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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

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Uma vez mais, a Alemanha

por Amato, em 03.09.20

Nos últimos anos têm-se vindo a multiplicar os protestos populares na Roménia, sobretudo nas suas cidades mais cosmopolitas com expoente máximo na capital Bucareste. A razão de ser de tais manifestações é uma corrupção governamental crescente tão vergonhosa, que o primeiro-ministro local chegou ao descaramento de influenciar o processo legislativo para evitar ser preso ou julgado pelos seus crimes de lesa-pátria. O povo saiu à rua em força, gritou com toda a força que guardava nos pulmões, mas à parte da Roménia, ninguém aqui, na Europa civilizada, ouviu o que quer que fosse, escassas notícias foram impressas sobre o assunto, nenhum comentário foi emitido no noticiário sobre a situação, nenhum vestígio de indignação. Absolutamente nada.

 

Um pouco mais a norte, no enfiamento do mesmo meridiano, a pouco mais de quinhentos quilómetros, a Bielorrússia tem vindo a ser tema de conversa desses mesmos jornais e noticiários de televisão. Aparentemente, as eleições locais geraram suspeita. Aparentemente, tem havido manifestações diárias de dezenas, não, centenas!, não, milhares!, não, dezenas de milhares!, não não, centenas de milhares! — assim é que é! —, reprimidas pelo estado. Há opositores políticos encarcerados e outros no exílio. Há isso e há muito mais. O pacote que os media nos oferecem nestes contextos é já bem conhecido e aplica-se de modo notável neste caso particular. A Bielorrússia, provavelmente o país mais ordenado e organizado da Europa, com uma taxa de crime praticamente nula, está convertida no inferno na Terra, pelo menos, a confiar no que nos dizem os nossos canais informativos.

 

O meu problema não é eu ter um certo afeto pela Bielorrússia e não ter assim tanta afinidade pela Roménia. Afinidades, como os amores, não se discutem, nem se escolhem. Ademais, não ponho as mãos no fogo pela liderança atual da Bielorrússia, nem tomo esse país como um modelo a seguir. Mas isso também não é para aqui chamado, não será assim? Se calhar o nosso problema é precisamente este: permitimos sermos guiados pela emoção em vez da razão e essa será a chave para quem nos governa conseguir perpetuar os seus poderes, manipulando-nos constantemente e, assim, sobrevivendo a cada eleição e a cada escândalo.

 

O meu problema é a diferença de critério, são os dois pesos e as duas medidas, porque não é só a Ucrânia que está entre a Roménia e a Bielorrússia, há algo de mais substantivo que separa estes dois países e que justifica as evidentes diferenças de tratamento aplicadas a um e a outro.

 

Qualquer observador atento da realidade política internacional que não conheça as lengalengas contadas usualmente a propósito da criação das comunidades várias que deram origem à União Europeia, dirá que o objetivo principal desta última terá sido coser na perfeição um manto protetor feito à medida da Alemanha. Com esse manto chamado União Europeia, a Alemanha foi capaz de camuflar os seus interesses expansionistas fazendo uma espécie de reset àquilo que foi a memória coletiva mundial pós duas guerras mundiais. Tudo na União Europeia, as suas regras, as suas políticas produtivas comuns, as suas distribuições de renda, a moeda única, a admissão de novos membros, etc, tudo foi feito na justa medida dos melhores interesses germânicos. Até mesmo em termos de política externa, a Alemanha encontrou um intermediário ideal que, falando em nome do grupo, defende, de facto, os seus interesses.

 

A diferença é esta. A Roménia já se libertou da influência russa desde o início dos anos noventa e, com isso, entregou, paulatinamente, todos os seus recursos naturais, todo o seu património empresarial nas capazes mãos alemãs. A Roménia está, portanto, do lado certo. Já a Bielorrússia é talvez o derradeiro aliado europeu da Rússia e mantém em seu poder a exploração dos seus recursos e a organização do seu país. A Bielorrússia está, como é evidente, do lado errado da História. Daí, as gritantes diferenças de tratamento.

