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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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O significado de belas artes

por Amato, em 15.10.16

Creio seriamente que este sistema que nos governa procura fazer de cada um de nós um atrasado mental. Agora querem fazer com que concordemos com a atribuição do Nobel da literatura a Bob Dylan usando argumentação variada: porque Dylan é um poeta dos melhores, porque não devemos ser puristas ou preconceituosos relativamente ao formato “canção”, porque Dylan escreveu um — um! — livro no século passado — e porque — esta é a minha preferida — escreve muito bem! Não aceitem esta linha argumentativa, por favor! Digam “Não!” a quem tenta fazer de vós atrasados mentais.

 

Deixo aqui algumas reflexões.

 

  1. Se existisse um prémio para galardoar a melhor peça musical, seria possível o género pop competir com o género operático?

 

  1. Se existisse um prémio para galardoar a melhor obra na área das belas artes, poderia uma caricatura ou um cartoon ser considerado para o prémio?

 

  1. Não é suposto o Prémio Nobel ser concedido a quem produziu uma grande obra no ano que finda à qual se junta uma carreira assinalável na área?

 

As respostas são não, não e... sim. Isto não quer dizer que estejamos a ser preconceituosos ou puristas relativamente ao formato da obra. O que significa é que há um significado para o conceito de beleza na Literatura, como em qualquer outra manifestação artística, aquilo que é tão bem definido na Pintura ou na Escultura através do conceito de “belas artes”. Tudo é virtualmente passível de ser considerado como arte. Belas artes, todavia, é outra coisa. Cada formato tem o seu significado e a sua importância, é verdade, mas isso é uma outra história. O que fizeram com o Prémio Nobel da Literatura deste ano foi procurar aniquilar qualquer vestígio deste conceito.

Um azar nunca vem só

por Amato, em 14.10.16

Estou um pouco chateado. É que estive à procura do meu CD Best of AC/DC e não há forma de o encontrar. Não faço ideia onde o terei guardado... As músicas são excelentes, mas as letras... sublime poesia.

 

Entretanto, fontes próximas confirmam-me que os AC/DC estão na pole position para o Nobel da Literatura do próximo ano. É caso para dizer que um azar nunca vem só: perder o CD de uma excecional banda de rock e uma peça literária ímpar imortalizada em áudio e potencialmente premiada com o Nobel no próximo ano...

 

For those about to Nobel, we salute you!

 

 

Pop Nobel

por Amato, em 13.10.16

A atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan deve ser entendida no estrito contexto de pronunciado declínio da Literatura no mundo contemporâneo. Esse declínio está intimamente conectado com o esbatimento das formas, dos conceitos, em particular no que diz respeito à forma romance e ao próprio conceito de arte.

 

O capitalismo tem destas coisas. Como na nossa sociedade há apenas uma entidade, um valor, que se sobrepõe a todas as outras — o capital —, então é apenas uma questão de tempo até que todas as outras se moldem e se esbatam em função dessa.

 

O romance dos tempos modernos saiu de moda. É um produto que quase que não se fabrica mais. A sociedade da competição, a vida a mil à hora, não se coaduna com a leitura de um escrito substancial, massivo, que necessita de tempo para ser entendido, de horas consecutivas para ser apreendido, interiorizado. Esta sociedade prefere, com efeito, o parente pobre do romance, o chamado romance de cordel. Não interessa se o desenrolar do mesmo seja uma meia dúzia de lugares-comum que se repetem ad nauseam. Com efeito, é melhor deste modo: assim poupa-se no pensar. Por outro lado, o que interessa mesmo é o número de cópias vendidas — lembram-se? —, não é a arte que é vertida em tinta nas páginas brancas.

 

Por seu turno, o conceito de arte tornou-se numa entidade mais abstrata do que qualquer outra, do que jamais foi. Chegamos ao ponto de medir a arte de uma obra pela publicidade gerada, pelo número de likes e de partilhas, para além do número de vendas. Podemos dizer que não, mas na prática é exatamente assim. Se existisse um mínimo de brio profissional na edição livreira, se existisse um mínimo de consideração, de amor, pela arte, se houvesse um conceito concreto qualquer que fosse, então uma boa parte dos livros à venda atualmente nas estantes das livrarias não seria sequer publicada, simplesmente. Não é possível perceber como é que se pode produzir tanto lixo em forma de livro se não se imaginar que possam existir outros objetivos afluentes que se pretendem atingir junto das massas.

