por todos, consciente ou inconscientemente, com o objetivo declarado de melhorar a vida coletiva e aprimorar a convivência nas sociedades. Repare-se como a ética discute e altera os princípios, articula-os, colocando-os ao serviço de um certo pragmatismo social que é legítimo, sublinhe-se. Neste sentido, existe uma sujeição, na prática, dos princípios éticos à audiência que observa e avalia. Seguimos determinado princípio porque parece mal não o fazer. Não desrespeitamos a fila do supermercado porque os outros vão reclamar. Sobra sempre, todavia, uma réstia de pensamento que nos faz pensar sobre se adotaríamos o mesmo comportamento se ninguém nos visse ou se, por absurdo, dispuséssemos do dom da invisibilidade.

 

A moral é algo mais profundo, mais imutável. São aqueles princípios que temos connosco próprios. Sim, são ensinados, são aprendidos, não nascem connosco, nem estão inscritos no nosso código genético. Mas são princípios que vivem connosco, que tomamos como nossos, que entendemos como fundamentais independentemente de estar alguém a ver ou não. Respeitamos os nossos princípios morais sempre e em qualquer circunstância. Não roubamos, nem fazemos mal a alguém independentemente de alguém poder estar a observar os nossos atos.

 

É sempre possível argumentar que, hoje em dia, princípios morais, desta natureza implacável, são raros ou inexistentes. É verdade. Mas isso só coloca em evidência a decadência moral das sociedades, destas sociedades que julgam que tudo é passível de ser discutido ou negociado, onde não existem alicerces (morais) nos quais se possa confiar cegamente e em qualquer circunstância.

 

É preciso religião para haver moral? Claro que não. É preciso haver, sim, mais família, mais tempo de família para se passar valores aos filhos, mais acompanhamento dos mais jovens e menos tempo dedicado à empresa, ao trabalho e aos negócios, menos tempo de depósito da juventude em creches, jardins de infância e até escolas, e também menos entretenimento intelectualmente decadente, já agora. É preciso outras prioridades coletivas, no fundo. Não se pode ter tudo, não é assim? Alguns valores não são compatíveis por muito que queiramos que sejam.

O Natal de Hipácia de Alexandria

por Amato, em 23.12.17

Há um filme que eu acho que todos os cristãos deviam ver e não consigo imaginar uma melhor ocasião para o fazer do que o Natal. Chama-se Ágora e tem a soberba Rachel Weisz como atriz principal.

 

Ágora traça um retrato aproximado do advento do cristianismo no império romano e do que se terá passado na cidade de Alexandria, a cidade farol do conhecimento na era pré-cristã. Alexandria foi fundada de raiz, no norte do Egito, por Alexandre, o Grande, muito antes dos romanos. Alexandre quis edificar uma cidade nova que contivesse todo o conhecimento do mundo, onde todos os sábios pudessem estudar e formar novos sábios, criando novo conhecimento. Assim, a cidade de Alexandria foi construída em torno de dois monumentos essenciais e indissociáveis: a grande biblioteca, que ambicionava conter nos seus escritos toda ciência humana, sede dos grandes sábios que lá acorriam para beber do seu conhecimento, e o alto farol, cujo objetivo era iluminar as mentes dos homens e o seu caminho e não as suas embarcações.

 

Rachel Weisz oferece uma superior interpretação da personagem Hipácia de Alexandria, presumivelmente a primeira mulher cientista de que há registo no mundo ocidental.

