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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Devemos ficar preocupados com o resultado das eleições?

Passam hoje cinco dias da noite eleitoral de domingo último o que representa, em termos relativos contemporâneos, uma eternidade. Como é normal nestas coisas, ainda os votos não estavam suficientemente contados, já os candidatos e os representantes políticos faziam as suas declarações e os comentadores elaboravam as mais profundas reflexões sobre os resultados previstos pelas sondagens à boca das urnas.

 

Para todos aqueles que, frequentemente, se queixam do enviesamento e condicionamento da opinião pública, para os quais as várias empresas de sondagens objetivamente concorrem, a verdade é que a classe política, com as suas extemporâneas reações aos resultados de meras sondagens, ainda que feitas à saída do ato eleitoral, sem esperar por resultados mais consolidados, contribui ativamente para valorizar e credibilizar o “sistema” das sondagens.

 

E se é verdade que estas últimas sondagens, as que são feitas à boca das urnas, se revelam bastante precisas com respeito aos candidatos ou partidos, conforme o caso, mais votados, relativamente aos menos votados, todavia, se mostram perfeitamente inúteis, admitindo margens de erro da mesma ordem de grandeza das próprias votações esperadas.

 

Relativamente a estas últimas eleições presidenciais, todas as sondagens divulgadas acertaram no primeiro, no segundo e terceiro lugares. Quanto aos outros lugares, houve distribuições para todos os gostos, incluindo uma que colocava João Ferreira, o 4º classificado final, em 7º.

 

A partir dessas projeções traçaram-se, de imediato, os mais negros quadros. André Ventura, que podia chegar ao 2º lugar, com uma votação na ordem dos 15%, representava um perigo para a democracia, seria capaz de condicionar o PSD e exercer influência governativa a curto prazo à semelhança do exemplo de outros países europeus. Tiago Mayan, da iniciativa liberal, tinha também um excelente resultado podendo igualar ou superar os resultados da esquerda, estando uma inevitável reconfiguração da direita em curso.

 

Afinal, contados todos os votos, Ventura obteve uns meros 11,9% e Mayan uns míseros 3,22%. Estes resultados representam um sinal de preocupação? Em si mesmos, é evidente que não.

 

É precisa muita falta de memória para nos assustarmos com isto.

 

Em primeiro lugar Mayan. O crescimento da “onda liberal” equipara-se ao crescimento da “onda” de Vitorino Silva que obteve votação equivalente. Fica-se por aqui a análise à antecipada “onda liberal”.

 

Em segundo lugar, Ventura. Uma votação de 11,9% está em linha com outras votações em candidatos antissistema. Em 2016 Marisa Matias teve 10,12% de votos e em 2011 Fernando Nobre teve 14,1% de votos só para dar dois exemplos de votações semelhantes sem qualquer tipo de consistência política ou ideológica traduzidas numa total ausência de sequência eleitoral. Bem entendido, não me estou a referir aos candidatos individualmente, mas antes às características do voto que recolheram. Podia dar outros exemplos. Há razões para temer que a votação em André Ventura seja de natureza diferente? Não.

 

Relativamente à questão tão falada e ansiada da reconfiguração da direita, queria acrescentar ainda o seguinte. No dia em que Passos Coelho voltar ao PSD, coisa que se está a preparar nas sombras, pacientemente à espera que este governo caia de maduro, nesse mesmo dia acaba-se a Iniciativa Liberal e o Chega. A existência de ambos os projetos políticos só se justifica pela fixação dos quadros neoliberais e populistas que ficaram órfãos de partido com a saída de Passos e a entrada de Rio e pelo enfraquecimento da liderança deste último. Ponto. Esqueçam lá outras teorias e ideologias complexas.

 

Ventura ter tido 11,9% de votos é um resultado fraco que não vai além do mero voto de protesto a que as eleições presidenciais sempre tão bem se prestam e que tantos outros candidatos no passado conseguiram usufruir. No atual contexto, em que a direita deveria supostamente estar revoltada com a ação de Marcelo Rebelo de Sousa e a sua aliança com o governo PS, conseguir aglomerar apenas 11,9% é extremamente modesto. Se nestas eleições, com tudo a seu favor e com a abstenção que se verificou, Ventura não foi além deste resultado, acho que podemos todos dormir descansados à noite.

