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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Uma viagem da Venezuela até à Arábia Saudita

por Amato, em 24.09.18

A última semana brindou-nos com uma reforçada ofensiva mediática contra o governo venezuelano ou o “regime de maduro” nas palavras dos media portugueses. É engraçado que não há um jornal, não há uma rádio, não há uma televisão neste país que diga algo de diferente sobre o tema, que aponte qualquer defeito àquela oposição sustentada pelos states e pela CIA. Pelo contrário, todos afinam pelo mesmíssimo diapasão.

 

O que pensar disto? O que pensar que não que aquele Maduro é mesmo um louco que está a desgraçar aquele país? Não interessa que o Papa, insuspeito de ser comunista, por definição do seu próprio cargo, tenha apontado o dedo por mais que uma vez à oposição classificando-a como a grande promotora da instabilidade nas ruas da Venezuela e acusando-a de não querer a paz. Não interessa que José María Aznar, antigo primeiro-ministro espanhol conservador — também por isso insuspeito de ser comunista ou qualquer coisa afim — tenha, enquanto mediador do conflito, acusado a oposição de não querer chegar a qualquer acordo para colocar um fim à violência nas ruas. Nada disto interessa. Os media, como cães de caça bem mandados, têm um objetivo e perseguem-no até ao fim.

 

É engraçado que, em Portugal, apesar da grave crise que nos afetou em 2011, chegámos mesmo a um ponto em que, nas palavras dos nossos governantes, não havia dinheiro para pagar os serviços públicos até ao final desse ano, nunca os supermercados deixaram de ter produtos e de ter as suas prateleiras repletas. Isto do retalho é uma coisa engraçada, com efeito. Não é por haver menos dinheiro que os produtos deixam de ser comercializados. Podem é vender-se mais lentamente. No entanto, na Venezuela os supermercados estão vazios. Porque será? Mas não se preocupem os burgueses médios de ascendência portuguesa que por lá andam a esconder os seus produtos em armazéns. Não se preocupem. Podem continuar a especular os preços e a causar o caos nesse país chamado de Venezuela porque o nosso governo, o mesmo que pouco se importa que em Portugal as grávidas sejam despedidas, que os trabalhadores sejam constantemente humilhados pelos patrões como no caso daquela trabalhadora daquela corticeira cheia de prémios de excelência, esse mesmo governo vai em vosso auxílio e não deixará que o governo venezuelano vos faça mal.

 

É que isto da Venezuela é uma situação complexa. Como é que um país que, do dia para a noite, se vê privado de metade das suas receitas, por uma inexplicável descida dos preços do petróleo — ah, mas a gasolina continua caríssima! —, pode sobreviver? Tivesse a Venezuela o proveito da fama que tem e tomado conta dos meios de produção e esta brincadeira teria sido diferente...

 

Mas essa inexplicável descida dos preços do petróleo... deixa-me a pensar... e esta semana a Alemanha juntou-se aos Estados Unidos como fornecedora de armamento à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos. Hum... Será pagamento pelos serviços prestados para baixar os preços do precioso combustível fóssil?

 

Será?

 

Há poucos dias, um grupo de terroristas alegadamente financiado pela Arábia Saudita, Emirados e Israel atacou o Irão. Pois é... O Irão é que é aquele país mau, terrorista, não é? Os Estados Unidos são os democratas, certo? Os alemães são os íntegros? Na Arábia Saudita as mulheres não usam burca? Ai usam? Ah! E a Venezuela, por mais eleições democráticas que promova, é uma ditadura, de acordo? Que rica lógica que para aqui vai! Que rica lógica que esta comunicação social putrefacta nos vende! Lavagem cerebral da melhor!

 

 

É isto o estado de direito de que tanto falam?

por Amato, em 14.09.18

O que assistimos neste final de semana a nível da nossa comunicação social, com particular ênfase sobre a escrita, é tão sério, é tão grave, é tão vergonhoso, que a pergunta que se impõe é: será que ainda temos ERC, Entidade Reguladora para a Comunicação Social, em Portugal? Será que ainda existe? E justiça? E lei?