 

Hipácia de Alexandria, pormenor do quadro A Escola de Atenas

 

A ascensão do Cristianismo ao poder no império romano fez-se como em tantos outros casos semelhantes, antes e depois: através da ignorância. Os cristãos aproveitaram-se de um ponto fraco de quase todas as sociedades e, em particular, das sociedades clássicas, que era a sua iniquidade muito acentuada. Essa iniquidade, essa diferença tão abismal entre os cidadãos e os escravos, entre os ricos e os pobres, serviu de alavanca à mobilização das massas incultas contra o sistema "pagão" vigente. Os resultados foram catastróficos, como não poderia deixar de ser. A biblioteca foi destruída, os pergaminhos queimados, os cientistas perseguidos e mortos, milénios de conhecimento destruídos de um dia para o outro. A própria Hipácia conheceria um fim horrível, torturada e mutilada, cortada aos pedaços, até à morte por apedrejamento. Os seus restos mortais haviam de ser, então, queimados numa fogueira. Morreu assim a primeira cientista mulher de que há registo, uma mulher brilhante e corajosa cujo pecado terá sido erguer a sua voz contra a ignorância que invadia as esferas da sociedade.

 

Muitos historiadores consideram a morte de Hipácia como o símbolo do fim da Era Clássica que terá lançado as bases para o início de uma idade de trevas e de insciência que se prolongaria por quase dois mil anos. Resta-nos apenas imaginar o que se terá perdido em termos de conhecimento com a destruição de bibliotecas, as queimadas de livros e a perseguição de sábios do período clássico. Apenas podemos imaginar. Mas quando não sabemos explicar coisas tais como, por exemplo, como é que os egípcios conseguiram erguer as pirâmides ou como os sumérios puderam administrar tão vasto território, estaremos seguramente na pista de conhecimento irremediavelmente perdido.

 

Nenhuma religião na história dos homens que conhecemos consegue chegar aos calcanhares do cristianismo no que diz respeito ao atraso intelectual a que votou a humanidade no seu conjunto. Este é um feito assinalável e que deve ser conhecido para que, nos dias de hoje, não nos deixemos enganar, uma vez mais, por falsos profetas guardiões da moralidade. É que a história teima em repetir-se e nós não podemos ser melhores se não conhecermos o nosso passado.

 

Nós, que nos sentimos tão poderosos com a arrogância dos nossos smartphones e tablets, corremos um risco muito maior do que o que julgamos de mergulhar no mais profundo obscurantismo de um dia para o outro. O que sabemos nós, afinal? Em que bases é que assenta esta sociedade em que vivemos? Somos muito facilmente manietados pelo que nos rodeia e agimos como meras cobaias de laboratório. Estamos nas mãos de quem nos governa.

 

É isto que retiro do filme Ágora: a possibilidade assustadora da história se repetir. Vejo claramente fragmentos dessa repetição todos os dias. Como terá sido possível que grandes civilizações tenham desaparecido sem deixar o mais pequeno rasto? Como ainda hoje não conseguimos explicar tantas evidências do passado? A resposta está algures aqui, na ignorância absurda e inimaginável a que pequenas minorias conseguem votar as grandes massas de população, uma e outra vez, ao longo da história da humanidade.

 

Lembremo-nos de Alexandria. Lembremo-nos de Hipácia.

 

Sempre.

A era do politicamente correto

por Amato, em 21.07.17

No período medieval e pré-medieval o pensamento público era controlado pela igreja em articulação com a aristocracia. No Vaticano fizeram-se mesmo emendas ao longo dos tempos, alterações e acrescentos ao texto dos evangelhos — e esta prática prolongou-se por muitas centenas de anos — para que a palavra de Deus se adequasse na perfeição aos comportamentos e pensamentos que se pretendiam incutir nas massas de população a dominar.

 

Em eras anteriores sabemos que práticas semelhantes eram adotadas, fosse por intermédio de sacerdotes e textos sagrados de outras religiões, fosse por intermédio de figuras endeusadas e mistificadas como os faraós, fosse pelo método que fosse. O objetivo foi sempre o mesmo: controlar os pensamentos e as ações das populações. Controlar cada elemento do povo como se de uma marioneta se tratasse.

 

Com o desenvolvimento da imprensa escrita e, sobretudo, dos meios de comunicação globalizados, que se foram sofisticando constantemente — rádio, televisão, internet, redes sociais — também o modo como se procede à lavagem cerebral das massas se sofisticou. Não descartando o papel que a igreja ainda hoje tem, por ser importante sobretudo nos meios mais pequenos, hoje em dia o grosso do processo é operado através da televisão e da internet.