 

Se não devemos ficar assustados com o resultado eleitoral propriamente dito, devemos, sim, ficar preocupados com a cobertura mediática crescente, despudorada até, por parte dos jornais e das televisões, ao Chega e a André Ventura. Não me venham com a história de que o que é chocante ou grotesco vende mais jornais. O que se tem passado é uma objetiva valorização da mensagem da extrema-direita e, isto sim, pode ter consequências graves. Os 11,9% de votos aliados a uma cobertura mediática permanente podem, sim, fomentar uma curiosidade e uma ignorância que se podem converter, a breve trecho, num monstro incontrolável. Não há memória de um partido com 1,29% de votos nas últimas eleições ter a segunda ou terceira maior cobertura mediática registada nas eleições seguintes. Isto não é uma questão de mediatismo. É uma questão de escolhas, de escolhas editoriais, as mesmas que tantas vezes censuram um partido histórico, institucional e responsável como o PCP e o reduzem ao mínimo de visibilidade. É, antes de tudo, de escolhas ideológicas que se trata e é nosso dever exigir à comunicação social as suas devidas responsabilidades.

 

Quanto à crise da esquerda, não há novidade. PCP e BE mostram bem a encruzilhada política em que se meteram, vítimas da sua própria política de alianças de “mal menor” — com o PS, entenda-se — traduzida, nestas eleições, no voto útil dos portugueses e, em particular, dos seus próprios eleitores. Nem BE, com o seu voto contra face ao orçamento de estado, nem PCP, com o seu permanente apoio ao governo PS, conseguiram lucrar politicamente com isso, tendo assistido, impotentes, ao seu eleitorado divergir para Marcelo, maioritariamente, ou para Ana Gomes. Faça o que fizer, a esquerda não se consegue libertar da camisa de forças que vestiu.

 

O BE é, claramente, vítima do seu próprio discurso histórico de convergências de esquerda a qualquer custo, discurso esse que o coloca à mercê de qualquer candidato da área do PS que exiba algum grau de irreverência ou de não conformismo.

 

O caso do PCP é, claramente, mais grave. Continuamente a perder número de votos, eleição após eleição, joga o seu melhor quadro, o seu melhor candidato, numa espécie de tudo ou nada e, mesmo assim, obtém menos 2000 votos que Edgar Silva nas presidenciais de 2016 e que, na altura, tinha ficado marcado como o pior resultado de sempre do partido. O PCP tem toda a legitimidade para seguir este caminho de “renovação” e de alianças com a social-democracia burguesa, mas tem que perceber que, ao fazê-lo, ao se converter numa força da mesma espécie das que já existem, subtrai-se eleitoralmente.

 

O que é preocupante não é, pois, o resultado de André Ventura. Não há nenhuma ascensão do fascismo em Portugal nem da extrema-direita liberal. O país é, essencialmente, o mesmo que sempre foi com todas as suas virtudes e defeitos e a democracia é um bom espelho do nosso povo. A resposta eleitoral que foi dada mostra-o com clareza. O que é preocupante é outra coisa: é ver, por um lado, uma comunicação social a alimentar, por todas as formas, a besta fascista e, por outro, as forças progressistas completamente fora de jogo.

publicado às 13:29

João Ferreira, o único

Fiquei feliz, ontem. Acho que, como eu, uma parte dos eleitores de esquerda estava a desesperar por um momento assim: um político comunista a vencer um debate de ideias, assim, claro, preto no branco, sem ponta de contestação, face a um não comunista, particularmente um despudoradamente vestindo a camisola liberal.

 

João Ferreira nunca desilude verdadeiramente. Está sempre bem preparado, domina os vários temas, é ideologicamente muito sólido, é um excelente orador e ainda, como bónus, consegue sempre manter a sobriedade e a calma. Até ao momento, tem estado muito bem nos debates em que tem participado.

 

O debate contra André Ventura foi o que lhe correu pior, mas só com muita boa vontade é que podemos chamar àquilo que se passou um debate. André Ventura é alguém com uma capacidade invulgar em disparar mentiras, algumas bastante óbvias, e meias verdades e, a partir de determinado momento, limitou-se a berrar repetições de Coreia do Norte e Venezuela, desrespeitando as intervenções de João Ferreira e boicotando o debate até ao fim em perfeita consonância com a medíocre moderação da TVI. O pior momento de João Ferreira, na minha perspetiva, foi ter feito de advogado do governo na questão indefensável da nomeação do procurador europeu.