 

Ficámos a saber que um jornal consegue, nos dias de hoje, ser simultaneamente investigador, acusador e juiz do que quer que lhe apeteça. Com efeito, a propósito do seríssimo caso e-toupeira que envolve graves relações de promiscuidade entre a justiça e o futebol, os jornais lembraram-se de plasmar nas suas primeiras páginas a fotografia de um jovem que alegadamente terá roubado documentos e estará na base do processo.

 

Será que sou só eu que acha este tipo de conduta inadmissível e indecente?

 

Será que sou só eu que considera que um jornal que faz isto devia ser imediatamente fechado e os seus dirigentes criminalmente responsabilizados?

 

Quem é que se responsabiliza se, depois desta obscena exposição mediática, sem qualquer tipo de julgamento ou condenação por tribunal habilitado para o efeito, acontecer algo que atente contra à integridade física deste jovem?

 

Ou será que é preciso que aconteça algo de grave para entrarmos em histeria e começarmos a apontar dedos ao óbvio?

 

Onde está a ERC?

 

Onde estão as autoridades?

 

Onde está o governo?

 

Que selva é esta em que um cidadão pode ser assim enxovalhado na praça pública, de um dia para o outro, apenas porque convém para encobrir outros factos mais graves?

 

É isto o estado de direito de que tanto falam?

Génova e Entre-os-Rios

por Amato, em 18.08.18

Olhar para a tragédia ocorrida em Génova — sim, para variar, esta é uma verdadeira tragédia — com a queda de uma ponte que fazia parte do trajeto quotidiano de largos milhares de italianos, usada por muitos outros turistas europeus e mundiais para iniciarem a sua exploração do país por terra, pela Ligúria, Toscana, Piemonte, Lombardia, tem, como consequência imediata, acordar a minha escassa memória. Lembro-me de uma outra ponte que caiu, de uma outra tragédia que se abateu, entretanto esquecida.

 

Corria o terceiro mês do primeiro ano do novo milénio do calendário gregoriano. Ao quarto dia desse mês, um dos pilares da ponte Hintze-Ribeiro, que ligava Castelo de Paiva a Penafiel, na região de Entre-os-Rios, desabou levando ao colapso de um dos tabuleiros da ponte e, por consequência, à morte de cinquenta e nove pessoas que faziam, na altura, a travessia.

 

Há sempre o perigo da injustiça, da falta de bom senso, do oportunismo, até, quando se procura esboçar paralelismos rápidos entre situações com semelhanças imediatas e evidentes mas com contextos necessariamente diferentes. Sinto-me, todavia, forçado a fazê-lo. Ainda disponho de alguma memória e, por isso mesmo, a escrita destas palavras resulta inevitável.

 

Vou começar por contar o que aconteceu em Portugal nos tempos que se seguiram à tragédia. Salto aquela parte de mediatização da dor e de histeria dos meios de informação que durou o que tinha a durar mas não merece ficar na história. O governo passou incólume pela tragédia através da oportuna demissão voluntária do então Ministro do Equipamento Social de seu nome Jorge Coelho. Isto da responsabilidade política é coisa de natureza singular e sinistra. O ministro demitiu-se, o governo passou incólume, nenhuma consequência efetiva do ponto de vista da lei foi extraída disso, ninguém, por parte do governo, pagou pelo que aconteceu. Pelo contrário, algum tempo depois, o mesmo Jorge Coelho viria a ser contratado para um alto cargo na Mota-Engil, uma das maiores empresas de... construção civil e obras públicas.

 

Não é isto verdadeiramente incrível? Um governante responsável político pela queda de uma ponte é contratado para uma posição de destaque numa empresa de construção civil e obras públicas, que por acaso é a campeã dos concursos públicos e das adjudicações diretas neste país. Imagine-se se a mesma lógica fosse aplicada aos outros setores do país? Um professor que não dá a matéria e falta às aulas promovido a diretor da escola? Um médico que, por negligência profissional, prejudica a saúde dos seus pacientes promovido a diretor de um hospital?