 

A Roménia não é, bem entendido, o único exemplo que podemos fornecer. Aliás, o retrato traçado sobre a Roménia poderia ser reproduzido com muitas semelhanças relativamente a muitos outros países vizinhos. Desde o final da guerra fria, cada país do leste europeu que descobriu e se converteu às maravilhas do capitalismo do ocidente foi um país que engrossou o protetorado alemão. E sentem-se bem desse modo. Não se importam de já não terem fábricas suas, nem companhias aéreas, nem matérias primas. Adoram imaginar-se alemães. A Alemanha está efetivamente a conseguir pela via económica o que nunca conseguiu pela via militar.

 

Nos últimos dias, tivemos conhecimento do envenenamento de mais um opositor de Putin, desta feita em solo germânico. Pela forma como a notícia nos é apresentada, não restam quaisquer dúvidas para ninguém de que a Rússia será a culpada. Se assim é, será possível reconhecer também a total incompetência dos russos nestes envenenamentos que nunca cumprem plenamente os seus intentos, deixando sempre as vítimas vivas e um rasto de provas irrefutáveis. É estranho. E neste mar de estranhezas sucessivas, alimentadas ora por americanos, ora por britânicos, ora por franceses, ora por alemães, prosseguem estes últimos um rumo fixo e determinado de dominação ideológica e económica do leste europeu.

As três formas de se combater o fascismo

por Amato, em 14.08.20

Primeira: a educação e a formação da população com a ideologia da igualdade e da fraternidade. Não é possível destruir o fascismo se os nossos jovens são educados numa sociedade do «cada um por si», apologética da competitividade e com o lema Os fins justificam os meios. Não é possível combater o racismo quando a nossa sociedade desde a escola nos convida a ver no outro um adversário, um inimigo à nossa felicidade, em vez de um irmão com precisamente os mesmos direitos a ter uma vida digna e feliz.

 

Segunda: a informação e a propaganda especificamente direcionada para combater o racismo, a xenofobia e o totalitarismo. No seio de uma sociedade que construiu as máquinas de propaganda mais sofisticadas, seria suposto que este segundo ponto fosse um dado adquirido. Mas não é. A propaganda é aplicada extensiva e intensivamente com vista à defesa dos interesses económicos sejam eles quais forem e, deste modo, opera na sociedade sem uma qualquer bússola moral. Assim, a propaganda perde força e alcance enquanto arma de intervenção. Mais: tem tendência a reduzir-se ao desprezo e ao insulto gratuito o que, em vez de prevenir, produz acantonamento e ódio ideológico.

 

Terceira: a destruição do que quer que constitua o alimento circunstancial do fascismo. O fascismo suporta o seu crescimento e a sua propaganda em mensagens simples, diretas e eficazes por se basearem em problemas sociais concretos. Esses problemas podem ser simplificações mais ou menos grosseiras, podem carecer de inspeção e discussão, é certo, mas são fortemente baseados na realidade e, deste modo, promovem uma fácil identificação com uma parte da população, sobretudo aquela que é diretamente afetada. É, pois, fundamental enfrentar cada um destes problemas, as desigualdades, a corrupção nas instituições, as dificuldades de sobrevivência, a ausência de segurança e de perspetivas ao mesmo tempo que se patrocinam massivas migrações populacionais que, naturalmente, transformam os espaços, a cultura e as tradições, sempre no sentido da promoção de uma maior dificuldade em assegurar um posto de trabalho ou uma côdea de pão.

 

Não é possível erradicar a ideologia fascista sem articular em conjunto cada uma destas perspetivas. Apenas a educação e a propaganda não resolvem o problema. Apenas teoria no contexto de uma prática social antagónica, e mesmo pró-fascista, a que chamamos de capitalismo, não é suficiente. Mas, como em tudo o resto, a sociedade ocidental não enfrenta os seus próprios problemas e prefere adormecê-los com uma certa propaganda oca a que se pode chamar de politicamente correto juntamente com o despejar de dinheiro fácil o que, a médio prazo, quer um, quer outro, mais contribuem para o agravar do problema.

