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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Génova e Entre-os-Rios

por Amato, em 18.08.18

Olhar para a tragédia ocorrida em Génova — sim, para variar, esta é uma verdadeira tragédia — com a queda de uma ponte que fazia parte do trajeto quotidiano de largos milhares de italianos, usada por muitos outros turistas europeus e mundiais para iniciarem a sua exploração do país por terra, pela Ligúria, Toscana, Piemonte, Lombardia, tem, como consequência imediata, acordar a minha escassa memória. Lembro-me de uma outra ponte que caiu, de uma outra tragédia que se abateu, entretanto esquecida.

 

Corria o terceiro mês do primeiro ano do novo milénio do calendário gregoriano. Ao quarto dia desse mês, um dos pilares da ponte Hintze-Ribeiro, que ligava Castelo de Paiva a Penafiel, na região de Entre-os-Rios, desabou levando ao colapso de um dos tabuleiros da ponte e, por consequência, à morte de cinquenta e nove pessoas que faziam, na altura, a travessia.

 

Há sempre o perigo da injustiça, da falta de bom senso, do oportunismo, até, quando se procura esboçar paralelismos rápidos entre situações com semelhanças imediatas e evidentes mas com contextos necessariamente diferentes. Sinto-me, todavia, forçado a fazê-lo. Ainda disponho de alguma memória e, por isso mesmo, a escrita destas palavras resulta inevitável.

 

Vou começar por contar o que aconteceu em Portugal nos tempos que se seguiram à tragédia. Salto aquela parte de mediatização da dor e de histeria dos meios de informação que durou o que tinha a durar mas não merece ficar na história. O governo passou incólume pela tragédia através da oportuna demissão voluntária do então Ministro do Equipamento Social de seu nome Jorge Coelho. Isto da responsabilidade política é coisa de natureza singular e sinistra. O ministro demitiu-se, o governo passou incólume, nenhuma consequência efetiva do ponto de vista da lei foi extraída disso, ninguém, por parte do governo, pagou pelo que aconteceu. Pelo contrário, algum tempo depois, o mesmo Jorge Coelho viria a ser contratado para um alto cargo na Mota-Engil, uma das maiores empresas de... construção civil e obras públicas.

 

Não é isto verdadeiramente incrível? Um governante responsável político pela queda de uma ponte é contratado para uma posição de destaque numa empresa de construção civil e obras públicas, que por acaso é a campeã dos concursos públicos e das adjudicações diretas neste país. Imagine-se se a mesma lógica fosse aplicada aos outros setores do país? Um professor que não dá a matéria e falta às aulas promovido a diretor da escola? Um médico que, por negligência profissional, prejudica a saúde dos seus pacientes promovido a diretor de um hospital?

 

Ao mesmo tempo, aventou-se que a razão da queda da ponte, há muito tempo sinalizada pelas sucessivas inspeções, ficou a dever-se à excessiva atividade de extração de areias do rio que conduziu a uma debilitação do suporte de um dos seus pilares que cedeu com o aumento do caudal do rio originado pelas chuvas daqueles dias. Moveram-se processos contra as empresas de extração de areia. Ninguém — absolutamente ninguém! — foi condenado. O governo pagou indemnizações aos familiares das vítimas, participou em homenagens e erigiu um monumento perto do local da tragédia. Os corpos de algumas das vítimas nunca chegaram a aparecer.

 

Não sei o que se vai passar agora em Itália, não sei como vai ser a sequência dos eventos após a queda da ponte de Génova. No fim de contas, pode até ser que tudo seja muito parecido com o caso português. De momento, gostava de salientar algumas diferenças.

 

O governo italiano parece ter assumido uma atitude muito diferente para com a empresa privada que geria a Ponte Morandi imputando-lhe responsabilidades claras e exigindo consequências legais e criminais. Aqui, em Portugal, ainda hoje as coisas são distintas. As empresas privadas recolhem os dividendos da exploração das estradas e das pontes através das portagens e ainda recebem complementos estatais para garantir lucros, para além das obras das pontes serem asseguradas pelo estado. É o caso, por exemplo, das obras que se avizinham na Ponte 25 de Abril. São as vantagens das privatizações no seu mais brilhante esplendor.

