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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Os Pobrezinhos

por Amato, em 06.04.17

“Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

 

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:

 

— Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.

 

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

 

— Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

 

Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto

 

(— Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)

 

de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

 

— Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

 

o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

 

— Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.

 

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros

 

— O que é que o menino quer, esta gente é assim

 

e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

 

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

 

— Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar

 

e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

 

Na minha ideia o padre Cruz e a Sãozinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

 

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis".

 

— António Lobo Antunes, in Livro de Crónicas

Ideia fixa em países adiantados

por Amato, em 22.11.16

Então o quê? Não concebem um secretário de Estado filósofo, um ministro poeta, escritor elegante, cheio de graça e de talento? Não, bem vejo que não: têm a ideia fixa de que um ministro de Estado há-de ser por força algum sensaborão, malcriado e petulante. Mas isto é nos países adiantados, em que já é indiferente para a coisa pública, em que povo nem príncipe lhes não importa já em que mãos se entregam, a que cabeças se confiam.

— Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett

O significado de belas artes

por Amato, em 15.10.16

Creio seriamente que este sistema que nos governa procura fazer de cada um de nós um atrasado mental. Agora querem fazer com que concordemos com a atribuição do Nobel da literatura a Bob Dylan usando argumentação variada: porque Dylan é um poeta dos melhores, porque não devemos ser puristas ou preconceituosos relativamente ao formato “canção”, porque Dylan escreveu um — um! — livro no século passado — e porque — esta é a minha preferida — escreve muito bem! Não aceitem esta linha argumentativa, por favor! Digam “Não!” a quem tenta fazer de vós atrasados mentais.

 

Deixo aqui algumas reflexões.

 

  1. Se existisse um prémio para galardoar a melhor peça musical, seria possível o género pop competir com o género operático?

 

  1. Se existisse um prémio para galardoar a melhor obra na área das belas artes, poderia uma caricatura ou um cartoon ser considerado para o prémio?

 

  1. Não é suposto o Prémio Nobel ser concedido a quem produziu uma grande obra no ano que finda à qual se junta uma carreira assinalável na área?

 

As respostas são não, não e... sim. Isto não quer dizer que estejamos a ser preconceituosos ou puristas relativamente ao formato da obra. O que significa é que há um significado para o conceito de beleza na Literatura, como em qualquer outra manifestação artística, aquilo que é tão bem definido na Pintura ou na Escultura através do conceito de “belas artes”. Tudo é virtualmente passível de ser considerado como arte. Belas artes, todavia, é outra coisa. Cada formato tem o seu significado e a sua importância, é verdade, mas isso é uma outra história. O que fizeram com o Prémio Nobel da Literatura deste ano foi procurar aniquilar qualquer vestígio deste conceito.

Um azar nunca vem só

por Amato, em 14.10.16

Estou um pouco chateado. É que estive à procura do meu CD Best of AC/DC e não há forma de o encontrar. Não faço ideia onde o terei guardado... As músicas são excelentes, mas as letras... sublime poesia.

 

Entretanto, fontes próximas confirmam-me que os AC/DC estão na pole position para o Nobel da Literatura do próximo ano. É caso para dizer que um azar nunca vem só: perder o CD de uma excecional banda de rock e uma peça literária ímpar imortalizada em áudio e potencialmente premiada com o Nobel no próximo ano...

 

For those about to Nobel, we salute you!

 

 

Pop Nobel

por Amato, em 13.10.16

A atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan deve ser entendida no estrito contexto de pronunciado declínio da Literatura no mundo contemporâneo. Esse declínio está intimamente conectado com o esbatimento das formas, dos conceitos, em particular no que diz respeito à forma romance e ao próprio conceito de arte.

 

O capitalismo tem destas coisas. Como na nossa sociedade há apenas uma entidade, um valor, que se sobrepõe a todas as outras — o capital —, então é apenas uma questão de tempo até que todas as outras se moldem e se esbatam em função dessa.

 

O romance dos tempos modernos saiu de moda. É um produto que quase que não se fabrica mais. A sociedade da competição, a vida a mil à hora, não se coaduna com a leitura de um escrito substancial, massivo, que necessita de tempo para ser entendido, de horas consecutivas para ser apreendido, interiorizado. Esta sociedade prefere, com efeito, o parente pobre do romance, o chamado romance de cordel. Não interessa se o desenrolar do mesmo seja uma meia dúzia de lugares-comum que se repetem ad nauseam. Com efeito, é melhor deste modo: assim poupa-se no pensar. Por outro lado, o que interessa mesmo é o número de cópias vendidas — lembram-se? —, não é a arte que é vertida em tinta nas páginas brancas.

 

Por seu turno, o conceito de arte tornou-se numa entidade mais abstrata do que qualquer outra, do que jamais foi. Chegamos ao ponto de medir a arte de uma obra pela publicidade gerada, pelo número de likes e de partilhas, para além do número de vendas. Podemos dizer que não, mas na prática é exatamente assim. Se existisse um mínimo de brio profissional na edição livreira, se existisse um mínimo de consideração, de amor, pela arte, se houvesse um conceito concreto qualquer que fosse, então uma boa parte dos livros à venda atualmente nas estantes das livrarias não seria sequer publicada, simplesmente. Não é possível perceber como é que se pode produzir tanto lixo em forma de livro se não se imaginar que possam existir outros objetivos afluentes que se pretendem atingir junto das massas.

