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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

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TAP: cronologia de um roubo

por Amato, em 03.07.20

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Sensivelmente a meio de 2015 ficava decidido o processo de privatização da TAP. O processo foi longo e levou décadas de apurada preparação da empresa para a sua entrega ao mercado privado, atravessou múltiplos governos, num roteiro que incluiu a condução de uma empresa lucrativa e dominadora de uma quota importante do mercado aéreo da influência da lusofonia a transformar-se, através de catastróficas operações de mercado e ruinosos negócios jamais explicados ou explicáveis, numa empresa de crónicos e avultados prejuízos operacionais.

 

A entrega da empresa aos ávidos abutres do mercado privado viria a ser feita, servida em bandeja de prata, a meias entre uma decisão de um fugaz governo de faz de conta de Passos e Portas, que até parece ter tomado posse para assinar à pressa meia dúzia de despachos do género deste da TAP, e um governo socialista que, geringonçado ou não, pôs em prática o seu característico e inesgotável engenho em baralhar, baralhar, baralhar para, no fim de contas, distribuir mãos iguais a todos os jogadores em redor da mesa.

 

A troco da empresa, o consórcio congeminado pelo estado a propósito da operação de privatização, terá depositado uma soma de 10 milhões de euros, valor risível, mas leoninamente defendido pelo governo devido à situação catastrófica que a empresa de aviação vivia na altura do negócio e com base no dinheiro que seria necessário lá colocar para tapar buracos financeiros.

 

Volvidos quatro anos de desastrosa gestão que enterrou a empresa a um nível de praticamente não retorno acompanhados, como é prática habitual, de chorudas distribuições de dividendos pelos acionistas, o estado vê-se forçado a intervir na TAP para que esta não deixe, pura e simplesmente, de existir.

 

Agora, assinale-se, o estado elabora manifestos impressionantes e tocantes no que diz respeito à importância estratégica da TAP para a economia nacional. É pena que não os tivesse elaborado, em coerência, no início de todo este processo quando já era governo. Em todo o caso, o estado procede a uma nacionalização encapotada, de acordo com as regras do mercado, adquirindo uma participação maioritária na empresa.

 

Para isso — pasme-se! — o estado desembolsará uma soma de cerca de 55 milhões de euros. Queira o leitor fazer-me o favor de recuar umas linhas neste texto e comparar com o valor que o estado terá recebido há cerca de quatro anos. Adicionalmente, também desta feita o estado não amortizará o valor de compra com o buraco financeiro da TAP tal como foi feito no processo de privatização. Bem entendido, o estado paga 55 milhões, paga o buraco financeiro da empresa e ainda outras tecnicalidades da treta, disfarçadas de empréstimos obrigacionistas ou outras coisas que tais, que são o mesmo que dizer que quem destruiu a TAP nestes anos, para além da choruda indemnização, vai continuar a receber uma renda do estado. Tudo legal. Tudo no estrito cumprimento da letra dos contratos e da lei. Tudo isto para que daqui por um certo tempo, necessário para que a poeira deste escândalo assente, se volte a entregar a empresa a privados em novo processo de privatização carregado de boas intenções.

 

Seremos sortudos, talvez, por podermos assistir, desde a primeira fila, ao mais maravilhoso do capitalismo em ação, como os estados burgueses se ajoelham, de pés descalços, aos interesses omnipotentes do capital. Isto é o que é o capitalismo de estado. Esqueçam as entradas enciclopédicas. Isto é o que é uma população a trabalhar para entregar integralmente o fruto do seu trabalho nas mãos de uma meia dúzia de senhores. Não é preciso ler Rousseau, Marx ou Proudhon: aí está, diante de nós, tão viva, pulsante, a natureza do sistema, não carece de explicação. Chega, por isso, de desculpas.

 

Chegam-nos notícias de que algo de parecido também se prepara na Efacec. Depois de se ter entregado a empresa a interesses angolanos e de ela ter sido abandonada a uma espécie de limbo com origem nas lutas pelo poder nesse país às quais nós, Portugal, enquanto menino bem comportado, de bem com deus e com o diabo, nunca nos opusemos, prepara-se uma nacionalização da empresa, que deve ser entendida como um não se preocupem: aqui estamos nós para pagar o que se deve, já com a promessa antecipada de reprivatizar a empresa o mais depressa possível.