 

O povo italiano também parece ser feito de uma outra massa do que o povo português. De Itália, chegam notícias de que diversas famílias rejeitaram participar no funeral coletivo promovido pelo governo italiano e fazer parte do que consideram ser uma farsa, pelo facto do governo ser o último e principal responsável pelo ocorrido. Em Portugal não foi assim. Parece que não há nada que uma indemnização e um monumento não resolvam.

 

Entretanto, ainda me recordo de especialistas que, na altura da queda da ponte portuguesa, em 2001, diziam que outras pontes portuguesas corriam idênticos riscos. Em dezoito anos nada aconteceu. Não há-de ser nada, portanto.

Para que saibam que sabemos

por Amato, em 28.05.16

Um dos mais raros e, também por isso mesmo, preciosos momentos — de autêntico prazer — que a imprensa escrita me oferece nos dias que correm apresenta-se nos espaços de opinião de José Pacheco Pereira. Irremediavelmente, espero até ao final da semana para poder ler as suas crónicas da Sábado ou o seu artigo de opinião no Público. O mesmo se passa, relativamente à televisão, a irmã mais nova da imprensa escrita, com A Quadratura do Círculo na SIC Notícias.

 

Desengane-se quem se atrever a induzir daqui que tal estima pelos textos e opiniões produzidos por Pacheco Pereira se deve a uma concordância de opiniões ou posições. Quem acompanha este blog percebe com relativa facilidade a dissonância entre opiniões, os distintos posicionamentos políticos e as diferenças marcantes na própria interpretação da História do Homem. Não obstante, reconheço em Pacheco Pereira aquilo que não reconheço em quase nenhum outro crónico comentador político: independência, honestidade intelectual e cultura. Qualquer uma destas características é rara por si só e a sua interseção resulta num conjunto de escassos elementos, no qual Pacheco Pereira pontifica. Acresce ainda a qualidade superior da sua escrita o que consiste numa espécie de bonificação, também ela rara e não desprezável, ao exercício de leitura dos seus textos.

 

Hoje, Pacheco Pereira escreve no Público sobre o Liceu Alexandre Herculano, no Porto. Escreve sobre o estado lamentável a que a estrutura chegou e sobre a importância que a memória dos edifícios, das suas paredes e dos seus tetos, tem na nossa identidade. Atrevo-me, nos parágrafos imediatos, a complementar o seu texto com relevante informação.

 

Ao mesmo tempo que o liceu Alexandre Herculano está a ser votado à degradação, o Estado financia os cursos vocacionais de um colégio privado mesmo ao lado. Basta contornar o quarteirão do lado oposto ao do edifício da Polícia de Segurança Pública e da Direção Regional de Educação do Norte.

 

Não sei se este colégio se insere no contexto de “contrato de associação” ou não, mas também não é muito relevante para o caso. Os cursos que lá são ministrados, chamemos-lhe assim, naquela secção específica do colégio, são financiados na totalidade por dinheiros públicos.

 

Faça-se o esforço: não é preciso caminhar muito. É um edifício antigo mas desinteressante, pintado e tratado com descuido, dotado de nenhum tipo de condições particulares para o ensino — uma espécie de casa grande adaptada à pressão. Penetre-se no seu interior para se poder ver melhor.

 

Não existe uma sala de convívio para os alunos, uma sala de professores ou espaços de trabalho. Não existe nada para além de umas divisórias de escritório onde se colocaram mesas, um quadro e um vídeo-projetor para que se possa fazer de conta que se está na vanguarda das novas tecnologias e, a estes espaços, chamaram-se de salas de aula. Nelas, comprimem-se mais alunos do que aqueles que seria aconselhável e procede-se a uma espécie de encenação que é um entretenimento que dura o número de horas requeridas para se passar o diploma prometido.

 

É para aqui, para instituições deste género, que são canalizados os dinheiros públicos da educação. É este o poder de escolha, é esta a defesa da escola, na ótica dos privados. O liceu Alexandre Herculano, com todas as condições físicas para fornecer uma educação de qualidade e digna aos alunos, é votado ao abandono e à degradação ao passo que a poucos metros de distância e literalmente nas suas costas subconcessiona-se a um colégio privado sem qualquer tipo de condições — e ninguém quer saber do assunto, com a DREN mesmo ali à beira, do outro lado do quarteirão — o ensino de alunos que poderia ser perfeitamente feito no espaço público com clara mais-valia financeira, para o estado, e educativa para os alunos.

