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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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A história da lâmpada incandescente: uma boa ideia na ótica do capitalismo

por Amato, em 22.08.16

Um bom exemplo sobre o modo como o capitalismo funciona e faz funcionar o mundo encontra-se documentado na história da lâmpada incandescente.

 

http://ichef-1.bbci.co.uk/news/560/cpsprodpb/133F9/production/_87614887_c0243346-incandescent_light_bulb-spl.jpg

 

Quando as primeiras lâmpadas foram criadas, ainda antes de serem comercializadas — estamos a falar do início do século XIX —, o objetivo dos seus criadores era torná-las mais brilhantes, eficazes e duráveis. Com o início da sua comercialização — nas duas últimas décadas desse mesmo século — este objetivo manteve-se.

 

No ano de 1924, a vida útil de uma lâmpada incandescente ascendia às 2500 horas. Isto significava que, da amostra de lâmpadas testadas laboratorialmente, após essas 2500 horas, metade das lâmpadas teria fundido, enquanto que a restante metade continuava o seu funcionamento. O número 2500 era, portanto, um indicador de confiança que o consumidor possuía de que uma lâmpada comprada funcionaria por 2500 horas antes de fundir.

 

Acontece que, para os produtores de lâmpadas que entretanto se estabeleceram e se organizaram para explorar aquele novo mercado emergente, vender um produto com uma vida útil de 2500 horas — o que, na prática, significava que muitas lâmpadas durariam mais dependendo do uso que lhes fosse dado — e com o potencial efetivo de poder vir a exceder esse limite se acaso se continuasse a investir tecnologicamente nesse sentido, rapidamente revelou-se um negócio muito pouco apelativo do ponto de vista lucrativo. Por exemplo, para se ter uma ideia da situação, a empresa alemã Osram, produtora de lâmpadas, registou vendas de 28 milhões de lâmpadas em 1923-1924, quando no ano de exercício financeiro imediatamente anterior havia registado vendas de 63 milhões de unidades.

 

A 23 de dezembro de 1924 os capitalistas da lâmpada incandescente, incluindo a já referida Osram alemã, mas também a Philips holandesa, a General Electric norte-americana ou a Compagnie des Lampes francesa, juntaram-se em Geneva e criaram o chamado cartel Phoebus que passou a controlar a produção de lâmpadas em todo o mundo.

 

A principal diretiva emanada do cartel Phoebus foi efetuar diligências para diminuir o tempo de vida útil das lâmpadas incandescentes para as 1000 horas, valor que, aliás, ainda hoje vigora. É claro que isto não podia ser imposto de um dia para o outro. Foi necessária uma verdadeira reversão tecnológica de décadas na produção de lâmpadas, isto é, foi necessário investir na pesquisa de formas de cortar para menos de metade o tempo de vida útil de uma lâmpada ao mesmo tempo que se mantinha ou, até, melhorava, os níveis de brilho e de eficácia energética dessas lâmpadas.

 

Este ponto é muito interessante e merece ser sublinhado. O capitalismo não tem qualquer problema em empurrar a humanidade para trás no seu caminho evolutivo se isso for condição necessária para a manutenção ou ampliação dos seus lucros. Imaginem-se as implicações desta conclusão noutras áreas muito mais lucrativas, como sejam a área alimentar ou a área farmaceutica, para se começar a formar uma ideia da teia onde estamos coletivamente metidos.

 

A obtenção das 1000 horas de tempo de vida útil de uma lâmpada terá sido obtida através do ajuste da tensão e da intensidade de corrente da lâmpada. Evidentemente, os capitalistas da lâmpada incandescente dissimularam as suas verdadeiras intenções propagandeando que estas alterações propunham-se apenas dotar as lâmpadas de uma iluminação mais brilhante. Os dois objetivos — brilho e durabilidade — não são, contudo, de forma alguma mutuamente exclusivos.

 

Muito mais havia a dizer sobre a história da lâmpada incandescente, muito mais enredo havia para desmascarar, mas o essencial fica escrito para que não seja esquecido. Para mais e mais detalhadas informações aconselho a leitura deste artigo de Markus Krajewski que está na spectrum.ieee.org.

 

Para terminar refiro apenas o seguinte. Hoje mesmo, assistimos à revolução das lâmpadas LED, como assistimos anteriormente às fluorescentes, apresentadas como revolucionárias, muitíssimo mais eficazes e duráveis, mas também muitíssimo mais caras, mas “que se pagam a si próprias” — é isto que é dito — por serem energeticamente mais eficazes. No final do dia, parece que fundem ainda mais rapidamente que as velhinhas incandescentes.

