Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Um partido por um fio

por Amato, em 13.02.20

Há uma força dentro do PCP, prestes a atingir a maioridade, que está investida em empurrar os comunistas para fora do partido. Dentro do partido, o pensamento comunista está subordinado àquilo que parece ser um pensamento utilitarista de sobrevivência, o pensamento progressista rendido a uma interpretação dogmática da realidade. Não existe justificação teórica ou prática. Não há filosofia política. O que há é um conjunto de diretivas arbitrárias que os militantes devem seguir.

 

Para um comunista há uma questão interna e individual que começa a impor-se por muito que dela fujamos: porque é que voto no PCP? Em que é que o PCP me representa?

 

A atualidade apresenta-nos a aberração diária de vermos o PCP, partido de comunistas anti-capitalistas, a apoiar com todas as forças um governo minoritário burguês de um partido social-democrata.

 

Os representantes do PCP no parlamento e pelo resto do país são, em regra geral, figuras deprimentes. Leem todos — e mal — os mesmos textos escritos pela mesmíssima pena. Alguns, parece que assumem os cargos para aprender a ler. As suas prestações nos debates é paupérrima, capacidade argumentativa sofrível, bagagem intelectual medíocre. Há honrosas exceções como João Ferreira, claro que há, mas são oásis no seio do partido. A liderança do partido é causa de permanente embaraço e não satisfaz quem exige uma defesa intelectual consistente dos ideais comunistas.

 

Os proletários deste país não veem o PCP como a vanguarda da defesa dos seus direitos. Estão demasiado habituados a propostas redistributivas da riqueza, taxas e impostos que, de uma forma ou de outra, acabam sempre por ir ao seu bolso para benefício de quem não trabalha e não contribui. O PCP, aos olhos dos proletários, daqueles que efetivamente trabalham, que são explorados pelo seu trabalho e, muitos, empobrecem trabalhando, é o partido do funcionalismo público e de quem não quer trabalhar. Tragicamente para o PCP, o funcionalismo público e a massa de indigentes do nosso país não vota, em regra, no PCP.

 

Esta nuvem difusa de ideias só poderia ser combatida assumindo uma direção revolucionária, intelectualmente justificada, cientificamente defendida, superiormente argumentada. Mas o PCP há muito deixou este caminho, o caminho dos comunistas, e optou por um caminho de sujeição às regras e às estruturas do sistema, o caminho da social-democracia. Nenhum comunista percebe ou aceita isto. E ninguém consegue vislumbrar que vantagens para o partido justificam tal opção.

 

E depois, pelo meio, surgem questões como a eutanásia e, então, é a confusão instalada: será que PCP é a sigla de alguma seita religiosa ou de algum movimento pró-vida? A argumentação é a mesma. Será que andámos distraídos todo este tempo? Reparem como o posicionamento do partido relativamente à eutanásia é tomado de forma perfeitamente autista: autista relativamente à sua matriz ideológica, porque não existe qualquer justificação teórica para suportar a sua posição de contra; e autista relativamente aos seus militantes, pois nenhum processo de debate interno ou de auscultação das bases foi promovido sobre o tema. A decisão veio de cima e as bases devem seguir as orientações e defendê-las porque sim.

 

Dois argumentos continuam a suportar o voto no PCP: o peso do hábito e o facto de não existir alternativa marxista minimamente organizada no quadro político português. É pouco sobretudo para alguém que se dá ao respeito do ponto de vista ideológico e político. E vai sendo um pouco cada vez mais poucochinho a cada ano que passa e que vai consagrando o PCP como um partido não de comunistas lutando por um ideal mas de funcionários lutando para manter um posto de trabalho. Um posto de trabalho que se vai mantendo por um fio.

Uma epifania em janeiro

por Amato, em 09.01.20

O anúncio do sentido de voto do Partido Comunista Português relativamente ao orçamento de estado deste ano é uma desilusão e, como todas as desilusões, tem a potencialidade de se tornar numa espécie de epifania, uma revelação.

 

O parlamento português está agora dividido, PCP incluído, entre partidos sociais-democratas e partidos liberais, uns mais populistas do que outros. A palavra comunista no PCP passa a valer tanto como a palavra socialista no PS. Valem o mesmo, ou seja, nada.