 

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E não há como negar a elegância da sofisticação da coisa. Hoje em dia ninguém é forçado a frequentar a missa nem a ouvir a homilia do padre, nem uma outra qualquer similar encenação. O processo não se desenvolve mais de cima para baixo, antes pelo contrário. Hoje o povo busca, ele próprio, os conteúdos e busca os comentadores, escolhe o canal ou a página de internet com uma falsa sensação de liberdade de escolha porque todos dizem essencialmente o mesmo, ouve-os e lê-os com atenção, por opção própria, e, no fim, este procedimento de auto-lavagem-cerebral conduz a uma identificação com a mensagem que é muito robusta e eficaz.

 

A mensagem, repetida à exaustão por diferentes intérpretes, de modos diferentes e em diferentes canais de comunicação, inclusivamente discutida em debates artificiais, para esconder a sua natureza não contraditória, é incorporada com sucesso. Corpo acabado de pensamento único, a derradeira e superior forma de controlo das massas, apresento-vos: o politicamente correto.

 

O politicamente correto está em todo o lado, como entidade omnipresente na sociedade. Há alguns temas onde é perfeitamente evidente, nomeadamente no que diz respeito a grupos religiosos, étnicos ou sexuais. Se a conversa meter um negro, um cigano ou um gay reduz-se a meia dúzia de chavões e acaba rapidamente. Caso contrário, termina de forma deselegante. Porquê? Porque não se pode discutir. O que há para discutir sobre o tema já foi discutido (por alguém?) e encontra-se sistematizado no politicamente correto.

 

Com efeito, o politicamente correto é a censura dos tempos modernos, esvazia qualquer conversação e, nos temas que mais lhe importam, vem sempre acoplado de um rótulo insultuoso, ou com esse intuito, pronto a ser utilizado: “homofóbico”, “racista”, “ateu”, “comunista” ou “fascista” são bons exemplos. Cola-se o rótulo mais apropriado na testa do parceiro de conversa e, ato contínuo, termina-se o debate com vitória por KO. Não interessa a validade do argumento. Não interessa para nada. Isto é o politicamente correto.

 

Mas em tudo o resto também existe um politicamente correto. Existe um politicamente correto na política, por exemplo, que conduz o povo a votar sempre em partidos análogos. Existe um politicamente correto na educação das crianças, que nos está a brindar com a geração mais mal educada e irresponsável que este país jamais viu. Agora, até existe um politicamente correto face às tragédias que se traduz em inundar as vítimas de donativos, que é como se fossem esmolas, independentemente de serem necessários, desproporcionadamente, assim, por descargo de consciência, para no dia seguinte se deixar de pensar no problema e ficar tudo na mesma.

 

O problema é que, depois, há coisas que o politicamente correto diz que não batem muito certo com a realidade. Há coisas que o cidadão comum vê, estão ali, diante de si, e o politicamente correto não lhe diz nada sobre isso ou o que diz é desadequado. E depois há um tipo que mete o dedo na ferida e diz as coisas como elas são. Não interessa que não tenha bom senso, nem cultura, que seja grosseiro, que se esteja perfeitamente a marimbar para tudo isto e que apenas queira seduzir o eleitorado para chegar ao poder. Não importa nada. Como esse indivíduo quebra o politicamente correto e tem a capacidade de dizer que o rei vai nu, é o suficiente para se destacar do status quo hipócrita veiculado pelo politicamente correto e granjear reconhecimento popular.

 

Nós, sociedade, não discutimos os temas, não falamos abertamente dos assuntos, sem tabus, sem preconceitos, sem falsas vitimizações. E porque não discutimos, porque não refletimos, este processo vai transformando sucessivamente o politicamente correto para formulações piores, mais conservadoras, mais reacionárias e mais castradoras das liberdades.

