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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

O que é a felicidade?

por Amato, em 04.12.18

Um dia o menino ergueu a cabeça em direção ao pai e perguntou-lhe: o que é a felicidade, pai?

 

Que pergunta parva... Toda a gente sabe o que é a felicidade! ­— terá pensado o pai. A felicidade é o que nos faz viver. É a procura pelo prazer, pela satisfação do existir. E, por isso, é diferente para todas as pessoas. Para o menino, por exemplo, é um desenho animado, uma banda desenhada, um chocolate, um gelado de morango, um mimo da mãe, um aconchego do pai numa noite fria de janeiro. Para o pai, será coisa diversa. Será comida na mesa, um bom carro e uma boa casa, um sorriso nos lábios da mulher e nos do filho, algum dinheiro no banco, claro, satisfação sexual, claro, mas também satisfação pessoal, sentir-se importante para a família que sente a sua falta, para a comunidade onde vive, no trabalho ao qual dedica a vida e não sentir-se como um trapo qualquer que se usa para alguma conveniência e se deita fora findada a sua utilidade.

 

Não é assim tão simples, claro: a felicidade de uns é a infelicidade de outros. Basta o vizinho comprar um carro novo para que o carro do homem, que era tão bom no dia de ontem, de repente, não parecer tão apropriado e esta dinâmica tem-se desenvolvido e alastrado como uma doença contagiosa com o passar dos anos. A vida do homem ­— olhemos bem para a vida do homem ­— foi tomada por esta espiral sem fim. O que faz o homem correr, nestes dias que passam? O que faz o homem correr hoje? Examinemos a vida do homem que cada vez trabalha mais, mais horas por dia, que quando sai do trabalho mandam-no chamar para terminar hoje um trabalho que surgiu de urgência e que tem que ficar pronto antes que o dia acabe, que quando consegue chegar, finalmente, a casa, já a mulher e o filho dormem há horas, recebe uma chamada para iniciar reunião em videoconferência para acertar uns pontos que ficaram por acertar no trabalho e, depois disso, tem ainda que mandar e-mails para pedir umas coisas e confirmar outras, e deixar uma nota à mulher, não a quer acordar, que amanhã partirá para Lisboa e de lá para Londres e, na volta, passará por Madrid, não interessa especificar, quedar-se-á fora até ao próximo fim-de-semana, faltará, por isso, ao aniversário da sogra e não poderá ajudar o filho com os deveres de Matemática, ele já está habituado a fazê-los sozinho, a última vez que o ajudou foi... não se lembra, mas a vida é mesmo assim, é um parafuso sem fim, quando chegar o Natal haverá muitas prendas para toda a gente, muitos smartphones, muitos tablets, muitos jogos e consolas para o miúdo, televisões novas, carro novo, talvez, não faltará nada, poderá faltar o homem, nessa semana estará algures no norte de Itália e os aviões atrasam-se, às vezes, e as reuniões atrasam-se, tudo isto deixou o homem escrito no post it amarelo que colou ao frigorífico para a mulher ler quando acordar de manhã.

 

Hoje em dia, a felicidade é isto. É por esta vida que o homem corre. Os homens correm por isto. Vidas vazias dedicadas apenas a um consumismo crescente e insaciável mas gratificante no imediato. Estupidamente gratificante. Na vida que o homem leva é perfeitamente indiferente ter aquela companheira ou aquele filho. Podiam ser outros. Ele não os conhece, nem a uma, nem a outro.

 

Não disse isto tudo o homem ao filho, ficou-se pela primeira parte e já foi bom ter tido tempo para dizer isso. Um dia a Madre Teresa de Calcutá, feita santa pela Igreja Católica, disse: É fácil amar os que estão longe. Mas nem sempre é fácil amar os que vivem ao nosso lado. Difícil será amar o próximo. Será, por ventura, por esta razão que escolhemos viver as nossas vidas deste modo. Vidas de gratificação imediata. Vidas destituídas de amor.

Sociedade doente

por Amato, em 25.12.16

Esta sociedade tem que estar mesmo mesmo doente quando há pessoas que enviam e-mails de trabalho no dia de Natal.

 

Já não bastava profanarem os domingos e os feriados ao longo do ano. Já não bastava também que o envio fosse feito, muitas vezes, depois das oito da noite.

 

Não.

 

Faltava o dia de Natal.

 

Sociedade doente. Pessoas doentes, sem vida pessoal, sem vida familiar.

 

Sem vida.

“Bom Natal” e “bom ano”

por Amato, em 25.12.15

Nesta quadra vemos a generalidade das pessoas a trocar votos de boas festas, um “feliz Natal”, um “bom ano”, e isto é feito com um certo grau de automatismo. Não quero dizer que não seja sentido, embora não o seja, estou certo disso, na maioria dos casos. As palavras são ditas em contexto protocolar e os desejos, todavia sinceros, são fruto de uma sinceridade desprovida de consciência.

 

A primeira vez em que realmente pensei sobre o assunto foi quando fui despedido em vésperas de Natal. “Despedido” é impreciso: quando prescindiram dos meus serviços. A segunda vez ocorreu quando um patrão (“patrão” aqui também é impreciso, mas vou evitar usar a designação “entidade adquirente do serviço”) não me pagou os vencimentos dos meses anteriores.

