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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

A indecência intelectual continua

por Amato, em 03.09.15

Não há volta a dar. Não existe um assunto, um acontecimento, um fenómeno que seja, que usufrua da mais que singela bondade de ser tratado com decência. E dessa decência também não exigimos muito. Queremos apenas que seja de natureza intelectual.

 

Não fugindo à regra, deparamo-nos com o tratamento dado à questão dos “migrantes”! Veja-se bem! Atente-se na nomenclatura extraída do dicionário: “migrantes”. É que a falta de decência começa logo aqui, na forma como apelidamos aqueles seres humanos que fogem à guerra e às terríveis condições de vida ditadas pelo seu destino.

 

Mas seria bom, não, seria excelente se o problema se resumisse à mentecapta escolha da nomenclatura. O problema é muito mais grave. A história continua, continua porque eles não param de dar às costas europeias, apenas por isso, mas continua. E continua naquilo que também é costume: uma acéfala reação sentimentalista por parte das massas. Chamo-lhe de acéfala porque tal reação “viral” tão depressa surge como desaparece. Já conhecemos esta história. Chame-se-lhe “casa pia”, chame-se-lhe “gripe das aves” ou “ébola”, chame-se-lhe “tsunami” ou “terramoto”, ou chame-se-lhe isto: os “migrantes”. É o ataque de histeria típico antes do esquecimento amnésico permanente.

 

Todavia a acefalia da coisa também não se reduz ao acima exposto. Ninguém quer saber pívia da razão de ser destes “migrantes”. Todos fogem das causas, uns por encapotada ausência de solidariedade na espinha, outros pela covardia inerente de não terem coragem de apontar o dedo a quem de direito e a quem tem que prestar contas pelas suas responsabilidades na questão.

 

Quem andou a semear guerras desde o virar do século, umas atrás das outras, nenhuma das quais justificada por nada que não seja a exploração e o lucro? Confronte-se agora com os países de origem destes refugiados. Bingo!

 

É que isto agora é tudo muito bonito, é “dividir o mal pelas aldeias”. Agora é que temos que ser todos solidários. Estamos delapidados de toda e qualquer decência intelectual e, pior, quem comenta estas questões não tem vergonha. Falta-lhes vergonha e escondem a lacuna atirando para o ar lugares comum tão ocos quanto, por ventura, a sua moralidadezinha barata.

 

Uma nota para comentar aquela piada que António Costa lançou para o ar. Dizia ele que devíamos acolher massivamente os refugiados para compensar a falta de natalidade no nosso país. A piada é muito boa. Certa vez, mandaram vir imigrantes brasileiros para uma terra chamada Vila de Rei, dizendo que era para repovoar. Fizeram uma reportagem e tudo. Estava tudo muito feliz. É verdade: esses imigrantes não se quedaram por Vila de Rei nem um ano. Abalaram tão depressa quanto puderam para as grandes cidades de Portugal. Há uma quantidade de gente que pensa que os imigrantes talvez por serem eventualmente pobres ou, então, por serem simplesmente imigrantes, que também são estúpidos. O que leva os portugueses a fugirem do interior, a fugir do país, a migrar e a emigrar, é o mesmo que os leva a eles a fazerem o mesmo. Sem bons salários e boas condições de vida não há como segurar gente a este punhado de terra chamado de Portugal.

 

Esta piada de António Costa diz muito sobre o que ele está disposto a fazer quando tiver o poder e sobre a sua visão sobre Portugal. Diz o suficiente.

As contemporâneas vinhas da ira

por Amato, em 18.03.15

Todos os dias os sites de emprego inundam as caixas de correio daqueles que o procuram com dezenas de novas oportunidades, centenas de ofertas. Muitas delas não têm nada de novo. Muitas são recorrentes ou apresentadas de uma outra forma. Muitas oferecem-nos a oportunidade de pagar para trabalhar. E, por isso, lá permanecem muito tempo, à espera que algum desgraçado lhes pegue.

 

Os meios de propaganda evoluíram: são mais baratos, mais rápidos e eficazes, mas o processo permanece o mesmo, todavia aprimorado e otimizado.

 

Isto fez-me lembrar uma passagem particular de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, que reproduzo, em seguida, na íntegra. É assustador como nós, enquanto povo, evoluímos tão pouco em termos dos nossos princípios e da nossa inteligência. Somos as mesmas ovelhas de sempre, mais diploma, menos diploma, a lamber os pés dos mesmos pastores que nos governam.

 

      “O esfarrapado perguntou:

      — Vocês não têm para onde ir? Não podem voltar para casa?

      — Não — disse o pai. — Expulsaram-nos. Passaram um trator por cima da casa.

      — Então não podem voltar para trás?

      — Claro que não.

      — Então não vale a pena desencorajá-los — disse o esfarrapado.

      — Nem nos desencoraja. Pois se eu vi esse papel que dizia que eles precisavam de gente! Se eles não precisassem de gente, era um disparate gastarem dinheiro em impressos. Nem os distribuiriam se não precisassem de gente.

      — Está bem; não quero desencorajá-los.

      O pai gritou colérico:

      — Agora, que já começou a dizer asneiras, não fique calado, ouviu? Estava lá escrito: «Precisa-se de gente.» E você aí a rir-se e a dizer que é mentira. Quem é que mente, afinal de contas?

      O esfarrapado fixou bem os olhos irritados do pai. Parecia triste.

      — O papel diz a verdade — respondeu. — Lá precisar de gente, precisam.

      — Então porque é que você se ri tanto?

      — É porque vocês não sabem de que espécie de gente é que eles precisam.

      — Como, que espécie de gente?

      O esfarrapado tomou uma decisão:

      — Ouça, senhor. Quanta gente diz o papel que eles precisam?

      — Oitocentos e isto é só num sítio.

      — É um papel cor de laranja, não é?

      — É sim, porquê?

      — Tem o nome do tipo... fulano de tal... engajador?

      O pai meteu a mão no bolso e retirou o impresso dobrado.

      — Ouça — disse o homem. — Isso não faz sentido. Esse tipo quer oitocentos homens. Manda imprimir cinco mil desses papelinhos, que umas vinte mil pessoas lêem. Vão para lá pelo menos umas duas, três mil pessoas, por causa desse papel. Pessoas que já não sabem onde têm a cabeça com tanta preocupação.

      — Mas isso não se compreende — gritou o pai.

      — Mas vão compreender quando falarem com o tipo que mandou distribuir esses papéis. Com ele ou com qualquer outro que trabalhe para ele. Vocês vão pernoitar nas valas das estradas juntamente com outras cinquenta famílias mais. E ele vai procurar a vossa tenda, a ver se vocês ainda têm de comer. E quando vocês já não tiverem nada, pergunta-lhes assim: «Querem trabalhar?» E vocês respondem: «Queremos, sim, senhor. Que bom se o senhor nos arranjasse trabalho!» E ele dirá: «Talvez se possa arranjar alguma coisa.» E vocês perguntam: «Quando poderemos começar?» E ele então diz-lhes para onde devem ir e quando e depois vai-se embora. Talvez ele precise de umas duzentas pessoas, mas fala com quinhentas, pelo menos, que contam a coisa a outras, de modo que, quando vocês chegarem ao lugar marcado, já lá encontram umas mil pessoas. Aí, esse sujeito que falou com vocês, diz: «Eu pago vinte cents a hora.» E então, pelo menos metade das pessoas vai-se embora. Mas ainda ficam outras quinhentas que estão a morrer de fome e que querem trabalhar nem que seja para poderem comprar pão. [...] Compreende agora? Quanto mais gente esfomeada eles arranjam, menos precisam de pagar como salário.”

      in As Vinhas da Ira, John Steinbeck, trad. Virgínia Motta.

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