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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Sociedade burguesa

por Amato, em 12.04.19

Temos democracia, temos liberdade, a de expressão e as outras, temos riqueza, temos tudo, segundo apregoam, nesta sociedade capitalista, apogeu da sociedade burguesa. Não falta quem nos repita que não há modelo de sociedade melhor, que chegámos à meta onde havíamos de chegar e que a procura acabou. Este pensamento é-nos gravado na cabeça desde a nascença.

 

E depois há Julian Assange.

 

A mesma sociedade acima descrita, o mesmo modelo político defendido por todos, é capaz de fazer isto a um homem que, simplesmente, ousa dizer a verdade. Passados sete anos de cativeiro forçado, o que sobrava deste grande e corajoso homem foi levado como um animal para um outro tipo de cárcere. Por ele espera um rol de acusações forjadas com vista, anuncia-se já, à pena de morte. Em particular, observem como Assange é tratado pelos seus pares jornalistas! Vejam o desprezo e a indiferença que lhe dedicam!

 

É isto que esta sociedade capitalista burguesa faz a um jornalista que diz o que não convém. É isto o apogeu da liberdade, da democracia e da humanidade. Cai a máscara, revelam-se os contornos da ilusão em que vivemos.

 

Tome cuidado o leitor destas palavras, tome cuidado com os passos futuros que der: poderá tornar-se, sem querer, o próximo alvo a abater. É verdade: pode não tocar só aos outros. Não há honra, nem princípios, nem ética, nem caráter. Vale tudo para a burguesia manter e perpetuar o seu poder.

O estado da arte em 2018

por Amato, em 15.07.18

Hoje de manhã, ainda mal tinha acordado, dei por mim a percorrer a entrevista do Público ao novo diretor do Museu de Serralves, João Ribas. Foi curiosidade pura para colmatar a minha falta de conhecimento do personagem, mas também para desvendar um pouco, aspirava, do véu da direção artística do museu de arte contemporânea, o que, para a maioria de nós, é sempre de difícil acessibilidade.

 

Não cheguei ao fim da dita entrevista, confesso. Não tive estômago para continuar. Fiquei a saber que, para as entrevistadoras, Inês Nadais e Isabel Salema, as prementes questões sobre o museu, a sua oferta e a sua direção artística, são, por esta ordem, o facto do museu não ter na sua agenda a exibição de obras da Joana Vasconcelos; o facto de não existir paridade na promoção de artistas homens e artistas mulheres em Serralves; e o facto de haver pouca representatividade de corpos negros ou figuras negras.

 

Para mim, é cada vez mais difícil digerir esta realidade em que tudo é reduzido a números perfeitamente artificiais, em que tudo é avaliado por um sistema de quotas que pouca ou nenhuma relação com a realidade tem. Cada vez mais, ao que parece, perde-se o valor intrínseco das coisas. Na arte, em particular, que devia ser o espaço máximo de liberdade, as obras são sujeitas a um escrutínio a montante que nada tem a ver com o seu valor enquanto obra, enquanto objeto artístico.

 

Há tantas obras de mulheres quanto as de homens? As raças estão representadas equitativamente? A obra não é sexualmente ou religiosamente ofensiva, de algum modo? Já agora, o Cristiano Ronaldo está representado no museu? E a obra, é da Joana Vasconcelos?

 

Mas em que é que isto é relevante em termos artísticos? Em quê?!

 

Em nada.

 

Novamente, trata-se da manifestação de um politicamente correto mesquinho e profundamente ignorante que parece invadir todos os domínios da atividade humana. Mas não se enganem: este politicamente correto é parcial, é controlador dos conteúdos, inquina o pensamento e a reflexão das sociedades. É feroz opositor da liberdade. Este politicamente correto é detergente eficaz de lavagem cerebral.

 

É isto que temos. Quem diria que as sociedades ocidentais, apregoadas baluartes da democracia e da liberdade, se revelassem tão eficientemente castradoras da arte e das suas manifestações.

Sobre os Le Pens e os Macrons

por Amato, em 10.05.17

A fórmula mais eficaz para enganar o povo é fazê-lo crer numa sociedade a preto e branco, dividida entre bons e maus. Para ser bem sucedida, essa simplificação centra-se em um ou dois aspectos, no máximo, considerados como fundamentais e é bombardeada pelos media a todas as horas e a todos os minutos do dia até que o povo ceda, nem que por cansaço, até que deixe de questionar a formulação apresentada para apenas prosseguir a sua vida sem conflitos internos com a voz dominante.