 

Ao mesmo tempo, aventou-se que a razão da queda da ponte, há muito tempo sinalizada pelas sucessivas inspeções, ficou a dever-se à excessiva atividade de extração de areias do rio que conduziu a uma debilitação do suporte de um dos seus pilares que cedeu com o aumento do caudal do rio originado pelas chuvas daqueles dias. Moveram-se processos contra as empresas de extração de areia. Ninguém — absolutamente ninguém! — foi condenado. O governo pagou indemnizações aos familiares das vítimas, participou em homenagens e erigiu um monumento perto do local da tragédia. Os corpos de algumas das vítimas nunca chegaram a aparecer.

 

Não sei o que se vai passar agora em Itália, não sei como vai ser a sequência dos eventos após a queda da ponte de Génova. No fim de contas, pode até ser que tudo seja muito parecido com o caso português. De momento, gostava de salientar algumas diferenças.

 

O governo italiano parece ter assumido uma atitude muito diferente para com a empresa privada que geria a Ponte Morandi imputando-lhe responsabilidades claras e exigindo consequências legais e criminais. Aqui, em Portugal, ainda hoje as coisas são distintas. As empresas privadas recolhem os dividendos da exploração das estradas e das pontes através das portagens e ainda recebem complementos estatais para garantir lucros, para além das obras das pontes serem asseguradas pelo estado. É o caso, por exemplo, das obras que se avizinham na Ponte 25 de Abril. São as vantagens das privatizações no seu mais brilhante esplendor.

 

O povo italiano também parece ser feito de uma outra massa do que o povo português. De Itália, chegam notícias de que diversas famílias rejeitaram participar no funeral coletivo promovido pelo governo italiano e fazer parte do que consideram ser uma farsa, pelo facto do governo ser o último e principal responsável pelo ocorrido. Em Portugal não foi assim. Parece que não há nada que uma indemnização e um monumento não resolvam.

 

Entretanto, ainda me recordo de especialistas que, na altura da queda da ponte portuguesa, em 2001, diziam que outras pontes portuguesas corriam idênticos riscos. Em dezoito anos nada aconteceu. Não há-de ser nada, portanto.

A era da pseudociência II

por Amato, em 12.08.18

Temos que ter plena consciência disto: vivemos numa era em que os lideres conseguem justificar, categoricamente, que o problema dos incêndios se deve a alterações climáticas sem que haja qualquer voz que se erga para dizer o contrário. Por ventura, será verdade? Sejam, pois, bem vindos à era da pseudociência que serve de suporte para se levar a cabo a destruição de qualquer conceito de bom senso nas sociedades em que vivemos.

 

Patrocinados pela classe burguesa e com o intuito do exercício do controlo global das massas, a pseudociência estende os seus tentáculos a todas as áreas humanas. Baseia-se em estudos encomendados e pouco sérios, interpretados pelos media de uma forma ainda menos séria, e cujas conclusões enviesadas colhem os frutos desejados na histeria mediática com que são lançadas e na incapacidade de compreensão das massas, que sempre se deixam conduzir mais pela emoção do que pela razão.

 

Nestas matérias, repare-se, os cientistas nunca são ouvidos. Quanto muito, vai-se buscar um qualquer chefe de laboratório, muito versado em comunicação e diplomacia político-económica, que, por vezes até, colhe os louros de toda a equipa que lidera, mas com conhecimento medíocre dos temas. Há uma razão para isto. A pseudociência funciona ao contrário da verdadeira ciência. A ciência procura a verdade das coisas, do funcionamento do mundo, seja ela qual for. Elabora as suas experiências nesse sentido. Já a pseudociência procede exatamente ao contrário: procura as experiências que, de algum modo, conduzam às conclusões que pretende anunciar à partida.

 

Se há área do conhecimento humano onde é mais visível este processo de charlatanice, a ação clara da pseudociência, é a área da climatologia. É que nós vamos sendo conduzidos a conclusões com base numa análise do clima quase ano a ano quando — qualquer cientista da área nos dirá — conclusões sobre o clima têm que ser baseadas em dezenas de séculos, milénios de dados! As alterações climáticas são muito lentas! Simplesmente não existem alterações radicais de um ano para o outro!