 

Não me interessa quem tem a responsabilidade sobre o liceu, penso que será a Câmara Municipal do Porto. Não é relevante. A responsabilidade última é sempre do Estado, quer seja para cumprir, quer seja para fazer cumprir. Quer-me é parecer, de modo cristalino, que os “contratos de associação” serão apenas a ponta do iceberg na relação de promiscuidade entre estado e privados no domínio da educação.

 

Neste, como noutros casos, é preciso falar, é preciso denunciar, é preciso apontar o dedo, para não nos tomarem por parvos, para que saibam que sabemos.

Colégios privados: quando não queremos que nos façam a nós o que fazemos aos outros

por Amato, em 06.05.16

Neste final de semana de trabalho vemo-nos confrontados com manifestações de indignação por parte dos colégios privados que se atemorizam por uma ameaça hipotética de redução do seu financiamento público. Como foi lançada a suspeita e antes que a mesma se materialize em algo de concreto, os colégios privados juntam-se e erguem a sua voz corporativa na tentativa de retirar as hipotéticas ideias da cabeça do senhor ministro.

 

Toda a situação é muito incoerente desde o princípio até ao fim, bem entendido, desde a conceção do problema, passando pelo desenvolvimento deste status quo da educação em Portugal, até a este desfecho que, a verificar-se, não contém absolutamente nada de inesperado.

 

Não é de agora: o processo de desorçamentação da educação em Portugal não começou ontem, já tem décadas. A Revolução estabeleceu as condições, que vieram a ser prosseguidas posteriormente, de dotar o nosso analfabeto e inculto país de uma rede de escolas capazes de cumprir o desígnio da educação democrática para todos. O que os sucessivos governos PS-PSD vieram a fazer foi aquilo que podemos chamar de desmantelamento deste sistema, através de um processo de subcontratação a colégios privados que se traduziu, na prática, a uma transferência direta de verbas das escolas públicas para escolas privadas. Não é menos relevante notar que, nas escolas privadas, os alunos têm acesso, em média, a recursos muito mais pobres do que nas escolas públicas.

 

Com isto, os governos puderam fechar escolas, deixar de contratar professores e demais funcionários do sistema educativo, desorçamentando, deste modo, os dinheiros destinados à educação. Note-se bem que, ao contrário do que se possa à primeira vista pensar, este processo não produziu um cêntimo de lucro em prol do país. Um aluno no sistema privado custa, com efeito, mais dinheiro ao estado do que se estivesse inserido no sistema público. Porém, o objetivo de camuflar contas e de criar clientelas privadas agarradas, quais rémoras, ao tubarão estatal foi plenamente alcançado, tanto na educação como em outras áreas aliás.

 

Havia também um outro objetivo subliminar, mais ideológico: com a trajetória de empobrecimento estatal que o País vinha seguindo, tal estratégia de subconcessão na área educativa teria como finalidade última, por questão de pura lógica orçamental, a privatização indiscriminada do sistema educativo consubstanciada numa espécie de cisão do mesmo, isto é, uma escola para quem pudesse pagar e uma outra para quem não pudesse. Esse seria o plano a longo prazo.

 

Seja por uma razão, seja por outra, é perfeitamente natural que os colégios privados vejam o seu financiamento público severamente cortado. Estavam à espera de quê, afinal? Também é igualmente incoerente o seu posicionamento no contexto do problema. É que não há uma instituição de ensino privada, uma única arrisco-me a dizer, que não conte com o auxílio de dinheiros públicos para provisionar o seu funcionamento, desde a instituição mais modesta ao colégio mais selecionado. Que espécie de papel é este afinal?

 

Por fim, não deixa de ser irónico que os colégios privados, os principais empregadores de professores precários no país, sugando trabalho altamente especializado e capaz a preços de saldo, muitas vezes a menos de dez euros à hora, sejam eles próprios vítimas da sua situação precária, daquela que resulta do seu enquadramento na estratégia educativa portuguesa. No fundo, as suas manifestações de indignação têm como alvo uma manutenção imutável da sua situação de subcontratação face ao Estado. O que eles reivindicam, na verdade, é estabilidade na sua relação de subalternidade face ao Estado, algo que, a maioria deles, renegam abertamente aos professores que para eles trabalham, ano após ano, precários, sem saber o que esperar para o ano seguinte. Fica sempre mal quando não queremos que nos façam a nós o que fazemos, diariamente, aos outros.