 

Nenhum partido comunista apoiaria um orçamento deste género que literalmente rouba o povo para gerar lucros para entregar à banca e aos mercados monopolistas. O líder parlamentar do PCP diz que o partido vai-se abster, é certo, mas isso é verbalismo, é brincar com as palavras. Se fosse necessário, votaria a favor. Não existe retórica suficiente no mundo da dialética para nos convencerem do contrário.

 

O insólito da coisa, ao que consta, é que este apoio terá sido dado a troco de um aumentozinho extraordinário de pensões. Prossegue, portanto, a confirmar-se o boato, esta linha miserabilista, este contentamento, esta satisfação com as migalhas lançadas por Costa sejam elas quais forem. Prossegue esta falta de respeito pela sua ideologia, que é o mesmo que dizer por si próprio, porque só um partido sem um pingo de amor próprio persiste em estender a mão a quem reiteradamente o desrespeita e desvaloriza, como ficou bem patente antes, durante e após as últimas eleições legislativas, com o desenvolver da “geringonça” e com o fim da mesma.

 

Mas isto tudo é demais, tudo isto é demasiado para que o leitor não desconfie, de si para consigo, que tanta incapacidade, que tanto defeito não seja apenas uma mera causalidade de um espírito mais ou menos inocente ou mais ou menos incapaz. A verdade encontra-se no princípio deste texto. O meu erro está em continuar a assumir certas premissas sobre o PCP como verdadeiras quando elas, claramente, já o deixaram de o ser. Porque se o comunista cair da denominação do partido, então deixa de haver qualquer problema e passa a valer tudo como, de facto, vale para qualquer outro partido onde a ideologia é coisa incerta, é coisa do passado. Se considerarmos a palavra comunista como simples adereço de sigla, então qualquer decisão é tão válida como outra qualquer e cada opção poderá ser justificada com maior ou menor dificuldade.

 

Já não há desculpas que subsistam. A troika partiu do país há mais de quatro anos. O medo que a direita, a direita assumida, retome o poder nas suas mãos existirá sempre e é um medo imbecil, infecundo, porque estamos fadados, neste sistema político de alternância, a que, mais cedo ou mais tarde, isso aconteça. E, todavia, o governo PS prossegue uma política de incrível sobrecarga de impostos, de subjugação do país ao poder económico, de destruição dos serviços públicos, de condenação das gerações mais jovens de proletários a vidas de trabalho precário, sem direitos, sem perspetivas, sem futuro.

 

Como pode um partido comunista apoiar um governo destes? A resposta é simples: não pode.

Uma questão de social-democracia

por Amato, em 26.09.19

Gostava de discorrer um pouco sobre um ponto que considero que esta campanha eleitoral teve a virtude, mesmo que por mero acaso ou imponderável acidente, de iluminar. Refiro-me à questão ideológica dos partidos que compõem o espectro político nacional.

 

A questão veio ao de cima quando a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, afirmou em entrevista de pré-campanha, que o programa do seu partido, tido pela maioria inculta do povo português como um partido de extrema-esquerda, era, afinal, social-democrata.

 

Quem acompanha a minha escrita sabe bem que nada disto me surpreende, nem um pouco, indo exatamente de encontro ao que penso. As propostas do Bloco, independentemente da multiplicidade de tendências que possam coabitar no seu seio, são de cariz marcadamente social-democrata, de natureza meramente redistributiva, keynesianas até, se preferirmos. Dito de outro modo, trata-se de um partido do sistema que procura corrigir o sistema e não transformá-lo. E o sistema é o sistema capitalista burguês.

 

Durante esta semana, soubemos também do apoio de um reputado economista português, Ricardo Paes Mamede, à CDU. Nas redes sociais, o economista elencou as cinco razões porque votaria CDU, não obstante as diferenças ideológicas que mantinha com a coligação que integra PCP e Verdes. Ricardo Paes Mamede é daquelas escassas personalidades que vale a pena ouvir e ler no panorama nacional. Pessoa culta, ilustrada e estudiosa, fala e escreve de forma fundamentada e faz uso de uma argumentação lógica que é muito rara nos dias de hoje. A respeito do título deste texto, vem-me à memória uma monumental lição que Ricardo Paes Mamede deu, há umas semanas, ao triste e ínscio João Miguel Tavares acerca do conceito de social-democracia do qual este último fazia boçal uso.