 

Serve isto para apontar o dedo à situação. Não, os incêndios em Portugal não se devem a alterações climáticas. Nem estes, nem os do passado, porque os incêndios têm sido uma marca neste país há décadas a esta parte. Se os incêndios fossem resultado de alterações climáticas, então também aconteceriam em Lisboa, nas grandes cidades, nos parques e nos espaços verdes. Mas não acontecem, pois não? Pensemos nisto. E pensemos também nos eucaliptos que crescem aos milhares em Pedrógão, nas terras queimadas, em Monchique e ao longo de todo o país. Lembremo-nos que os incêndios começaram a ser uma constante no nosso país quando aderimos à União Europeia, então Comunidade Económica Europeia. Já lá vai o tempo! Pode ser uma coincidência, eu sei. Nem me atrevo a referir as empresas de pasta de papel que tão importantes são para o nosso querido produto interno bruto. Tenho consciência disto. Vinha já alguém aí do governo defender a honra dessas e doutras empresas, porque são as empresas e os empresários que importam neste país. O PS sabe-o bem, como sabia o PSD. Pode ser que juntem os trapinhos no futuro. Há tanto o que os une... Agora, o que seria positivo era parar de usar as alterações climáticas como desculpa para os incêndios. Agradecia.

 

Nesta problemática, o que é grave é a verdadeira ciência estar a ser engolida, em largas colheradas, pela pseudociência. Não há, neste particular, propriamente grande motivo para espanto. Se retirarmos a liberdade à ciência para explorar o mundo, investigar os seus processos, chegar às suas conclusões livres de pressões e de constrangimentos, e a sujeitarmos, cada vez mais e cada vez mais aceleradamente, ao condicionamento do poder económico e dos seus interesses, então é perfeitamente natural que a verdadeira ciência deixe de existir, pelo menos na sua plenitude, e se converta em pseudociência. É natural: no final de cada dia, todos nós precisamos de pôr comida em cima da mesa.

Proposta de reflexão em tempos de veraneio

por Amato, em 29.07.18

Todos os anos, em Portugal, durante os meses de julho e agosto, sobretudo agosto, assistimos a uma sazonal migração das populações para sul do país. As massas deslocam-se para sul para se dedicarem exclusivamente ao veraneio no tempo ameno e nas águas quentes da região do Algarve. Durante estes meses, as estradas que rasgam o país de ponta a ponta, polvilham-se de automóveis coloridos. O asfalto, em algumas zonas, quase não se vê devido ao elevado tráfego.

 

De uma ponta a outra do país e, muito particularmente, nas zonas a sul mais secas e em sério risco de desertificação dos solos, o caminho faz-se ladeado por florestas de eucaliptos sem fim. Nas zonas ardidas do último ano crescem já fortes os jovens rebentos dessa espécie de árvore.

 

O eucalipto é uma das espécies mais nocivas para o nosso território, porque drena os solos de toda a água, promovendo a desertificação dos terrenos e condenando espécies endémicas. Para além disso, é uma espécie curiosa que se propaga mais rapidamente através do fogo. É dramático ver o nosso país, sobretudo mais a sul, completamente contaminado por esta árvore parasita.

                

Há uma razão para isto, é claro que há. O eucalipto cresce a uma velocidade incomparavelmente superior a qualquer outra espécie arbórea. Por isso, trata-se da espécie de eleição das empresas de pasta de papel que laboram em Portugal e que fazem da madeira a sua matéria prima. Por seu turno, os nossos governos, que apenas existem para servir o grande capital e em nada se preocupam com a sustentabilidade dos recursos do país, promovem com toda a força esta situação. Durante o governo PSD-CDS, Assunção Cristas liderou a aprovação de legislação para dar carta branca ao negócio do eucalipto. Já este governo PS, nada fez, como aliás é costume nas questões realmente importantes, para reverter a situação.

 

Desejo, por isso, umas boas férias a todos os que farão, por estes dias, as suas viagens rumo a sul. Observem bem as florestas de eucaliptos que, de ambos os lados, vos fazem guarda até ao vosso destino. Tomem nota, porque é exatamente aí que radica o problema dos fogos florestais, da desertificação dos solos, e da escassez de água doce. Lembrem-se disso quando começarem as periódicas histerias coletivas, promovidas pelos meios de informação, a propósito de cada um destes temas.

