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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Génova e Entre-os-Rios

por Amato, em 18.08.18

Olhar para a tragédia ocorrida em Génova — sim, para variar, esta é uma verdadeira tragédia — com a queda de uma ponte que fazia parte do trajeto quotidiano de largos milhares de italianos, usada por muitos outros turistas europeus e mundiais para iniciarem a sua exploração do país por terra, pela Ligúria, Toscana, Piemonte, Lombardia, tem, como consequência imediata, acordar a minha escassa memória. Lembro-me de uma outra ponte que caiu, de uma outra tragédia que se abateu, entretanto esquecida.

 

Corria o terceiro mês do primeiro ano do novo milénio do calendário gregoriano. Ao quarto dia desse mês, um dos pilares da ponte Hintze-Ribeiro, que ligava Castelo de Paiva a Penafiel, na região de Entre-os-Rios, desabou levando ao colapso de um dos tabuleiros da ponte e, por consequência, à morte de cinquenta e nove pessoas que faziam, na altura, a travessia.

 

Há sempre o perigo da injustiça, da falta de bom senso, do oportunismo, até, quando se procura esboçar paralelismos rápidos entre situações com semelhanças imediatas e evidentes mas com contextos necessariamente diferentes. Sinto-me, todavia, forçado a fazê-lo. Ainda disponho de alguma memória e, por isso mesmo, a escrita destas palavras resulta inevitável.

 

Vou começar por contar o que aconteceu em Portugal nos tempos que se seguiram à tragédia. Salto aquela parte de mediatização da dor e de histeria dos meios de informação que durou o que tinha a durar mas não merece ficar na história. O governo passou incólume pela tragédia através da oportuna demissão voluntária do então Ministro do Equipamento Social de seu nome Jorge Coelho. Isto da responsabilidade política é coisa de natureza singular e sinistra. O ministro demitiu-se, o governo passou incólume, nenhuma consequência efetiva do ponto de vista da lei foi extraída disso, ninguém, por parte do governo, pagou pelo que aconteceu. Pelo contrário, algum tempo depois, o mesmo Jorge Coelho viria a ser contratado para um alto cargo na Mota-Engil, uma das maiores empresas de... construção civil e obras públicas.

 

Não é isto verdadeiramente incrível? Um governante responsável político pela queda de uma ponte é contratado para uma posição de destaque numa empresa de construção civil e obras públicas, que por acaso é a campeã dos concursos públicos e das adjudicações diretas neste país. Imagine-se se a mesma lógica fosse aplicada aos outros setores do país? Um professor que não dá a matéria e falta às aulas promovido a diretor da escola? Um médico que, por negligência profissional, prejudica a saúde dos seus pacientes promovido a diretor de um hospital?

 

Ao mesmo tempo, aventou-se que a razão da queda da ponte, há muito tempo sinalizada pelas sucessivas inspeções, ficou a dever-se à excessiva atividade de extração de areias do rio que conduziu a uma debilitação do suporte de um dos seus pilares que cedeu com o aumento do caudal do rio originado pelas chuvas daqueles dias. Moveram-se processos contra as empresas de extração de areia. Ninguém — absolutamente ninguém! — foi condenado. O governo pagou indemnizações aos familiares das vítimas, participou em homenagens e erigiu um monumento perto do local da tragédia. Os corpos de algumas das vítimas nunca chegaram a aparecer.

 

Não sei o que se vai passar agora em Itália, não sei como vai ser a sequência dos eventos após a queda da ponte de Génova. No fim de contas, pode até ser que tudo seja muito parecido com o caso português. De momento, gostava de salientar algumas diferenças.

 

O governo italiano parece ter assumido uma atitude muito diferente para com a empresa privada que geria a Ponte Morandi imputando-lhe responsabilidades claras e exigindo consequências legais e criminais. Aqui, em Portugal, ainda hoje as coisas são distintas. As empresas privadas recolhem os dividendos da exploração das estradas e das pontes através das portagens e ainda recebem complementos estatais para garantir lucros, para além das obras das pontes serem asseguradas pelo estado. É o caso, por exemplo, das obras que se avizinham na Ponte 25 de Abril. São as vantagens das privatizações no seu mais brilhante esplendor.

 

O povo italiano também parece ser feito de uma outra massa do que o povo português. De Itália, chegam notícias de que diversas famílias rejeitaram participar no funeral coletivo promovido pelo governo italiano e fazer parte do que consideram ser uma farsa, pelo facto do governo ser o último e principal responsável pelo ocorrido. Em Portugal não foi assim. Parece que não há nada que uma indemnização e um monumento não resolvam.

