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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Presidenciais 2016: uma reflexão

por Amato, em 25.01.16

Em diversas ocasiões previ neste mesmo blog a vitória à primeira volta de Marcelo. O resultado não é, por isso mesmo, completamente inesperado. Também não é inesperado o resultado obtido por Sampaio da Nóvoa, o mais forte “candidato dos cidadãos”. Aliás, a votação nele vertida é equivalente à do seu antecessor, Manuel Alegre. O que é inesperado é a forma como os votos foram dispersos pelos outros candidatos; inesperado e seriamente grave para a esquerda em geral e para o momento concreto que vivemos hoje, particularmente para o governo atual.

 

Também isto já o escrevi nalgum post mas aproveito para o reafirmar em jeito de presságio: com este Presidente, o governo PS não chegará ao final da legislatura. Mas mais grave do que isso é a pressão que será exercida a partir de agora sobre a sua governação. O atual quadro de apoio popular aos partidos com assento na Assembleia transformou a correlação de forças e deslegitimou a coligação parlamentar.

 

Com efeito, toda a oratória da direita que resultou da derrota nas eleições legislativas, por muito infantil e medíocre que fosse, acaba por sair legitimada e reforçada com estas eleições que a dotaram de uma expressiva vitória por maioria absoluta. A democracia tem disto mesmo: os votos legitimam tanto o digno como o indigno, tanto o honesto como o corrupto, tanto o íntegro como o canalha.

 

Esta pressão popular far-se-á sentir (cá vem mais um presságio...) sobre cada aspeto da vida política e da vida corrente do país, sobre cada política adotada, sobre o caráter das medidas, sobre a escalada do patronato sobre os trabalhadores, sobre a influência dos sindicatos, sobre as decisões dos tribunais e sobre as interpretações que irão ser feitas das leis. Tudo isto se fará sentir, desde o salário real ao custo de vida, passando pelo intervalo de cinco minutos para ir ao quarto de banho durante o trabalho. Que ninguém tenha dúvidas: o povo português sentirá na pele, mais do que nunca, o poder do seu voto.

 

Medidas que iriam ser tomadas não o serão mais e, a pouco e pouco, a coligação parlamentar partir-se-á. A hipótese etérea de um tempo novo na política portuguesa com o PS a governar um pouco mais à esquerda esfumar-se-á rapidamente com o ajoelhar determinado de Costa à direita triunfante que o terá, seguro, debaixo de um pé, sob ameaça de uma dissolução parlamentar, até ao momento em que se decidir a fazê-lo desde o alto da cátedra do Professor Marcelo.

 

Um outro pormenor que concorrerá para este quadro desastroso é a pseudo-vitória do Bloco de Esquerda nestas eleições presidenciais e a derrota do Partido Comunista Português. Atribuo o prefixo pseudo pelo facto do Bloco de Esquerda ter efetivamente diminuído a sua votação em relação às legislativas e, portanto, resultar artificial a caracterização do resultado eleitoral como vitória, mas cada qual será livre de o entender como bem lhe aprouver.

 

A dinâmica da coligação parlamentar tripartida dependia de dois fatores essenciais: do peso combinado do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português e da influência deste último no que diz respeito à transmissão de uma certa dose de bom senso, de honestidade e de seriedade ao processo. O Partido Comunista Português é, por muito que custe entender, o fiel da balança neste acordo parlamentar. Não é somente a minha opinião, Pacheco Pereira disse qualquer coisa do género na Quadratura do Círculo. Por seu turno, o Bloco de Esquerda é o elo mais fraco desta coligação parlamentar, pelo seu aventureirismo, pela sua instabilidade e indefinição endémicas, pela sua sede de protagonismo, capazes de provocar o caos de um momento para o outro.

 

Os resultados eleitorais ditaram o fortalecimento do Bloco e da sua instabilidade e o enfraquecimento assinalável do Partido Comunista e da sua capacidade para segurar a coligação. Esta descida do Partido Comunista não era de todo em todo expectável sobretudo devido à ideia de um eleitorado fiel de sete ou oito pontos percentuais, ideia essa alimentada no histórico das eleições, mas não verificada desta vez.

 

O caldo está, enfim, preparado. O último ingrediente foi adicionado ontem e chama-se Marcelo. Teremos direita a influenciar o governo. Teremos austeridade. Teremos retrocesso. Teremos eleições para breve para reforçar a dose quando assim for necessário. O povo assim o quis.

“Conseguimos, Padrinho”

por Amato, em 25.01.16

Esta madrugada, antes de se deitar para dormitar aquelas duas a três horas que lhe são características, Marcelo terá olhado, emocionado, para o retrato que ainda hoje guarda carinhosamente emoldurado à cabeceira da cama e, de olhos semicerrados, vertendo uma singela lágrima de orgulho, terá dito:

 

— Conseguimos, Padrinho. Finalmente... conseguimos!