 

Retirado de jornaldascaldas.com

 

O estado da arte em 2018

por Amato, em 15.07.18

Hoje de manhã, ainda mal tinha acordado, dei por mim a percorrer a entrevista do Público ao novo diretor do Museu de Serralves, João Ribas. Foi curiosidade pura para colmatar a minha falta de conhecimento do personagem, mas também para desvendar um pouco, aspirava, do véu da direção artística do museu de arte contemporânea, o que, para a maioria de nós, é sempre de difícil acessibilidade.

 

Não cheguei ao fim da dita entrevista, confesso. Não tive estômago para continuar. Fiquei a saber que, para as entrevistadoras, Inês Nadais e Isabel Salema, as prementes questões sobre o museu, a sua oferta e a sua direção artística, são, por esta ordem, o facto do museu não ter na sua agenda a exibição de obras da Joana Vasconcelos; o facto de não existir paridade na promoção de artistas homens e artistas mulheres em Serralves; e o facto de haver pouca representatividade de corpos negros ou figuras negras.

 

Para mim, é cada vez mais difícil digerir esta realidade em que tudo é reduzido a números perfeitamente artificiais, em que tudo é avaliado por um sistema de quotas que pouca ou nenhuma relação com a realidade tem. Cada vez mais, ao que parece, perde-se o valor intrínseco das coisas. Na arte, em particular, que devia ser o espaço máximo de liberdade, as obras são sujeitas a um escrutínio a montante que nada tem a ver com o seu valor enquanto obra, enquanto objeto artístico.

 

Há tantas obras de mulheres quanto as de homens? As raças estão representadas equitativamente? A obra não é sexualmente ou religiosamente ofensiva, de algum modo? Já agora, o Cristiano Ronaldo está representado no museu? E a obra, é da Joana Vasconcelos?

 

Mas em que é que isto é relevante em termos artísticos? Em quê?!

 

Em nada.

 

Novamente, trata-se da manifestação de um politicamente correto mesquinho e profundamente ignorante que parece invadir todos os domínios da atividade humana. Mas não se enganem: este politicamente correto é parcial, é controlador dos conteúdos, inquina o pensamento e a reflexão das sociedades. É feroz opositor da liberdade. Este politicamente correto é detergente eficaz de lavagem cerebral.

 

É isto que temos. Quem diria que as sociedades ocidentais, apregoadas baluartes da democracia e da liberdade, se revelassem tão eficientemente castradoras da arte e das suas manifestações.

O partido amordaçado

por Amato, em 05.10.17

No passado domingo, o primeiro de outubro de 2017, o ato eleitoral autárquico que se desenrolou veio a conceder no plano partidário uma esmagadora vitória ao Partido Socialista que lidera, por ora, o governo. O PS conquistou, com efeito, uma maioria absoluta de autarquias naquele que terá sido o seu melhor resultado em eleições locais conquistado à boleia de uma governação que tem tido boa imprensa, inexistente oposição e razoáveis resultados económicos que são mais fruto da conjuntura internacional do que das suas opções políticas próprias. O país, todavia, é sensivelmente o mesmo que era no tempo do ajustamento. A diferença está na consciência que tem de si mesmo.

 

No ponto diametralmente oposto situa-se, malogradamente, o Partido Comunista Português. O PCP perdeu um total de dez câmaras municipais, algumas muito tradicionais e com adicional peso histórico, como Almada, Castro Verde ou Barreiro, tendo visto a sua influência reduzida a vinte e quatro autarquias.

 

Este texto que escrevo não pretende apontar o óbvio nem esboçar justificações triviais. É evidente que o jogo político é injusto e desigual para o PCP com respeito aos outros partidos. Em Lisboa, por exemplo, o candidato comunista, João Ferreira, um excelente orador, superiormente preparado em nítido contraste com a concorrência que tinha, teve um tratamento absolutamente desigual por parte dos media, tendo passado quase despercebido. O facto torna-se ainda mais claro quando vemos o tratamento concedido pelos mesmos órgãos de comunicação social a uma candidata como Assunção Cristas cuja ação foi capaz de inundar os canais de televisão durante cada um dos dias da campanha, isto apesar do CDS ser um partido da mesma ordem de grandeza da CDU e apesar de Assunção Cristas não saber, ao que parece, articular mais palavras do que “governo das esquerdas unidas”.