 

Quando coisas deste género acontecem há algo que muda em cada “feliz Natal” e em cada “bom ano”. Do que estamos a falar afinal? De chocolates e perfumes ou outras prendinhas banais? É o que parece. Parece que o Natal é só este conjuntinho de banalidades, de natureza sacra ou pagã, para entreter o povo e todos aqueles valores que se usam à boca cheia neste período são apenas símbolos para encadear a visão. Porque no dia seguinte, o desempregado continua desempregado, o descamisado continua sem camisa e o sistema continua podre e a alimentar os mesmos de sempre.

 

“Bom Natal” e “bom ano” deviam ser mais que palavras mas não são mais do que um conjunto de palavras vazias. “Bom Natal” e “bom ano” deviam vir junto com ações diferentes e essas ações diferentes não deviam estar circunscritas a esta quadra. Mas tudo isto é cultural e a nossa é a cultura do “bode expiatório”. Gostamos destes momentos para podermos sentir a alma lavada e, então, retomarmos a nossa rotina de pecado. É neste sentido que a quadra deve ser interpretada e cada “bom Natal” e cada “bom ano” devem ser entendidos.

A mais bonita música de Natal

por Amato, em 26.12.14

 

Quadra de moralidade

por Amato, em 22.12.14

Quando era mais novo, muito novo, quando não fazia ideia sequer das consequências dos atos, nem ponderava sobre as causas dos mesmos, quando pensava que todo o universo se movia em torno do meu ego, houve uma lista de valores, de princípios, que me foram impingidos, sem uma qualquer ordem natural. Eram valores que se considerava importantes e estruturantes daquilo que eu poderia ser e que, sob uma certa perspetiva de desenvolvimento, germinaram naquilo que hoje constitui o meu quadro moral.

 

Detesto a palavra moralidade. Detesto-a por estar tão umbilicalmente relacionada com as forças mais retrógradas das sociedades humanas e porque, ultimamente, serve sempre de pretexto para os poderosos enraizarem e perpetuarem o seu jugo sobre os mais fracos.

 

Por isso, esta moralidade de que falo nada tem que ver com aquela que se aprende nas catequeses. São os valores dos homens que existiam muito antes das religiões e dos deuses nascerem. São os princípios dos homens que trabalham e que juntos sobrevivem o dia-a-dia e que amam e se respeitam como irmãos e não como concorrentes. Em última análise, foi essa particularidade das sociedades primitivas humanas que permitiu ao Homem deixar os demais animais para trás na escada evolutiva.

 

Neste contexto e no contexto da presente quadra natalícia, independentemente do seu significado religioso, queria apontar o seguinte. Um dos valores que me foi transmitido foi que aquele que ajuda não se deve regozijar por isso. Ninguém deve saber. Não deve tomar crédito da ajuda que deu, nem tão pouco adquirir qualquer tipo de vantagem pelo que fez, pois não é por isso que o deve fazer. E contudo...

 

Hoje não há uma grande superfície, não há um tentáculo capitalista, que não tenha a sua pequena ação caridosa ou campanha solidária, às vezes até mais do que uma, ao sabor do bom espírito natalício. Não existe um que seja. Nunca vi tal igual. E anunciam-no aos sete ventos! Anunciam-no para que acorramos a comprar nos seus estabelecimentos transbordando de piedade ou do que quer que seja.

 

Ninguém impede que essas lojas e lojinhas façam os seus donativos que, aliás, devem fazer, mas usar a solidariedade como slogan publicitário é demasiado baixo. Tão baixo que me surpreende que aceitemos isto como natural. Surpreende-me que se permita isto. Estará o Homem do século XXI tão afastado assim do seu antepassado ancestral? Por ventura, tratar-se-á de um tipo contemporâneo de moralidade oportunamente disseminado nesta quadra.

O Natal como um reflexo

por Amato, em 12.12.14

O Natal diz tanto sobre o que somos, tanto sobre o que pensamos, tanto sobre a nossa natureza... O Natal é uma quadra em que queremos acreditar que somos melhores do que o que somos; em que queremos acreditar que nos importamos com os que nos rodeiam, a família e os outros. Queremos mostrar que valorizamos aquilo que realmente parece nobre e importante.

 

Em muitos casos juntam-se à mesa pessoas que se ignoram durante o resto do ano. Dizem-se, ouvem-se, cantam-se versos que são frases que nos parecem ridículas se desenquadradas noutra estação do ano. E multiplicam-se as campanhas de caridade disfarçada de solidariedade por toda a parte, por toda a razão sensibilizante até às lágrimas do maior cínico. Quando, ao longo do ano, essas razões perdem toda a relevância que pareciam ter subjugando-se, com naturalidade, às leis de competição que presidem à sobrevivência do Homem.

 

Assim é. Aliás, assim tem sido.

 

O Natal apresenta-se, assim, como um par de semanas que funcionam como um oportuno escape a uma rotina cristalizada como normal e óbvia no resto do ano. As pessoas precisam disto. Lavam o caráter, esfregam os calos e as cicatrizes acumuladas ao longo do ano e preparam-se, de alma esfoliada, para outro ano de hábitos iguais.

 

O Natal é o reflexo óbvio da sociedade em que vivemos, das nossas convicções, das nossas opções. Se a sociedade fosse outra, o Natal poderia ser um dia qualquer, um dia como outro qualquer. Ou então, um valorado símbolo, e não oco, de um conjunto de valores que se considerassem importantes e estruturantes.

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Amato

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