A hipocrisia endémica

por Amato, em 09.02.16

Para mim é sempre fascinante observar a hipocrisia latente ao comportamento de tantos e tantos ditos liberais, acérrimos defensores do mercado livre. Escrevo estas palavras a propósito do atual diferendo Rui Moreira - TAP/António Costa, que é uma espécie de constructo mediático destinado, quem sabe, a catapultar, a prazo, a figura de Rui Moreira para outros voos políticos.

 

O diferendo em questão é um som de fundo que, por se prolongar há um par de semanas, começa a tornar-se desagradável. Não percebo o que institucionalmente o Presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, tem que ver com a gestão que é feita do Aeroporto de Pedras Rubras ou sequer da TAP. Creio que institucionalmente não existe qualquer relação. A sua posição é, todavia, entendível.

 

É evidente que o tipo de gestão que é feita do aeroporto, seja ela pública ou privada, afeta diretamente a coisa pública, particularmente a coisa pública da região norte. Neste contexto, a estratégia da companhia aérea atualmente mais relevante para a atividade do aeroporto, a TAP, que passa por suprimir diversos voos, tem obrigatoriamente que ser vista com olhos pejados de grave preocupação. E é de todo em todo natural que essa preocupação seja vocalizada na pessoa do presidente da autarquia mais relevante da região norte.

 

Note-se que reside exatamente aqui, no parágrafo anterior, a argumentação de todos os que se opõem à privatização de aeroportos e companhias aéreas.

 

O que não é natural e não é de forma alguma entendível é que alguém que se fez por ser um acérrimo defensor da economia de mercado livre, alguém que se diz um liberal moderno, alguém que afirmava assertivamente categóricas sentenças como que o mercado se devia regular a ele próprio e que o estado devia deixá-lo ser livre, e, neste contexto, detendo já o atual cargo, nunca se opôs à privatização da TAP, venha agora, à primeira decisão estratégica da companhia privatizada, mostrar-se contra.

 

De repente, parece que há uma quantidade de pessoas, inocentes puros ou puros malfeitores, que esperava que a privatização da TAP ia deixar tudo na mesma não beliscando nunca o interesse público nacional e regional. Repetem suspeitamente este mesmo género de atitudes, privatização após privatização, agarrados a cadernos de encargos detalhados, perfeitos libretos de óperas bufas, fazendo crer ao povo que o privado é bondoso e altruísta, que se preocupa muito com tudo e todos e, no fim de contas, ainda produz lucros miraculosos.

 

Quando o conto de fadas se desfaz inevitavelmente, aparecem logo muito indignados: “Como é que isto foi acontecer?!”, perguntam, de olhos arregalados e perdidos e o povo, como sempre, desculpa-os e acolhe-os no seu ombro.

 

Os liberais padecem desta hipocrisia endémica: no que lhes diz estritamente respeito são socialistas.

Um guião para privatizar uma empresa

por Amato, em 27.09.15

1. Desvalorizar a empresa.

     a) Proceder a investimentos ruinosos.

     b) Falhar compromissos com clientes existentes.

     c) Rejeitar novos clientes e novas oportunidades de negócio.

     d) Implementar uma política contracionista que rejeite qualquer forma de modernização da empresa.

 

2. Gerar propaganda pública e massificada sobre a inviabilidade da empresa através dos canais habituais que sempre se prestam a tal papel.

 

3. Despedir ou acordar rescisão com uma boa parte dos trabalhadores da empresa.

 

4. Construir um caderno de encargos para a privatização que inclua tudo e mais alguma coisa para acalmar vozes preocupadas.

 

5. Face aos pontos anteriores, vender a empresa a preço de saldo e, se possível, pagar ao privado que a compre.

 

6. Pegar no caderno de encargos e depositá-lo no caixote de lixo mais próximo.

 

http://www.struggle.com.pk/wp-content/uploads/2013/07/privatization-cartoon-1024x727-Small.jpg

 

Este tem sido o guião implementado pelos sucessivos governos, PS, PSD, PSD-CDS, para privatizar as mais diversas empresas públicas. É curioso que a maioria dessas empresas, antes da implementação do guião, eram lucrativas (ou dispunham de todas as condições para tal) e após a sua privatização rapidamente voltaram a sê-lo. Após a privatização dos Estaleiros Navais de Viana, por exemplo, choveram copiosas novas encomendas de diversos clientes quando, antes, incrivelmente, não existiam. Com a TAP, com a PT, qualquer coisa do mesmo género se passará.