 

Ao contrário dos demais candidatos, João Ferreira é o único, Presidente Marcelo incluído, que parece conhecer o texto da Constituição da República, citando-a quase artigo a artigo. Isto diz muito sobre a competência das pessoas que estão a concorrer para um cargo onde, supostamente, a função principal é zelar pelo cumprimento da Constituição da República.

 

Voltando ao princípio do texto, é verdade que, contra um candidato como o que a Iniciativa Liberal apresenta, não era muito difícil brilhar. Tiago Mayan Gonçalves, de seu nome, apresenta-se com um conjunto de ideias tão frágeis, tão abundantemente refutadas pela realidade das sociedades capitalistas mundo fora que é muito difícil até que sejam articuladas num discurso minimamente inteligível sem o recurso aos chavões anticomunistas do costume. Nem isso, todavia, esse candidato conseguiu produzir, engasgando-se e enganando-se até (!) na Coreia com a qual queria atingir o candidato comunista. Não era a Coreia do Sul, Tiago, era a do Norte! Neste particular, acho impressionante a quantidade de gente das universidades que apoia isto, que alimenta este tipo de ideias. É revelador sobre a qualidade intelectual que tem tomado conta e preenchido o mundo académico no nosso país.

 

O debate contra Mayan foi, pois, amplamente dominado de princípio a fim por João Ferreira, traduzindo-se por uma vitória ideológica em toda a linha. Na verdade, é assim que devia de ser. Quem viu o debate teve a oportunidade de ver alguém que sabe do que fala, que argumenta logicamente, que explica o que se passou e faz propostas inteligíveis para resolver os problemas, alguém moderado e que faz sentido para além dos nossos gostos pessoais. Do outro lado, viu-se um conjunto de preconceitos económicos e ideológicos, de conceções utópicas e de apelos ao egoísmo, ao individualismo e ao bolso do povo, preconceitos que, verdadeiramente, nunca deram resultado em parte nenhuma do planeta, nem na América, o farol do capitalismo mundial, resultam. Preste atenção: o primeiro era o candidato comunista, o segundo era o liberal.

publicado às 14:31

Uma lâmina de dois gumes

A vitória de Rio nas últimas eleições internas do PSD constitui um alívio para todos aqueles que fazem gosto em alguma decência no panorama político nacional. É benéfico que se entenda a oposição a Rio como ela deve e merece ser entendida e não como uma natural disputa democrática no seio de um partido político.

 

Montenegro não se perfilava apenas como um mero salteador do poder. Esta contenda não brotou apenas de uma inexorável sede de poder feita indómita pelo oportunismo da ocasião que se proporcionou após as eleições legislativas. Não. Montenegro, qual general fiel ao seu imperador caído, corporizava o regresso ao passado mais sinistro do PSD, o partido da troika, da austeridade como elemento definidor e formador de uma espécie de caráter coletivo, da ignorância das ideias acabadas e de uma arrogância concomitante. Para além disso, seria também o regresso da histeria, da crítica fácil a tudo o que acontecesse, de uma oposição desprezível e tóxica. Rio, com todas as falhas que tem, com todos os “defeitos” ideológicos de que é portador na perspetiva da esquerda é, pelo menos, alguém respeitável e sério, avesso a espalhafatos e a folhetins. Rio é, pelo menos, alguém com quem se pode falar e isto não é de somenos importância.

 

Todavia, como parece ocorrer com todas as coisas da vida, não há bela sem senão, nem feia sem sua graça, a vitória de Rio transporta manchas negras nas suas margens, manchas cujo alcance contaminador parece ser de difícil previsão a esta distância à qual nos situamos mas que, porém, ali escorrem e se vão acumulando manifestas e inequívocas. A que manchas me refiro?

 

O contexto político português é, ao contrário do que possamos pensar, de uma delicadeza preocupante. Com efeito, politicamente falando, vivemos um tempo de poderes virtualmente indisputados: a presidência da república é ocupada por uma das figuras mais universalmente aceites de sempre e que se prepara para uma reeleição sem opositores; no parlamento, uma coligação informal, mas concreta, de partidos parece ter concedido ao PS eterna carta branca para formar executivo, independentemente deste lograr um maior ou menor número de votos, e governar a seu bel-prazer, ainda que ninguém consiga perceber bem a razão de ser da coisa, o que ainda a mantém viva e a sustenta.