 

É por estas e por outras que, quando nos dizem que um liberal abomina as nacionalizações ou essa pérola do “não há almoços grátis”, não nos devemos acreditar. É que é exatamente ao contrário: os liberais adoram as nacionalizações. As nacionalizações são os almoços, os jantares, os lanches, os carros, os aviões, os cartões de crédito, os plafonds ilimitados, tudo grátis. Tudo grátis. Só que é só para alguns.

 

O dever de qualquer força revolucionária deveria ser, pois, a total oposição e recusa em participar nesta encenação, neste roubo descarado, eternamente perpetrado pelos governos burgueses ao seu povo e não fazer parte deste ciclo vicioso golpista, nem que por mera inocência ideológica, como é o que normalmente acontece.

 

E nós, enquanto povo, devemos dar-nos por satisfeitos e orgulhosos: em todo este processo estamos mais pobres, mais endividados e patrimonialmente delapidados, de futuro eternamente adiado, embora tenhamos a maioria na TAP. O estado, esse, fez exatamente o que lhe competia nesta economia de mercado global que tanto adoramos: prepara-se para pegar no dinheiro do povo e em contrair dívida em nome do povo para sustentar as fortunas da burguesia.

 

 

Esquerda, esquerda, luta de classes, luta de classes…

por Amato, em 18.06.20

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Mais um orçamento, mais um voto de confiança, mais uma carta branca, mais uma fé absolutamente infundada num amanhã venturoso. A esquerda continua a segurar este governo burguês com unhas e dentes. Dizem que não é assim tão mau, que podia ser pior e, sobretudo, mantêm uma esperança juvenil numa discussão na especialidade que venha a acolher algumas das suas sugestões. A esquerda acha que são medidas desconexas e avulsas que justificam um orçamento de estado, isto depois de mais de quatro anos de cativações assumidas sem pudores que vieram a declarar toda e qualquer discussão em sede de orçamento de estado não mais que um engano, uma fantochada, um fingimento, um brincar ao faz-de-conta.

 

Não é preciso, sequer, estudar os relatórios de contas e de execução orçamental para se perceber que o significado prático dos orçamentos de estado é confrangedor e que os textos anunciados sempre com tanta pompa são, afinal, histórias de encantar. Mas a esquerda persiste, faz-se personagem principal do golpe de teatro, critica mas apoia, diz que não é bom mas também não é muito mau, diz que não se avança mas também não se anda para trás, que se abstém mas que, se fosse mesmo preciso, votaria a favor — esta última não disse, mas ninguém disso duvida nem por um segundo apenas. Nem um, nem outro percebeu muito bem o que o seu eleitorado quis dizer nas últimas eleições, tragédia das tragédias.

 

E foi mais um orçamento aprovado — isso é que conta —, suplementar como lhe chamam, um orçamento que pode muito bem vir a ser recordado como o orçamento que permitiu ao grande capital monopolista preservar os seus lucros em tempos de pandemia e confinamento à custa diretamente dos salários, dos rendimentos e das poupanças do povo trabalhador.

 

Ai!, luta de classes, luta de classes…

 

Será que a esquerda terá a coragem de assumir a sua parte ativa nas consequências que aí vêm ou vai continuar a fingir que não é nada com ela e que este governo governa por si próprio sem pecado e sem maioria? É que quando as responsabilidades chegarem serão divididas por todos, irmãmente, e elas são como a sujidade, como o lodo, mancham e se impregnam nas roupas e nos corpos. E de nada valem as oratórias de algibeira, as cassetes e os discursos ensaiados. Estão esvaziados. Sem prática, as palavras não valem nada.

Um olhar no dia do trabalhador

por Amato, em 01.05.20

No momento em que o governo colhe louros e recebe congratulações vindas das mais variadas fontes com respeito à sua atuação face à epidemia, importa separar o trigo do joio, isto é, perceber o que é mérito das instituições e o que é fruto da aleatoriedade fenomenológica.

 

A primeira pergunta a fazer é: foi a atuação do governo português muito diferente da do governo italiano, por exemplo? Segundo o que consta, não, particularmente relativamente aos timings dos encerramentos de aeroportos e fronteiras, de estabelecimentos e dos confinamentos. Aliás, os confinamentos italianos foram muito mais rigorosos do que aqui tendo todo o país sido submetido a regime de quarentena. Por cá, apenas a cidade de Ovar foi submetida a esse regime.