 

Confesso que, quando tomei conhecimento do apoio de Ricardo Paes Mamede à CDU, desencadeou-se dentro de mim um sentimento de profunda alegria. Em primeiro lugar, pela personalidade em causa. Em segundo lugar, porque a ideologia comunista precisa exatamente de gente com qualidade intelectual, e particularmente da área económica, que a defenda não na base do chavão e das palavras de ordem, mas na base da argumentação racional.

 

Com o passar do tempo, todavia, a minha alegria esmoreceu-se, pelo menos em parte. Ricardo Paes Mamede não é um economista marxista, é social-democrata assumido e alguma coisa tem que estar seriamente errada quando sociais-democratas apoiam comunistas. É que os sociais-democratas têm em vista a correção dos defeitos do sistema capitalista através de apoios, subsídios e intervenções estatais. Os comunistas lutam pela transformação do sistema, pelo derrube do capitalismo, pela criação de uma sociedade nova e diferente, com diferentes alicerces filosóficos. Os sociais-democratas atuam a jusante; os comunistas agem a montante. A interseção é vazia, não há ponto de encontro, não há compromisso possível. A menos que algo esteja muito distorcido.

 

Então, dei por mim a refletir que o problema será do nosso panorama político que está tão empurrado para a direita que os sociais-democratas foram deixando cair a máscara de tempos ideologicamente mais quentes e assumiram-se como descarados liberais, enquanto que os partidos de esquerda foram circunscrevendo a sua veia revolucionária aos seus inflamados discursos, deixando para as suas práticas apenas umas envergonhadas medidas sociais-democratas.

 

É por isso que eu considero um pouco triste e bastante surreal ver os mais destacados líderes do PCP, o Partido Comunista Português, vangloriarem-se nas redes sociais com o apoio de Ricardo Paes Mamede. Eles não entendem, não conseguem ver que o apoio de um social-democrata ao seu partido acaba por ser um atestado passado a uma doença ideológica grave que afeta o seu país e o seu partido. Para um comunista, o apoio de Ricardo Paes Mamede não deve ser motivo de particular orgulho, mais do que aquele que advém de um qualquer anónimo.

 

Por ventura, a culpa será minha. Será erro meu acreditar ainda que o PCP mantém intacta a sua espinha dorsal revolucionária e transformadora da sociedade. Mas essa é, afinal, a única razão pela qual voto e votarei CDU nas próximas eleições. Ao contrário de Ricardo Paes Mamede, não preciso de cinco razões para votar CDU, não preciso de fazer um rol, não preciso de as elencar, apenas preciso de uma razão: acreditar na transformação da sociedade, numa sociedade de paz, fraternidade e cultura, livre do capitalismo ou qualquer uma das suas versões de exploração dos homens.

 

A minha razão é acreditar que a CDU representa este meu sonho, mesmo que na CDU o sonho possa servir apenas para animar festas e discursos e seja convenientemente esquecido no pragmatismo inexorável e desprezível das opções que se tomam sobre a inércia dos dias.

A prática é o critério da verdade

por Amato, em 09.02.19

Eu sei que esta greve dos enfermeiros às cirurgias tem duplas intenções. Eu sei que é dado quase certo que esta greve esteja a ser financiada por interesses privados e políticos adversos ao sistema público de saúde e a este governo. Eu sei que a presidente da ordem dos enfermeiros, Ana Rita Cavaco, era braço direito do seu saudoso Pedro Passos Coelho e que, nesse tempo de austeridade, nunca abriu o bico para incitar greves na sua classe como agora abundantemente faz. Eu sei de tudo isto e sei de muito mais, acreditem. Mas a forma como a esquerda, particularmente o PCP, está a lidar com esta greve e, mais grave, a forma como está a proteger o governo e a deixar o PS responder à mesma é gravíssima.