 

Este aparente unanimismo que tomou a política portuguesa, e para o qual a reeleição de Rio, por constituir um tipo de oposição responsável, indiretamente concorre, é dissimulador da existência de uma massa concreta de pessoas que ideologicamente não se reveem no status quo, que não se sentem representadas politicamente ou que simplesmente já não conseguem suportar mais o “politicamente correto” perfeitamente desencaixado com a realidade que todos os dias enfrentam. Estas pessoas tendem, tragicamente, a confluir para uma espécie de saco político que, avidamente, as recolhe e cresce no panorama nacional: o Chega de André Ventura.

 

Existem vários sinais preocupantes que não devemos deixar escapar. O Chega tem tido mais tempo de antena nos canais mediáticos que toda a esquerda junta. O seu líder marca a agenda política e a imprensa estende-lhe um palco permanente para plasmar as suas palavras de ordem populistas e demagógicas. Nada, nenhuma evidência do passado, nenhuma contradição, nenhuma incoerência, nenhum defeito de caráter parece afetar a crescente popularidade de Ventura que, à semelhança do que Trump dizia há um tempo, podia dar um tiro a alguém no meio da rua que, ainda assim, continuaria a crescer nas intenções de voto. Com o PSD com uma liderança moderada, o CDS defunto e a Iniciativa Liberal a assumir-se cada vez mais como uma espécie de nado-morto político, com a putativa candidatura “única” de Marcelo à presidência da república que se avizinha — dificilmente PS, PSD e CDS apoiarão outros candidatos e dificilmente a esquerda encontrará uma figura alternativa a Marcelo que seja simultaneamente coerente com o passado recente da “geringonça” —, Ventura prepara-se para capitalizar sobre a sua própria candidatura, sobre o seu próprio movimento, todo o voto divergente e obter uma votação expressiva que pode ajudar a catapultar o Chega no panorama nacional como uma relevante força política de extrema direita.

 

É neste sentido que a reeleição de Rio pode constituir-se como uma espécie de lâmina de dois gumes. Se Montenegro tivesse vencido, talvez isso fosse pior para Ventura que, assim, teria que dividir o espaço mediático populista com um concorrente de peso, com experiência e provas dadas na matéria. É verdade, também, que a derrota de Montenegro parece ser apenas uma antecâmara adequada para uma reentrada triunfal de Passos Coelho na cena política, reentrada essa que já anda a ser preparada ao detalhe. Ainda assim, é tempo demais que se dá a Ventura que se vai alimentando, todos os dias, até ao ponto de não podermos deixar mais de o ignorar ou, simplesmente, de mudar de passeio quando o encontramos de frente na rua.

publicado às 10:32

Presidenciais 2016: uma reflexão

Em diversas ocasiões previ neste mesmo blog a vitória à primeira volta de Marcelo. O resultado não é, por isso mesmo, completamente inesperado. Também não é inesperado o resultado obtido por Sampaio da Nóvoa, o mais forte “candidato dos cidadãos”. Aliás, a votação nele vertida é equivalente à do seu antecessor, Manuel Alegre. O que é inesperado é a forma como os votos foram dispersos pelos outros candidatos; inesperado e seriamente grave para a esquerda em geral e para o momento concreto que vivemos hoje, particularmente para o governo atual.

 

Também isto já o escrevi nalgum post mas aproveito para o reafirmar em jeito de presságio: com este Presidente, o governo PS não chegará ao final da legislatura. Mas mais grave do que isso é a pressão que será exercida a partir de agora sobre a sua governação. O atual quadro de apoio popular aos partidos com assento na Assembleia transformou a correlação de forças e deslegitimou a coligação parlamentar.

 

Com efeito, toda a oratória da direita que resultou da derrota nas eleições legislativas, por muito infantil e medíocre que fosse, acaba por sair legitimada e reforçada com estas eleições que a dotaram de uma expressiva vitória por maioria absoluta. A democracia tem disto mesmo: os votos legitimam tanto o digno como o indigno, tanto o honesto como o corrupto, tanto o íntegro como o canalha.