 

Brecht dizia, no segundo quartel do século XX, que o fascismo era a verdadeira face do capitalismo. Mais de dois mil anos antes, Platão postulava que a tirania seria o resultado natural da degeneração da democracia. Hoje, é preciso cuidado e não empurrar o problema para o cesto dos clichés e dos lugares comuns. A coisa é séria.

Com que subtilezas se reescreve a História

por Amato, em 04.08.20

https://www.les-crises.fr/wp-content/uploads/2015/05/poll-france-nations-contribution-nazis-defeat-1.jpg

image: www.les-crises.fr

 

Escassos dias após o final da segunda grande guerra, perguntou-se ao povo francês qual país tinha dado um maior contributo para a derrota do nazi-fascismo nesse conflito armado. Naquele momento, a União Soviética recolheu 57% dos votos, Estados Unidos da América 20% e Reino Unido 12%, um resultado absolutamente natural. Afinal, os soviéticos foram, de longe, os mais sacrificados durante todo o conflito e os que lideraram, durante a maior parte do tempo sozinhos, a longa contra-ofensiva que viria a derrotar o Terceiro Reich. Sob todos os pontos de vista, a participação do Reino Unido foi reduzida e a dos Estados Unidos vergonhosamente tardia, literalmente a meses do fim da guerra, depois de ter passado o conflito inteiro a engordar a sua economia financiando os esforços de guerra de britânicos e alemães em simultâneo.

 

A mesma pergunta viria a repetir-se mais três vezes, em 1994, 2004 e 2015, e os resultados revelar-se-iam surpreendentes… ou não. As novas gerações, filhas e netas do pós-guerra, vieram a reconhecer os Estados Unidos como os principais responsáveis da derrota de Hitler, com percentagens acima dos 50% (58% em 2004 e 54% em 2015) empurrando a União Soviética para uns desprezáveis 20% (20% em 2004 e 23 % em 2015).

 

Com efeito, a construção da memória histórica é um processo complexo carregado de subtilezas. Uma delas é que são mais importantes os sentimentos, os afetos subjetivos que se desenvolvem relativamente aos acontecimentos e às partes do que propriamente qualquer tipo de análise objetiva sobre estes e estas. Não é que tenhamos acabado de descobrir a pólvora, nem de perto, nem de longe. Não é por acaso que se diz que a História é escrita pelos vencedores das guerras e que estes, de facto, sempre se empenharam, sempre tudo investiram, desde que há memória, em processos duais de auto-glorificação, por um lado, e de demonização dos derrotados, por outro.

 

A atualidade mostra-nos um esplendor jamais visto, no que à arte e à técnica diz respeito, dessa verdadeira ciência social chamada de propaganda que influencia, com incontestável eficácia, as mentes, as reações e os sentimentos das massas. Durante décadas, Hollywood trabalhou com afinco, produzindo muitos mais filmes contra o comunismo do que contra o nazismo, e os Estados Unidos, os plenos vencedores da guerra ideológica travada ao longo do século XX, entre capitalismo e comunismo, recolhem agora os resultados do que semearam com as massas, mundo fora genericamente, a dar-lhes o crédito que não tiveram, a validarem o falso, a reconhecerem como verdadeiro o imaginário dos filmes. Não é de estranhar. Os que respondem hoje a este tipo de sondagens são, afinal, os mesmos que acham que os combates do Rocky são acontecimentos históricos e que o Rambo foi um verídico herói de guerra, para dar dois exemplos apenas. São gerações incultas educadas pela televisão e pelos media, incapazes de distinguir a ficção da realidade.

 

Escrevo estas linhas a propósito da fuga de Juan Carlos de Espanha para a República Dominicana com escala em Portugal. Juan Carlos foge do seu passado de promiscuidade com o conservadorismo mais bafiento e violento, convertido, durante décadas, no fascismo de Franco, das suas íntimas relações com a monstruosa monarquia saudita e outras coisas que tais com o condão de apoquentar a opinião pública face ao seu filho, o virginal e impoluto Felipe VI de Espanha. Acabei de poetizar a coisa, eu sei, mas não resisti. O antigo monarca foge, ao que consta, para não vir a ser acusado de crimes concretos de lesa-estado.

