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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Uma epifania em janeiro

por Amato, em 09.01.20

O anúncio do sentido de voto do Partido Comunista Português relativamente ao orçamento de estado deste ano é uma desilusão e, como todas as desilusões, tem a potencialidade de se tornar numa espécie de epifania, uma revelação.

 

O parlamento português está agora dividido, PCP incluído, entre partidos sociais-democratas e partidos liberais, uns mais populistas do que outros. A palavra comunista no PCP passa a valer tanto como a palavra socialista no PS. Valem o mesmo, ou seja, nada.

 

Nenhum partido comunista apoiaria um orçamento deste género que literalmente rouba o povo para gerar lucros para entregar à banca e aos mercados monopolistas. O líder parlamentar do PCP diz que o partido vai-se abster, é certo, mas isso é verbalismo, é brincar com as palavras. Se fosse necessário, votaria a favor. Não existe retórica suficiente no mundo da dialética para nos convencerem do contrário.

 

O insólito da coisa, ao que consta, é que este apoio terá sido dado a troco de um aumentozinho extraordinário de pensões. Prossegue, portanto, a confirmar-se o boato, esta linha miserabilista, este contentamento, esta satisfação com as migalhas lançadas por Costa sejam elas quais forem. Prossegue esta falta de respeito pela sua ideologia, que é o mesmo que dizer por si próprio, porque só um partido sem um pingo de amor próprio persiste em estender a mão a quem reiteradamente o desrespeita e desvaloriza, como ficou bem patente antes, durante e após as últimas eleições legislativas, com o desenvolver da “geringonça” e com o fim da mesma.

 

Mas isto tudo é demais, tudo isto é demasiado para que o leitor não desconfie, de si para consigo, que tanta incapacidade, que tanto defeito não seja apenas uma mera causalidade de um espírito mais ou menos inocente ou mais ou menos incapaz. A verdade encontra-se no princípio deste texto. O meu erro está em continuar a assumir certas premissas sobre o PCP como verdadeiras quando elas, claramente, já o deixaram de o ser. Porque se o comunista cair da denominação do partido, então deixa de haver qualquer problema e passa a valer tudo como, de facto, vale para qualquer outro partido onde a ideologia é coisa incerta, é coisa do passado. Se considerarmos a palavra comunista como simples adereço de sigla, então qualquer decisão é tão válida como outra qualquer e cada opção poderá ser justificada com maior ou menor dificuldade.

 

Já não há desculpas que subsistam. A troika partiu do país há mais de quatro anos. O medo que a direita, a direita assumida, retome o poder nas suas mãos existirá sempre e é um medo imbecil, infecundo, porque estamos fadados, neste sistema político de alternância, a que, mais cedo ou mais tarde, isso aconteça. E, todavia, o governo PS prossegue uma política de incrível sobrecarga de impostos, de subjugação do país ao poder económico, de destruição dos serviços públicos, de condenação das gerações mais jovens de proletários a vidas de trabalho precário, sem direitos, sem perspetivas, sem futuro.

 

Como pode um partido comunista apoiar um governo destes? A resposta é simples: não pode.

Obrigado, Que Fazer?

por Amato, em 20.12.19

Uma das melhores coisas que me aconteceram este ano foi ter tomado conhecimento deste blog: Que Fazer?.

 

Trata-se de um blog de opinião, revolucionário, que foca a sua análise no dramático impasse ideológico que se vive no nosso país, desde a saída dos tempos da troika aos acordos parlamentares que originaram a chamada “geringonça”.

 

Identifico-me amplamente com o conteúdo das opiniões expressas e das análises realizadas e acompanho cada nova publicação com muito interesse. Mas mais do que qualquer outra coisa, é a esperança que me dá ao ler cada novo post, é ler e reconhecer verdade em cada palavra e, com isso, purgar, ver-me livre desta solidão ideológica que se vinha adensando em mim.

 

Por tudo isto, mas também pela coragem, pelo desassombro, pela coerência e pela verticalidade, obrigado, Que Fazer?.