 

Esta pressão popular far-se-á sentir (cá vem mais um presságio...) sobre cada aspeto da vida política e da vida corrente do país, sobre cada política adotada, sobre o caráter das medidas, sobre a escalada do patronato sobre os trabalhadores, sobre a influência dos sindicatos, sobre as decisões dos tribunais e sobre as interpretações que irão ser feitas das leis. Tudo isto se fará sentir, desde o salário real ao custo de vida, passando pelo intervalo de cinco minutos para ir ao quarto de banho durante o trabalho. Que ninguém tenha dúvidas: o povo português sentirá na pele, mais do que nunca, o poder do seu voto.

 

Medidas que iriam ser tomadas não o serão mais e, a pouco e pouco, a coligação parlamentar partir-se-á. A hipótese etérea de um tempo novo na política portuguesa com o PS a governar um pouco mais à esquerda esfumar-se-á rapidamente com o ajoelhar determinado de Costa à direita triunfante que o terá, seguro, debaixo de um pé, sob ameaça de uma dissolução parlamentar, até ao momento em que se decidir a fazê-lo desde o alto da cátedra do Professor Marcelo.

 

Um outro pormenor que concorrerá para este quadro desastroso é a pseudo-vitória do Bloco de Esquerda nestas eleições presidenciais e a derrota do Partido Comunista Português. Atribuo o prefixo pseudo pelo facto do Bloco de Esquerda ter efetivamente diminuído a sua votação em relação às legislativas e, portanto, resultar artificial a caracterização do resultado eleitoral como vitória, mas cada qual será livre de o entender como bem lhe aprouver.

 

A dinâmica da coligação parlamentar tripartida dependia de dois fatores essenciais: do peso combinado do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português e da influência deste último no que diz respeito à transmissão de uma certa dose de bom senso, de honestidade e de seriedade ao processo. O Partido Comunista Português é, por muito que custe entender, o fiel da balança neste acordo parlamentar. Não é somente a minha opinião, Pacheco Pereira disse qualquer coisa do género na Quadratura do Círculo. Por seu turno, o Bloco de Esquerda é o elo mais fraco desta coligação parlamentar, pelo seu aventureirismo, pela sua instabilidade e indefinição endémicas, pela sua sede de protagonismo, capazes de provocar o caos de um momento para o outro.

 

Os resultados eleitorais ditaram o fortalecimento do Bloco e da sua instabilidade e o enfraquecimento assinalável do Partido Comunista e da sua capacidade para segurar a coligação. Esta descida do Partido Comunista não era de todo em todo expectável sobretudo devido à ideia de um eleitorado fiel de sete ou oito pontos percentuais, ideia essa alimentada no histórico das eleições, mas não verificada desta vez.

 

O caldo está, enfim, preparado. O último ingrediente foi adicionado ontem e chama-se Marcelo. Teremos direita a influenciar o governo. Teremos austeridade. Teremos retrocesso. Teremos eleições para breve para reforçar a dose quando assim for necessário. O povo assim o quis.

publicado às 22:34

“Conseguimos, Padrinho”

Esta madrugada, antes de se deitar para dormitar aquelas duas a três horas que lhe são características, Marcelo terá olhado, emocionado, para o retrato que ainda hoje guarda carinhosamente emoldurado à cabeceira da cama e, de olhos semicerrados, vertendo uma singela lágrima de orgulho, terá dito:

 

— Conseguimos, Padrinho. Finalmente... conseguimos!

publicado às 13:55

O problema é o povo

O problema não são os políticos ou os governantes. O problema é o povo.

 

O problema não é a economia ou as teorias. O problema é o povo.

 

O problema não são as injustiças ou a desigualdade ou a miséria. O problema é o povo.

 

O problema não é a falta de liberdade, nem de democracia. O problema é o povo.

 

O problema não é a prepotência ou a opressão. O problema é o povo.

 

O problema não são os ditadores. O problema é o povo.

 

O problema não é a cabeça ou a ignorância. O problema é o coração e os sentimentos. O problema é a falta de solidariedade e o sentido de (in)justiça. O problema é o povo.

 

Problemáticas não são as consequências. Problemáticas são as causas. O problema é o povo.

 

O problema não são os políticos ou os governantes. O problema é o povo.

publicado às 11:58

O povo é soberano e sapiente

Hoje é o último dia de campanha eleitoral. No próximo domingo o povo escolherá o seu representante na Presidência da República corporizando no seu voto a própria natureza essencial da democracia.