 

Podemos arranjar todas as justificações para difamar esta greve mas, no fim de contas, esta greve é uma greve. Deixem que repita: esta greve é uma greve! Entenderam? Quem a faz são os enfermeiros, trabalhadores como outros quaisquer. Não é a ordem dos enfermeiros que a faz, não são as forças da direita, não são os hospitais privados: são os enfermeiros! Os outros podem incitar o que quiserem e o que bem entenderem, podem criar sindicatos oportunistas que deixarão de existir no dia de depois de amanhã, podem financiar, podem preparar merendas, organizar excursões, podem berrar, podem encher jornais e TVs, podem tudo. No fim do dia os únicos responsáveis pela greve são os enfermeiros. Os enfermeiros! A luta é deles e a sua justeza sai-lhes do corpo. As decisões são deles, são eles que decidem e aderem à luta por sua iniciativa e vontade. Ponto final.

 

Estamos, portanto, perante mais um capítulo da história “Este país está de pernas para o ar”. Deveras. Pela primeira vez na vida vejo a esquerda contra uma greve alegando a proteção do sistema nacional de saúde e de seus doentes. Neste particular, escandaliza-me a posição do PCP e do seu líder Jerónimo de Sousa, ele que, há bem pouco tempo, colocava-se ao lado dos juízes quando estes faziam a sua greve. Os juízes, que dão corpo a um órgão de soberania do país, podem fazer greves. Os enfermeiros não. Admirável!

 

Esta argumentação é extremamente incoerente e reacionária. Por esta ordem de ideias, qualquer greve que cause algum dano que se veja na sociedade deve ser proibida. Por esta ordem de ideias, todos os trabalhos devem ser sujeitos a serviços mínimos, sobretudo porque, pelo andar da carruagem, todos os trabalhos têm números de trabalhadores perfeitamente insuficientes e completamente sobrecarregados para serem levados a cabo. É exatamente o que se passa com as cirurgias: listas de espera enormes fazem de todos os pacientes não urgentes pacientes urgentes que deveriam ser operados no dia de ontem.

 

O grave desta posição da esquerda, mais do que a revelação de evidente incoerência e de uma certa ideologia de conveniência sem ponta de ética ou lógica e pela qual pagará nos próximos atos eleitorais, estou certo, é as portas que abre à direita para que coloque a ansiosa unha na lei da greve, subvertendo e limitando a sua aplicação, nem que apenas por simples jurisprudência. Aí está, anunciada neste final de semana, uma inqualificável e injustificada requisição civil sem que nenhuma voz contra ela se erga. O PCP deve julgar, concerteza, que esta requisição civil não se aplicará identicamente às greves marcadas pelos sindicatos da CGTP. Ficará muito admirado quando vir a mesma chapa ser-lhe aplicada, mas aí será tarde para fazer alguma coisa.

 

O PCP precisa urgentemente de se olhar a um espelho. Não é apenas a questão da greve dos enfermeiros. Nestas últimas semanas agudizou-se o ataque do imperialismo à Venezuela e aos seus recursos fósseis, com um conjunto de ações vergonhosas do ponto de vista do direito internacional e do respeito entre os povos. Neste contexto, o PCP apresenta-se como a única força política portuguesa que se apresenta contra o golpe de estado em curso. Deve-se sublinhar e valorizar este facto. Todavia, de que vale todo esse discurso, de que vale toda a argumentação, quando o PCP apoia um governo que, por sua vez, apoia incondicionalmente o golpe? Pergunto diretamente a Jerónimo de Sousa: o que fará o PCP se os Estados Unidos atacarem militarmente a Venezuela com o apoio europeu, incluindo Portugal? Vai continuar a apoiar parlamentarmente este governo? Pois então estará a apoiar indiretamente as forças imperialistas que tanto demoniza nos seus discursos.