À sombra do brexit

por Amato, em 15.12.19

O resultado das eleições britânicas não merece grande discussão ideológica. A ideologia está ausente tanto das ilhas britânicas como fora delas. A época dos ideais já passou, ficou para trás. Não se esqueçam disso. O resultado não merece discussão porque venceu o único candidato que colocou como prioridade a resolução do brexit e isso foi suficiente já que foi diferenciador relativamente aos restantes candidatos e partidos políticos e também porque, ao contrário do que os jornais nos impingiam, o povo britânico tem sido inflexível, de facto, na sua decisão de sair da União Europeia. O brexit venceu esta semana, como já havia vencido nas eleições europeias deste ano, confirmando o resultado inicial do referendo de 2016. Ponto final.

 

Boris é, em si mesmo, uma péssima notícia. Trata-se de um inveterado mentiroso, propriedade que estima desde os seus tempos como jornalista falhado e à qual acrescenta uma índole grosseira e inculta. A reboque da sua reles personalidade e muito mais relevante do que a patetice do brexit, que acabará por ter um efeito frívolo nas economias britânica e europeia, parece que se prepara, sobre a égide de Boris, um desmantelamento em larga escala dos serviços públicos britânicos, uma liberalização massiva do país com particular incidência no seu serviço nacional de saúde.

 

Devia ser sobre isto que as ilustres personalidades que dirigem o nosso país deviam dissertar e mover as suas influências ao invés de estarem sempre tão preocupadas com os grandes interesses económicos e com as negociatas da alta burguesia internacional. É que uma boa parte dos emigrantes portugueses em terras de sua majestade são precisamente enfermeiros e médicos, mas também professores, que, durante a última década, emigraram em abundância para as ilhas britânicas e que arriscam-se a perder o emprego ou a verem as suas condições ainda mais agravadas quando comparadas com as condições dos trabalhadores equiparados nativos. Mas adiante, adiante, porque, sem passaportes ao barulho, isto é conversa que não interessa a ninguém.

 

Discutir a atuação política dúbia de Corbyn e do partido trabalhista é, por isso, absolutamente irrelevante. Nem o partido trabalhista, ou qualquer um da família “socialista”, merece qualquer tipo de ensaio de desculpabilização, nem isto quer dizer que, noutras circunstâncias, o partido trabalhista não pudesse ter tido um melhor resultado. Mas as circunstâncias foram estas e não outras. O povo queria o brexit e o brexit será, finalmente, concretizado. O pior será, todavia, o que se está a preparar à sua sombra.

Foi exatamente para isto que o muro caiu

por Amato, em 11.11.19

É oficial. Todos os governos de cariz minimamente progressista que, desde o início do século, conquistaram vários países da América latina, foram derrotados. Não interessa os milhões que retiraram da pobreza, da miséria e da iliteracia. Não interessa nada. Todos foram derrotados. O único que ainda resiste é a Venezuela, mas a que expensas? Um país destruído, uma sociedade devastada por uma guerrilha urbana, permanente, de mercenários a soldo do capitalismo monopolista americano, imobilizada por bloqueios económicos vários. Ah, claro, também há a valente ilha de Cuba, mas não a considero para estas contas particulares.

 

Ontem foi a vez da Bolívia. Nesse governo de vanguarda, liderado pelo índio Evo Morales, coisa ímpar em todo o mundo, os números mostravam crescimento económico acompanhado de distribuição de riqueza, de educação e de cultura pelo povo à custa dos lucros das multinacionais do gás natural. Pois era exatamente aí residia o problema de Evo Morales e do seu governo boliviano. Era exatamente por isso que era insultado de ditador e de outros nomes que tais. Foi esse o seu pecado. A receita aplicada nesse país foi o corrompimento dos militares. Trata-se de um presidente que venceu sucessivas eleições e que nem a promessa de novas eleições demoveu os militares na sua ação de deposição do governo. A democracia só interessa quando é favorável ao poder burguês.

 

Antes tinha sido o Equador e a Argentina, estes pela via democrática. Normalmente, a democracia é muito vantajosa para o capital, cuja principal aptidão reside na propaganda apelativa e sedutora. No Brasil, mesmo com toda a propaganda, ainda se reforçaram as hipóteses de vitória — daquela figura sinistra chamada de Bolsonaro — com um impeachment perfeitamente injustificado a um presidente legítimo — até aos dias de hoje absolutamente nenhuma ação judicial foi movida contra a Presidente deposta Dilma Rousseff — e a invenção de um processo criminal ao principal candidato da esquerda, Lula da Silva, que resultou no seu oportunístico e também injustificado encarceramento que o impediu de concorrer às eleições.