 

Não interessa tecer mais comentários sobre os candidatos, nem sobre o tratamento informativo da campanha, nem sobre nada. O povo é soberano e sapiente e votará de acordo com a sua sabedoria e com o seu interesse.

 

E se, dentro do povo, a classe que vive do seu trabalho prefere escolher quem a espezinha para depois, na hora da dificuldade, se agarrar às bandeiras vermelhas de quem sempre os acode... há que aceitar: é uma escolha legítima.

 

Seja feita a sua vontade.

publicado às 19:01

Sampaio da Nóvoa ou o paraquedista inocente e virgem

As gentes perspiram sempre (!) duma “lógica” a preto e branco que aplicam a tudo o que veem e a tudo o que mexe. É necessário que se combata e que se desconstrua tal forma de interpretar o mundo.

 

Um exemplo pertinente do que acabo de referir é a seguinte implicação de predicados: se estamos contra Marcelo Rebelo de Sousa, e eu estou e reafirmo-o para quem possa ter dúvidas, então devemos apoiar Sampaio da Nóvoa. Não há nada de mais errado.

 

As mesmas razões que me fazem rejeitar Marcelo, servem também para rejeitar Sampaio. Essas razões podem não obstante ser muito mais claras no caso de Marcelo o que até se traduz, bem refletido, num ponto a seu favor. Depois existe um paralelismo formal evidente entre os candidatos: percursos profissionais similares, uma certa forma artificial e distante de sentir o mundo que é própria de muitos académicos, assim como uma certa comodidade na movimentação e na ascensão nesses meios. Há muito de superioridade, há muito de arrogância disfarçada ora de excentricidade, ora de distanciamento, quer num, quer noutro. Serve este parágrafo, portanto, para sublinhar o que une os dois candidatos para lá do que os sustenta nesta campanha.

 

Particularmente, Sampaio da Nóvoa, o candidato, é um oportuno nome mais ou menos desconhecido: aparece na cena política inocente e virgem do que quer que seja, parece que nada do que aconteceu terá tido alguma coisa que ver com a sua pessoa, nenhuma decisão política teve o seu aval ou apoio e, portanto, daqui se conclui, erradamente, que Sampaio mantem a sua integridade intacta. A conclusão resulta errada porque, em democracia, toda a inação deve ser interpretada como uma ação de apoio indireto à posição vencedora e porque, no mais, existe a ação concreta de Sampaio da Nóvoa. Essa ação distingue-se sobretudo por ter tido na sua pessoa o carrasco que levou a cabo o processo de fusão das universidades da capital, a clássica e a técnica, algo que não devia ser muito impressionante para a generalidade da esquerda. Para quem não tem memória, tal processo foi executado no tempo de Sócrates e é motivo de regozijo para o candidato.

 

Para além disso, menos relevantes são as interrogações que se erguem sobre a sua ascensão na carreira, sobre o seu currículo e sobre o facto de ser um dissidente comunista. É que normalmente ser ex-militante comunista não abona muito em favor de quem o é, nomeadamente no que concerne aos valores da coerência e do caráter políticos.

 

Sampaio da Nóvoa apenas tem uma vantagem relativamente a Marcelo para efeitos de segunda volta: a sua vitória poderá (?) significar um prazo de validade um pouco mais alargado para este governo e essa perspetiva já é o bastante. Será o bastante no que à segunda volta diz respeito, porque relativamente à primeira... não existem males menores, nem paraquedistas inocentes e virgens.

publicado às 11:45

Marcelo ou o último exemplo de controlo social

Marcelo Rebelo de Sousa é o último exemplo de como esta sociedade Big Brother exerce controlo ou, pelo menos, como influencia o pensamento de cada um dos seus elementos, de cada cidadão que pisa este solo retangular e que, todos os dias, procura sobreviver debaixo deste sol.

 

Marcelo Rebelo de Sousa é exatamente aquilo que é, nem mais, nem menos, mas isto é algo de diverso do que é apresentado na generalidade dos media. Hoje, Marcelo Rebelo de Sousa aparece-nos, televisão adentro, como um grande sábio, uma excelente pessoa, muito culta e muito capaz. Esta imagem levou mais de uma década a ser construída e juntou esforços de jornais, canais de rádio e de televisão. A verdade é que, quer quiséssemos, quer não, lá estava o Professor na TV a horas certas, a mandar bitaites sobre tudo e a recomendar livros. O Professor Marcelo substituiu o Vitinho e os Patinhos ao domingo à noite e a juventude habituou-se a ir dormir a seguir às suas palavras antes de acordar para uma nova semana de trabalho.