 

Tome-se nota do caso dos novos automóveis, todos bonitos e iluminados com as suas lâmpadas LED. Tenho um, topo de gama, que em cinco anos já trocou todos os piscas, luzes de marcha-atrás, presença e... nem sei que mais. Já perdi a conta. De cada vez que funde uma LED minúscula há que trocar todo o conjunto e a conta a pagar é medonha. Trata-se de uma observação empírica e sem valor científico, bem o sei. No entanto, tenho um outro carro velhinho com vinte anos, que nunca trocou nenhuma lâmpada. Todas as lâmpadas que tem, incandescentes, são de origem. Dá que pensar?

 

A história da lâmpada incandescente é em grande medida a história do capitalismo. Noutras áreas os factos poderão passar-se de uma forma mais sofisticada, mais polida, mais subliminar, mas a essência é esta. A história da lâmpada é uma metáfora perfeitamente adequada da procura incessante, imoral, amoral, pelo lucro.

Ser “de esquerda”

por Amato, em 25.05.16

Hoje é um dia parlamentar particularmente importante pois discute-se a reposição das trinta e cinco horas de trabalho semanal na função pública, pelo menos. O PCP avançou, desde a primeira hora, com o alargamento desta redução do horário de trabalho a todos os trabalhadores, sejam eles abrangidos por contratação coletiva ou não e, ao que consta, terá o apoio do Bloco de Esquerda na pressão que está a ser exercida ao governo nesse sentido.

 

As trinta e cinco horas são uma excelente notícia. Traduzem, por si só e independentemente de quaisquer contrapartidas que poderão ser sorrateiramente concedidas ao patronato, uma mais justa distribuição da riqueza e são sinónimo de progresso social.

 

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/d7/e5/5d/d7e55da4ca6aae5a17cd6d58e1def6d6.jpg

 

Não é, todavia, uma medida de esquerda — não será a única — que fará deste governo um governo “de esquerda”. Ser um governo “de esquerda” é outra coisa. É, desde logo, tomar partido pelos trabalhadores, conhecer as suas angústias, envolver-se nas suas lutas e diferendos com o patronato. É fazer tudo isto de forma genuína. Porque o contrário está reservado para os governos “de direita”.

 

Ser “de esquerda” é interceder em favor dos estivadores, dos operários da Petrogal, e de tantos outros trabalhadores de tantas outras empresas que prolongam as suas justas lutas, que chegam até aos dias de hoje vindas desde o reinado do anterior governo, contra autênticas agressões e humilhações dos seus patrões contra os seus postos de trabalho, contra os seus direitos conquistados.

 

Este governo não só não intercede por eles, como — e isto é algo que simplesmente não passa na comunicação social — mantém exatamente a mesma conivência que o anterior executivo sustentava com o patronato, uma conivência corporizada em despachos ministeriais apontando serviços mínimos fora-da-lei, na canalização de ameaças subliminares de despedimentos coletivos, entre outros fretes lesa-Constituição concedidos à burguesia dominante, que permite ao patronato continuar a pisar a lei e a melhor coagir os seus trabalhadores a abdicarem dos seus direitos.

 

Visto deste prisma, este governo tem muito pouco “de esquerda”. O que tem, e o que permite criar a ilusão do contrário, são alguns compromissos que se vê forçado a cumprir por simples contingência parlamentar. Bendita coligação!

Catalunha livre

por Amato, em 08.11.14

Gostava de ver uma Catalunha independente. Independente, como aquele povo merece e como sempre devia de ter sido, por muitos anos que tenham passado e por muitos mais que possam vir a passar.

 

Não me esqueço de que Portugal deve a restauração da sua independência, em parte, à Catalunha. Devemos-lhes isso. Não fosse a revolta que deu na Guerra da Catalunha de 1640 a 1652 e o nosso próprio golpe revolucionário de 1640 poderia não ter resultado em coisa nenhuma. Por isso, repito: devemos-lhes isso, porque tenho memória histórica e porque amo o meu país. É triste que ao mais alto nível não subsistam estas qualidades. Porque, caso contrário, os mais altos representantes da nação assumiriam o seu dever moral e patriótico de apoiar a causa catalã.

 

Gostava de ver uma Catalunha independente como é o seu direito. Mas gostava também que o caminho livre e independente que o povo catalão há de um dia tomar nas suas próprias mãos fosse um caminho de progresso social e humano e que a Catalunha livre de Castela se erguesse como um farol de liberdade. Um farol para iluminar a europa e o mundo neste século XXI. De países conservadores e repressores já estamos bem servidos.

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