Um certo sentimento de melancolia no ar

por Amato, em 13.05.17

Há um certo sentimento de melancolia no ar que respiro, como uma tristeza profunda que invade os dias com nuances mescladas de resignação e de desespero. É difícil enfrentar a dura realidade das coisas. O ser humano evolui tão devagar, mas tão devagar, que parece que, em cada momento, não evolui nada de nada. Em cem anos, parece que a evolução do ser humano foi nenhuma. O que movia e controlava as massas há cem anos atrás é o que move e controla as massas hoje em dia: a religião, Fátima; o desporto, o futebol; o jogo, euromilhões, totoloto, totobola, lotaria, raspadinhas e, agora, as novíssimas apostas desportivas da placard.

 

É deprimente.

 

Com Fátima a rebentar pelas costuras para ver o Papa que beija criancinhas e deficientes, lembro-me das palavras sábias do Padre Mário de Oliveira: as pessoas buscam fora de si as soluções para as suas vidas. Deus, a existir — acrescento eu —, vive dentro delas e não fora, age através delas e não enquanto uma entidade autónoma. É mais fácil, todavia, passar uma vida entretida com encenações, teatrinhos irrelevantes, com jogos sem nenhum interesse para além do lúdico — e, por vezes, nem esse — e não tomar nas suas próprias mãos a sua própria vida, o seu próprio destino.

Não há Páscoa que nos valha

por Amato, em 14.04.17

Há uns anos largos, quando as agressões dos Estados Unidos da América sobre o Iraque e Afeganistão já se prolongavam no tempo, mas ainda antes do início da invasão da Líbia — deve ter sido na viragem da primeira década deste milénio, creio —, conversava eu com dois altos quadros do país sobre temas vários e caí no erro de tocar neste assunto, na questão da política externa norte americana.

 

O primeiro, um médico destacado, disse-me isto que reproduzo textualmente: “Os americanos deviam lançar bombas em todas as zonas muçulmanas e terraplanar aquilo tudo”. E acrescentou: “Só assim se resolvia o problema”. A segunda, uma promissora cientista investigadora na área da microbiologia, concordou de forma efervescente com o seu par e acrescentou, de olhinhos brilhantes a espreitar por detrás de umas lentes grossas, uma outra imbecilidade qualquer da qual, com sinceridade, não me recordo. Como é óbvio, não prossegui com o tema.

 

Reparem que não estou a falar de duas pessoas quaisquer, não estou a falar de duas pessoas comuns, com pouca educação ou parca formação intelectual e cultural. À partida, tratavam-se de duas personalidades de relevo, com condições para maturar uma opinião equilibrada, contextualizada e com bom-senso. Mas não, notei com admiração: a opinião deste médico e desta cientista eram iguais à de tantos outros. Não precisavam eles, o médico e a cientista, de terem tido tanta formação, de se terem dedicado tanto aos estudos, para, com efeito, emitir uma tal opinião. Essa mesma opinião encontra-se em qualquer tasca ou café, em qualquer estádio de futebol, em qualquer canto mais esquecido e menos iluminado pela cultura neste país.

 

Mais não seria preciso para colocar a nu a evidência de que estas questões puramente políticas, a forma como vemos o nosso semelhante, a forma como encaramos os conflitos das sociedades e dos povos, pouco ou nada têm que ver com a educação do indivíduo. Nascem connosco. São parte de nós, como uma força que se manifesta no momento certo, quando devemos tomar partido. Acreditem, isto é mais genético do que de outra natureza.

 

Recordo-me muitas vezes desta história chocante. Lembrei-me hoje, particularmente, a propósito do lançamento da já famosa bomba americana sobre o Afeganistão, uma bomba capaz de destruir uma zona com um diâmetro de 1,4 km. Espanto-me por assistir às reações do mundo ocidental, o “mundo católico e cristão”, o “mundo da paz”. É vê-los a descrever em detalhe, regalados, as 8,4 toneladas de explosivos que compõem o engenho, o seu alcance e a sua profundidade. Pergunto-me: «Onde estão as reações de choque e de reprovação? Onde vivem as memórias de Hiroshima e Nagasaki?».

 

Mas o meu espanto é uma reação automática, não muito justificada, devo admitir. O mundo está repleto de gente como o médico e a cientista de que falava no princípio. Eles acham que isto resolve-se desta forma, lembram-se? Tivessem eles o poder, a motivação e a coragem, e seriam simetrias perfeitas dos mais abjetos terroristas que possamos encontrar do outro lado do mundo e que hoje abominamos em uníssono.

 

É uma época triste para a humanidade. Para alguns de nós, não há cordeiro expiatório, nem um qualquer homem na cruz, não há Páscoa, nem outro ritual diverso que nos possa valer. Estamos condenados, pela nossa própria natureza, a uma existência de mesquinhez, de desconfiança e de inimizade.

Timshel: tu podes

por Amato, em 12.08.16

— Então não compreende? — perguntou em voz alta. — De acordo com a tradução da Bíblia americana, ordena-se ao homem que triunfe sobre o pecado, a que se pode chamar ignorância. A tradução de King James com o seu tu dominarás sobre ela promete ao homem uma vitória certa sobre o pecado. Mas a palavra hebraica timshel — tu podes — deixa a escolha. Talvez seja a palavra mais importante do mundo. Significa que o caminho está aberto. A responsabilidade incumbe ao homem, pois, se tu podes, também é verdade que tu não podes, compreendem?

— John Steinbeck, A Leste do Paraíso

É verdade: Jesus tinha dois pais

por Amato, em 27.02.16

O cartaz do Bloco de Esquerda, “Jesus também tinha 2 pais” é realmente excelente. No bom estilo Pop Art de Warhol, defende a adoção por casais do mesmo sexo ao mesmo tempo que critica com mordaz ironia o dogma religioso. É assim uma espécie de dois em um. A crítica atinge o mundo católico em pleno no âmago das suas contradições, sendo que a Igreja nem por isso se coíbe de se constituir como principal opositora a uma tal mudança de costumes. É verdade: segundo a letra da sua própria doutrina, Jesus tinha dois pais.

http://images-cdn.impresa.pt/expresso/2016-02-26-Cartaz-Bloco-de-Esquerda-/original/mw-768

O Bloco de Esquerda está de parabéns. Devo reconhecer que o que lhe falta em consistência ideológica abunda em imaginação e criatividade.

 

Claro que, entretanto, devido à chuva de críticas que tem caído sobre o Bloco, elementos do mesmo, incluindo Marisa Matias, já vieram dizer que “foi um erro” e coisas do género. Se me faltassem evidências para sustentar a afirmação sobre a inconsistência ideológica do Bloco que fiz no parágrafo anterior, o Bloco encarregou-se de me providenciar uma bem fresquinha.

 

Isto faz-me lembrar quando o Bloco decidiu não participar das negociações de 2011 com a Troika para depois se mostrar muito arrependido em face dos resultados eleitorais obtidos. O Bloco de Esquerda parece que tudo o que faz é em nome dos resultados e dos efeitos e não em nome das suas convicções. Parece que, no Bloco, a mão que lança cada pedra política está sempre a postos para se esconder, numa tentativa frívola de emenda, se acaso a pedra chatear muita gente.

 

O tratamento que a sociedade faz, em geral, relativamente a este género de intervenção e crítica social também é de relevar. É que, formalmente, comportamo-nos exatamente do mesmo modo que todas as sociedades islâmicas mais ortodoxas que tão veementemente criticamos e até desprezamos. Não rebentamos bombas, até ver, mas somos tão radicais no que dizemos e no que pensamos e temos tão péssimo sentido de humor, ou até pior, do que qualquer radical de qualquer religião. Mas é sempre mais fácil criticar nos outros o que não conseguimos reconhecer em nós próprios.

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