 

O mais grave, contudo, é o facto deste mesmo guião estar neste preciso momento em pleno cumprimento nas empresas públicas ou com participação pública que sobram. Os próximos tempos serão reveladores, sobretudo se voltarem os mesmos a vencerem as eleições. Estejamos atentos. O meu palpite: o preço da gasolina vai disparar ainda mais, tal como já aconteceu com o da eletricidade, o do gás e o da água.

Sobre o pseudo

por Amato, em 24.07.15

É difícil comentar o nada e, ainda mais penoso, o vil. E é de algo de natureza da mais vil e desprezível de que se trata quando nos debruçamos sobre o que é notícia política em Portugal. Todavia, por simples imperativo de prática de escrita, abordarei aqui dois tópicos sugestivos de não mais que duas ou três palavras.

 

O primeiro tópico é dedicado a estas pseudo-entrevistas pseudomodernas onde existe um pseudopúblico expelindo questões pseudo-aleatórias e pseudo-representativas do universo de curiosidade da sociedade civil, tão em voga nas últimas semanas. Repare-se que a utilização deste elemento de composição “pseudo” é operada com respeito ao maior dos rigores linguísticos: nada há de mais falso e enganador na utilização de cada substantivo e de cada adjetivo acima elencado.

 

Existe uma vertigem eminente por parte dos media em fazer passar uma imagem diferente de si próprios, sobretudo, mas também da política. Essa vertigem justifica-se, numa certa medida, por um descrédito, chamemos-lhe assim, da coisa política entre as bases, as populações, que a têm sustentado até aqui. Não se confunda esse descrédito com aquilo que ele não é. Não se tome descrédito como sinónimo de descrença ou de mudança de vontades. Essas vontades permanecem fieis ao que sempre foram. Simplesmente, uma boa parte da população não liga uma pívia ao que se diz nas entrevistas da ordem ainda que saia à rua com a bandeira da setinha ou da rosa ou lá o que seja, porque isso muda todos os anos para animar a malta, de acordo com os patrocinadores. É como na bola.

 

Existe, portanto, este impulso, como um imperativo que martela sobre as cabeças dos chefões dos media, de dar ar de novo ao que é velho. E o que é velho são as perguntas combinadas, a ausência total de espinha dorsal, isto é, de um contraditório evidente às bacoradas que vão sendo jactadas do outro lado. Então, lembraram-se de ir buscar este modelo americano. Os meios de comunicação lembram-se sempre de ir aos states buscar destas ideias e doutras, luminosas e peregrinas. Então é vê-los, aos políticos, em contexto quase informal, descontraído até, entre um pivot passarinhante e uma bancada de indivíduos que poderão ser qualificados ou de papagaios ou de atrasados mentais, respondendo precisamente ao mesmo género de questões exatamente do mesmo modo, com um total absentismo de contraditório lógico. A vida tem disto: quantos mais anos sobrevivemos mais espetáculos deprimentes destes podemos assistir. E quanto mais velho me torno mais gosto da história d' “O Rei Vai Nu”, vá-se lá saber porquê.

 

Nada disto é irrelevante. Não se incorra no erro de pensar, nem que por momentos, o contrário. Os meios de comunicação social cumprem o seu maior desígnio: formar opinião, a precisa opinião que pretendem, plantando-a eficazmente no seio mais profundo da sociedade, para tal recorrendo a todo e qualquer recurso disponível.

 

Ao segundo tópico lanço-o conforme o mesmo me agrediu nesta manhã, enquanto passeava os olhos pelos jornais expostos na bomba de gasolina: “Poiares e Sérgio Monteiro despedem-se da política”. Parece que estão ambos muito cansados e, acrescento eu, com sentido de dever plenamente cumprido. De entre os membros desta sensacional parelha devemos destacar o papel de Sérgio Monteiro. Faz-me lembrar aqueles feirantes, aqueles que muitos de nós bem conhecemos, capazes de esvaziar, em apenas uma manhã de feira, todo o inventário de que dispõem. Sejam camisolas, soutiens, pares de peúgas, casacos ou bonés, seja o que for, vai tudo! E, se começamos a regatear preços com eles, conseguimos baixar o valor da compra até a um limite em que levamos a peça ao preço da chuva. É verdade: todos nós conhecemos o género. Todos nós, se fecharmos os olhos por um momento, vislumbramos a figura. Foi assim com a EDP, com a REN, com os CTT, com a TAP, com os transportes públicos, com os estaleiros navais, entre outros de menor montra.