 

Cada caso tem uma estratégia própria, adaptada à realidade e ao folclore local. Em todos eles, os media constituíram-se como agentes ativos para os golpes de estado, para a indecência, providenciando argumentário, adjetivação e respaldo para a perpetração das patifarias, com lavagem cerebral em massa da melhor. Outra coisa não seria de esperar. O problema é nosso por esquecermos para quem os jornais e as televisões trabalham, quem são os seus donos e senhores.

 

Tudo isto mostra como o jogo democrático é viciado. Tudo isto mostra como as estruturas são corruptíveis, como é fácil ao capital corromper, perverter, degenerar, adulterar o sistema para seu proveito. Qual estado de direito, qual quê? Onde está a independência dos poderes? Democracia, golpe de estado, propaganda, perseguição judicial, guerrilha urbana. Basta escolher. Este é o fim da história, é o fim da história que as populações humanas escolheram.

 

Há uns anos caiu o muro de Berlim e festejámos, lembram-se? Foi exatamente para isto que o muro caiu. Continuem a festejar, até que o sistema entre pela vossa casa adentro para aumentar os seus lucros às vossas custas e às custas dos vossos filhos.

Que força é essa, amigo?

por Amato, em 13.10.19

 

Vi-te a trabalhar o dia inteiro,

Construir as cidades p'ros outros,

Carregar pedras, desperdiçar

Muita força pra pouco dinheiro,

Vi-te a trabalhar o dia inteiro,

Muita força pra pouco dinheiro.

 

Que força é essa que força é essa que trazes nos braços?

Que só te serve para obedecer que só te manda obedecer?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo,

Que te põe de bem com outros e de mal contigo?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo?

 

Não me digas que não me compr'endes

Quando os dias se tornam azedos,

Não me digas que nunca sentiste,

Uma força a crescer-te nos dedos,

E uma raiva a nascer-te nos dentes,

Não me digas que não me compr'endes.

 

Que força é essa que força é essa que trazes nos braços?

Que só te serve para obedecer que só te manda obedecer?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo,

Que te põe de bem com outros e de mal contigo?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo?

Uma revolução para os séculos que se apresentam adiante

por Amato, em 12.09.19

O que mais me dói é perceber esta ilusão em que vivo. Acreditem. A minha maior dor é essa. Sabem? A ilusão de que vivemos em democracia, de que somos livres, de que nascemos iguais e de que somos tratados como iguais pela lei e pela justiça. A ilusão de que existe justiça...

 

Essa dor acaba por ser natural, claro, pois o viver é como que um eterno acordar para a realidade, de um sono de ilusão que nos é imprimido desde o berço. E cada um de nós acaba por entender o alcance tangível dessa construção de castelos de nuvens sobre as nossas cabeças. Todos nós, uns mais cedo, outros mais tarde, acabamos por bater de frente com essa parede de fantasia, vítimas dessa mesma quimera que fomos alimentando ao longo da vida.

 

As publicações deste blog têm tratado abundantemente da parte política do problema. Como pode haver, afinal, democracia quando cada escolha é condicionada de antemão e quando quem efetivamente tem o poder de decisão nunca se expõe ao sufrágio popular? Deixemos, portanto, esta vertente de parte.

 

Falemos de justiça.

 

Falemos de justiça, porque a justiça constitui proverbialmente, no contexto da nossa configuração social, a espada definidora das liberdades individuais e coletivas e o escudo que protege o valor mais precioso que urge entre os homens dos nossos tempos: a igualdade. Uma justiça parcial implica, naturalmente, a diferenciação entre os homens no que às suas liberdades diz respeito. Uma justiça parcial é estruturadora de uma sociedade de classes de homens diferenciadas em influência e em poder, umas sobre as outras.

 

Olhemos, pois, para a justiça. Acompanhemos alguns casos, os que afetam as pessoas que nos são mais próximas e os outros, os mediáticos, que nos impingem olhos adentro. Recolhamos informação. Ontem mesmo, surgiu mais uma notícia que ilustra bem o estado da coisa. Uma vez mais, as grandes corporações burguesas do país, saem incólumes dos crimes cometidos e ainda se vangloriam disso mesmo em plena praça pública. Mas os casos sucedem-se em catadupa. Não façamos deste caso exemplar, porque o exemplo é o dia-a-dia da sociedade. O exemplo foi ontem, é agora e será amanhã também, seguramente.