 

Trata-se apenas de um exemplo, entre muitos outros, que atesta a desigualdade com que o PCP tem que conviver na sua ação política diária, em geral, e em cada campanha eleitoral, em particular. Depois ainda há o preconceito que, logo desde a raiz, ceifa do alcance do partido uma grande parte do eleitorado.

 

Como dizia, todavia, este texto não tem como objetivo apontar isto que escrevi, que é demasiado evidente. O que se pretende é tentar uma reflexão séria e descomplexada sobre as razões aderentes ao próprio Partido Comunista Português que o conduziram a esta derrota dura. O que terá feito com que em Almada, por exemplo, o PCP tenha sido derrotado por uma tal de Inês de Medeiros, aquela mesma deputada do PS que usufruía de ajudas de custo principescas do parlamento por ter residência em Paris?! O que terá levado o povo a uma coisa destas?

 

Faço aqui esta reflexão porque da parte do PCP ela parece não existir. Por detrás de uma cortina a que se chama de coerência e de organização nada parece acontecer, nenhuma consequência é retirada, nenhum ensinamento extraído. Só que às vezes a coerência é simplesmente uma forma de não se assumir responsabilidades, de não se prestar contas.

 

Não obstante tudo o que foi dito acima e que é apenas a ponta de um iceberg de tantas outras coisas que se poderiam dizer, o PCP tem responsabilidades sérias no que se passou. Acrescente-se que eu estou à vontade para o escrever aqui e elencar cada uma delas neste texto porque ao longo dos últimos anos fui escrevendo sobre o assunto. Aliás, quem acompanha este blog será capaz de reconhecer isso mesmo.

 

Começo pela liderança. O PCP tem uma liderança que seria anedótica se não fosse muito triste. Ano após ano vemos Jerónimo de Sousa, um perfeito incapaz no debate, na entrevista e em qualquer intervenção pública, em evidente inferioridade física nas campanhas, terminando cada uma delas em modo de morto-vivo, sem que nada aconteça, sem que nada mude. De certeza que o PCP não se olha ao espelho. Nada acontece, nada muda.

 

Se o parágrafo anterior não fosse suficiente, acresce que o PCP tem, desde a primeira eleição de Jerónimo de Sousa, uma estratégia de concentração da ação do partido em torno da sua figura. É evidente a perda de importância de figuras secundárias do partido e é evidente também que o partido não promove a ascensão de outros quadros que possam vir a partilhar protagonismo dentro do PCP.

 

Assim, o PCP de Jerónimo de Sousa é um partido que se confunde com o seu secretário-geral. Como já escrevi no passado, isto foi muito importante na fase inicial da liderança de Jerónimo de Sousa: serviu para agregar e unir. O problema é que, à medida que o tempo passa, a incapacidade gritante de Jerónimo de Sousa afasta em vez de atrair. As pessoas de esquerda são maioritariamente pessoas cultas, intelectuais que conseguem ver para lá da mensagem dominante, que conseguem pensar independentemente do paradigma de pensamento único que nos é vendido nos jornais. Essas pessoas, que são muitas, não se revêm em Jerónimo de Sousa, a sua intelectualidade não é nutrida e estimulada por este PCP que não consegue ganhar um debate ideológico e por estes líderes de léxico limitado e circunscrito a uma cartilha de palavras comuns e chavões que parecem escritos por uma mesma mão.

 

É muito difícil para alguém de esquerda identificar-se com o discurso monocórdico do PCP, sobretudo quando, em contraponto, temos os bem-falantes do Bloco de Esquerda mesmo ali ao lado.

 

Em segundo lugar nesta lista tem que vir o acordo parlamentar de suporte ao atual governo. A obtenção deste acordo, dinamizada numa fase inicial apenas pelo PCP, foi fantástica. Também já aqui escrevi sobre isto: permitiu mostrar à sociedade que o PCP é mais que um partido de protesto e que sabe fazer parte de soluções governativas. Também permitiu estancar a escalada neoliberal que vinha desmantelando o país. Numa fase posterior e à medida que esta solução se prolongasse no tempo, o PCP — previ aqui mesmo — viria a ser penalizado com isso, não fosse capaz de fazer valer os seus ideais com coerência e/ou distanciar-se com firmeza da atuação do governo PS.

