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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Para quê?

por Amato, em 08.06.18

Thomas Mann

 

O homem não vive somente a sua vida individual; consciente ou inconscientemente participa também da sua época e dos seus contemporâneos. Até mesmo uma pessoa inclinada a julgar absolutas e naturais as bases gerais e ultrapessoais da sua existência e que dá ideia de as criticar tão objectivamente como Hans Castorp, pode facilmente sentir o seu bem-estar moral um tanto diminuído pelos defeitos inerentes a essas bases. O indivíduo pode visar numerosos objectivos pessoais, finalidades, esperanças, perspectivas, que lhe dêem o impulso para grandes esforços e elevadas actividades; mas quando o elementos impessoal que o rodeia, quando o próprio tempo, não obstante toda a agitação exterior, carece no fundo de esperanças e perspectivas, quando se lhe revela como desesperador, desorientado e sem saída, e responde com um silêncio vazio à pergunta que se faz consciente ou inconscientemente, mas em todo o caso se faz, a pergunta pelo sentido supremo, ultrapessoal e absoluto, de toda a actividade e de todo o esforço, então tornar-se-á inevitável, precisamente entre as naturezas mais rectas, o efeito paralisador desse estado de coisas e esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral e de afectar a própria parte física e orgânica do indivíduo. Para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapassa a medida do que é usual fazer-se, sem que a época saiba dar uma resposta satisfatória à pergunta «Para quê?», é indispensável ou um isolamento moral e uma independência, como raras vezes se encontram e têm um quê de heróico, ou então uma vitalidade muito robusta. Hans Castorp não possuía nem uma nem outra dessas qualidades e portanto deve ser considerado medíocre, posto que num sentido inteiramente louvável.

 

— Thomas Mann, A Montanha Mágica

Sobre o caminho a seguir

por Amato, em 28.09.17

https://oss.adm.ntu.edu.sg/xtan060/wp-content/uploads/sites/1805/2017/08/2108-cheshire-cat-alice-in-wonderland.jpg

 

— Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
— Isso depende muito de para onde queres ir — respondeu o gato.
— Preocupa-me pouco aonde ir... — disse Alice.
— Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas — replicou o gato.

 

Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas

Os Pobrezinhos

por Amato, em 06.04.17

“Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

 

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:

 

— Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.

 

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

 

— Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

 

Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto

 

(— Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)

 

de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

 

— Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

 

o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

 

— Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.

 

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros

 

— O que é que o menino quer, esta gente é assim

 

e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

 

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

 

— Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar

 

e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

 

Na minha ideia o padre Cruz e a Sãozinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

 

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis".

 

— António Lobo Antunes, in Livro de Crónicas

A névoa

por Amato, em 10.02.17

https://minimoeomaximo.files.wordpress.com/2016/05/saramago1.jpg

Conta Eduardo Galeano, grande escritor uruguaio, que Rafael Guillén, antes de tornar-se Marcos, veio a Chiapas e falou aos indígenas mas eles não o entenderam. «Então meteu-se na névoa, aprendeu a escutar e foi capaz de falar.» A mesma névoa que impede ver é também a janela aberta para o mundo do outro, o mundo do índio, o mundo do «persa»... Olhemos em silêncio, aprendamos a ouvir, talvez depois, finalmente, sejamos capazes de compreender.

 

— José Saramago, in Chiapas, nome de dor e de esperança

Ideia fixa em países adiantados

por Amato, em 22.11.16

Então o quê? Não concebem um secretário de Estado filósofo, um ministro poeta, escritor elegante, cheio de graça e de talento? Não, bem vejo que não: têm a ideia fixa de que um ministro de Estado há-de ser por força algum sensaborão, malcriado e petulante. Mas isto é nos países adiantados, em que já é indiferente para a coisa pública, em que povo nem príncipe lhes não importa já em que mãos se entregam, a que cabeças se confiam.

— Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett

"Cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis"

por Amato, em 29.09.16

Depois de publicar a parte da citação de Almeida Garrett que é mais conhecida, mais popular, digamos, dei comigo a revisitar o Viagens na Minha Terra. A citação em causa vem logo no terceiro capítulo e pareceu-me insuficiente. Com efeito, tanto o texto que a precede, como aquele que a ela se segue, são de uma riqueza tão assinalável que me parece indesculpável que não se lhes dê iguais honras de destaque.

 

Todo o parágrafo, que transcrevo em seguida, é de uma beleza muito rara no universo dos livros escritos em português, normalmente abundantes de um provincianismo que não permite reflexões deste género. Saliente-se antes ainda a incontornável pergunta que ecoa por entre as linhas do texto:

 

“No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana?”

 

Bravo, Garrett!

 

Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó-de-pedra, macadamizai estradas, fazei caminhos-de-ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa, como tendes feito esta que Deus nos deu, tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai: reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. — No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico. — Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao Diabo, o número de corpos que se têm de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro — seja o que for; cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.

 

— Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra

 

Viagens na Minha Terra, Livros de Bolso Europa América

 

Questionando a noção de "esquerda" de George Orwell

por Amato, em 24.09.16

Esta semana terminei a leitura de um pequeno livro de George Orwell intitulado de Animal Farm, que é mais um conto do que um romance. Li a versão original inglesa de noventa e cinco páginas. Devo referir que fiquei muito dececionado.

 

Quando peguei pela primeira vez no livro fi-lo carregado de esperanças. Afinal, tratava-se do meu primeiro livro de Orwell, um escritor britânico “de esquerda” com maravilhosa crítica. O primeiro capítulo concorreu para esse estado de espírito: uma escrita de muito boa qualidade, envolvente, desvendando desde logo a fábula metafórica do movimento revolucionário do proletariado identificado na revolução dos animais. O problema veio depois, nos nove capítulos restantes.

 

A fábula revelou ser, na minha opinião, não mais que uma caricatura cruel do regime comunista soviético. Adjetivo de cruel porque conseguiu recolher nas suas páginas todas as críticas ao regime por parte do capitalismo ocidental, as justificadas e as injustificadas, as difamações puras ou as considerações enviesadas e descontextualizadas, e, no fim de contas, conclui algo de muito simples, todavia extraordinariamente triste: não vale a pena fazer o que quer que seja, não vale a pena sonhar com um mundo melhor, não vale a pena lutar, porque seremos sempre tramados por alguém que se corrompe e que trai os sonhos do coletivo.

 

Muitos poderão argumentar que o ponto do livro é precisamente alertar para o corrompimento do Homem pelo poder, mas escrever um livro inteiro com este singular propósito parece-me pouco, parece-me insuficiente. Deixo algumas questões.

 

  1. Não eram válidas as fundamentações para a revolta dos “animais” (operários)?

 

  1. Não eram as suas condições de vida miseráveis?

 

  1. Não deviam eles sonhar, ambicionar e lutar por algo de melhor?

 

  1. E, falhando — como aliás resultará inevitável —, não deverão tentar novamente?

 

  1. E a cada tentativa, não será que certos avanços são conquistados?

 

  1. Alternativamente, devem eles acomodar-se à sua condição já que esta nunca será melhor?

 

A visão que resulta da leitura do Animal Farm é uma que é extremamente pessimista, pesada e negativista. Não existe um raio de esperança naquelas páginas e, isso, considero que é indesculpável. Com efeito, com todos os erros que o regime soviético cometeu, com todas as suas imperfeições, as quais dou de barato, ignorar os avanços sociais que ele nos trouxe, que induziu na maioria dos países europeus, por exemplo, como sistemas universais de saúde, de educação ou de providência, um legado que perdura ainda hoje, é triste e surpreendente para um autor de quem dizem ser “de esquerda”. Com efeito, o Animal Farm adequar-se-ia na perfeição na autoria de um escritor conservador, de direita, um que considera-se que o aqui e o agora é já o melhor que a humanidade poderá algum dia almejar. Não é à toa que o livro foi tomado pela direita como um panfleto anticomunista.

 

Tenho agora o 1984 para ler e, sinceramente, não sei o que fazer. Acho que vai ter que esperar um pouco.

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