 

Entretanto, ainda me recordo de especialistas que, na altura da queda da ponte portuguesa, em 2001, diziam que outras pontes portuguesas corriam idênticos riscos. Em dezoito anos nada aconteceu. Não há-de ser nada, portanto.

Duas razões para não escrever

por Amato, em 12.11.17

De vez em quando, recebo mensagens que perguntam porque não escrevo mais frequentemente. Em resposta a essas mensagens apresento, de seguida, duas razões essenciais.

 

A primeira é a ausência de tempo e energia para escrever tão frequentemente quão desejaria e porque, ao contrário do que os leitores possam imaginar, este blog não é o centro da minha vida, nem de perto, nem de longe. Existe uma grande quantidade de outras coisas que me despertam o interesse e eu acho que isso é também enriquecedor dos textos e opiniões que constam deste espaço.

 

Kasper Gutman, o famoso personagem do clássico de cinema noirA Relíquia Macabra (título original: The Maltese Falcon), dizia a Sam Spade, o detetive protagonizado por Humphrey Bogart, que desconfiava do homem calado, porque este geralmente escolhia a hora errada para dizer as palavras erradas. Para ele, falar não podia ser praticado de forma judiciosa, a menos que se falasse o bastante.

 

Escrever, como falar, tem que ser praticado de forma abundante para poder ser feito judiciosamente. Tendo a divergir, contudo, de Gutman num ponto: quem fala e escreve demais, a toda a hora e a todo o momento, tem propensão para produzir comunicações de pouco valor e para dizer o que não quer e o que é irrefletido. Não dando um passo atrás antes de falar, não dedicando uma boa dose de reflexão sobre os temas, nem empregando um olhar vasto, como um abraço à realidade em redor, é impossível emitir opinião em qualidade, em amplitude de contexto e de bom-senso.

 

Este é um problema bem visível, por exemplo, no nosso Presidente da República: um comunicador voraz, experimentado, constante e absorvente do espaço mediático, mas uma a uma, as suas intervenções são de um vazio retumbante. Não é por acaso que o Presidente fala, fala, fala muito, fala disto e daquilo, do atual e do passado, pronuncia-se sobre tudo mas, no fim de contas, ninguém sabe bem o que ele disse, nem sabe quais as consequências do que disse para a sua situação, ou seja, o que ele diz não interessa muito. O que fica para lá de todo o infindável jorro de palavras do Presidente é uma, e somente uma, única palavra, a palavra “afeto”, como um leitmotiv ensurdecedor de toda a controvérsia, de toda a discussão, de todo o debate, e, claro, os fonéticos e teatrais abraços e beijos que distribui pela população.

 

A segunda razão porque não escrevo tanto quanto desejaria é a falta de paciência para lidar com a repetição. Por exemplo, há um ano escrevi este texto sobre a Lisbon Web Summit que hoje poderia repetir aqui na íntegra. Passou um ano e a febre em torno desta tonteira, deste disparate megalómano de gente preguiçosa, incapaz e intelectualmente infértil ainda se tornou maior, mais demente, mais pestilente.

 

Isto é bem compreensível, na verdade. É a febre do empreendedorismo, daquela ideia falsa que o capitalismo tão bem sugere de que é possível fazer dinheiro a partir do nada, de necessidades artificiais, vendidas através de um website apelativo ou de uma app qualquer. No fundo, bem lá no fundo, é aquela ideia tão atrativa de que é possível triunfar fazendo de burros o resto da malta, impingindo-lhes necessidades que nunca tiveram antes, extorquindo-lhes rendas por esses serviços de que nunca antes precisaram, frequentemente com criação minimal de emprego e com domicílio fiscal no exterior. Para o estado, para o país, o retorno é próximo de zero, se excetuarmos, claro, as bebedeiras na hotelaria lisboeta por altura da conferência.

 

O reconhecimento da recorrência deste tipo de fenómenos afasta-me da sociedade. Sentir que, ano após ano, nada se transforma, observar o drama desta inércia faz-me não comentar e não escrever. E, por isso, não comento, nem escrevo.

 

Meio mundo virtual está agora em polvorosa com o facto de um jantar final inserido nesta Web Summit ter tido lugar no panteão nacional, a Igreja de Santa Engrácia. Não percebo esta febre de indignação. Simbolicamente, parece-me perfeitamente adequado. A Web Summit janta e defeca lado a lado com os restos mortais de alguns dos mais ilustres cidadãos portugueses de sempre, dando corpo literal à proverbial metáfora: somos um país de papalvos provincianos, sem vestígio de identidade nem noção de história.