 

Repare-se que não basta à burguesia reinante ditar as regras com que a sociedade se deve reger em seu benefício. Não. Ainda é necessário poder quebrar essas mesmas regras quando convier e garantir que a esponja purificadora dos tribunais passará sobre os seus delitos e os absolverá perante a sociedade. No passado havia a igreja que detinha esse papel de absolvição moral. Hoje, convenhamos, os tribunais prestam um melhor serviço.

 

Pensar que existe justiça na sociedade burguesa é a ilusão das ilusões. Pensar que a lei nos vê a todos como iguais é fantasia, é ficção. A nós, comuns mortais, resta-nos a nossa inteligência e o nosso senso que servem de amarras ao real e ao concreto. E manter bem viva a consciência de que não existem saídas para este sistema corrupto e despudorado dentro do próprio sistema. Não se pode reformar o que detém natureza ímpia, vil e desprezível.

 

A revolução da sociedade é o único e derradeiro caminho que nos resta. Uma revolução para os séculos que se apresentam adiante. Uma revolução que se impõe para nos catapultar para uma modernidade de bem estar, de paz, de cultura e de elevação intelectual. Para construir uma sociedade fraterna de irmãos, colocando a tecnologia ao serviço de todos, e não uma sociedade de inimigos em constante disputa por uma côdea de pão sob o olhar atento de meia dúzia que toma todos os recursos do planeta para seu próprio proveito.

Jornalismo: um tubo de ensaio da sociedade

por Amato, em 21.08.19

Passavam uns escassos minutos das cinco horas da manhã. Liguei a televisão e, à falta de melhor para me entreter àquela hora alugada por televendas e outras coisas que tais, ativei a máquina do tempo, que é o mesmo que dizer, puxei a emissão para trás, com cuidados redobrados para não fazer nada que pudesse alterar o presente e o futuro... A viagem no tempo estacionou numa reportagem da noite anterior onde se fazia o rescaldo do primeiro dia de reuniões entre o Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP), o governo e a Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM).

 

Não é minimamente surpreendente que nada tenha sido conseguido e que o processo não tenha sequer avançado um milímetro. Após a greve da semana passada, os patrões sentem-se com todo o poder nas mãos perante os trabalhadores e o seu sindicato, não tendo qualquer necessidade de ceder no que quer que seja. O esvaziamento do direito à greve, única arma real do proletariado face ao patronato, tem destas coisas. Os trabalhadores pedem, os patrões não dão, os trabalhadores param, o estado obriga a trabalhar e todos vivem felizes para sempre. Só que não.

 

No final desta fantochada a que se convencionou chamar de “mediação”, primeiro falou o representante dos patrões, claro, como sempre. André Matias de Almeida terá sido o último a chegar, terá estado uns bons dez minutos na reunião, não mais do que isso, nada de muito substantivo terá sido discutido, não havia tempo senão para entregar uma folha A4 impecavelmente datilografada, com logótipos e tudo, e para trocar alguns prioritários cumprimentos com os seus compinchas de governo e de partido. Terá sido o último a entrar, o primeiro a sair e o primeiro a falar. Isto é que é o mais importante, microfones em riste para o doutor André, sempre! Porque vale muito a pena os portugueses ouvirem o senhor doutor André. Só que não.

 

Em seguida, falou Pardal Henriques, do sindicato, sempre muito paciente para tentar a dificílima missão de passar a sua mensagem pela espessa parede feita de questões ideologicamente orientadas e de insistentes interrupções erigida pelos jornalistas ali presentes.

 

E, por fim, falou o representante do governo, o ministro das Infraestruturas e Habitação, Pedro Nuno Santos, o paladino do primeiro-ministro António Costa, o político do diálogo, dos consensos, o amante do socialismo e da esquerda, uma versão melhorada e contemporânea de Guterres que até já deve ter a sua EP reservada para a edição deste ano da Festa do Avante. Só que não.

 

É curioso: ouvir falar Pedro Nuno Santos e André Matias de Almeida foi uma e a mesma coisa. Ouvir o governo e o patronato é rigorosamente o mesmo, uma repetição surreal, um pleonasmo bizarro. O problema será nosso por pensarmos que são entidades distintas. Dizem que Pedro Nuno Santos será o sucessor de António Costa, mas eu cá, com os meus botões, acho que o PS não ficaria pior servido com as exímias qualidades do doutor André, principalmente após esta missão de sucesso na representação do patronato e na repressão do povo trabalhador.