 

A atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan, já o tinha escrito neste blog a propósito de Vargas Llosa — nem de propósito! —, não é muito relevante, mas deve ser entendida sob este ponto de vista. Há quem diga, e com toda a razão, ser incrível que Portugal, historicamente um país de excelentes escritores, ter apenas um laureado comparativamente com outros países como a Suécia que tem sete vencedores. Isto também diz muito sobre a qualidade das escolhas. Contudo, pela forma como a carruagem Nobel está a fazer o seu caminho, tenho muito receio que o próximo português vencedor do Nobel da Literatura, ou desta nova versão do Pop Nobel, venha a ser algum escritor da espécie de José Rodrigues dos Santos. Tenho receio porque, acima de tudo, se está a tornar provável e porque ainda me sobra alguma noção do ridículo e, por isso, também alguma vergonha.

Uma triste figura

por Amato, em 08.10.16

A primeira vez que ouvi o nome de Mário Vargas Llosa foi a propósito da atribuição do prémio Nobel da literatura a este escritor. O ano de 2010 precipitava-se para o seu términos. Na altura não percebi a razão de ser da atribuição deste prémio. Continuo a não perceber. Talvez um dia, quando a força das circunstâncias assim o exigir, pegarei um livro seu em mãos e, então, serei capaz de ajuizar sobre a justeza de tal atribuição.

 

A verdade é que o prémio Nobel não significa muito. Sejamos honestos e não dispersemos com a rudeza das palavras escritas: quantos prémios Nobel da literatura ficaram para a história? Quantos? Conseguem nomeá-los? Até vos faço um favor: percorram a lista da wikipedia e digam-me, honestamente, quantos dos laureados consideram que serão imortalizados acima do escorrer das areias do tempo? Admirados? São poucos?

 

Tal facto apenas vem concorrer para aquilo a que o prémio se tornou ao longo dos anos: um prémio totalmente politizado — no mau sentido —, travestido de qualquer sentido de arte, a leste de qualquer conceito de literatura, com o objetivo único de premiar não o escritor, mas aquilo que o escritor representa, isto é, de usar o escritor como uma bandeira para influenciar politicamente os povos.

 

Claro que, pelo meio, há Steinbeck, há Neruda, há Saramago, há Russel, Sartre e Shaw e ainda Hemingway e García Márquez e existirão outros, com certeza, mas estes acabam por ser exceções a uma regra vil e pérfida que se vem tornando mais carregada, mais descarada, a cada ano que passa.

 

Voltando a Llosa, devo confessar que “comecei” mal com o personagem. Ter como ponto alto do seu currículo uma altercação com Gabriel García Márquez, pareceu-me sempre pouco abonatório com respeito à sua pessoa. Dizem que se tratou de uma “questiúncula de saias”. Nunca consegui interiorizar bem a coisa, todavia. Como é que alguém poderia se chatear com um dos mais queridos, com um dos mais admirados, escritores latino-americanos, o mestre criador do realismo mágico que nos presenteou com algumas das mais preciosas obras literárias? Claro que as coisas não são bem assim, claro que o escritor e o homem não se constituem como entidades indissociáveis com propriedades transferíveis.

 

Hoje percebo melhor a questão. Vargas Llosa poderá ser um excelente escritor, mas é um indivíduo de uma pobreza intelectual assustadora. As recentes declarações sobre o Podemos espanhol e o que realmente pensa sobre o mapa geopolítico na América Latina, na qual se inclui o seu posicionamento sobre as FARC e o processo de paz na Colômbia, são um bom exemplo disso. Qualquer ignorante diria o mesmo. Qualquer ignorante talvez o dissesse melhor, descontados quaisquer assombros de pseudo-intelectualidade.

 

Na verdade, não sei se terá sido a tal “questiúncula de saias” a responsável pelo afastamento de Márquez e Llosa. Talvez sim. Para mim, contudo, a razão essencial terá sido, antes, o facto de Márquez ter visto a vivas cores a natureza medíocre de Llosa. De todas as atoardas que Llosa lançou nos últimos dias, a que para mim se reveste de maior dramatismo é a seguinte: “As utopias não trazem o paraíso à terra. Criam o inferno.”

 

Com esta tirada não sobra mais nada para se dizer. Para Llosa, contentem-se com o que temos: não vale a pena ambicionar mais nada. Ficamos por aqui. Para mim, é extraordinariamente triste ouvir tais palavras.

 

Acima, escrevi que Llosa talvez fosse um excelente escritor. Esqueçam. Quem diz uma coisa destas não pode ser um excelente escritor, tão pouco um razoável escritor. Tão pouco um razoável ser humano. Esqueçam a diferença que existe entre o escritor e o ser humano. Não se aplica. Llosa apenas poderá ser um medíocre, um triste escritor, um triste homem... uma triste figura.

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Amato

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