 

Este mesmo argumento aplica-se a muitos outros domínios igualmente relevantes: o código de trabalho, a política fiscal, etc. As palavras sem prática são vazias, não valem de nada. O PCP está colado a esta governação e no futuro próximo será difícil descolar-se. Será difícil ouvir o PCP justificar porque não aprova um orçamento de estado; será difícil o PCP fundamentar uma posição contra um aumento de impostos; será difícil ao PCP criticar um governo que apoia uma guerra ou uma ingerência noutro país; será difícil ao PCP defender uma greve; será difícil ao PCP dizer-se o partido dos trabalhadores; será difícil, até, ler no Avante!, no cabeçalho da primeira página, “Proletários de todos os países UNI-VOS!”. Mas quais proletários? Julgam que os proletários não têm olhos na cara? Eles não leem as enfadonhas teses do partido, as toneladas de papel e texto produzido, descansem, mas leem a realidade, leem a prática. Mao Tsé-Tung dizia: a prática é o critério da verdade. Ao entrar para a geringonça o PCP perdeu a prática. A verdade veio a seguir. Preparem-se para colher os frutos disso mesmo.

Missiva para Jerónimo

por Amato, em 03.06.18

Caro Jerónimo de Sousa, preciso de te dizer isto. Agora não vale a pena andares a repetir frouxas ameaças ao governo, de que não vais aprovar o próximo orçamento de estado e de que o PCP não vai passar cartas em branco. Devias ter feito isso antes, aquando dos orçamentos anteriores. Não o fizeste. Se o tivesses feito, talvez tivesses conseguido algo mais para o país e para o povo que tivesse valido a pena. Agora, como te digo, já não vale a pena. Não sabes porquê? Pois eu digo-te. O governo do António Costa já tem apalavrado o apoio do seu amigo Rui Rio. Pois é! Não te tinhas dado conta disso, já? Não? É maravilhoso o quão inocente és! A geringonça já foi definitivamente desmantelada. Não te informaram? O PCP e o Bloco já não são precisos para aprovar nada: são meros elementos decorativos! Talvez isto da política não seja bem para ti, Jerónimo... já pensaste bem nisto? Pois é, mas enquanto ainda andas por aí, faz-nos um favor a todos e poupa-nos dessas ameaças vãs. E aproveita o tempo para preparar o partido para o que aí vem porque o que vem aí não vai ser bonito. A malta ficou muito desiludida com isto da eutanásia. Cumprimentos fraternos.

Por lá e por cá

por Amato, em 14.04.18

Acho incrível como é que subsiste tanta gente que, depois de décadas de intervenções vergonhosas, indecentes e oportunistas no Médio Oriente, ainda atribui algum crédito aos Estados Unidos da América e aos seus lacaios patéticos, Reino Unido e França. É coisa que, sinceramente, nunca hei de entender!

 

Portugal assumir-se como um país sem espinha dorsal, isso já é fácil de entender. Sempre assim foi. O contrário constituiria novidade. E António Guterres, enquanto presidente das Nações Unidas, comportar-se como um verme vulgar com voz de sacristão que rouba o cesto das esmolas? Isso também é fácil de aceitar. É a natureza de cada um.

 

Agora, todavia, as coisas estão um pouco diferentes. Há um certo respeito que será receio, talvez, que se sente no ar. Um respeito por uma Rússia que se reergueu sem se dar por ela e que faz questão de não participar na fantochada diplomática do costume. Desengane-se quem procura adivinhar uma terceira guerra mundial: estes bombardeamentos são mero fogo de artifício para o mundo ver e, ainda assim, com aviso prévio aos russos porque isto do respeitinho... é coisa que é muito bonita.

 

Por cá, assistimos ao princípio do fim do mito a que se convencionou chamar de “geringonça”. Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português fazem-me lembrar, com efeito, aquelas esposas continuamente traídas e mal tratadas num mau casamento que se mantêm na relação por amor aos filhos — os trabalhadores e o povo, no léxico comunista. Agora, parece que o marido, o PS, prepara-se para trocar em definitivo as esposas pela amante de sempre, a direita, corporizada no PSD. Esta história do “ir mais além que as metas europeias do défice” não tem nada de novo. O que aconteceu repetidamente no passado com as cativações é de idêntica natureza. A diferença é que, agora, o PSD apresenta-se solícito para tudo aprovar em matéria de política interna, sobretudo porque esta assim vai de encontro harmonioso aos interesses da burguesia que PS e PSD tão bem representam.