 

Será que a diferença se deveu a uma maior preparação e capacidade de resposta dos nossos serviços de saúde? Não me parece. Não sendo eu um profundo conhecedor do sistema de saúde italiano, resulta evidente o quão mal preparados os nossos serviços estavam. O recente estudo publicado pela Ordem dos Médicos de Portugal aponta exatamente para uma conclusão que qualquer um já esperava: que o número de óbitos no nosso país, quando comparado com o período homólogo do ano passado, disparou muito mais devido à falta de cuidados para doenças comuns do que em razão direta ou indireta do surto de covid-19.

 

Sublinho a não necessidade de um estudo para termos consciência deste facto. Discordo ainda frontalmente de todas as pessoas que defendem o sistema dizendo que nunca seria possível fazer face à pandemia. Isso é a argumentação que importa defender pelo governo e pelo sistema para que responsabilidades sérias não sejam exigidas. A verdade, todos nós sabemos, é que o nosso sistema de saúde já vinha sendo definhado e operava nos mínimos dos mínimos e qualquer desafio extra que se visse obrigado a enfrentar poria em causa a assistência à população como o que veio a ocorrer.

 

Que estas palavras sirvam para refrescar a memória de quem as lê: na viragem de 2018 para 2019, o país enfrentou uma onda excecional de gripes que, na altura, colocou os hospitais portugueses de lés a lés a rebentar pelas costuras. Eram gripes comuns, não vinham da China ou de outro país qualquer. Já ninguém se lembra dos doentes amontoados nos corredores, nas salas repletas de macas com idosos e enfermos? Já ninguém se lembra das desculpas esfarrapadas de Marta Temido, a mesma ministra da saúde, e das promessas de contratação de pessoal jamais concretizadas? Parece que não. Somos gente de parca memória.

 

Mais de três mil milhões de euros foi o valor que o grupo que detém a maior fatia da saúde privada do país fez esta semana com a venda de uma parte da Brisa a poderes estrangeiros. Seguramente que esse valor será colocado ao serviço do povo português. Seguramente. Não percamos a fé.

 

Se há coisa que esta pandemia mostra é o quão insuficiente é o nosso serviço nacional de saúde e, por seu turno, o quão inconsistente é o serviço privado, perfeitamente incapaz de se assumir como a alternativa que sempre apregoa ser e preferindo, como aliás faz parte da sua natureza, a procura desenfreada pelo lucro mesmo no momento mais difícil e delicado da vida dos portugueses.

 

Neste momento, todas as promessas são vãs e oportunistas, mas no dia de depois de amanhã estaremos cá para ouvir se as prioridades do país serão os seus serviços ou se, passada a epidemia como esperamos, esquecidos todos os medos, vamo-nos limitar a uma distribuição de méritos e de condolências, de palavras bonitas, de memoriais carregados de sentimento e prosseguir o caminho de liberalização da sociedade e de destruição do estado e dos seus serviços.

 

Não, o nosso governo não merece todo o crédito que tem recebido: tomou e continua a tomar as mesmas decisões erráticas e tardias que o resto da Europa; abandonou os seus doentes e necessitados para concentrar todos os seus poucos recursos no combate ao covid-19; procedeu a gastos e investimentos desorganizados e apressados — ainda esperamos e desesperamos por ventiladores com instruções em chinês —; desorganizou o país colocando sobre os ombros do povo trabalhador o ónus da pandemia, mais de metade perdeu o emprego ou está em regime de lay-off; e pôs a segurança social a suportar os lucros das grandes empresas com consequências das quais apenas teremos conhecimento quando tudo isto já estiver esquecido e quando se começar a falar novamente em fundos de pensões, em diminuição de reformas e obrigação de trabalhar até mais tarde. Ainda esta semana vimos como a Bosch, a poderosa multinacional alemã apressou-se a colocar os seus trabalhadores em regime de lay-off sem qualquer tipo de justificação ou de necessidade que não a de manter intactos os seus proveitos à conta de todos nós.

 

Não, o nosso governo tem-se limitado a jogar o jogo dos interesses e tem tido sorte. Afinal, sermos um pequeno país tem algumas vantagens no que ao controlo de calamidades diz respeito. Isso e, claro, o facto de que o vírus, vá-se lá saber porquê, não gostar muito dos nossos ares. Sorte a nossa.