 

A atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan, já o tinha escrito neste blog a propósito de Vargas Llosa — nem de propósito! —, não é muito relevante, mas deve ser entendida sob este ponto de vista. Há quem diga, e com toda a razão, ser incrível que Portugal, historicamente um país de excelentes escritores, ter apenas um laureado comparativamente com outros países como a Suécia que tem sete vencedores. Isto também diz muito sobre a qualidade das escolhas. Contudo, pela forma como a carruagem Nobel está a fazer o seu caminho, tenho muito receio que o próximo português vencedor do Nobel da Literatura, ou desta nova versão do Pop Nobel, venha a ser algum escritor da espécie de José Rodrigues dos Santos. Tenho receio porque, acima de tudo, se está a tornar provável e porque ainda me sobra alguma noção do ridículo e, por isso, também alguma vergonha.

Uma triste figura

por Amato, em 08.10.16

A primeira vez que ouvi o nome de Mário Vargas Llosa foi a propósito da atribuição do prémio Nobel da literatura a este escritor. O ano de 2010 precipitava-se para o seu términos. Na altura não percebi a razão de ser da atribuição deste prémio. Continuo a não perceber. Talvez um dia, quando a força das circunstâncias assim o exigir, pegarei um livro seu em mãos e, então, serei capaz de ajuizar sobre a justeza de tal atribuição.

 

A verdade é que o prémio Nobel não significa muito. Sejamos honestos e não dispersemos com a rudeza das palavras escritas: quantos prémios Nobel da literatura ficaram para a história? Quantos? Conseguem nomeá-los? Até vos faço um favor: percorram a lista da wikipedia e digam-me, honestamente, quantos dos laureados consideram que serão imortalizados acima do escorrer das areias do tempo? Admirados? São poucos?

 

Tal facto apenas vem concorrer para aquilo a que o prémio se tornou ao longo dos anos: um prémio totalmente politizado — no mau sentido —, travestido de qualquer sentido de arte, a leste de qualquer conceito de literatura, com o objetivo único de premiar não o escritor, mas aquilo que o escritor representa, isto é, de usar o escritor como uma bandeira para influenciar politicamente os povos.

 

Claro que, pelo meio, há Steinbeck, há Neruda, há Saramago, há Russel, Sartre e Shaw e ainda Hemingway e García Márquez e existirão outros, com certeza, mas estes acabam por ser exceções a uma regra vil e pérfida que se vem tornando mais carregada, mais descarada, a cada ano que passa.

 

Voltando a Llosa, devo confessar que “comecei” mal com o personagem. Ter como ponto alto do seu currículo uma altercação com Gabriel García Márquez, pareceu-me sempre pouco abonatório com respeito à sua pessoa. Dizem que se tratou de uma “questiúncula de saias”. Nunca consegui interiorizar bem a coisa, todavia. Como é que alguém poderia se chatear com um dos mais queridos, com um dos mais admirados, escritores latino-americanos, o mestre criador do realismo mágico que nos presenteou com algumas das mais preciosas obras literárias? Claro que as coisas não são bem assim, claro que o escritor e o homem não se constituem como entidades indissociáveis com propriedades transferíveis.

 

Hoje percebo melhor a questão. Vargas Llosa poderá ser um excelente escritor, mas é um indivíduo de uma pobreza intelectual assustadora. As recentes declarações sobre o Podemos espanhol e o que realmente pensa sobre o mapa geopolítico na América Latina, na qual se inclui o seu posicionamento sobre as FARC e o processo de paz na Colômbia, são um bom exemplo disso. Qualquer ignorante diria o mesmo. Qualquer ignorante talvez o dissesse melhor, descontados quaisquer assombros de pseudo-intelectualidade.

 

Na verdade, não sei se terá sido a tal “questiúncula de saias” a responsável pelo afastamento de Márquez e Llosa. Talvez sim. Para mim, contudo, a razão essencial terá sido, antes, o facto de Márquez ter visto a vivas cores a natureza medíocre de Llosa. De todas as atoardas que Llosa lançou nos últimos dias, a que para mim se reveste de maior dramatismo é a seguinte: “As utopias não trazem o paraíso à terra. Criam o inferno.”

 

Com esta tirada não sobra mais nada para se dizer. Para Llosa, contentem-se com o que temos: não vale a pena ambicionar mais nada. Ficamos por aqui. Para mim, é extraordinariamente triste ouvir tais palavras.

 

Acima, escrevi que Llosa talvez fosse um excelente escritor. Esqueçam. Quem diz uma coisa destas não pode ser um excelente escritor, tão pouco um razoável escritor. Tão pouco um razoável ser humano. Esqueçam a diferença que existe entre o escritor e o ser humano. Não se aplica. Llosa apenas poderá ser um medíocre, um triste escritor, um triste homem... uma triste figura.

Sou como uma espécie de fermento aqui

por Amato, em 23.01.16

http://www.pco.org.br/biblioteca/bibli_digital/bibli_cultura/literatura/textos_literrarios/gorki/foto.jpg

— Está bem, meu caro — disse ela, sem o olhar e com um gesto significativo dos lábios. — Que fazes tu? Limitas-te a falar e a ler um livro, às vezes. Não dá muito proveito às pessoas que tu cochiches pelos cantos (...).

— Há muitos que me ouvem, minha amiga — replicou o camponês, vexado. — Sou como uma espécie de fermento aqui, fica sabendo. ”

in A Mãe, Máximo Gorki

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