 

O PCP é hoje um partido amordaçado pela solução governativa do PS e por si próprio. Está reduzido a um conjunto de reivindicações mínimas que o tornam num partido de minorias, de indigentes, de reformados e de funcionários públicos. O proletariado foi apagado, quase que por completo, da sua ação diária, subsistindo apenas na ação sindical e, mesmo neste estrito contexto, muito esquecido e abandonado à sua sorte nestes anos de governação socialista.

 

O proletariado não é apenas constituído pelos operários fabris: são os professores e os enfermeiros, os trabalhadores de call-center e os empregados de shopping, todos aqueles que vivem do seu trabalho e que, dia após dia, são mais e mais explorados. São aqueles que, mesmo trabalhando mais e mais horas, empobrecem a cada ano que passa. Sobre estes proletários o PCP não diz nada, nem acordou nada com o PS, nem estabeleceu nenhuma linha vermelha no seu incondicional apoio à governação socialista.

 

Volto a repetir, sem contar com a imprensa negativa, com a propaganda anti-comunista constante e com o preconceito, é muito difícil para alguém com o coração à esquerda identificar-se com o PCP.

 

Por fim, termino com o plano local. Estas eleições autárquicas revelaram que este desfasamento com que o PCP observa a realidade é mais profundo do que o possamos imaginar. Para além de variadíssimas péssimas escolhas para encabeçar candidaturas, personagens desajustados escolhidos tendo por base unicamente o seu nível de fidelização ao aparelho partidário, o PCP decidiu usar os seus míseros minutos de tempo de antena para repetir a frase “habitação social”. Para o PCP a habitação social é o problema das cidades, novamente colocando o ênfase nos indigentes, nos marginalizados e nos auto-excluídos.

 

Imagino um proletário qualquer, um professor, por exemplo, que trabalha em três colégios diferentes a recibos-verdes para, ao fim do mês, não ter com que “mandar cantar um cego”, a ouvir esta conversa da habitação social. Ele, que trabalha duramente para pagar a sua casa e a educação do filho e o resto das contas, vê-se confrontado com a possibilidade de ser construído um prédio na esquina da sua rua para albergar um punhado de gente que vive do subsídio, passa o dia a dormir e a fazer festas de noite. Será que este operário se sentirá atraído a dar o seu voto ao PCP? Não creio.

 

Também no plano autárquico, não obstante a obra feita, a honestidade e a competência na gestão que são evidentes, o PCP afasta os seus eleitores naturais e procura atrair uma porção de eleitores que na sua esmagadora maioria abstém-se de votar mas que, mesmo que votasse, provavelmente não votaria no Partido Comunista Português por não ser esse o seu quadro ideológico mais natural.

 

É claro que alguém que tenha um mínimo de cultura e de memória percebe que não existe verdadeira alternativa ao PCP. O PCP e os “seus” sindicatos são as únicas forças políticas e sociais que se posicionam incondicionalmente do lado dos trabalhadores. O Bloco de Esquerda, na sua inconsistente amálgama ideológica é um partido tão burguês ou que serve a burguesia tão bem quanto os restantes partidos parlamentares. E sem dúvida que, tivesse mais força eleitoral, o PCP poderia influenciar a sociedade de um modo mais profundo e mais consistente.

 

Mas os mais jovens, não tão experimentados nestas questões da política ou simplesmente distraídos, perdem-se em experimentalismos — todas as forças os empurram para experimentalismos. Não se identificam com o PCP, com a sua mensagem gasta e com os seus representantes cinzentos e entregam o seu voto em mãos traiçoeiras e menos dignas. E é só quando se desiludem — e a desilusão pode ser demasiado tardia — ou quando o PCP lhes dá a mão na hora de maior aflição no que diz respeito ao seu emprego, que conseguem mudar a orientação do seu voto.

 

É esta inércia que tem que mudar. E o Partido Comunista Português tem que começar a fazer a sua parte nisso.

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