 

O PS conseguiu — facto assinalável —, ao longo de todo este mandato, fazer uso de BE e de PCP a seu bel prazer até ao preciso momento em que os seus pobres parceiros se esgotaram em préstimo e serventia. Um acordo mínimo foi suficiente para agarrar BE e PCP a uma prossecução de uma governação formalmente e em toda a linha de direita — contado desta forma, ninguém acredita!

 

É sem qualquer vestígio de satisfação que reconheço que este lamentável desenlace dos acontecimentos foi aqui, neste blog, repetidamente previsto e anunciado. BE e PCP ficam muito mal na fotografia e sofrerão — acredito, esperando estar errado — sérias consequências eleitorais.

 

É, por tudo isto que foi dito, que este apoio de Portugal ao mais recente bombardeamento americano à Síria me causou uma suplementar revolta. É que, e dirigindo-me concretamente ao PCP neste ponto, tendo-se revelado incapaz de forçar as reversões que realmente importavam ao país, como o Código de Trabalho, como a Segurança Social, os direitos, os salários e as reformas, não para alguns mas para todos, tendo sido incapaz de diminuir os impostos sobre quem vive do seu trabalho, tendo, enfim, deixado cair as suas principais bandeiras ideológicas em nome de uma travagem meramente simbólica da direita e da sua austeridade, deixa agora, também, cair a sua bandeira mais identitária que é a sua matriz anti-imperialista.

 

Ano após ano, no comício da Festa do Avante!, o secretário-geral do PCP estende a sua solidariedade aos povos que resistem ao imperialismo e dirige-se, concretamente, aos povos do médio-oriente. Como é que Jerónimo de Sousa conseguirá dizer isso este ano, tendo suportado parlamentarmente um governo que se aliou a uma agressão imperialista? Como? Não será possível. Não será mais possível.

 

É verdade que o PCP distanciou-se do governo e criticou-o por esta posição, mas caramba! Exigia-se mais! Estaremos a brincar às coligações? Ou para o PCP isto do imperialismo é conversa fiada que serve apenas para encher discursos e entreter as massas?

 

Não! Isto é muito sério. E, se o PCP fosse fiel à sua própria história e ideário, António Costa, depois da sua miserável intervenção de quinta-feira, caía durante esta mesma semana do seu pedestal de poder a menos que se retratasse e retirasse o nome do país desta abjeta lama onde o mergulhou.

 

O PCP, todavia, parece permanecer fiel a este medíocre papel de esposa desonrada de que falava acima. Queixa-se do governo que tem apoiado. Queixa-se num contínuo pranto. Mas não faz nada. Não faz nada.

 

Não faz nada.

 

Liga para o apoio à vítima, PCP. Liga. O número é o 116 006. Liga: é grátis. Pode ser que te ajudem.

Depois da geringonça

por Amato, em 04.02.18

A sucessão de eventos da política nacional tem concorrido para suportar aquela tese que tem vindo a ser defendida neste blog: o PCP rendeu-se definitivamente a uma posição ora de indisfarçável embaraço, ora de humilhação declarada. É uma humilhação de quem perdeu o pé na estrutura ideológica onde caminha, de quem já não sabe muito bem distinguir entre o essencial e o acessório, confundindo constantemente o último com o primeiro. O essencial é o património ideológico. O essencial é o revolucionar da sociedade burguesa. O acessório é este fogacho de poder e as esmolas que se conseguem conquistar ao poder burguês.

 

Aprovado mais um orçamento de estado, mesmo depois de ter sido enganado pelo governo, em orçamentos anteriores, com a patifaria das cativações, o PCP propôs medidas concretas para regulamentar o código de trabalho. Esta semana, o governo rejeitou todas as medidas apresentadas votando ao lado da direita parlamentar, como aliás tem sido seu apanágio. O mesmo governo que precisa do apoio do PCP para aprovar orçamentos, vota com a direita em tudo o que é política essencial e estrutural, nomeadamente no que diz respeito ao código de trabalho e à segurança social tão essenciais que são para qualquer política séria de redistribuição de riqueza, seja ela qual for. Precisamente por saber disto mesmo, o governo joga à direita. E o PCP encolhe os ombros.