O problema é o povo

por Amato, em 25.01.16

O problema não são os políticos ou os governantes. O problema é o povo.

 

O problema não é a economia ou as teorias. O problema é o povo.

 

O problema não são as injustiças ou a desigualdade ou a miséria. O problema é o povo.

 

O problema não é a falta de liberdade, nem de democracia. O problema é o povo.

 

O problema não é a prepotência ou a opressão. O problema é o povo.

 

O problema não são os ditadores. O problema é o povo.

 

O problema não é a cabeça ou a ignorância. O problema é o coração e os sentimentos. O problema é a falta de solidariedade e o sentido de (in)justiça. O problema é o povo.

 

Problemáticas não são as consequências. Problemáticas são as causas. O problema é o povo.

 

O problema não são os políticos ou os governantes. O problema é o povo.

O povo é soberano e sapiente

por Amato, em 22.01.16

Hoje é o último dia de campanha eleitoral. No próximo domingo o povo escolherá o seu representante na Presidência da República corporizando no seu voto a própria natureza essencial da democracia.

 

Não interessa tecer mais comentários sobre os candidatos, nem sobre o tratamento informativo da campanha, nem sobre nada. O povo é soberano e sapiente e votará de acordo com a sua sabedoria e com o seu interesse.

 

E se, dentro do povo, a classe que vive do seu trabalho prefere escolher quem a espezinha para depois, na hora da dificuldade, se agarrar às bandeiras vermelhas de quem sempre os acode... há que aceitar: é uma escolha legítima.

 

Seja feita a sua vontade.

Sampaio da Nóvoa ou o paraquedista inocente e virgem

por Amato, em 21.01.16

As gentes perspiram sempre (!) duma “lógica” a preto e branco que aplicam a tudo o que veem e a tudo o que mexe. É necessário que se combata e que se desconstrua tal forma de interpretar o mundo.

 

Um exemplo pertinente do que acabo de referir é a seguinte implicação de predicados: se estamos contra Marcelo Rebelo de Sousa, e eu estou e reafirmo-o para quem possa ter dúvidas, então devemos apoiar Sampaio da Nóvoa. Não há nada de mais errado.

 

As mesmas razões que me fazem rejeitar Marcelo, servem também para rejeitar Sampaio. Essas razões podem não obstante ser muito mais claras no caso de Marcelo o que até se traduz, bem refletido, num ponto a seu favor. Depois existe um paralelismo formal evidente entre os candidatos: percursos profissionais similares, uma certa forma artificial e distante de sentir o mundo que é própria de muitos académicos, assim como uma certa comodidade na movimentação e na ascensão nesses meios. Há muito de superioridade, há muito de arrogância disfarçada ora de excentricidade, ora de distanciamento, quer num, quer noutro. Serve este parágrafo, portanto, para sublinhar o que une os dois candidatos para lá do que os sustenta nesta campanha.

 

Particularmente, Sampaio da Nóvoa, o candidato, é um oportuno nome mais ou menos desconhecido: aparece na cena política inocente e virgem do que quer que seja, parece que nada do que aconteceu terá tido alguma coisa que ver com a sua pessoa, nenhuma decisão política teve o seu aval ou apoio e, portanto, daqui se conclui, erradamente, que Sampaio mantem a sua integridade intacta. A conclusão resulta errada porque, em democracia, toda a inação deve ser interpretada como uma ação de apoio indireto à posição vencedora e porque, no mais, existe a ação concreta de Sampaio da Nóvoa. Essa ação distingue-se sobretudo por ter tido na sua pessoa o carrasco que levou a cabo o processo de fusão das universidades da capital, a clássica e a técnica, algo que não devia ser muito impressionante para a generalidade da esquerda. Para quem não tem memória, tal processo foi executado no tempo de Sócrates e é motivo de regozijo para o candidato.

 

Para além disso, menos relevantes são as interrogações que se erguem sobre a sua ascensão na carreira, sobre o seu currículo e sobre o facto de ser um dissidente comunista. É que normalmente ser ex-militante comunista não abona muito em favor de quem o é, nomeadamente no que concerne aos valores da coerência e do caráter políticos.

 

Sampaio da Nóvoa apenas tem uma vantagem relativamente a Marcelo para efeitos de segunda volta: a sua vitória poderá (?) significar um prazo de validade um pouco mais alargado para este governo e essa perspetiva já é o bastante. Será o bastante no que à segunda volta diz respeito, porque relativamente à primeira... não existem males menores, nem paraquedistas inocentes e virgens.

Marcelo ou o último exemplo de controlo social

por Amato, em 17.01.16

Marcelo Rebelo de Sousa é o último exemplo de como esta sociedade Big Brother exerce controlo ou, pelo menos, como influencia o pensamento de cada um dos seus elementos, de cada cidadão que pisa este solo retangular e que, todos os dias, procura sobreviver debaixo deste sol.