 

Sorte a nossa.

O meu 25 de abril não é o mesmo que o teu

por Amato, em 23.04.20

Aproxima-se rapidamente o dia em que se comemoram 46 anos desde o 25 de abril de 1974, uma data histórica e ímpar para Portugal e que, independentemente das opiniões, marcou a entrada do país na modernidade.

 

A história de Portugal é marcada por um conservadorismo recorrente e insistente, de braço dado com um não menos irritante provincianismo. O país dos “brandos costumes”, das fezadas sebastiânicas em noites de nevoeiro, sempre de olhinhos brilhantes, boquiabertos, em direção à virtude estrangeira relativamente à incapacidade nacional e sempre, sempre, fazendo mundos e fundos, gastando o que tinha e o que não tinha, para impressionar os poderes além fronteiras. Ainda hoje vemos isso mesmo, vemos claro este padrão comportamental diante de nós, como nos ajoelhamos perante a autoridade europeia e não apenas, como fazemos de tudo para sermos os bons alunos de políticas que, em última análise, apenas lesam os nossos legítimos interesses.

 

Fomos para além da troika. Somos conservadores relativamente aos próprios conservadores, porque só assim podemos ser os bons alunos. Só assim podemos ser reconhecidos. Nada se compara com a espetacularidade do cortejo que, pelas ruas de Roma, marcou a entrada da embaixada portuguesa no Vaticano em 1514, um desfile que incluía leopardos, cavalos persas e um elefante indiano. Nada se compara com isso. Mas é exatamente esse deslumbramento, esse desesperado desejo de reconhecimento que eu chamo de atitude provinciana e que tem sido nota dominante na nossa, em todo o caso, brilhante e longa história enquanto nação.

 

A esta história de serventualismo impuseram-se exceções não muito frequentes e, ainda assim, por ventura mais odiadas do que admiradas. Uma delas, a mais recente, foi o 25 de abril de 1974. A revolução abriu portas a uma criação cultural e artística sem precedentes, a dinâmicas sociais que se julgavam inexistentes e permitiu que lográssemos compor uma lei fundamental que ainda hoje, virado um milénio de costumes, é motivo de estudo e é altamente considerada pelo seu alcance progressista.

 

O 25 de abril foi, com efeito, muito mais do que uma simples revolução para operar uma mudança de regime. Para muitos, foi uma revolução que pretendia a transformação das dinâmicas da sociedade, foi o resultado natural da falência de um modelo económico, mais do que de um regime político. Para muitos a revolução tinha um alcance diferente, lançando as bases para uma sociedade mais igualitária, sem classes, avessa à concentração de riqueza, pelo desenvolvimento do país e pelo bem estar de todos os cidadãos. Os conceitos de liberdade e de democracia não se esgotavam em meras encenações protocolares quadrienais: eram conceitos materializados no fim da fome, na habitação, educação, cultura e saúde para todos, no pleno emprego.

 

Este 25 de abril, pode-se dizer, foi efémero mas, todavia, as ondas de choque que provocou na nossa sociedade, que nunca deixou de lado o seu conservadorismo e o seu provincianismo de estimação, foram suficientes para influenciar o rumo do país durante décadas. O estado social criado, os direitos civis e laborais conquistados aí estão como prova viva do que escrevo.

 

É com tristeza que assisto ao desmantelar contínuo desse legado do 25 de abril de 1974 operado através da própria democracia. É com tristeza que vejo os ponteiros do relógio inverterem o seu movimento.

 

E é por isso que existem dois 25 de abril, duas revoluções. Existe a revolução dos progressistas, dos sonhadores, dos revolucionários, dos utópicos. Essa ficou aquém dos sonhos e da utopia mas foi maravilhosamente transformadora. E, depois, existe a revolução dos provincianos, dos conservadores, dos servis, daqueles que, em boa verdade, também estavam bem providos com o estado novo. Para esses, a revolução foi apenas uma transição, uma mudança de caras e hoje, mais velhos, mostram-se incapazes de esconder um certo saudosismo.

