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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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O agitar hipócrita de bandeiras

por Amato, em 29.03.18

Hoje o pessoal de cabine da Ryanair está em greve e prolongará a sua luta por três dias. Podia ser mais uma greve, legítima, como tantas outras, mas é mais do que isso. As greves são sempre legítimas, sublinhe-se. Saem do bolso de quem trabalha e de quem precisa do dinheiro para sobreviver. Não é mais dia menos dia. Não é como beber um copo de água, como tantos comentaristas serventuários do poder burguês gostam de apregoar aos microfones que sempre lhes colocam à frente de suas bocarras nestas alturas. E, por isto mesmo, por esta natureza da coisa que é factual, as greves são sempre legítimas. Esta greve, todavia, é dotada de um simbolismo que é dramático.

 

A nossa sociedade adora agitar bandeiras. Ergue-as, agita-as, pousa-as. Nada acontece. Nada se passa. Por exemplo, a nossa sociedade indigna-se perante a falta de tempo para a parentalidade, revolta-se perante a apatia das leis, exige mais tempo e mais direitos para pais e mães. As televisões fazem programas dedicados ao tema. Os jornais publicam secções separáveis. As fundações da “sociedade civil” fazem conferências, às vezes, sobre o assunto.

 

Em simultâneo, acontece esta greve da Ryanair.

 

Os trabalhadores revoltaram-se contra a empresa que se recusa a cumprir a lei no que aos direitos de mães e de pais diz respeito. A Ryanair não só não cumpre a lei como persegue os trabalhadores que tentam fazer uso dos seus direitos, mudando-lhes mesmo o posto de trabalho contra a sua vontade. Mais: perante isto, a transportadora ainda ameaça o país em reduzir o seu negócio nos aeroportos portugueses.

 

Ora, a mesma sociedade que se indigna com o tema da parentalidade e dos direitos de pais e mães, coloca-se do lado da Ryanair nesta questão. Veja-se o que passa nas notícias, a cobertura indigna que este tema tem tido, a falta de solidariedade para com os trabalhadores. Erguer e agitar a bandeira é fácil. O que é difícil é ser consequente. O que é difícil é ser coerente.

 

E, sendo coerente, sendo consequente, impõem-se as seguintes perguntas:

 

  1. Para que precisamos nós de um ministério do trabalho, solidariedade e segurança social?

 

  1. Para que serves tu, José António Vieira da Silva?

 

As respostas são evidentes mas estas perguntas devem ser repetidas várias vezes. No fundo, representam a verdadeira natureza do sistema: um estado que existe para suportar o poder económico e que cria ministérios da treta para entreter e distrair a população, como se de oráculos ou circos se tratassem.

 

Aproveito também para relembrar o caso Autoeuropa: sociedade unida em peso contra a luta dos trabalhadores por um horário digno que lhes permitisse passar tempo de qualidade com as suas famílias e, ao mesmo tempo, preocupada com as indecentes ameaças de deslocalização da empresa. Aí, Vieira da Silva mostrou-se preocupado. Aí, Vieira da Silva falou e apelou ao bom senso dos trabalhadores. Ninguém se indignou com a imposição dos horários aos trabalhadores por parte da Autoreuropa que se seguiu. Agora, toda a gente acha natural que a Autoeuropa esteja parada, pela segunda vez, por falta de peças. Agora, Vieira da Silva não fala. Agora, Vieira da Silva não pede bom senso.

 

Esta hipocrisia é chocante. Mas nós gostamos.

Paternidade

por Amato, em 18.03.17

O caminho de cada um de nós não se principia no dia em que nascemos. É anterior a esse momento. Nós somos os continuadores de algo maior que nos transcende. Não interessa se disso temos ou não consciência. É mesmo assim.

 

Muitos dos problemas das sociedades começam exatamente aqui, na falta de consciência disto mesmo que escrevo. Somos para aqui paridos, abandonados cada um à sua sorte, sem saber de onde vimos, quanto mais para onde vamos, sem termos consciência do que somos, sem ideia do que devemos ser, ambicionar ou construir.

 

Paternidade é, acima de tudo, isto que acabei de escrever: não deixar que os filhos cresçam órfãos de ideias, órfãos da sua própria história, como se fossem corpos inanimados de alma, enjeitados à sua própria sorte.

 

Dedico este texto ao meu Pai, por ser o melhor Pai que um homem pode ser.

Por me dizer:

 

“Filho, tu vens daqui.

Vês?

Percorremos este caminho que se estende nas nossas costas com as nossas dificuldades, com o nosso trabalho.

Vês?

Mas chegámos até aqui, onde estamos agora.

E os teus avós são estes. E os teus bisavós aqueles ali.

E estes aqui são os nossos valores: a solidariedade, o trabalho, a amizade, o caráter, a integridade, a honra.

É disto que nós somos feitos. É este o nosso património. Não são casas, nem contas, nem carros, nem cordões de ouro. É isto aqui — dizia ele, sentado ao meu lado, apontando para o peito —. É isto aqui.

É disto que tens que pôr em cada coisa que faças ao longo da tua vida.”

 

Amanhã é o Dia do Pai. Sem a celebração de um significado substantivo, transformador, para o conceito de paternidade, repete-se neste dia um ritual capitalista sem sentido, de consumo frívolo, de celebração de coisa nenhuma. Os filhos oferecem presentes aos pais para expressar a sua gratidão por simplesmente terem sido gerados, por terem sido postos ao mundo.

 

Não, Pai: eu agradeço-te pelo que me deste e pelo que ainda hoje me dás, pelo que é invisível mas ao mesmo tempo tão essencial porque me dá força e sentido para eu ser quem sou e o que almejo ser. Agradeço-te, Pai, por não ser hoje um indigente no campo da família, dos valores ou as ideias, por ter uma estrutura que me suporta a todo o instante, que toma parte e que é parte de mim em todas as minhas escolhas. Agradeço-te, Pai, por me teres dado uma família. E agradeço-te, também, por não ter começado do zero, por poder ser continuação, como se o meu corpo e mente transportassem o que é teu e o que é da Mãe, o que é dos avós e dos bisavós.

 

A nossa existência, Pai, não é em vão.

 

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Parentalidade contemporânea

por Amato, em 24.08.16

Há uns tempos escrevi um artigo que deu muito que falar sobre a parentalidade contemporânea. As mães de hoje em dia são ridículas foi o ponto de encontro entre um desabafo suscitado pelas minhas vivências e uma reflexão filosófica que procurei fazer, como sempre, o mais seriamente possível.

 

Hoje, o assunto é de um certo modo revisitado a propósito da nova moda, cada vez mais assumida e descomplexada, dos hotéis e restaurantes de entrada vedada a crianças. O caso é retomado novamente num artigo do irmão ideológico online do Diabo escrito, o Observador.

 

É evidente que este género de restrição pela idade não é de forma alguma legalmente defensável apesar de, como o artigo refere, a situação se vir a alastrar na nossa sociedade. O que me interessa discutir não é isso. Cabe às autoridades competentes colocar um fim a cada um destes abusos.

 

O que é interessante é verificar que, respeitando ou não a lei, o problema está aí, a razão de ser desta discussão é real, é palpável, sentimo-la nos hotéis e nos restaurantes, ouvimo-la na rua e nos corredores das guloseimas e dos brinquedos dos supermercados: há uma nova geração de miúdos insuportavelmente mal educados e cujos pais não têm a mínima noção de como exercer a sua parentalidade.

 

É, por conseguinte, de natureza trivial constatar que a questão da interdição de crianças em hotéis e restaurantes nada mais é que uma forma dissimulada destes estabelecimentos enfrentarem o problema da má criação que grassa nesta nova geração de jovens. Não enfrentam o problema frontalmente, bem entendido, preferindo furar a lei a fazê-lo, por ventura pelo facto desta ser uma batalha social e coletiva que não se sentem preparados para travar.

 

A questão cultural assume aqui uma importância medular. O que impede um estabelecimento, se não as nossas próprias contingências culturais, de expulsar das suas instalações uma família cujos filhos não sabem ou não conseguem comportar-se de acordo com os padrões socialmente desejáveis? O resultado de não conseguir fazê-lo, associado ao facto de que estas famílias não sofrem qualquer penalização ou condicionamento social por persistirem nesta espécie de parentalidade incompetente — e, pelo contrário, muitas vezes até parece que são recompensadas por isso —, é este que vemos: uma sociedade cada vez mais a mais do que uma velocidade onde existem estabelecimentos onde todos podem ser incomodados por crianças mal educadas e outros onde apenas se pode ser incomodado por... adultos mal educados.

 

Enfrente-se o problema de frente. Faz falta uma maior — muito maior — disciplina nas escolas. Faz falta uma maior responsabilização dos pais pelas ações dos seus filhos. Faz falta substituir, num caso de agressão a um professor, por exemplo, as sempre convenientes desculpas para as ações dos jovens por penalizações sociais e criminais sérias para os pais. Faz falta isto e faz falta muito mais. Isto é apenas o começo do que faz falta e do que o Estado devia empenhar-se em implementar para começar a condicionar a boa educação das gerações futuras.

 

Ser-se pai ou mãe no século XXI deveria ser entendido como a responsabilidade das responsabilidades. É claro que as crianças serão sempre crianças e para uma criança, no meu entender, aplica-se a máxima do “quanto mais rebelde, melhor”. Mas não é disso que realmente falamos aqui. Há uma diferença entre a criança rebelde e a criança ditadora que manda nos pais. A primeira deve ser acarinhada e, o seu espírito curioso e rebelde, nutrido. A segunda deve ser — não tenhamos medo da palavra —, disciplinada.

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Amato

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