 

Nada disto, todavia, captou a minha atenção. Nada disto é novo. Nem tão pouco a habitual análise daquele fantoche de conveniência que se coloca de frente para as câmaras, em estúdio, para finalizar o processo de lavagem cerebral. A minha atenção prendeu-se noutra coisa.

 

Fugiu o olhar preguiçoso para aquele grupo de indivíduos que envolviam de interpelações os representantes, ora da ANTRAM, ora do SNMMP, ora, por último, do governo. A média de idades dos jornalistas presentes não poderia ultrapassar os trinta anos. Com efeito, não fosse cada um deles exibir um microfone numa das mãos, parecia à primeira vista um qualquer grupo de adolescentes, uns acabados de sair da puberdade e outros em plena glória dessa efémera estação da vida.

 

Para o que faz um jornalista hoje em dia, vinte e poucos anos chegam muito bem: fazer as perguntas que lhes foram colocadas num papelinho no bolso de trás das calças, repetir as conclusões que aprenderam antecipadamente antes da entrevista e, claro, trabalhar como um cão, ser pago como a um cão, com um horário de cão. É melhor apagar esta última parte que não é politicamente correta nos tempos correntes. É discurso figurativo apenas. Todos os animais devem ser bem tratados. Voltemos ao ponto em discussão.

 

Para o que um jornalista devia ser capaz de fazer, todavia, para ser capaz de, por exemplo, articular uma resposta dada com uma pergunta pertinente, que eventualmente nem estivesse previamente preparada, ser capaz de ler nas entrelinhas do que é dito pelo interlocutor e ter a curiosidade e a coragem de questionar sobre o que não é dito, para isto e para outras coisas, não chegam vinte e poucos anos, nem trinta, nem, por ventura e em muitos casos, quarenta.

 

Aquele grupo de jornalistas constitui bem mais do que uma mera amostra estatística do jornalismo em Portugal ou, se quisermos, do mundo ocidental. Aquele grupo de jornalistas é o reflexo mais límpido da sociedade em que vivemos, deste culto bacoco à juventude, ao aqui e agora em vez do conhecimento da história e do passado e das perspetivas para o futuro, ao recibo-verde e ao dinheiro rápido e fácil ao invés da estabilidade, à emoção em detrimento da razão, à ambição sem medida em vez da experiência, ao histerismo das redes sociais em lugar da cultura e da sabedoria, aos excessos das festas e festivais, e por aí fora. Podia continuar. Mas a verdade é que a juventude não é a solução para equilibrar os pratos da balança, para colocar mais peso na estabilidade, no bom senso, nos princípios, na ética e nos valores, na introspeção, na reflexão, no conhecimento ou na cultura. Para tudo isto é fundamental viver, é fundamental experiência de vida como condição necessária, não suficiente, mas impreterível para uma sociedade mais sábia, mais culta, mais estável, mais estruturada em valores e princípios comummente aceites.

 

E depois debruçamo-nos sobre os jornalistas que lá estão, rapazinhos de barba rala ou rapariguinhas carregadas de acne juvenil, e muitos já passaram pelos principais meios de comunicação, já escreveram livros sobre temáticas difíceis e delicadas, à partida, e os seus CVs são uma multiplicidade de cursos tirados em universidades privadas d'Aquém e d'Além-Mar. Resta-nos apenas considerar estar na presença de verdadeiros génios, figuras ímpares que preenchem o universo do jornalismo deste país tal como as existem também, por decalque, em cada uma das outras relevantes áreas da sociedade. Só que não.

 

Agora de tarde, assistia ao anúncio de uma nova greve convocada pelo SNMMP apenas a horas extraordinárias, fins-de-semana e feriados. Ilustrando o que acabei de escrever, a primeira questão dos jornalistas presentes foi qualquer coisa como: “(...) que serviços mínimos estão a pensar fazer?”

 

A pergunta é tão absurda que a jornalista que a fez ou não ouviu nada do que tinha acabado de ser anunciado, ou não faz a mínima ideia do que são serviços mínimos, ou, então, está mandatada superiormente para fazer aquela questão particular com o intuito de propiciar o caos desinformativo. De qualquer forma, é manifestamente representativo do paradigma dominante.

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