 

Para os primeiros é verdadeiramente impensável não se celebrar esta data histórica tão transformadora que foi, tão influenciadora que ainda hoje é. E é impensável que essa celebração não ocorra na casa da república e da democracia representativa que o 25 de abril concebeu. Para os segundos é mais que natural que tal celebração não tenha lugar ainda por cima quando tal disputa retira múmias dos respetivos sarcófagos, reaviva fantasmas, potencia fraturas sociais tão apetitosas politicamente nos dias de hoje.

 

O essencial da polémica em torno das celebrações do 25 de abril é este. O resto é conversa fiada de gente sem respeito e sem amor à data e para os quais a revolução não significa nada.

Nas sombras da pandemia

por Amato, em 19.04.20

Deixem-me dizer-vos o que aí vem, o que já vai em preparação adiantada nas sombras da pandemia. Deixem que deixe isto aqui escrito, registado para memória futura e correndo o risco de se revelar, mais tarde, depois do desfecho da coisa, estar completamente a leste do paraíso.

 

O que é interessante no capitalismo, esta organização da vida que escolhemos, é precisamente esta sua natureza cíclica mas, simultaneamente, impossível de prever exatamente, impossível de responder ao quando? e ao como? E, em verdade, sabíamos perfeitamente que à crise ou às crises — talvez assim sejamos mais precisos — de 2011 seguir-se-iam outra ou outras. Disso não sobrava qualquer dúvida. Todavia, dando de barato a nossa impotência preditiva para responder à primeira questão, relativamente à segunda era mais expectável que as crises surgissem do rebentar da bolha imobiliária, que vinha enchendo assustadoramente transversalmente no mundo ocidental, associada, no nosso país, à outra bolha que, por aqui, persistia num crescimento que parecia não ter sustentabilidade: o turismo. Pois o que pouca gente esperava era que a próxima crise tivesse origem num mero vírus da gripe.

 

E aí está, os estados, em geral, vão replicando no momento atual as respostas dadas por eles próprios em 2011. Claro que há diferenças, há um estilo, uma linguagem, idiossincrasias e um contexto próprios, mas a substância das medidas é inegavelmente a mesma: injeções de capital nas empresas quer através de linhas de crédito, quer através da torneira da segurança social, sempre abundante para acudir a burguesia. Esqueçam os juros: isto é dinheiro do qual o estado não voltará a ver a cor.

 

A isto acresce a situação de estado de emergência, a verdadeira novidade na atuação do governo, que é como que uma carta branca para o despedimento, para o abuso, para a falcatrua laboral, para a ausência de responsabilidade social no que concerne o trabalho, um verdadeiro regime de exceção à lei e à democracia.

 

Em simultâneo, à promoção de um clima de consumo exacerbado, de histeria mediática impulsionadora desse mesmo consumo, juntou-se uma permissividade grosseira na agiotagem, no inflacionamento dos preços da generalidade dos bens. Todos os institutos, agências e organismos de supervisão criados para o efeito revelam descaradamente o seu papel decorativo no contexto do sistema.

 

Não tenham, todavia, pena do estado. Quando isto começar a dar para o torto, que é como quem diz quando se começar a fazer o rescaldo da pandemia, quando tudo voltar a uma certa normalidade no que ao funcionamento da sociedade diz respeito, então aí o plano será outro. Aí, os holofotes mediáticos concentrar-se-ão nas imparidades, nos buracos orçamentais, nos desequilíbrios das contas públicas e das balanças comerciais e, então, bem convencidos da necessidade dos nossos sacrifícios para a salvação do país, assistiremos a uma nova versão do brutal aumento de impostos de Gaspar, Passos e Portas, a uma sempre renovada necessidade de flexibilizar a economia e o trabalho para gerar mais competitividade e emprego e o resto. Todos nós conhecemos esta ladainha do costume de princípio a fim.

 

Quando erguermos novamente a cabeça veremos um país destroçado em emprego, em custo de vida, em poder de compra; veremos um povo com as suas poupanças delapidadas, com os seus direitos novamente reduzidos, com as suas reformas de novo adiadas e minguadas, com as suas perspetivas novamente revistas. Vamos ver os serviços públicos, em particular a saúde, ainda mais mirrados e isto passar-se-á mesmo após a pandemia nos ter mostrado o quão determinantes e importantes estes são. O povo assistirá a tudo isto, só não sentirá o cheiro daqueles milhões de euros de superavit anunciados no último orçamento de estado. Esse refinado odor terá sido já, por essa altura, exclusivamente aspirado pelas ávidas narinas da burguesia do país.

