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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

No Reino Unido dos sonhos, príncipes, fadas e democracia

O Reino Unido sempre a dar-nos lições de democracia. É extraordinária a bondade do Reino para com o resto do mundo! Vão para o segundo primeiro-ministro não sufragado popularmente, depois dos dois anteriores terem exibido a sua incapacidade e incompetência a níveis admiráveis. E a primeira substituta de Boris, sem ter tempo sequer de decorar a seu gosto o nº 10 de Downing Street, leva com ela uma pensão vitalícia milionária. O novo primeiro-ministro, que será apontado ao que tudo indica, é o político mais rico do país, sinal da sua superior competência para o cargo.

Nada disto é da minha conta e os britânicos é que sabem com que linhas é que se hão de coser. Não queria era deixar de assinalar estes factos, sobretudo para todos aqueles “liberais”, e também “monárquicos”, cá do bairro e que atualmente se vão multiplicando como cogumelos devido ao clima húmido e obscuro que vamos tendo, esses que têm o Reino Unido sempre na ponta da língua para dar exemplos de democracia e de como as coisas são bem feitas. Ai são, são... são muito bem feitas. Disso não há nenhuma dúvida.

publicado às 09:31

Com que subtilezas se reescreve a História

https://www.les-crises.fr/wp-content/uploads/2015/05/poll-france-nations-contribution-nazis-defeat-1.jpg

image: www.les-crises.fr

 

Escassos dias após o final da segunda grande guerra, perguntou-se ao povo francês qual país tinha dado um maior contributo para a derrota do nazi-fascismo nesse conflito armado. Naquele momento, a União Soviética recolheu 57% dos votos, Estados Unidos da América 20% e Reino Unido 12%, um resultado absolutamente natural. Afinal, os soviéticos foram, de longe, os mais sacrificados durante todo o conflito e os que lideraram, durante a maior parte do tempo sozinhos, a longa contra-ofensiva que viria a derrotar o Terceiro Reich. Sob todos os pontos de vista, a participação do Reino Unido foi reduzida e a dos Estados Unidos vergonhosamente tardia, literalmente a meses do fim da guerra, depois de ter passado o conflito inteiro a engordar a sua economia financiando os esforços de guerra de britânicos e alemães em simultâneo.

 

A mesma pergunta viria a repetir-se mais três vezes, em 1994, 2004 e 2015, e os resultados revelar-se-iam surpreendentes… ou não. As novas gerações, filhas e netas do pós-guerra, vieram a reconhecer os Estados Unidos como os principais responsáveis da derrota de Hitler, com percentagens acima dos 50% (58% em 2004 e 54% em 2015) empurrando a União Soviética para uns desprezáveis 20% (20% em 2004 e 23 % em 2015).

 

Com efeito, a construção da memória histórica é um processo complexo carregado de subtilezas. Uma delas é que são mais importantes os sentimentos, os afetos subjetivos que se desenvolvem relativamente aos acontecimentos e às partes do que propriamente qualquer tipo de análise objetiva sobre estes e estas. Não é que tenhamos acabado de descobrir a pólvora, nem de perto, nem de longe. Não é por acaso que se diz que a História é escrita pelos vencedores das guerras e que estes, de facto, sempre se empenharam, sempre tudo investiram, desde que há memória, em processos duais de auto-glorificação, por um lado, e de demonização dos derrotados, por outro.

 

A atualidade mostra-nos um esplendor jamais visto, no que à arte e à técnica diz respeito, dessa verdadeira ciência social chamada de propaganda que influencia, com incontestável eficácia, as mentes, as reações e os sentimentos das massas. Durante décadas, Hollywood trabalhou com afinco, produzindo muitos mais filmes contra o comunismo do que contra o nazismo, e os Estados Unidos, os plenos vencedores da guerra ideológica travada ao longo do século XX, entre capitalismo e comunismo, recolhem agora os resultados do que semearam com as massas, mundo fora genericamente, a dar-lhes o crédito que não tiveram, a validarem o falso, a reconhecerem como verdadeiro o imaginário dos filmes. Não é de estranhar. Os que respondem hoje a este tipo de sondagens são, afinal, os mesmos que acham que os combates do Rocky são acontecimentos históricos e que o Rambo foi um verídico herói de guerra, para dar dois exemplos apenas. São gerações incultas educadas pela televisão e pelos media, incapazes de distinguir a ficção da realidade.

 

Escrevo estas linhas a propósito da fuga de Juan Carlos de Espanha para a República Dominicana com escala em Portugal. Juan Carlos foge do seu passado de promiscuidade com o conservadorismo mais bafiento e violento, convertido, durante décadas, no fascismo de Franco, das suas íntimas relações com a monstruosa monarquia saudita e outras coisas que tais com o condão de apoquentar a opinião pública face ao seu filho, o virginal e impoluto Felipe VI de Espanha. Acabei de poetizar a coisa, eu sei, mas não resisti. O antigo monarca foge, ao que consta, para não vir a ser acusado de crimes concretos de lesa-estado.

 

Por toda a parte, Juan Carlos é apresentado como uma figura ímpar, uma espécie de herói com uns certos vícios, de algum modo inadaptado à contemporaneidade, mas com feitos assinaláveis na construção da Espanha contemporânea. Um jornal apresenta-o na primeira página como “o rei que enterrou o franquismo”, uma ideia que já havia lido, ficcionada, no último romance de Dan Brown, A Origem.