 

Marcelo Rebelo de Sousa é exatamente aquilo que é, nem mais, nem menos, mas isto é algo de diverso do que é apresentado na generalidade dos media. Hoje, Marcelo Rebelo de Sousa aparece-nos, televisão adentro, como um grande sábio, uma excelente pessoa, muito culta e muito capaz. Esta imagem levou mais de uma década a ser construída e juntou esforços de jornais, canais de rádio e de televisão. A verdade é que, quer quiséssemos, quer não, lá estava o Professor na TV a horas certas, a mandar bitaites sobre tudo e a recomendar livros. O Professor Marcelo substituiu o Vitinho e os Patinhos ao domingo à noite e a juventude habituou-se a ir dormir a seguir às suas palavras antes de acordar para uma nova semana de trabalho.

 

Não interessa que na vida política Marcelo tenha sido uma nódoa, incapaz de segurar a liderança do seu partido e de unir as suas vontades. E não interessa que Marcelo tenha sido uma nódoa de lavagem rápida rapidamente substituído por outros de menor currículo mas, todavia, capazes de fazer o que o Professor não soube ou não conseguiu. Nem interessa que Marcelo tenha virtualmente perdido todas as eleições a que concorreu. Nada da sua efetiva participação política interessa verdadeiramente.

 

Não interessa a ascendência de Marcelo e a sua íntima relação com o antigo regime. Diz-se que o último dos ditadores do Estado Novo, Marcelo Caetano, esteve para ser seu padrinho de batismo e diz-se que se batizou o menino de Marcelo em sua honra. Mas nada disso interessa porque Marcelo, o de 2016, sempre foi um democrata dos sete costados e nem sabia nada sobre o assunto. Nada do património histórico de Marcelo interessa verdadeiramente.

 

Não interessam as suas posições políticas. Não interessa que eventualmente seja um retrógrado conservador que preferiria os tempos simples do “antigamente” em que todos fossem à missinha ao domingo e em que as mulheres fossem umas parideiras de trazer por casa e a cuidar a casa enquanto os maridos trabalhavam de sol a sol para colocar comida na mesa. Não sei se é isso que o Professor pensa porque nada do que aquilo que o Professor Marcelo realmente pensa parece interessar aos meios de comunicação social, nem os sinais que foram sendo dados, nem os lados em que o Professor se foi colocando ao longo da passagem dos tempos.

 

Nada disto interessa porque o Professor Marcelo é afável e divertido, é simpático e bonacheirão e, por isso mesmo, dará um excelente Presidente da República que será muito próximo do povo.

 

O Professor Marcelo Rebelo de Sousa é, com efeito, apenas a face visível do controlo e da influência a que estamos sujeitos. Antes, há dez anos, tivemos já a cavalgada sebastiânica de Cavaco, imaculada de nódoas políticas passadas, até à presidência da República.

 

Não é que a maioria do povo não queira Marcelo. Provavelmente quer, estou seguro disso. Essa escolha, contudo, deveria ser limpa e transparente e não sob esta permanente capa de hipocrisia, este faz-de-conta com o qual se entretêm as crianças e se obtêm os comportamentos desejáveis.

 

Quando se fala em democracia avançada é exatamente o contrário disto que temos: esta democracia infantil feita de fantoches e de falsos ídolos, feita para ignorantes.

Baixa política

por Amato, em 14.01.16

Em política o mais baixo acontece não quando se assume uma posição distinta da nossa mas quando não se assume posição alguma. O não assumir de posição não resulta de incapacidade ou de ignorância mas de taticismo político, numa tentativa humanamente medíocre de conquistar o apoio de todos.

 

Quando perguntaram a Maria de Belém o que achava ela da redução do horário de trabalho na função pública para trinta e cinco horas, a candidata respondeu que ninguém, muito menos o Presidente da República (!), se deve imiscuir nas decisões parlamentares. Para ela, ao que parece, é indiferente que sejam trinta e cinco ou quarenta ou cinquenta as horas de trabalho semanais. Tanto faz!

 

Isto é um bom exemplo da mais baixa política. O que está na moda é isto: não dizer nada sobre nada, não assumir posição, não concretizar o que quer que seja, ser-se um falso espelho de virtudes, cobrir-se de uma manta de chavões e de lugares comum. Também Marcelo e os outros, os “independentes” e os “da cidadania”, fazem o mesmo com maior ou menor distinção.

 

Outra questão, diversa da anterior, é tentar perceber por que razão a baixa política é valorizada pela esmagadora maioria dos votantes, sendo que o edifício democrático que sustenta a sociedade derrama lágrimas de sangue a cada escrutínio.

http://clas.berkeley.edu/sites/default/files/shared/images/eventimages/2015-10-21-Vote%20Buying-%20Matador-4x3-750p.jpg

 

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