 

Perante isto — que é uma verdadeira afronta política reiterada — o PCP encolhe os ombros; e coloca cartazes que dizem “Nós propusemos, o governo rejeitou”; e põe o Jerónimo em comícios a choramingar as traições da companheira política adúltera. É este o ridículo a que está votado o PCP. É esta a camisa de sete forças na qual o partido voluntariamente enfiou os seus braços. É este o embaraço. É esta a humilhação de um partido que se arrisca a perder tudo, o pouco ou o muito, consoante o ponto de vista, que lhe restava: a sua espinha dorsal.

 

Nas ruas os trabalhadores lutam sozinhos. Na Autoeuropa, na Galp, na Triumph, na Gant e em tantos outros locais, os trabalhadores e trabalhadoras lutam sozinhos. Os sindicatos permanecem adormecidos, inoperantes, paralisados de movimentos. Na Assembleia da República ninguém vale aos trabalhadores. Nenhuma palavra inconsequente lhes vale. Nenhum projeto de lei condenado desde a nascença ao fracasso lhes vale. Eles lutam sozinhos. Nunca conseguirei compreender como esta posição minoritária do PS se transformou numa posição de força inabalável. Nunca conseguirei compreender como uma força real — a força de fazer cair um governo de um momento para o outro — se transformou em fraqueza tão evidente que até soa a cobardia. E acho que muitos outros, como eu, também não.

 

Não sei o que será do PCP depois da geringonça e isso preocupa-me, porque não sei o que será do país sem a força deste pilar ideológico que tanta falta lhe faz. A força de ser diferente, em coerência e em exemplo, esbateu-se. Esbateu-se a frase “estamos ao serviço do povo e dos trabalhadores”. Esbateu-se a frase “nunca tivemos oportunidade de governar”. Esbateu-se até mesmo a frase “somos diferentes”. A oportunidade de ser diferente é agora. A oportunidade de influenciar a governação é agora. A possibilidade de mostrar serviço ao povo trabalhador é agora. É agora e foi ontem e será amanhã num amanhã que se abrevia rapidamente com o passar dos dias.

 

Ao PCP sobrará apenas a esperança de que o eleitorado lhe reconheça alguma influência positiva nesta geringonça que está para acabar e que isso lhe possa valer para voltar mais tarde, mais forte. O PCP, em suma, joga toda a sua mão na memória do eleitorado, coisa peculiar que nunca lhe valeu antes e que não consta que tenha valido alguma vez a alguma força política. Não consta, sequer, que essa massa informe a que se chama de “eleitorado” seja dotada dessa importante faculdade quando, pelo contrário, nas suas ações e dinâmicas se aparenta mais a um peixe de aquário do que a outro animal qualquer.

 

Quando a geringonça acabar o país que restará será um gémeo apalermado e algariado do Portugal de Passos e de Portas. A diferença essencial é esta mesma: um clima económico expansionista, que se vê na concessão desenfreada de crédito — a qual já faz soar campainhas de alarme no Banco de Portugal —, alicerçado numa bolha turística que se agiganta a cada dia que passa, ou seja, alicerçado em coisa nenhuma. A par disto, há as reposições de direitos a reformados e a funcionários públicos. Isto é anedótico para ilustrar uma política socialista séria, para dizer o mínimo. Também é alarmante enquanto política e estratégia económicas a médio e longo prazo. Já este ano começaremos a aferir da consistência desta política quando o Banco Central Europeu começar a cortar na compra de títulos de dívida pública. Também aqui, exigia-se ao PCP uma outra resposta. Acreditar que reposições de salários — ainda por cima setoriais — resolvem, por si só, problemas económicos estruturais é coisa para partidos irresponsáveis e demagogos.

 

Mas a resposta do PCP é outra, é a mesma desde o princípio da geringonça: é ter um pé dentro e outro fora, é dar o aval com uma mão e apontar o dedo com a outra, para tentar passar a ideia desesperada de que tudo o que é positivo a ele se deve, ao mesmo tempo que tudo o que é negativo ao governo deve ser assacado. Tristes figuras, estas que têm os destinos do PCP nas mãos... não percebem que o resultado final será aquele que é rigorosamente simétrico ao que pretendem.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Amato

foto do autor

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D

Mensagens