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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Alis Ubbo

por Amato, em 28.02.20

Estreou esta semana um filme-documentário chamado Alis Ubbo de Paulo Abreu. Por razões de ordem diversa pouca gente assistirá a este filme. Desde logo, porque o filme encontra-se em exibição numa única sala de cinema do país, a Cinema City Alvalade, em Lisboa. Depois, porque o tema não é — como direi? — muito sexy nos dias de hoje e convém que não seja muito falado.

 

Alis Ubbo é o nome que os fenícios deram a uma cidade que fundaram nas margens do Tejo, antepassada direta da cidade de Lisboa. Quer dizer Porto Seguro. Com o passar dos anos o topónimo terá evoluído para Lisboa. Neste filme-documentário homónimo, Paulo Abreu segue com a sua câmara a rotina de um condutor de tuk tuk para turistas e regista o estado atual da cidade que é capital deste país chamado Portugal. Particular virtude da película é não conter juízos de valor. Esses, são posse exclusiva nossa e são também da nossa única responsabilidade. O que o filme contém é um retrato em que o dedo do retratista é mínimo ou menosprezável. Os juízos de valor cabem-nos a nós.

 

O turismo em massa está a transformar as nossas cidades, é um facto, e Lisboa é apenas um exemplo. O turismo, no entanto, não é o problema. O problema somos nós, é a nossa sociedade governada pelo lucro, pela ganância, pela exploração de tudo o que mexe para benefício próprio de uns poucos. O problema é o capitalismo. O turismo é apenas um pretexto, como o vírus mais oportuno a aproveitar-se das debilidades do organismo.

 

Toda a gente se lembra da disseminação cancerígena das lojas de compra de ouro que poluíram a face das nossas cidades por volta do ano de 2011. Passada a febre, restam uma ou duas abertas. As outras estão ao abandono ou foram entretanto reconvertidas para o turismo.

 

As consequências da exploração desenfreada do turismo estão aí à vista de todos e nem todas são necessariamente desprimorosas. Mas a verdade é que, a troco de uma cara lavada nos centros históricos degradados das cidades, essas cidades deixaram de ser dos seus habitantes, um a um desalojados, deslocados para os subúrbios e para os subúrbios dos subúrbios. Temos cidades renovadas mas repletas de alojamento local, Airbnb's, hostels, pensões e hotéis, lojinhas de souvenirs que reduzem a nossa história e património a um embaraço de caricatura, segways, tuk tuk's, ubers, camionetas turísticas, serviços com preços para bolsas de turista, menus em inglês, etc., a lista continua.

 

De que vale termos cidades que não são nossas? Cidades que não habitamos, que raramente visitamos porque não temos tempo ou dinheiro, e que existem assim, como que alugadas a render sabe-se lá a quem e para quê?

 

Não se trata de sermos um país com história e belezas naturais diversas que atrai a visita do turismo mundial. Não é bem disso que se trata. Trata-se, antes, de um país que deixa de viver por si, de ter existência própria, para viver para os outros, para alugar as suas terras e cidades, as suas casas e os seus carros à visita estrangeira. Trata-se de um país que deixou de fazer história, a sua história, para começar a viver da história que fez ao mesmo tempo que essa mesma história da qual vive é compactada e corrompida em versões ocidentalizadas de consumo rápido.

 

Revolta-me particularmente os que argumentam que “antes do turismo era pior” e “mais vale assim do que dantes”, como se a alternativa a isto seja a degradação do parque imobiliário das cidades, como se não fosse possível um modelo de desenvolvimento que cuidasse do restauro das suas cidades, que tivesse gente que nelas vivesse e, ao mesmo tempo, que acolhesse um turismo sustentável e rentável. Para a maioria das pessoas parece valer a lógica do 8 e do 80.

 

Como será quando o boom turístico entrar em declínio? E se esta paranoia do corona vírus tiver exatamente esse efeito de retração? O que será das nossas cidades sem gente viva lá dentro? O que será das nossas cidades sem este turismo de massa, sem essas massas virtuais de pessoas com as quais nos habituámos a conviver mas que, na verdade, não são bem reais, tanto estão cá como não estão, são tanto daqui como de outro lugar qualquer? O que dirão, então, os nossos governantes? Que desculpas encontrarão?

 

Bem sei que Portugal segue apenas o exemplo de todos os países europeus e que se encontram em situações semelhantes no que ao turismo diz respeito. A diferença, todavia, é que nós só temos isto. Lembram-se? A nossa indústria é residual, a agricultura inexistente. O que nos restará quando o turismo se for?

A Carris em Lisboa segundo Medina, o aprendiz de Costa

por Amato, em 23.11.16

Nesta semana, foi anunciado que a Câmara Municipal de Lisboa passará a deter a gestão da Carris, a empresa que opera os transportes por autocarro e elétrico da região. Anuncia-se um grande investimento na modernização e dinamização da rede de transportes da Carris e as intenções que se propalam — quem não concorda com elas? — são promissoras e reveladoras de uma estratégia interessante para a capital, à parte, claro está, das benesses usuais para reformados e criancinhas. Estas últimas o trabalhador comum seguramente dispensava, farto de andar em autocarros atolados de reformados em horas de ponta, todos eles com uma imperiosa necessidade de viajarem sentados — nem que seja por apenas duas paragens —, mais os carrinhos de bebé a ocupar metade do espaço interior da viatura, pisando tudo o que se coloca no seu caminho.

 

Estas boas intenções valem tanto, todavia, como a palavra de um vendedor de call center, ou seja, muito pouco. Sempre que há uma mudança de gestão, repete-se a manha, repete-se o ardiloso discurso. Neste mundo, as promessas não valem de nada, as palavras não valem de nada. Esperemos para ver.

 

https://thumbs.dreamstime.com/x/trolleybus-stop-vector-drawing-bus-city-street-50251776.jpg

 

O que é interessante, na minha perspetiva, é verificar três coisas.

 

A primeira, é o tratamento de exceção descarado que o país dedica à sua capital, comparativamente com outras cidades que, legitimamente, poderão reclamar iguais responsabilidades na gestão dos seus transportes públicos. Nada de novo neste ponto.

 

A segunda, é a total ausência de uma estratégia nacional num setor que se prefigura como crucial para o desenvolvimento económico do país. Não nos deixemos enganar: quando um governo central decide começar a atirar com as suas responsabilidades para terceiros, é sinal inequívoco de que não tem nenhuma ideia sobre o que fazer com os assuntos. É uma declaração de incompetência ou inépcia escrita e assinada na primeira pessoa.

 

A terceira é mais sinistra. As câmaras municipais, ou uma boa parte delas, continuam a colocar-se em bicos de pés para receber acrescidas responsabilidades — responsabilidades originalmente e por princípio do Estado — sem haver uma contrapartida financeira sólida. Este processo de descarada desorçamentação do Estado, que se verifica claramente no setor da educação, por exemplo, tem conduzido indelevelmente os setores a uma suborçamentação e a uma redução de condições humanas e materiais para a sua operacionalização no terreno. Estaremos cá para ver, também neste particular, se todas estas excelentes intenções de Medina, o aprendiz de Costa, não se revelarão também insustentáveis dentro de um par de anos.

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Amato

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