Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Com que subtilezas se reescreve a História

https://www.les-crises.fr/wp-content/uploads/2015/05/poll-france-nations-contribution-nazis-defeat-1.jpg

image: www.les-crises.fr

 

Escassos dias após o final da segunda grande guerra, perguntou-se ao povo francês qual país tinha dado um maior contributo para a derrota do nazi-fascismo nesse conflito armado. Naquele momento, a União Soviética recolheu 57% dos votos, Estados Unidos da América 20% e Reino Unido 12%, um resultado absolutamente natural. Afinal, os soviéticos foram, de longe, os mais sacrificados durante todo o conflito e os que lideraram, durante a maior parte do tempo sozinhos, a longa contra-ofensiva que viria a derrotar o Terceiro Reich. Sob todos os pontos de vista, a participação do Reino Unido foi reduzida e a dos Estados Unidos vergonhosamente tardia, literalmente a meses do fim da guerra, depois de ter passado o conflito inteiro a engordar a sua economia financiando os esforços de guerra de britânicos e alemães em simultâneo.

 

A mesma pergunta viria a repetir-se mais três vezes, em 1994, 2004 e 2015, e os resultados revelar-se-iam surpreendentes… ou não. As novas gerações, filhas e netas do pós-guerra, vieram a reconhecer os Estados Unidos como os principais responsáveis da derrota de Hitler, com percentagens acima dos 50% (58% em 2004 e 54% em 2015) empurrando a União Soviética para uns desprezáveis 20% (20% em 2004 e 23 % em 2015).

 

Com efeito, a construção da memória histórica é um processo complexo carregado de subtilezas. Uma delas é que são mais importantes os sentimentos, os afetos subjetivos que se desenvolvem relativamente aos acontecimentos e às partes do que propriamente qualquer tipo de análise objetiva sobre estes e estas. Não é que tenhamos acabado de descobrir a pólvora, nem de perto, nem de longe. Não é por acaso que se diz que a História é escrita pelos vencedores das guerras e que estes, de facto, sempre se empenharam, sempre tudo investiram, desde que há memória, em processos duais de auto-glorificação, por um lado, e de demonização dos derrotados, por outro.

 

A atualidade mostra-nos um esplendor jamais visto, no que à arte e à técnica diz respeito, dessa verdadeira ciência social chamada de propaganda que influencia, com incontestável eficácia, as mentes, as reações e os sentimentos das massas. Durante décadas, Hollywood trabalhou com afinco, produzindo muitos mais filmes contra o comunismo do que contra o nazismo, e os Estados Unidos, os plenos vencedores da guerra ideológica travada ao longo do século XX, entre capitalismo e comunismo, recolhem agora os resultados do que semearam com as massas, mundo fora genericamente, a dar-lhes o crédito que não tiveram, a validarem o falso, a reconhecerem como verdadeiro o imaginário dos filmes. Não é de estranhar. Os que respondem hoje a este tipo de sondagens são, afinal, os mesmos que acham que os combates do Rocky são acontecimentos históricos e que o Rambo foi um verídico herói de guerra, para dar dois exemplos apenas. São gerações incultas educadas pela televisão e pelos media, incapazes de distinguir a ficção da realidade.

 

Escrevo estas linhas a propósito da fuga de Juan Carlos de Espanha para a República Dominicana com escala em Portugal. Juan Carlos foge do seu passado de promiscuidade com o conservadorismo mais bafiento e violento, convertido, durante décadas, no fascismo de Franco, das suas íntimas relações com a monstruosa monarquia saudita e outras coisas que tais com o condão de apoquentar a opinião pública face ao seu filho, o virginal e impoluto Felipe VI de Espanha. Acabei de poetizar a coisa, eu sei, mas não resisti. O antigo monarca foge, ao que consta, para não vir a ser acusado de crimes concretos de lesa-estado.

 

Por toda a parte, Juan Carlos é apresentado como uma figura ímpar, uma espécie de herói com uns certos vícios, de algum modo inadaptado à contemporaneidade, mas com feitos assinaláveis na construção da Espanha contemporânea. Um jornal apresenta-o na primeira página como “o rei que enterrou o franquismo”, uma ideia que já havia lido, ficcionada, no último romance de Dan Brown, A Origem.

