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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Povo mole

por Amato, em 14.05.18

Eu não dizia há uns tempos que não valia a pena ficar muito chocado a propósito das crianças do S. João que andam a fazer tratamentos de quimioterapia nos corredores desse hospital do Porto? Eu não disse que não valia a pena alinhar em histerias efémeras? Na altura escrevi: amanhã tudo estará esquecido.

 

E não é que está mesmo?

 

Leio agora esta notícia, com alguns dias de atraso, que refere que este mesmo país destas crianças, pelas quais tanto nos indignámos, e esta mesma cidade deste hospital, em que não há condições mínimas ou verba para obras essenciais, preparam-se para receber uma tal de Climate Change Leadership Porto 2018, uma conferência sobre coisa nenhuma do género daquela Web Summit que se fez em Lisboa há uns tempos, desta feita para discutir gambozinos climáticos sem o mínimo de rigor científico e, para tal, reservaram-se já quinhentos mil euros — 500 000 € — para mandar vir Barack Obama cá dizer que sim, que conseguimos, seja lá o que for que conseguimos.

 

O que ele consegue percebe-se bem, é meio milhão de euros assim, a seco, sem um pingo de suor, basta apresentar aquela cara por cá e dizer duas anedotas para o povo soltar umas risadas. O que nós conseguimos é, talvez, demonstrar o povo mole, mole, mole — mole até dizer basta! — que somos.

 

Sabem qual é o preço de uma selfie com Obama e os nossos vaidosos governantes? Quinhentos mil euros! Sabem quem paga?... Mas esperem pela conferência, esperem pela chegada de Obama! Ainda vamos ver o povo todo em delírio com a coisa, a encher ruas inteiras e a celebrar efusivamente o fenómeno de ter sido roubado.

O vendedor de ilusões

por Amato, em 28.07.16

Ouvir o discurso de Barack Obama na convenção do Partido Democrata americano é a cereja no topo do bolo. Suponho que a democracia americana tem tanto valor quanto o valor que a sociedade atribui a este tipo de espetáculo demagógico, a este fogo de artifício vazio de política propriamente dita. Pergunto-me o que teria aquela gente toda a dizer se, do outro lado, não pontificasse a sinistra figura de Donald Trump. Nada? Provavelmente.

 

Algumas conclusões:

 

1) A política norte-americana está reduzida a espetáculo mediático puro, completamente desapossada de qualquer discussão efetivamente política, sendo certo que o cargo de Presidente dos Estados Unidos da América já foi engenhosamente formatado para ter o seu real poder muito limitado.

 

2) Os políticos norte-americanos são menos importantes que atores ou cantores pop. Este facto não deixa de ser irónico.

 

3) A resposta do Partido Democrata ao Partido Republicano de Trump é combater palhaçada com palhaçada.

 

4) Barack Obama, com o seu discurso de apoio a Hillary Clinton — enterrada até ao pescoço nas mais fétidas promiscuidades com os lobbies e os interesses que governam os americanos —, mostra aquilo que é e aquilo que sempre foi: um vendedor bem-falante de ilusões que, para o fazer, é capaz de nos mentir descaradamente.

 

http://www.harpweek.com/Images/SourceImages/CartoonOfTheDay/August/083161m.jpg

O que fez Obama?

por Amato, em 03.02.16

Falava há uns dias com uma querida amiga sobre o legado de Obama como Presidente dos Estados Unidos da América. Dizia-me ela: “Obama sempre foi melhor do que Bush...”; ao que eu retorqui: “Foi? O que fez Obama?”. A conversa prosseguiu sem que surgisse uma resposta clara à minha inocente pergunta.

 

“O que fez Obama?”.

 

Foi melhor do que Bush? Eventualmente. Mas será que foi mesmo? Será que, para lá da sua eloquência e superior capacidade oratória, existem diferenças políticas realmente substantivas?

 

Bush ficou marcado pelo onze de setembro e pela sua selvática e idiota reação que empurrou a América e meio mundo para bombardeamentos sem fim no Afeganistão e no Iraque. Mas Obama fez essencialmente o mesmo na Líbia e, agora, na Síria. Pode não ser tão violento nos métodos, preferindo armar e pagar a grupos de mercenários para por ele sujarem as mãos e causarem o caos político nesses países, mas essencialmente trata-se da mesma coisa. No mais, em termos de política externa, são como faces da mesma moeda.

 

Obama veio com a ilusão de ser o primeiro Presidente da América negro e, a reboque, trouxe inúmeras promessas, três das mais relevantes foram: um sistema público de saúde (obamacare), o retirar as tropas do Iraque e do Afeganistão e o encerramento da prisão de Guantanamo (o gulag norte-americano). A pouco tempo de terminar o seu segundo mandato, o saldo de tudo isto resume-se... ao facto de Obama ter sido, com efeito, o primeiro Presidente da América negro. Sim... a lista termina aqui.

 

Há quem diga que enfrentou e derrotou a seríssima crise financeira e económica, a crise do subprime, que assolou a América e que contagiou o resto do mundo capitalista. Teve o azar de ter tido que enfrentar uma destas crises cíclicas que afetam o capitalismo. Tudo isto é verdade, mas também é verdade que resolveu o problema, por ora, à custa de um exponencial aumento de dívida. Acrescente-se que a dívida americana, se já era um monstro incontrolável, com Obama tornou-se numa besta de duas ou três cabeças. Convenhamos que resolver uma crise económico-financeira é muito mais fácil se pudermos proceder a injeções virtualmente ilimitadas de capital no sistema.

 

Há, contudo, uma singular e preciosa ação de Obama que ficará para sempre nos anais da História e que talvez apenas ele pudesse ter levado a cabo e que consistiu no retomar das relações diplomáticas dos Estados Unidos da América com Cuba. Já não sobrava qualquer argumento justificativo para tal atitude e, com o patrocínio do Papa Francisco, bastou a Obama tomar esse evidente passo, todavia ainda grotescamente difícil, enfrentando uma violenta oposição interna. Obama ficará na História política por isto. O facto de ser o primeiro negro a ocupar o cargo tornar-se-á apenas numa mera curiosidade antropológica.

 

Poderemos sempre argumentar sobre o papel de Obama no processo. Terá sido um agente mais ativo ou mais passivo? Ou terá sido simplesmente apanhado pelo discorrer indelével das areias do tempo? Ou do destino?

 

Os Estados Unidos só voltarão a dialogar connosco quando tiverem um presidente negro e quando houver no mundo um Papa latino-americano.

— Fidel Castro, 1973

 

 

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