Nacionalidade para lá dos "afetos"

por Amato, em 11.06.17

Esta questão de atribuir nacionalidade portuguesa a filhos e a netos de emigrantes devia ser analisada com muito detalhe, assim como as suas consequências lógicas sobre aquilo que significa ser-se português ou doutra qualquer nacionalidade. Sim, proponho que nos desliguemos, por momentos, da “embriaguez dos afetos” do nosso Presidente, que é só conversa fiada para entreter desocupados e estúpidos entre selfies, abraços e aclamações sem sentido absolutamente nenhum. Não é por acaso, que também o Primeiro-ministro se cola aos “afetos”. Claro que sim. Como não havia de se colar? Percebe-se bem a razão de ser. Ele é o chefe de um governo de entretenimento de massas e, enquanto as massas estão entretidas com festinhas de “afetos”, a vida dele corre bem.

 

Por que razão um indivíduo que nunca pôs os pés em Portugal, há de ter nacionalidade portuguesa? Vamos mais longe: por que razão alguém que apenas mete os pés em Portugal durante o bom tempo de agosto, há de ter a nacionalidade portuguesa? O que é isto de ser português, afinal? O que é isto de ser um cidadão português e de exercer a sua cidadania? Pode-se ser cidadão de um país ou cidade quando nela ou nele não se vive? Pode?! Quando um neto ou filho de emigrante exerce o seu direito de voto, fá-lo a pensar nos seus interesses no contexto de Portugal ou no contexto do Brasil, ou da França, ou da Suíça, ou de onde quer que passe onze dos doze meses do ano?

 

Ainda há bem pouco tempo, pensei nesta questão a propósito das violentas manifestações da comunidade turca na Holanda. Quando forem chamados a votar, quer num país, quer noutro, como é que aquela comunidade decidirá o seu voto nas questões que opõem os dois países? Será esta questão irrelevante? Será este o nosso conceito de democracia nesta aldeia global do dinheiro?

 

Gostava que estas questões fossem analisadas com a seriedade que merecem em vez de serem abordadas, pela boca do Primeiro-ministro, com o ludíbrio dos “afetos” dos netinhos do senhor Presidente da República que vivem no Brasil. É que o problema é muito mais sério do que isso.

Sobre os Le Pens e os Macrons

por Amato, em 10.05.17

A fórmula mais eficaz para enganar o povo é fazê-lo crer numa sociedade a preto e branco, dividida entre bons e maus. Para ser bem sucedida, essa simplificação centra-se em um ou dois aspectos, no máximo, considerados como fundamentais e é bombardeada pelos media a todas as horas e a todos os minutos do dia até que o povo ceda, nem que por cansaço, até que deixe de questionar a formulação apresentada para apenas prosseguir a sua vida sem conflitos internos com a voz dominante.

 

http://static.diary.ru/userdir/1/8/7/0/1870468/59479782.jpg

 

A minha opinião é que nos preocupamos demasiado com Le Pens, quais demónios encarnados em figura de gente, e muito pouco com Macrons, os que se opõem ao mal e, portanto, os bons. Enquanto isso, os Macrons vão trilhando a sua ação política de desregulação das sociedades, de desequilíbrio económico, de favorecimento de classe — a banca, a alta finança, os donos dos grandes grupos económicos, os capitalistas, a burguesia —, e conduzindo essas mesmas sociedades a pontos de rotura, já sem qualquer vislumbre nem de pátria, nem de nação, nem de coisa nenhuma. Os Le Pens são consequência dos Macrons e não o contrário. Se consideram que o primeiro é o mal e o segundo é o bem, é bom que pensem melhor.

 

Mas é mais fácil pensar assim, admito. Este pensar entretém por mais um tempo. Os exploradores e os explorados permanecem explorados e explorados. Há uma ira que vai fermentando por debaixo deste pensar, é certo, mas nos entretantos, enquanto não rebentar a bolha que se vai formando, esta sociedade burguesa vai continuando o seu caminho.