 

Não interessa que na vida política Marcelo tenha sido uma nódoa, incapaz de segurar a liderança do seu partido e de unir as suas vontades. E não interessa que Marcelo tenha sido uma nódoa de lavagem rápida rapidamente substituído por outros de menor currículo mas, todavia, capazes de fazer o que o Professor não soube ou não conseguiu. Nem interessa que Marcelo tenha virtualmente perdido todas as eleições a que concorreu. Nada da sua efetiva participação política interessa verdadeiramente.

 

Não interessa a ascendência de Marcelo e a sua íntima relação com o antigo regime. Diz-se que o último dos ditadores do Estado Novo, Marcelo Caetano, esteve para ser seu padrinho de batismo e diz-se que se batizou o menino de Marcelo em sua honra. Mas nada disso interessa porque Marcelo, o de 2016, sempre foi um democrata dos sete costados e nem sabia nada sobre o assunto. Nada do património histórico de Marcelo interessa verdadeiramente.

 

Não interessam as suas posições políticas. Não interessa que eventualmente seja um retrógrado conservador que preferiria os tempos simples do “antigamente” em que todos fossem à missinha ao domingo e em que as mulheres fossem umas parideiras de trazer por casa e a cuidar a casa enquanto os maridos trabalhavam de sol a sol para colocar comida na mesa. Não sei se é isso que o Professor pensa porque nada do que aquilo que o Professor Marcelo realmente pensa parece interessar aos meios de comunicação social, nem os sinais que foram sendo dados, nem os lados em que o Professor se foi colocando ao longo da passagem dos tempos.

 

Nada disto interessa porque o Professor Marcelo é afável e divertido, é simpático e bonacheirão e, por isso mesmo, dará um excelente Presidente da República que será muito próximo do povo.

 

O Professor Marcelo Rebelo de Sousa é, com efeito, apenas a face visível do controlo e da influência a que estamos sujeitos. Antes, há dez anos, tivemos já a cavalgada sebastiânica de Cavaco, imaculada de nódoas políticas passadas, até à presidência da República.

 

Não é que a maioria do povo não queira Marcelo. Provavelmente quer, estou seguro disso. Essa escolha, contudo, deveria ser limpa e transparente e não sob esta permanente capa de hipocrisia, este faz-de-conta com o qual se entretêm as crianças e se obtêm os comportamentos desejáveis.

 

Quando se fala em democracia avançada é exatamente o contrário disto que temos: esta democracia infantil feita de fantoches e de falsos ídolos, feita para ignorantes.

publicado às 11:45

Baixa política

Em política o mais baixo acontece não quando se assume uma posição distinta da nossa mas quando não se assume posição alguma. O não assumir de posição não resulta de incapacidade ou de ignorância mas de taticismo político, numa tentativa humanamente medíocre de conquistar o apoio de todos.

 

Quando perguntaram a Maria de Belém o que achava ela da redução do horário de trabalho na função pública para trinta e cinco horas, a candidata respondeu que ninguém, muito menos o Presidente da República (!), se deve imiscuir nas decisões parlamentares. Para ela, ao que parece, é indiferente que sejam trinta e cinco ou quarenta ou cinquenta as horas de trabalho semanais. Tanto faz!

 

Isto é um bom exemplo da mais baixa política. O que está na moda é isto: não dizer nada sobre nada, não assumir posição, não concretizar o que quer que seja, ser-se um falso espelho de virtudes, cobrir-se de uma manta de chavões e de lugares comum. Também Marcelo e os outros, os “independentes” e os “da cidadania”, fazem o mesmo com maior ou menor distinção.

 

Outra questão, diversa da anterior, é tentar perceber por que razão a baixa política é valorizada pela esmagadora maioria dos votantes, sendo que o edifício democrático que sustenta a sociedade derrama lágrimas de sangue a cada escrutínio.

http://clas.berkeley.edu/sites/default/files/shared/images/eventimages/2015-10-21-Vote%20Buying-%20Matador-4x3-750p.jpg

 

publicado às 21:00

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