Infelizmente, não há muito a dizer sobre o covid-19

por Amato, em 01.04.20

No preciso momento em que escrevo, encontramo-nos em pleno ano vigésimo do vigésimo primeiro século do calendário gregoriano. Importa escrever estes números por extenso para sermos forçados a soletrar, para sermos compelidos à interiorização da realidade. No ano dois mil e vinte esse ente coletivo a que chamamos de humanidade pode elencar com orgulho as inúmeras desventuras por que passou, o sem fim de odisseias ultrapassadas pela força, abnegação, sofrimento e, também, imaginação e engenho, enfim, o interminável rol de enfrentamentos por que passou para chegar a este ponto, o ano de dois mil e vinte.

 

Na Ciência, essa construção humana suprema, alicerçada sucessivamente no conhecimento dos nossos antepassados, encontramo-nos a atravessar aquele limiar mitológico aspirado apenas nos sonhos mais loucos dos antigos, aquele limiar que separa a vulgar mortalidade da eternidade dos deuses. Aquilo que era não mais que um intangível sonho, somente descrito na loucura febril da literatura fantástica, é hoje realidade: manipulação do código genético dos animais e dos seres humanos, clonagem de órgãos e seres completos, a internet, um planeta envolvido por uma rede de conexão instantânea, tecnologia robótica microscópica, máquinas que tomam decisões autónomas com algoritmos que conseguem evoluir e aprender com a experiência, a lista continua, não tem fim.

 

Chegámos a este ponto. Tomámos em mãos poderes divinos. E, todavia, não conseguimos ter uma ideia clara sobre um vírus de gripe chamado de covid-19. Decifrámos com sucesso cada proteína do ácido desoxirribonucleico da pessoa humana, mas parecemos ter dificuldades inultrapassáveis com a compreensão da estrutura de um minúsculo ser vivo de umas poucas centenas (?) de nanómetros de diâmetro e que já anda por aí a criar o caos há, pelo menos, quatro meses.

 

Não sei o que vos parece mas, a mim, tudo isto é estranho, é bizarro.

 

Em boa verdade, não há muito a dizer sobre este covid-19, quer dizer, sobre o vírus em si. Podemos dizer muitas coisas sobre o modo como estamos a lidar com ele, sobre a forma como está a afetar a nossa sociedade, o nosso modo de vida, os negócios, os empregos. Podemos perorar sobre a inexorável e definitiva incapacidade estrutural das nossas sociedades em lidar com este vírus ou com situações análogas. Podemos comprovar como um simples vírus põe a nu as assimetrias e iniquidades do sistema que escolhemos para nos organizarmos coletivamente e como, nestas alturas, a validade e atualidade dos conceitos de luta de classes, proletariado e burguesia emerge aos olhos de quem os tem abertos e atentos. Note-se como as grandes empresas, as grandes multinacionais permanecem mais ou menos intocáveis. Para o povo, a luz não vai deixar de ser paga, nem a água, nem os planos de comunicações, de TV e de internet, nem as rendas, nem os impostos. Para as grandes empresas, linhas de crédito, dinheiro de graça, nenhuma PPP ou renda estatal será  suspensa assim, leis escritas à medida incluindo layoff’s de conveniência para se deixar de pagar e para se despedir de forma organizada ao mesmo tempo que se recebem apoios para não se despedir trabalhadores. Tudo isto o covid-19 deixa claro, isto e que os homens não nascem todos iguais particularmente em tempos de crise imbuídos de um espírito de falsa solidariedade.

 

Mas sobre o vírus propriamente dito não, não é possível dizer muito. Este é um vírus que já foi capaz de envergonhar as autoridades nacionais e estrangeiras de saúde que já tiveram que retirar, corrigir e refazer cada afirmação inicial que fizeram sobre ele. Ainda hoje, a multiplicidade de notícias díspares e contraditórias que contaminam o espaço informativo é superlativa. Há notícias que apontam para várias estirpes diferentes do vírus que afetam diferentes geografias. Ao mesmo tempo surgem artigos que ensaiam defesas inequívocas de que este covid-19 tem uma origem natural, que é um produto natural da mãe natureza. Qual é a probabilidade que assim seja? A sério, qual é a probabilidade de um vírus aparecer de modo natural assumindo características tão diferentes em países como o Irão, Itália ou China?