 

Mas também todos nós conhecemos outros exemplos de outras personalidades com curtas mas muito ativas, e politicamente decisivas, participações políticas no país. São políticos que integram o governo com um caderno de encargos próprio, um caderno conferido em mãos pelos megalómanos patrocinadores de campanhas eleitorais, atrevo-me a imaginar. Lembro-me bem de um que apareceu tão depressa quanto desapareceu, num governo Durão Barroso, tendo sido senhor de uma participação determinante no processo de alienação da saúde pública para os grandes grupos privados. São intervenientes com um grau de independência surpreendente no seio dos seus governos. Parece que não respondem perante nada nem ninguém: estão para lá da política. São escolhidos a dedo: são escolhidos para cumprir objetivos muito concretos e não estão para fazer carreira política ou para construir uma qualquer imagem de credibilidade. Nada disso. Isso não lhes é relevante. São exemplo do pseudopolítico.

 

Quando as próximas eleições vierem, Sérgio Monteiro estará já longe da esfera política, muito longe, mas com dever cumprido. Quando as consequências dos seus atos governativos abalarem o país tão pouco se dará ao trabalho de responder pelas mesmas.

Bilhar chinês

por Amato, em 16.06.15

Tal como já havia aqui mesmo vaticinado, algures neste blog, a TAP acabou por ser despachada como se de uma bagatela se tratasse. Observe-se que a palavra “bagatela” é aqui empregue na sua mais justa aceção. Com efeito e para que conste, no dicionário online da priberam vem: objeto de pouco valor; coisa sem importância; frivolidade, ninharia; o mesmo que bilhar chinês.

 

Há quem diga que os dez milhões não chegam para comprar um avião comercial. Pela minha parte, até podiam chegar para comprar dois ou três. Não percebo de compra e venda de aviões. O meu entendimento fica-se pelas questões da verticalidade, do caráter e, até mesmo e porque não dizê-lo, da moralidade da coisa. No dia seis de novembro de dois mil e seis esta mesma TAP adquiriu a Portugalia, uma companhia bastante mais pequena, pela módica quantia de cento e quarenta milhões de euros, catorze vezes mais do que o preço por que hoje é vendida. Por isso, para mim tudo isto é bastante claro: ou os administradores da TAP em dois mil e seis, bem como todos os responsáveis políticos de então, vão para a cadeia por uma exorbitante e injustificada compra e consequente gestão danosa, ou vão os de dois mil e quinze por uma venda a preço vergonhosamente simbólico, escandalosamente baixo e, portanto, gestão criminosa da coisa pública. Das duas uma. Ou somos um país decente e alguém vai para a cadeia, ou não somos.

 

O que se pensaria se uma empresa têxtil fosse vendida pelo preço de uma máquina de costura? Ou uma empresa de transportes rodoviários pelo preço de uma camioneta? Mas raciocinar segundo esta lógica significa que já caímos na armadilha do capitalismo: significa que para nós tudo tem um preço e que apenas subsiste a elementar tarefa de procurar um justo valor de venda. Não é verdade. Tudo isto é surreal. No mundo do Homem evoluído, do Homem solidário, do Homem da fraternidade e dos afetos que sabe que apenas pode evoluir com o seu vizinho e não contra ele, nesse mundo poucas são as coisas com uma etiqueta de preço agarrada. Não há um preço, há um valor. E o valor da TAP é imenso para o português ainda que este possa não o saber. Seguramente, porém, aprenderá o seu valor algum dia quando as companhias aéreas, todas privatizadas, conjugarem os seus interesses à frente dos nossos.

 

Das tristes declarações do nosso presidente da república, que se diz muito aliviado com esta dádiva que foi a privatização da TAP, nem uma palavra. Não constituem sequer objeto de admiração. Apenas sugerem pena. Ou o contraponto adequado a este bilhar chinês em que se tornou o desgoverno de Portugal.

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