 

A verdade é coisa que não interessa muito para o caso. Se a narrativa mediática for repetida vezes suficientes, então ela tomará naturalmente o lugar da verdade para a esmagadora maioria das pessoas nas gerações que virão. Hoje, ainda há muitos espanhóis, republicanos, que sabem bem qual foi o papel de Juan Carlos na história de Espanha, durante a guerra civil, durante a ditadura, e que se recusam, por isso mesmo, a prestar vassalagem à monarquia espanhola. Estes, serão os únicos e derradeiros guardiões da verdade. Com o passar dos anos, com o esbatimento dos ideais, dos valores, com a dispersão populacional e o seu desenraizamento progressivo, a sua instrução enviezada e a sua falta de exigência, a verdade tenderá a perder-se e até a desaparecer das notas de rodapé dos livros de História laudatórios do poder. E é precisamente deste modo que se procede à reescrita da história.

publicado às 15:23

Sobre o episódio do Bloco sentado

Por vezes, parece ser necessário encontrar alguém de direita para reconhecer o óbvio:

 

“Esta é a diferença: o PCP não bate palmas mas demonstra respeito pelo interesse nacional e sentido de Estado. O BE é apenas mal educado.”

 

A frase é do improvável, pela sagacidade, Duarte Marques, deputado do PSD.

 

http://images-cdn.impresa.pt/sicnot/2016-11-30-BE-sentado-PCP.BMP/original/mw-860

 

O Bloco de Esquerda está no seu direito em não concordar com o regime monárquico e seus princípios como, aliás, nenhum republicano concordará. Já não está no seu direito em desrespeitar o representante máximo de um povo que, não havendo indicação em contrário, mantém intacto o seu direito à autodeterminação. O povo espanhol decide o que melhor lhe convém em termos de organização e de representatividade política e nós, podendo não concordar com as suas escolhas diretas ou indiretas não temos o direito de desrespeitar essas suas escolhas.

 

E para que fique bem claro, eu não concordo e rejeito qualquer monarquia e qualquer rei. Considero a monarquia um sistema político abjeto. Considero impensável que um ser humano livre se submeta a um tal regime, a uma tal sociedade de castas. Mas quem disse que os seres humanos querem ser livres? Os seres humanos querem é ler revistas cor-de-rosa... Cabe-nos respeitar.

publicado às 09:06

Uma adenda ao post de ontem

Depois de Rui Moreira, no Porto, também o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, ofereceu as chaves da cidade, a capital de Portugal (!!!), ao rei de Espanha. Depois do Presidente da República, também o Primeiro-ministro, o chefe do governo, teve uma intervenção de relevo neste espetáculo embaraçoso que foi a receção aos monarcas espanhóis de visita ao nosso país.

 

Eles, no fundo, queriam todos ser reis e reizinhos por direito. Por sangue. Para eles, no fundo, no fundo, a República e a democracia são apenas um meio para se atingir o poder. Daí esta admiração boçal pela realeza estrangeira. Daí este desrespeito pelos princípios do país e pela sua História. Daí este espetáculo verdadeiramente deprimente.

 

https://blobsvc.wort.lu/picture/a1edc826e3fc6aa89290d74c4bfa86f9/577/356/wortv3/527292daa435ee659649ad6b374f497be640cf12

 

publicado às 10:02

Cinco de outubro: notas sobre o formalismo do regime ou a consciência do cidadão

Comemora-se hoje o dia da capitulação final do regime monárquico e da implantação da república no nosso país. Trata-se de um dia de substancial importância na medida em que, formalmente, Portugal deixou de ser liderado por uma casta de indivíduos nascidos para o efeito para passar a ser liderado por cidadãos escolhidos de forma não arbitrária (democrática).

 

Que esses cidadãos, escolhidos para liderar no regime republicano, também têm pertencido invariavelmente a uma certa casta, nomeadamente à do poder económico, é outra conversa. Que a república se tenha tornado rapidamente mais dispendiosa que as mais faustosas monarquias europeias, outra história é. Trata-se, ultimamente, da consequência das escolhas coletivas da população e não de uma qualquer fatalidade ou inevitabilidade.

 

Importa salientar o formalismo da coisa em si. Por muito modernizada que a monarquia se tenha tornado, por muitos adjetivos que compre (parlamentar, constitucional...), por muito que se tenha adaptado às idiossincrasias, às burocracias e aos palcos mediáticos da era contemporânea europeia, a monarquia não deixa nunca de ser exatamente o que é. E o que é, quando analisamos a sua estrutura de base, é degradante, para dizer o mínimo, na perspetiva do cidadão que a ela se submete. A monarquia é o espaço natural das classes sociais e económicas, de tal forma evidente, que elas se estabelecem logo na génese do indivíduo. E por isso, ainda que se possa encontrar exemplos com vantagem da monarquia sobre a república, exemplos de práticas de igualdade e de justiça efetivas, o formalismo da monarquia é inexorável e, portanto, inaceitável. Já o da república traduz-se numa estrutura de base de igualdade e de justiça. O que os povos dela fazem, nomeadamente no que diz respeito à organização económica que preferem, não deve ser aqui abordado.

publicado às 12:07

Mais sobre mim

imagem de perfil

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub