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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Fogos de palha

por Amato, em 11.04.19

Passa quase um mês desde a última entrada neste blog. Esta ausência acabou por se prolongar mais do que esperava. A questão não está tanto na falta de assunto para comentar, nem tão pouco na ausência de tempo para o fazer. Sendo ambos argumentos válidos, não tem sobrado em mim a energia suficiente para me sentar à secretária, ligar o computador, “logar” no blog e escrever. Não tenho tido a paciência para participar desta sociedade de fogos de palha, tomando emprestadas as sempre acuradas palavras de Saramago. Todos os dias há um fogo novo a arder muito, um fogo de altas labaredas enegrecendo os céus que pairam sobre as nossas cabeças. No dia seguinte o céu permanece negro, mas já não é fumo do mesmo fogo, é doutro, entretanto ateado.

 

Tenho a impressão que este estado de coisas, este clima social, nunca terá sido tão carregado como é hoje, mas poderei estar enganado. Para tal clima — nascido da histórica fundação da geringonça que boa parte da sociedade ainda não terá engolido (sem grandes razões, todavia) —, contribuirá decisivamente a ação política do Presidente da República, catalisadora destes fogos que se espalham. O Presidente não se comporta como um incendiário, bem entendido, mas dispondo-se a comentar tudo o que lhe é lançado, mordendo sempre o irresistível isco que lhe é estendido desde a ponta dos microfones, comentando o que é coerente e o que é incoerente, o que é razoável e o que não o é, tem o condão de elevar cada amostra de boato ou mexerico às gordas maiúsculas das primeiras páginas das notícias.

 

Muito se escreveu neste mês que passou sobre o caso dos familiares no governo. Inclusivamente, atribuíram-lhe a pomposa mas não menos patética designação de familygate. Comentar isto? Não, obrigado. Ganhem juízo e, sobretudo, tomem qualquer coisa para a memória, para a coerência e para a hipocrisia. Analisem os governos passados e, mais importante, analisem as nomeações para lugares, esses sim, realmente importantes no mundo dos negócios e das empresas que vivem de mamadas regulares nas tetas estatais. Estudem, tomem atenção e conheçam a árvore genealógica do poder politico-económico em Portugal. No contexto da mais sórdida e imoral promiscuidade entre os poderes político e económico, esta situação não é mais que anedótica. Depois, parem de alimentar o mexerico sem importância e, sobretudo, não se contentem com fingidas alterações à lei para que tudo permaneça como está. Porque é mesmo disso que se trata: um fogo de palha. Amanhã tudo estará esquecido e um novo fogo terá sido ateado para não darmos fé disso mesmo.

Como a História é uma coisa curiosa, hem?

por Amato, em 04.11.18

Como a História é uma coisa curiosa, hem? Via hoje as cerimónias dos cem anos do armistício da Primeira Grande Guerra, ouvia as palavras comprometidas do nosso Presidente, incomodado que anda nestes dias com a questão de Tancos e com a omnipresente ideia de nós sabermos que ele já sabia — acho que já não oferece beijinhos, nem se disponibiliza para selfies —, ao mesmo tempo que se assistia a uma parada militar mais ou menos caricata. Onde é que já se viu celebrar a paz com uma parada militar? Não sei. Já se deve ter visto, com certeza. A mim, não se me afigura com muito sentido.

 

Mas, como a História é uma coisa curiosa, hem? Vejam bem: celebramos um armistício de uma guerra como se fosse uma guerra qualquer, como se fossemos uns como os franceses ou os ingleses, como se nos pudéssemos chamar de “aliados”, assim, com propriedade! Celebramos com um sentimento de orgulho que até parece autêntico! Não lhe denoto, com efeito, vestígio algum de fingimento! Pergunto-me: de onde vem tal sentimento?!

 

Acaso não saberemos dos contornos desastrosos, trágicos mesmo, da nossa participação na Primeira Grande Guerra? Não ensinam isto às gerações mais jovens? Ou estas já não se lembram porque nunca lhe dedicaram especial atenção? O que somos nós, afinal, no meio disto tudo, desta sociedade feita feira de entretenimento? Verbos de encher? Carne para canhão?

 

Não exageremos, pois. Carne para canhão não seremos nós na justa interpretação da idiomática expressão. Esse papel foi dedicado aos nossos antepassados que participaram na Primeira Grande Guerra, homens de trabalho, pais de família, maridos, destacados e alinhavados às pressas, para serem enviados para França, para servirem como moeda de troca para favores de política internacional. Esse batalhão mal amanhado seria, esse sim, usado literalmente como carne para canhão em batalhas na região da Flandres, com destaque morbidamente particular para a Batalha de La Lys, em abril de 1918, com a perda desnecessária, evitável, dizem os entendidos, de milhares de vidas portuguesas, joguetes nas aprumadas mãos dos generais ingleses e franceses.

 

O Presidente da República faria bem em evocar esta desgraça, esta humilhação que nos foi infligida pelos nossos “eternos aliados” que nos usaram como carne para canhão, em vez de jogar conversa fora, em vez de recitar adjetivos sobre conceitos vagos e indeterminados como é tão seu apanágio. Podia aproveitar para o fazer quando visitar Paris, na próxima semana, para participar das celebrações que lá ocorrerão. Daria ao mundo, estou certo, uma imagem bem diferente do nosso país.

 

Adicionalmente, a participação portuguesa nesta guerra cujo fim se evocou hoje terá sido o princípio do fim da Primeira República que viria a ter o seu desenlace na ditadura militar. A guerra empurrou o país para a penúria, para a miséria e para as mãos do fascismo. É claro que o Presidente da República não falará nada sobre este assunto. Não é por desconhecer. Afinal, Marcelo é o afilhado do último ditador deste país. Ele sabe.

 

Como a História é uma coisa curiosa, hem? Desculpem a repetição. Cem anos parecem ser o suficiente para lavarmos completamente as memórias de um povo e para transformar o branco em preto e o preto em branco. Estou a exagerar: hoje em dia, as redes sociais e os smartphones fazem o mesmo numa questão de horas.

Génova e Entre-os-Rios

por Amato, em 18.08.18

Olhar para a tragédia ocorrida em Génova — sim, para variar, esta é uma verdadeira tragédia — com a queda de uma ponte que fazia parte do trajeto quotidiano de largos milhares de italianos, usada por muitos outros turistas europeus e mundiais para iniciarem a sua exploração do país por terra, pela Ligúria, Toscana, Piemonte, Lombardia, tem, como consequência imediata, acordar a minha escassa memória. Lembro-me de uma outra ponte que caiu, de uma outra tragédia que se abateu, entretanto esquecida.

 

Corria o terceiro mês do primeiro ano do novo milénio do calendário gregoriano. Ao quarto dia desse mês, um dos pilares da ponte Hintze-Ribeiro, que ligava Castelo de Paiva a Penafiel, na região de Entre-os-Rios, desabou levando ao colapso de um dos tabuleiros da ponte e, por consequência, à morte de cinquenta e nove pessoas que faziam, na altura, a travessia.

 

Há sempre o perigo da injustiça, da falta de bom senso, do oportunismo, até, quando se procura esboçar paralelismos rápidos entre situações com semelhanças imediatas e evidentes mas com contextos necessariamente diferentes. Sinto-me, todavia, forçado a fazê-lo. Ainda disponho de alguma memória e, por isso mesmo, a escrita destas palavras resulta inevitável.

 

Vou começar por contar o que aconteceu em Portugal nos tempos que se seguiram à tragédia. Salto aquela parte de mediatização da dor e de histeria dos meios de informação que durou o que tinha a durar mas não merece ficar na história. O governo passou incólume pela tragédia através da oportuna demissão voluntária do então Ministro do Equipamento Social de seu nome Jorge Coelho. Isto da responsabilidade política é coisa de natureza singular e sinistra. O ministro demitiu-se, o governo passou incólume, nenhuma consequência efetiva do ponto de vista da lei foi extraída disso, ninguém, por parte do governo, pagou pelo que aconteceu. Pelo contrário, algum tempo depois, o mesmo Jorge Coelho viria a ser contratado para um alto cargo na Mota-Engil, uma das maiores empresas de... construção civil e obras públicas.

 

Não é isto verdadeiramente incrível? Um governante responsável político pela queda de uma ponte é contratado para uma posição de destaque numa empresa de construção civil e obras públicas, que por acaso é a campeã dos concursos públicos e das adjudicações diretas neste país. Imagine-se se a mesma lógica fosse aplicada aos outros setores do país? Um professor que não dá a matéria e falta às aulas promovido a diretor da escola? Um médico que, por negligência profissional, prejudica a saúde dos seus pacientes promovido a diretor de um hospital?

 

Ao mesmo tempo, aventou-se que a razão da queda da ponte, há muito tempo sinalizada pelas sucessivas inspeções, ficou a dever-se à excessiva atividade de extração de areias do rio que conduziu a uma debilitação do suporte de um dos seus pilares que cedeu com o aumento do caudal do rio originado pelas chuvas daqueles dias. Moveram-se processos contra as empresas de extração de areia. Ninguém — absolutamente ninguém! — foi condenado. O governo pagou indemnizações aos familiares das vítimas, participou em homenagens e erigiu um monumento perto do local da tragédia. Os corpos de algumas das vítimas nunca chegaram a aparecer.

 

Não sei o que se vai passar agora em Itália, não sei como vai ser a sequência dos eventos após a queda da ponte de Génova. No fim de contas, pode até ser que tudo seja muito parecido com o caso português. De momento, gostava de salientar algumas diferenças.

 

O governo italiano parece ter assumido uma atitude muito diferente para com a empresa privada que geria a Ponte Morandi imputando-lhe responsabilidades claras e exigindo consequências legais e criminais. Aqui, em Portugal, ainda hoje as coisas são distintas. As empresas privadas recolhem os dividendos da exploração das estradas e das pontes através das portagens e ainda recebem complementos estatais para garantir lucros, para além das obras das pontes serem asseguradas pelo estado. É o caso, por exemplo, das obras que se avizinham na Ponte 25 de Abril. São as vantagens das privatizações no seu mais brilhante esplendor.

 

O povo italiano também parece ser feito de uma outra massa do que o povo português. De Itália, chegam notícias de que diversas famílias rejeitaram participar no funeral coletivo promovido pelo governo italiano e fazer parte do que consideram ser uma farsa, pelo facto do governo ser o último e principal responsável pelo ocorrido. Em Portugal não foi assim. Parece que não há nada que uma indemnização e um monumento não resolvam.

 

Entretanto, ainda me recordo de especialistas que, na altura da queda da ponte portuguesa, em 2001, diziam que outras pontes portuguesas corriam idênticos riscos. Em dezoito anos nada aconteceu. Não há-de ser nada, portanto.

Alemanha e Europa, extrema direita e história recente

por Amato, em 26.09.17

A Alemanha e a Europa estão chocadas — e bem! — com a ascensão da extrema direita de inspiração nazi (AFD) ao bundestag, o parlamento alemão.

 

Há três anos, em fevereiro de 2014, a mesma Alemanha e a mesma Europa — falar de uma é falar da outra, não é? — apoiaram o golpe de estado na Ucrânia que colocou os nazi-fascistas no poder, derrubando um presidente e um governo democraticamente eleitos.

 

Devemos, portanto, duvidar destes políticos que dizem detestar a extrema direita. Se calhar não detestam. Se calhar são farinha do mesmo grão, mas muito processada em hipocrisia.

 

http://cdns.yournewswire.com/wp-content/uploads/2017/04/Germany-censor-alternative-media.jpg

 

Silly season — a façanha

por Amato, em 14.08.17

Em 1998 Donald Trump terá dito, a propósito de uma possível candidatura à Casa Branca, que se se candidatasse, fá-lo-ia pelos republicanos. É que, segundo ele, constituíam o grupo mais estúpido de votantes, que se acreditavam em tudo o que a cadeia de notícias Fox News dizia, mentiras incluídas.

 

If I were to run, I'd run as a Republican. They're the dumbest group of voters in the country. They believe anything on Fox News. I could lie and they'd still eat it up. I bet my numbers would be terrific.

— Donald Trump, 1998, People Magazine

 

Quando sou literalmente assaltado pelas sempre extensivas e pormenorizadas coberturas mediáticas da Festa do Pontal, pergunto-me se Pedro Passos Coelho e o PSD não estarão em proporção para Donald Trump e para o Partido Republicano. É como se não existisse memória. É como se fossemos todos peixinhos de aquário para os quais quase tudo é novo a cada instante.

 

Entretanto mudei rapidamente de canal e perdi o paralelismo sem interesse.

 

Todavia, gostava de ver as televisões, os jornais, os comentadores, tentarem a inédita façanha de colocar um burro, um asno mesmo, uma besta sobre quatro patas, na posição de primeiro-ministro deste país. É que eu acho que conseguiam! E o povo aplaudia! A sucessão histórica no cargo também concorre para o meu otimismo. É só mais um pequeno passo! Coragem e perseverança!

 

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Sobre a “feira de gado”

por Amato, em 01.01.17

É interessante que as pessoas, sobretudo as que dão a voz por este entendimento parlamentar de suporte ao governo PS, se surpreendam com episódios como o de Augusto Santos Silva e a sua já célebre comparação da concertação social com uma feira de gado.

 

Augusto Santos Silva sempre foi um político rude, mal educado, prepotente, dono de uma arrogância visceral que advém não se percebe muito bem de onde, de que superioridade moral ou intelectual, pois não decorre nem da prática, nem da teoria, apenas escorre de uma verve que é tão somente puramente venenosa. A sua escola é a mesma de tantos, tantos outros, que hoje pululam, ora no PS, ora no PSD: é a escola da extrema-esquerda do pós vinte e cinco de abril, anticomunista de gema, trotskista, talvez, por vezes, sabe-se lá. Talvez pudesse ser, em boa verdade, o que quer que parecesse mais conveniente na ocasião e que concorresse para a sua escalada política. E como Augusto Santos Silva soube escalar bem!

 

Isto de se ter uma boa memória é um problema sério. É que não permite apagar com uma borracha o percurso das pessoas, o que se disse e o que se fez, só porque agora parece que convém porque há uma coligação à esquerda no parlamento e cuja redoma de vidro é imperioso proteger.

 

Lembro-me bem do percurso de Augusto Santos Silva, do que defendia e do que apoiava enquanto militante da esquerda radical nos anos setenta e oitenta, como também me lembro bem da sua transição para o PS e dos insultos que cuspia para a sua esquerda no parlamento, do alto dos seus múltiplos cargos. Destaco particularmente as suas vergonhosas intervenções, verdadeiramente inenarráveis, enquanto Ministro dos Assuntos Parlamentares de José Sócrates. Mas o povo já não se lembra. Eu lembro-me bem. E quando me apercebi que este executivo de Costa iria ter nomes como o de Augusto Santos Silva, entre outros, compreendi na perfeição o engodo das promessas deste governo.

 

Mas não dispersemos do essencial. Em Augusto Santos Silva não há novidade absolutamente nenhuma. Pelo contrário, há coerência na insolência e na descortesia. A única novidade é a cândida complacência com que é tratado por parte de certos setores. Questiono-me até quando irá a esquerda parlamentar continuar a proteger este governo, até quando manterá a sua hipócrita amnésia sobre a verdade histórica deste e de outros personagens. Questiono-me se estas migalhas sociais conquistadas, absolutamente insubstanciais, iníquas, efemeramente inconsistentes, valerão a pena quando vislumbradas daqui por dez, vinte anos. Espero sinceramente que valham.

A crítica trivial

por Amato, em 19.02.16

Criticar o Governador do Banco de Portugal é o exercício mais trivial e mais fácil que pode ser realizado. A ação, a figura e o cargo do Governador do Banco de Portugal são tão criticáveis de tantas formas diferentes que, diga-se o que se disser, a probabilidade de se acertar na crítica é próxima de cem por cento. Com efeito, há pelo menos três dimensões distintas a considerar.

 

A ação. Há uma incapacidade propriamente dita fruto da ação de supervisão bancária concreta. O último capítulo desta, por ora, escreveu-se no Banif.

 

A figura. Carlos Costa é um banqueiro que “almoça” e se “deita” com banqueiros e, no final do dia, finge que os supervisiona. A isto acresce ainda a ausência de independência e neutralidade política na execução das suas tarefas, decorrentes do seu posicionamento político nacional e europeu.

 

O cargo. A competência de supervisão bancária é, no quadro atual de correlação de poderes na nossa economia, uma abstração impraticável, um verbo de encher e um punhado de areia jogado para os olhos do povo.

 

Por estas razões, não se trata de uma ação de particular iluminação ou virtude o PS criticar a ação do Governador. Por seu turno, ouvir os políticos e individualidades de direita apontar o dedo a António Costa pelo facto deste o fazer é, mais do que uma vergonha, um insulto, depois de quatro anos de pressão miserável sobre os juízes do Tribunal Constitucional. É, todavia, compreensível: para a direita os interesses do capital sobrepõem-se a tudo o resto, inclusivamente à própria lei.

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