 

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A minha opinião é que nos preocupamos demasiado com Le Pens, quais demónios encarnados em figura de gente, e muito pouco com Macrons, os que se opõem ao mal e, portanto, os bons. Enquanto isso, os Macrons vão trilhando a sua ação política de desregulação das sociedades, de desequilíbrio económico, de favorecimento de classe — a banca, a alta finança, os donos dos grandes grupos económicos, os capitalistas, a burguesia —, e conduzindo essas mesmas sociedades a pontos de rotura, já sem qualquer vislumbre nem de pátria, nem de nação, nem de coisa nenhuma. Os Le Pens são consequência dos Macrons e não o contrário. Se consideram que o primeiro é o mal e o segundo é o bem, é bom que pensem melhor.

 

Mas é mais fácil pensar assim, admito. Este pensar entretém por mais um tempo. Os exploradores e os explorados permanecem explorados e explorados. Há uma ira que vai fermentando por debaixo deste pensar, é certo, mas nos entretantos, enquanto não rebentar a bolha que se vai formando, esta sociedade burguesa vai continuando o seu caminho.

 

Em Portugal assiste-se a fenómenos parecidos todos os dias. Por um lado, enojamo-nos — e bem! — com qualquer coisa que soe a fascismo declarado. Por outro, batemos palmas ao personagem que, por ora, vai ocupando os Paços do Concelho do Porto, fazendo a apologia de ditaduras para pôr o país em ordem. Rui Moreira gosta, aliás, de proferir os maiores disparates histórico-políticos nas palestras para as quais é convidado amiúde. Não sabe mais, compreenda-se. Todavia, as plateias aplaudem-no. Diz que podemos precisar de ditaduras “para termos a nossa soberania económica, na segurança”. Diz que espera que não seja assim mas... o país pode querer aquilo, refere, do alto da sua sapiência, não deixando de fazer objetivamente um elogio aos méritos que, segundo ele, o sistema tem. Diz ele, também, que uma solução para as sociedades é passarmos a ter democracias diretas em que todas as pessoas votariam através de uma app de um telemóvel, como se estivessem a jogar Pokemon Go. E as pessoas aplaudem! Profere ainda outras frases de igual estirpe, mas estas que selecionei são realmente impressionantes. É inenarrável a decadência, a mediocridade intelectual do personagem, mas ainda mais grotesco é ver aquela plateia de alunos e professores do ensino superior a aplaudir estas alarvidades como se não dispusessem de mais do que um neurónio para raciocinar.

 

As pessoas aplaudem, é um facto. Depois de ser reeleito para a Câmara Municipal do Porto, vê-lo-emos, Rui Moreira, a tentar uma cadeira do poder central e é provável que consiga. As pessoas aplaudem-no, não se esqueçam! E prestem atenção: Rui Moreira não é um Le Pen, é um Macron.

 

Os ditadores não são os Le Pens, acreditem. Estes raramente chegam ao poder. Os ditadores são os Macrons e vão a votos e ganham. E são aplaudidos.

Democracia é escutar e debater

por Amato, em 09.03.17

Sobre o caso da proibição da intervenção de Jaime Nogueira Pinto na Universidade Nova de Lisboa apraz-me dizer o seguinte.

 

Tenho sempre muito gosto em ouvir alguém com um mínimo de cultura e de inteligência, convicção e coerência nos seus ideais, por muito que deles discorde. Este tipo de pessoas são um caso raro na nossa sociedade. Quando as encontramos, devemos aproveitar, porque a maioria das que pululam pelos espaços opinativos são caricaturas de cata-ventos ideológicos, movidos apenas pelos seus próprios interesses, culturalmente medíocres e intelectualmente menores.

 

Repito: quando as encontramos, por muito que delas discordemos, devemos aproveitar. Pode ser que aprendamos alguma coisa.

 

E, também, se não por mais nada, porque democracia é isso mesmo, é escutar e é debater.

Retrato de tiranete

por Amato, em 15.05.16

Uma vez mais a cena repete-se o que faz das ocorrências anteriores não episódios infelizes, fruto de um mau dia ou de uma reação menos ponderada — ainda assim igualmente condenáveis, bem entendido —, mas antes parte intrínseca da matéria com que o caráter do personagem é feito.

 

Com efeito, Rui Moreira tem muita dificuldade em lidar com a crítica. Mais: Rui Moreira tem muita dificuldade em lidar com opiniões diferentes das suas. Depois das lamentáveis reações à oposição da CDU à solução de concessão da recolha de resíduos na cidade, depois de, em plena reunião da Assembleia Municipal, ter sido retirada a palavra ao vereador da CDU e de este, em conformidade, ter-se retirado da reunião como forma de protesto, vem agora o Presidente da Câmara do Porto, qual tiranete, criticar ferozmente os comunistas por estes colocarem legítimas reservas à possibilidade dos funcionários da EPorto — a concessionária privada que vai explorar o estacionamento na cidade — em colocarem avisos de pagamento nas viaturas como se agentes de autoridade administrativa se tratassem sendo que, de momento, não possuem legalmente tal estatuto.