 

Por toda a parte, Juan Carlos é apresentado como uma figura ímpar, uma espécie de herói com uns certos vícios, de algum modo inadaptado à contemporaneidade, mas com feitos assinaláveis na construção da Espanha contemporânea. Um jornal apresenta-o na primeira página como “o rei que enterrou o franquismo”, uma ideia que já havia lido, ficcionada, no último romance de Dan Brown, A Origem.

 

A verdade é coisa que não interessa muito para o caso. Se a narrativa mediática for repetida vezes suficientes, então ela tomará naturalmente o lugar da verdade para a esmagadora maioria das pessoas nas gerações que virão. Hoje, ainda há muitos espanhóis, republicanos, que sabem bem qual foi o papel de Juan Carlos na história de Espanha, durante a guerra civil, durante a ditadura, e que se recusam, por isso mesmo, a prestar vassalagem à monarquia espanhola. Estes, serão os únicos e derradeiros guardiões da verdade. Com o passar dos anos, com o esbatimento dos ideais, dos valores, com a dispersão populacional e o seu desenraizamento progressivo, a sua instrução enviezada e a sua falta de exigência, a verdade tenderá a perder-se e até a desaparecer das notas de rodapé dos livros de História laudatórios do poder. E é precisamente deste modo que se procede à reescrita da história.

Dia da vitória

por Amato, em 09.05.20

imagem: telegraph.co.uk

imagem: telegraph.co.uk

 

No dia 2 de maio de 1945, após uma longa e heroica contraofensiva, o exército vermelho tomou a capital da Alemanha nazi e hasteou a sua bandeira vermelha do alto do palácio do Reichstag, o parlamento alemão. A Alemanha estava rendida e a total capitulação do nazismo e o fim da guerra estavam iminentes.

 

Uma rendição incondicional viria a ser assinada pelo marechal Keitel entre os dias 8 e 9 de maio. Adolf Hitler já se havia suicidado, encontrado morto com um tiro na cabeça a 30 de abril, aquando do avanço imparável das tropas soviéticas, dois dias depois de Benito Mussulini, o fiel aliado fascista italiano, ter sido executado pelas forças da resistência italiana.

 

O dia de 9 de maio é, pois, celebrado numa parte do mundo como o Dia da Vitória sobre o nazi-fascismo. Na Rússia, por exemplo, de longe o país que mais sofreu com a segunda grande guerra às mãos do nazi-fascismo, hoje é feriado nacional.

 

É importante, todavia, sublinharmos que nem todo o mundo celebra este dia e, por ventura, a sua maior parte não o celebrará. Portugal, por exemplo, não o celebra e duvido que algum meio de comunicação faça menção à data.

 

A reboque das narrativas históricas vindas do ocidente, aflitas por justificar os comportamentos inconsistentes, criminosos e genocidas dos seus estados ao longo da segunda grande guerra, também Portugal prefere deixar a data cair no esquecimento. De que outro modo seria possível, afinal, explicar os bombardeamentos atómicos genocidas sobre Hiroshima e Nagasaki a 6 e 9 de agosto de 1945 ou, até, aquela operação militar desnecessária e sem sentido, que resultou num massacre de soldados aliados, que ficou conhecida como o Desembarque na Normandia ou Dia D a 6 de junho de 1944? Fica difícil.

 

Mas não o fazer, implicaria conceder à Rússia, então União Soviética, um papel determinante no desfecho da guerra que entra em contradição com toda a propaganda produzida no final do século passado. Importa camuflar a realidade. Importa esconder a admiração que os líderes ocidentais sempre nutriram pela Alemanha de Hitler; importa abafar os aplausos e o apoio concedido ao terceiro reich quando este chegava às portas das principais cidades russas; importa esconder o facto de que a União Soviética lutou sozinha contra a Alemanha nazi durante a maior parte da guerra sem ninguém que lhe valesse; que o seu povo foi mártir e que, sozinho, derrotou heroicamente esse inimigo da humanidade que hoje, e apenas hoje, é reconhecido como tal.