 

Em Portugal assiste-se a fenómenos parecidos todos os dias. Por um lado, enojamo-nos — e bem! — com qualquer coisa que soe a fascismo declarado. Por outro, batemos palmas ao personagem que, por ora, vai ocupando os Paços do Concelho do Porto, fazendo a apologia de ditaduras para pôr o país em ordem. Rui Moreira gosta, aliás, de proferir os maiores disparates histórico-políticos nas palestras para as quais é convidado amiúde. Não sabe mais, compreenda-se. Todavia, as plateias aplaudem-no. Diz que podemos precisar de ditaduras “para termos a nossa soberania económica, na segurança”. Diz que espera que não seja assim mas... o país pode querer aquilo, refere, do alto da sua sapiência, não deixando de fazer objetivamente um elogio aos méritos que, segundo ele, o sistema tem. Diz ele, também, que uma solução para as sociedades é passarmos a ter democracias diretas em que todas as pessoas votariam através de uma app de um telemóvel, como se estivessem a jogar Pokemon Go. E as pessoas aplaudem! Profere ainda outras frases de igual estirpe, mas estas que selecionei são realmente impressionantes. É inenarrável a decadência, a mediocridade intelectual do personagem, mas ainda mais grotesco é ver aquela plateia de alunos e professores do ensino superior a aplaudir estas alarvidades como se não dispusessem de mais do que um neurónio para raciocinar.

 

As pessoas aplaudem, é um facto. Depois de ser reeleito para a Câmara Municipal do Porto, vê-lo-emos, Rui Moreira, a tentar uma cadeira do poder central e é provável que consiga. As pessoas aplaudem-no, não se esqueçam! E prestem atenção: Rui Moreira não é um Le Pen, é um Macron.

 

Os ditadores não são os Le Pens, acreditem. Estes raramente chegam ao poder. Os ditadores são os Macrons e vão a votos e ganham. E são aplaudidos.

Os símbolos de uma sociedade

por Amato, em 30.03.17

Quando visitei Moscovo pela primeira vez fiquei fascinado com o edifício da universidade. Estaline mandou construir as mais altas torres no ponto mais alto da cidade, de tal forma que nenhum outro edifício da cidade pudesse suplantar em altura, e, concomitantemente, em importância, o edifício da universidade. O objetivo era claro: os mais adorados heróis da União Soviética haviam de ser os seus cientistas, os seus professores, todos aqueles que dedicassem a sua vida ao estudo e ao conhecimento. Esses deviam ser os primeiros ídolos da nação.

 

Este tipo de decisão é mais do que simbólica, já que marca indelevelmente a filosofia de uma sociedade, os seus princípios e em que é que a mesma se baseia, para o que é que vive, os seus objetivos e quem escolhe idolatrar. Primeiro estavam os homens da universidade, primeiro estava o conhecimento. Depois estavam os outros, cada qual com o seu quinhão de importância.

 

Esta visão cultural é indissociável do facto da União Soviética ter sido o estado que mais evoluiu num mais curto espaço de tempo, tendo pegado numa Rússia medieval e a catapultado para uma superpotência em todas as áreas do saber.

 

No nosso Portugal, todavia, os ídolos são outros: são os atores de novela, os cantores pop e os jogadores de futebol. Podemos ver, com efeito, que estamos no ponto diametralmente oposto àquele com que comecei este texto. Não é de estranhar, assim, a atribuição do nome Cristiano Ronaldo ao aeroporto da Madeira. Cristiano Ronaldo é apenas um jogador de futebol. Dá um chutos na bola. É muito bom naquilo que faz, mas é apenas um jogador de futebol, repito. Não sabe falar. Não tem uma ideia clara sobre nada de nada. Vive uma vida a ser bajulado pela fama e pelo dinheiro que tem. Todavia, é o ídolo do país. Seguindo os mesmos princípios, sugiro o nome de Tony Carreira para o novo aeroporto de Lisboa.

 

São estes os ídolos de Portugal. Não nos devemos admirar que 90% das crianças não gostem de Matemática, nem gostem de estudar. Os ídolos do país também não gostavam e nem por isso deixam de ser famosos e importantes e entretêm a malta com atividades sem interesse nenhum. É esta a construção de sociedade que escolhemos. Tudo isto são escolhas muito objetivas e muito conscientes que fazemos. A razão parece-me clara: entreter em vez de instruir. É sempre mais eficaz para se poder reinar sobre o rebanho.

 

http://www.telegraph.co.uk/content/dam/football/2017/03/30/124632319_REUTERS_A-bust-of-Cristiano-Ronaldo-is-seen-before-the-ceremony-to-rename-Funchal-Airp-large_trans_NvBQzQNjv4BqqVzuuqpFlyLIwiB6NTmJwfSVWeZ_vEN7c6bHu2jJnT8.jpg

 

Um povo de fogos de palha

por Amato, em 04.07.16

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Este país preocupa-me, este país dói-me. E aflige-me a apatia, aflige-me a indiferença, aflige-me o egoísmo profundo em que esta sociedade vive. De vez em quando, como somos um povo de fogos de palha, ardemos muito, mas queimamos depressa.

 

— José Saramago, Jornal de Letras, Artes e Ideias (1999)

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