 

Tudo isto é bizarro como é bizarro que países diferentes adotem formas bastante diferentes para lidar com o problema e, aqui, nem me refiro a casos surreais como o do Brasil de Bolsonaro. Não, refiro-me à Suécia ou à Holanda, sempre tidos como exemplos na Europa e no mundo. Tudo isto é bizarro. Tudo isto é estranho. E é, por isto mesmo, que não há muito a falar sobre o covid-19.

 

Sinto-me verdadeiramente próximo daqueles camponeses que viviam algures na idade média sob o jugo de um conde com poder absoluto e da igreja mais obscurantista que dizia que tudo era obra de um deus sempre zangado connosco por muito que vivêssemos e morrêssemos a trabalhar. Sinto-me muito próximo desse camponês. Hoje, não há condes, nem igreja, nem deus. Todavia, vivemos identicamente mergulhados num lodaçal, num vazio de informação e de conhecimento. Temos acesso a muita coisa, a muita informação sem critério, mas não sabemos nada de nada e tudo o que sabemos é-nos plantado na consciência. Sobeja-nos apenas uma noção clara das incongruências, das inconsistências, uma perceção de que estamos efetivamente a ser enganados.

As impressões que o covid-19 me dá

por Amato, em 18.03.20

Depois de algum tempo de ausência neste espaço, por motivos de certo modo relacionados com as transformações que o covid-19 tem imposto às nossas rotinas, gostava de partilhar com os meus leitores algumas impressões que esta pandemia me tem causado. São impressões pessoais, observações empíricas sem valor científico, e sem quaisquer ambições neste particular, sobre o que me rodeia, sobre o que se tem passado. São reflexões despretensiosas acerca do que nós, cada um de nós, individualmente, e todos, coletivamente, revelamos ou temos sido forçados a revelar, da nossa natureza, da nossa organização, das nossas prioridades, dos nossos valores em face desta crise de saúde pública que tem posto em causa o nosso modo de vida.

 

A primeira impressão é para mim uma evidência: nestes momentos resulta claro o quão ineficaz é o nosso sistema económico. O capitalismo, com a sua pulverização característica de negócios e de empresas, com a sua liberalização das relações, das responsabilidades, mas sempre com o poder económico concentrado em escassos pares de mãos incógnitas e intangíveis vê-se incapaz, impotente até, para operacionalizar uma estratégia coerente e otimizar recursos para combater o flagelo, neste caso chamado de covid-19.

 

Se ao longo dos tempos de moderada ou anémica bonança há sempre justificações com as quais se adorna o sistema e se enganam os menos ilustrados ou os mais distraídos, a verdade é que, neste momento presente, não sobrevivem quaisquer argumentos. Amarrados aos interesses económicos para os quais existem, as nações europeias estrebucham para tentar fechar as fronteiras, para colocar os cidadãos em casa, para impor um estado de quarentena minimamente sério que seja minimamente eficaz.

 

Entenda-se a dificuldade da coisa no contexto estrito do desenho do nosso sistema económico onde a vertigem pela maximização dos proveitos se impõe a tudo e a todos, onde as conexões económicas se estendem a cada canto do globo para fugir ao escrutínio das finanças locais e de uma moralidade de distribuição digna da riqueza e onde, mais e mais, quem não trabalha não ganha. E, se não ganha, não come. Não é, pois, de estranhar a lentidão com que a generalidade dos países europeus atuou perante a ameaça de pandemia que encobria, então, os seus amanhãs. Não é, pois, de estranhar que a generalidade dos países europeus tenha aguardado até ao último instante para começar a agir.

 

Não querendo — longe disso! — ensaiar qualquer apologia ao sistema chinês, compare-se e aprecie-se a diferença entre o que se fez por cá e o que se fez por lá, na China, para controlar o surto de covid-19. É difícil comparar, bem sei, mas essa dificuldade — não se iludam! — favorece-nos enormemente pois é exponencialmente mais difícil gerir um problema de biliões do que um de milhões. Mas é fácil de entender. Foi fácil para a China colocar as pessoas de quarentena em casa — as pessoas trabalham, em regra, para o governo. Foi fácil para a China fechar a sua economia — o governo chinês tem uma posição dominante. Foi fácil para a China agilizar e otimizar recursos — dispõe de mão de obra e de indústria para produzir ventiladores, máscaras, material de hospital e o que quer que seja necessário. Foi fácil para a China desenvolver tratamentos específicos para a doença — dispõe dos meios tecnológicos e científicos para o fazer. Foi tudo fácil para a China. Para nós, europeus, sobretudo para países como Portugal, tão dependente de terceiros para tudo e para nada, depois de ter alienado tudo o que era indústria, agricultura, recursos naturais, depois de se ter submetido voluntariamente a um projeto de economia terciária satélite dos grandes países europeus, tudo é difícil. Para Portugal tudo é difícil.