 

Sigamos atentamente os próximos passos da reescrita da História. Hoje, diga-se o que se disser, assinala-se o Dia da Vitória!

Aviso

por Amato, em 13.12.19

O prato que se está a cozinhar na política portuguesa é perigoso. Preocupa-me que a extrema direita esteja a marcar o ritmo mediático da política. Preocupa-me que esteja constantemente nas primeiras páginas e a abrir os noticiários — e não é só nos órgãos da trupe do Correio da Manhã. Preocupa-me que o parlamento esteja convertido num palco para um conjunto de partidos sem ética nem espinha dar espetáculo, conspurcar o debate e denegrir a república. Do modo que as coisas se apresentam, parece que o que quer que se possa fazer para combater André Ventura e o Chega é virado do avesso e usado em seu favor. Devemo-nos começar a preparar para o que virá a seguir a isto.

As sereias da "ação climática" e da "descarbonização"

por Amato, em 16.11.19

Nesta versão 2.0 do governo PS há um pormenor que me tem preocupado severamente. O ministro do ambiente Matos Fernandes regressou do anterior executivo para este novo figurino com um acrescento ao seu epíteto. Agora, é ministro não apenas do ambiente, mas também da ação climática. Observem que coisa tão moderna e tão na moda! Só lhe falta a menina Greta como conselheira permanente. Tal acrescento tem sido acompanhado de uma abundante retórica sobre a “descarbonização” da nossa economia. Vejam bem que até o meu corretor ortográfico desconhece o palavrão. Repitam lá a palavra, “descarbonização”, seja lá o que isso for.

 

Esta temática preocupa-me porque aparenta ter pouco ou nada de substantivo e muito de propaganda com um fim bem definido: fazer sucumbir o país ao lobby do “elétrico” e dar carta branca à destruição de Montalegre para a exploração do lítio sem ninguém dar muito por isso.

 

Consta que o golpe de estado na Bolívia terá sido perpetrado, não por causa do gás natural, como inicialmente suspeitava, mas por causa, precisamente, do lítio. Não será por acaso, não sejamos inocentes, que as ações da Tesla, aquela empresa dos caríssimos carros elétricos futuristas, subiram em flecha após a deposição de Evo Morales.

 

Em Portugal, claro, não são necessários golpes de estado. As nossas lideranças, democraticamente eleitas pelo nosso povo, estão sempre na linha da frente no que diz respeito ao desbaratar dos nossos recursos em favor das grandes multinacionais burguesas. E neste caso do lítio acontecerá exatamente isso, far-se-á uma concessão a privados, com caderno de encargos escrito a preceito, para no fim ficarmos sem recursos, sem as nossas aldeias, vilas e cidades, e sem o dinheiro.

 

Importa repetir todas as vezes que forem necessárias em todas as oportunidades que se apresentem: em termos de eficácia, o “elétrico” não substitui os combustíveis fósseis, nem com todo o lítio do mundo, nem num milhão de anos. E com que energia iremos alimentar todos esses motores elétricos? Com que energia? De onde? Das barragens? Das eólicas? E conseguem afirmá-lo com certezas absolutas? Acresce que, ao comprarmos o “elétrico”, estamos a substituir um problema por outro, no que à questão ambiental diz respeito. Nós, que temos dificuldade em tratar duma simples pilha de volt e meio, já para não falar de uma bateria de um simples telemóvel, vamos ter de tratar, da noite para o dia, uma quantidade enorme de baterias elétricas de automóveis com vidas úteis de menos de dez anos. Tragédia ambiental em perspetiva? Lençóis freáticos, rios e mares permanentemente contaminados e poluídos? Água potável em risco? Será esse o nosso auspicioso futuro dos carros ultra modernos?