 

A verdade é coisa que não interessa muito para o caso. Se a narrativa mediática for repetida vezes suficientes, então ela tomará naturalmente o lugar da verdade para a esmagadora maioria das pessoas nas gerações que virão. Hoje, ainda há muitos espanhóis, republicanos, que sabem bem qual foi o papel de Juan Carlos na história de Espanha, durante a guerra civil, durante a ditadura, e que se recusam, por isso mesmo, a prestar vassalagem à monarquia espanhola. Estes, serão os únicos e derradeiros guardiões da verdade. Com o passar dos anos, com o esbatimento dos ideais, dos valores, com a dispersão populacional e o seu desenraizamento progressivo, a sua instrução enviezada e a sua falta de exigência, a verdade tenderá a perder-se e até a desaparecer das notas de rodapé dos livros de História laudatórios do poder. E é precisamente deste modo que se procede à reescrita da história.

publicado às 15:23

Sobre o episódio do Bloco sentado

Por vezes, parece ser necessário encontrar alguém de direita para reconhecer o óbvio:

 

“Esta é a diferença: o PCP não bate palmas mas demonstra respeito pelo interesse nacional e sentido de Estado. O BE é apenas mal educado.”

 

A frase é do improvável, pela sagacidade, Duarte Marques, deputado do PSD.

 

http://images-cdn.impresa.pt/sicnot/2016-11-30-BE-sentado-PCP.BMP/original/mw-860

 

O Bloco de Esquerda está no seu direito em não concordar com o regime monárquico e seus princípios como, aliás, nenhum republicano concordará. Já não está no seu direito em desrespeitar o representante máximo de um povo que, não havendo indicação em contrário, mantém intacto o seu direito à autodeterminação. O povo espanhol decide o que melhor lhe convém em termos de organização e de representatividade política e nós, podendo não concordar com as suas escolhas diretas ou indiretas não temos o direito de desrespeitar essas suas escolhas.

 

E para que fique bem claro, eu não concordo e rejeito qualquer monarquia e qualquer rei. Considero a monarquia um sistema político abjeto. Considero impensável que um ser humano livre se submeta a um tal regime, a uma tal sociedade de castas. Mas quem disse que os seres humanos querem ser livres? Os seres humanos querem é ler revistas cor-de-rosa... Cabe-nos respeitar.

publicado às 09:06

Uma adenda ao post de ontem

Depois de Rui Moreira, no Porto, também o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, ofereceu as chaves da cidade, a capital de Portugal (!!!), ao rei de Espanha. Depois do Presidente da República, também o Primeiro-ministro, o chefe do governo, teve uma intervenção de relevo neste espetáculo embaraçoso que foi a receção aos monarcas espanhóis de visita ao nosso país.

 

Eles, no fundo, queriam todos ser reis e reizinhos por direito. Por sangue. Para eles, no fundo, no fundo, a República e a democracia são apenas um meio para se atingir o poder. Daí esta admiração boçal pela realeza estrangeira. Daí este desrespeito pelos princípios do país e pela sua História. Daí este espetáculo verdadeiramente deprimente.

 

https://blobsvc.wort.lu/picture/a1edc826e3fc6aa89290d74c4bfa86f9/577/356/wortv3/527292daa435ee659649ad6b374f497be640cf12

 

publicado às 10:02

Cinco de outubro: notas sobre o formalismo do regime ou a consciência do cidadão

Comemora-se hoje o dia da capitulação final do regime monárquico e da implantação da república no nosso país. Trata-se de um dia de substancial importância na medida em que, formalmente, Portugal deixou de ser liderado por uma casta de indivíduos nascidos para o efeito para passar a ser liderado por cidadãos escolhidos de forma não arbitrária (democrática).

 

Que esses cidadãos, escolhidos para liderar no regime republicano, também têm pertencido invariavelmente a uma certa casta, nomeadamente à do poder económico, é outra conversa. Que a república se tenha tornado rapidamente mais dispendiosa que as mais faustosas monarquias europeias, outra história é. Trata-se, ultimamente, da consequência das escolhas coletivas da população e não de uma qualquer fatalidade ou inevitabilidade.

 

Importa salientar o formalismo da coisa em si. Por muito modernizada que a monarquia se tenha tornado, por muitos adjetivos que compre (parlamentar, constitucional...), por muito que se tenha adaptado às idiossincrasias, às burocracias e aos palcos mediáticos da era contemporânea europeia, a monarquia não deixa nunca de ser exatamente o que é. E o que é, quando analisamos a sua estrutura de base, é degradante, para dizer o mínimo, na perspetiva do cidadão que a ela se submete. A monarquia é o espaço natural das classes sociais e económicas, de tal forma evidente, que elas se estabelecem logo na génese do indivíduo. E por isso, ainda que se possa encontrar exemplos com vantagem da monarquia sobre a república, exemplos de práticas de igualdade e de justiça efetivas, o formalismo da monarquia é inexorável e, portanto, inaceitável. Já o da república traduz-se numa estrutura de base de igualdade e de justiça. O que os povos dela fazem, nomeadamente no que diz respeito à organização económica que preferem, não deve ser aqui abordado.

publicado às 12:07

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