 

A segunda impressão que queria partilhar é esta. A economia está em crise profunda não por causa das máquinas ou da inovação científica, não devido à falta de matéria prima, mas em razão dos seus recursos humanos estarem a ser afetados. Prestem atenção a este ponto. Contrariamente ao que a lavagem cerebral do costume nos diz, a força laboral é, ainda hoje, o fator mais determinante para a economia e para os países. Esta evidência que o covid-19 coloca a nu é inversamente proporcional com a importância que é dada aos trabalhadores, a uma mais justa retribuição do seu trabalho, a uma mais justa distribuição da riqueza. Pelo contrário, o que tem acontecido, desde os anos desde o fim da guerra fria até aos dias de hoje antes do covid-19, é precisamente uma diminuição de salários e de direitos laborais e uma cada vez mais desigual distribuição de uma riqueza que se tem acumulado cada vez mais nas mãos de uns poucos.

 

Mesmo agora, durante esta crise, serão os trabalhadores aqueles que sairão mais prejudicados no fim do processo. Por exemplo, multiplicam-se os apoios às empresas, apoios esses que os governos lhes dedicam sem quaisquer contrapartidas. Os trabalhadores, esses, veem-se ora forçados a trabalhar sem proteção e a expor-se ao vírus, ora forçados a ir para casa e viver com uma reduzida parte dos seus rendimentos ao mesmo tempo que as suas obrigações se mantêm em regra geral. E estes dão-se por contentes: os precários,  cada vez em maior número no tecido laboral dos países, perdem imediatamente os seus empregos e a estes ninguém lhes vale.

 

A terceira impressão diz respeito à ciência e aos homens e mulheres da ciência que temos entre nós. Considero espantosa a forma como, em momentos destes, a voz da ciência é praticamente inaudível. É caricato como se ouve tão pouco e se valoriza tão pouco aquilo que os homens e mulheres de ciência, especialistas das matérias, têm a dizer. As redes sociais têm um papel catalisador do ruído mediático que os media produzem, é certo, e também é verdade que a própria ciência assume sempre um papel ambivalente nestas matérias, refugiando-se em pareceres especializados e parciais para emitir posições frequentemente contraditórias e favorecer os obscuros interesses que as classes dominantes têm sempre nestes momentos.

 

Faltam hoje, mais do que nunca, talvez, pessoas com um conhecimento abrangente e sólido e não meramente especializado, capazes de analisar os problemas, apoiando-se noutros especialistas, e emitir opiniões fundamentadas no “estado da arte”, consistentes e coerentes que sirvam como um farol para a sociedade à deriva. Fazem falta destas autoridades. Não existem sequer, porque a nossa sociedade não as produz nem as valoriza, obcecada que está no conhecimento especializado que, podendo ser muito bom para produzir software e “tecnologia de ponta”, nestas alturas vale zero.

 

A quarta e última impressão é que nós, coletivamente, estamos muito próximos daqueles povos que acreditavam em virgens prenhas sem pecado, em múmias regressadas à vida, em deuses com cabeças de animais e em outras magias que tais. Somos um povo muito crédulo. Continuamos, neste ano 2020, um povo muito crédulo. A história que nos contam do covid-19 é algo que nos devia deixar em polvorosa e exigir explicações. A forma como este problema se abateu sobre nós e abalou as nossas vidas não devia ser encarada com cançonetas, frases inspiradoras de circunstância ou reflexões pueris e pouco profundas. Dá impressão que podem fazer o que quiserem e nós, povo, arranjamos uma forma de nos adaptarmos, de viver com isso.

 

Que espécie de gente somos nós? Não somos, definitivamente, uma que possa tomar o seu destino com as suas próprias mãos.

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Amato

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