 

A situação é insana. Esta ânsia dos nossos governos em agradar ao capital monopolista está a redundar em demência profunda, porque é uma política de terra queimada, de quem vier a seguir que feche a porta, uma política que condena as gerações futuras e as amarra a opções trágicas. Mas, em simultâneo, esta situação gravíssima é-nos vendida com os cantos de sereia, das sereias da “descabornização” e da “ação climática”. E nós acreditamos. Achamos bem. Soa-nos bem, a moderno. Lava-nos a consciência, até. Parece que somos incapazes de pensar. Esta geração, a anterior e todas as que confluem no presente, no hoje, no agora, parecem todas vítimas de lavagem cerebral. Não olham, não veem, não pensam, não questionam. Tudo aceitam.

 

Tal como no passado com Ulisses, teria sido prudente amarrar o capitão do navio à carlinga e tapar os ouvidos de cada um dos seus marinheiros com a cera do mel para que nada pudessem ouvir, para que não pudessem ouvir as sereias tentadoras. Desgraçadamente, nestes tempos sem fé não há bom senso que impere, não há deusa Circe que nos valha, nem outra divindade qualquer.

Foi exatamente para isto que o muro caiu

por Amato, em 11.11.19

É oficial. Todos os governos de cariz minimamente progressista que, desde o início do século, conquistaram vários países da América latina, foram derrotados. Não interessa os milhões que retiraram da pobreza, da miséria e da iliteracia. Não interessa nada. Todos foram derrotados. O único que ainda resiste é a Venezuela, mas a que expensas? Um país destruído, uma sociedade devastada por uma guerrilha urbana, permanente, de mercenários a soldo do capitalismo monopolista americano, imobilizada por bloqueios económicos vários. Ah, claro, também há a valente ilha de Cuba, mas não a considero para estas contas particulares.

 

Ontem foi a vez da Bolívia. Nesse governo de vanguarda, liderado pelo índio Evo Morales, coisa ímpar em todo o mundo, os números mostravam crescimento económico acompanhado de distribuição de riqueza, de educação e de cultura pelo povo à custa dos lucros das multinacionais do gás natural. Pois era exatamente aí residia o problema de Evo Morales e do seu governo boliviano. Era exatamente por isso que era insultado de ditador e de outros nomes que tais. Foi esse o seu pecado. A receita aplicada nesse país foi o corrompimento dos militares. Trata-se de um presidente que venceu sucessivas eleições e que nem a promessa de novas eleições demoveu os militares na sua ação de deposição do governo. A democracia só interessa quando é favorável ao poder burguês.

 

Antes tinha sido o Equador e a Argentina, estes pela via democrática. Normalmente, a democracia é muito vantajosa para o capital, cuja principal aptidão reside na propaganda apelativa e sedutora. No Brasil, mesmo com toda a propaganda, ainda se reforçaram as hipóteses de vitória — daquela figura sinistra chamada de Bolsonaro — com um impeachment perfeitamente injustificado a um presidente legítimo — até aos dias de hoje absolutamente nenhuma ação judicial foi movida contra a Presidente deposta Dilma Rousseff — e a invenção de um processo criminal ao principal candidato da esquerda, Lula da Silva, que resultou no seu oportunístico e também injustificado encarceramento que o impediu de concorrer às eleições.

 

Cada caso tem uma estratégia própria, adaptada à realidade e ao folclore local. Em todos eles, os media constituíram-se como agentes ativos para os golpes de estado, para a indecência, providenciando argumentário, adjetivação e respaldo para a perpetração das patifarias, com lavagem cerebral em massa da melhor. Outra coisa não seria de esperar. O problema é nosso por esquecermos para quem os jornais e as televisões trabalham, quem são os seus donos e senhores.

 

Tudo isto mostra como o jogo democrático é viciado. Tudo isto mostra como as estruturas são corruptíveis, como é fácil ao capital corromper, perverter, degenerar, adulterar o sistema para seu proveito. Qual estado de direito, qual quê? Onde está a independência dos poderes? Democracia, golpe de estado, propaganda, perseguição judicial, guerrilha urbana. Basta escolher. Este é o fim da história, é o fim da história que as populações humanas escolheram.

 

Há uns anos caiu o muro de Berlim e festejámos, lembram-se? Foi exatamente para isto que o muro caiu. Continuem a festejar, até que o sistema entre pela vossa casa adentro para aumentar os seus lucros às vossas custas e às custas dos vossos filhos.

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