 

Acresce que, para tecer tais críticas à CDU intituladas “PCP mais uma vez contra portuenses”, e aqui o título é apenas o princípio do teor altamente difamatório e insultuoso do comunicado, Rui Moreira utilizou a página oficial da autarquia transformando aquilo que é a sua opinião pessoal na opinião institucional da Câmara Municipal do Porto. Não obstante, já não lhe chegava a sua página de Facebook para vomitar insultos: Rui Moreira tinha que escalar mais um degrau. Também não lhe chegou como exemplo o incidente diplomático que criou com Vigo quando depreciou publicamente o seu aeroporto e manchando, dessa forma, o nome da cidade do Porto.

 

Justifica-se, deste modo, o título deste post. Tiranete não é um tirano, é um pequeno tirano. É um indivíduo que se julga mais do que aquilo que é e que, por isso, abusa da sua autoridade ou posição para vexar os outros (retirado em parte de www.priberam.pt). Infelizmente, o retrato de Rui Moreira parece-se muito com isto. Não aceita uma crítica, não aceita uma opinião diferente da sua, não aceita um reparo sequer à sua forma de governar ou de fazer as coisas e logo reage selvaticamente, desmesuradamente, perde a compostura e a razão.

 

Parece que o mandato presidencial vai ser isto até final e, adivinhando-se a adoração popular de que padece e que muito contribui para este padrão atitudinal, teremos mais quatro anos deste lamentável espetáculo no município do Porto. Por vezes, faz-me lembrar os tempos áureos de Alberto João Jardim na Madeira. Será que no final do segundo mandato teremos um Porto “amadeirado”? O povo, como sempre, assim o dirá.

Democracia: o direito à diferença

por Amato, em 27.03.16

Na semana passada teve lugar uma reunião da Assembleia Municipal da Câmara do Porto onde se discutiu sobre os destinos das recolhas e tratamento de resíduos no município.

 

Todas as forças políticas, exceto a CDU, apoiaram uma generalização a toda a cidade de um sistema de prestação de serviços (que exclui os recicláveis) secundado pela criação de mais uma empresa municipal para supervisionar e gerir o processo.

 

Perante tal decisão da CDU, democraticamente válida e inatacável, decidiu o Presidente da Câmara espalhar comentários irados e sarcásticos pela sua conta do Facebook e pelos jornais onde escreve, ao mesmo tempo que, juntamente, difundiu um vídeo cuidadosamente editado no qual o vereador da CDU mal se consegue explicar, ao passo que o Presidente, ele próprio, aparece imponente a despejar acusações despropositadas, infundadas e baseadas no seu próprio preconceito.

 

Antes de prosseguir, importa sublinhar este modo de agir avesso à democracia, intolerante à diferença, incapaz de conceber outras opiniões.

 

A posição da CDU até podia ser meramente oposicionista. Podia: ou será que esse papel apenas é lícito nas mãos de PSD e CDS atuais? A posição da CDU podia ser meramente oposicionista, mas não é. A saber.

 

A maioria das pessoas não sabe, mas esta solução de privatização da recolha de resíduos no município do Porto não caiu do céu. Houve um período, que vem já desde 2009, no qual a limpeza de 50% do município foi concessionada a entidades privadas. Este foi, portanto, um período extraordinariamente rico para se poder aferir das vantagens e desvantagens do sistema privado face ao sistema público.

 

O resultado destes oito anos de experiência foi assustador. Ao invés de um valor inicial previsto de 45,6 milhões de euros pelos oito anos de serviço em metade do município, a Câmara do Porto acabou por pagar 72 milhões de euros! Este valor de 9 milhões de euros por ano representa uma inflação gigantesca (quase uma duplicação de valores) face ao valor pago quando os serviços estavam totalmente centralizados na Câmara.

 

Perante a factualidade descrita dos eventos, é deveras surpreendente que o Presidente da Câmara do Porto tenha apresentado uma proposta, aprovada na passada semana, que concessiona a limpeza na totalidade da cidade por um valor de 10 milhões de euros por ano. Repare-se bem: quando antes se pagava em média 9 milhões por ano por metade da cidade, agora propõe-se pagar 10 milhões por ano pela totalidade da cidade!

 

Adicionalmente, decide-se criar mais uma empresa municipal para gerir os prestadores de serviços, ou seja, mais gestores para gerir os gestores. Esta parece constituir uma costumeira solução para retirar da esfera política o controlo e a supervisão que, realmente, lhe compete.

 

Em boa verdade, nada disto que escrevi interessa de muito. Nada do que foi escrito, por muito pertinente que seja, e é, tem muito interesse para a generalidade das pessoas. O processo difamatório é tão poderoso e tão eficaz que nada mais é necessário dizer sobre o assunto. Ao Presidente da Câmara basta começar as frases por “Os comunistas isto...” ou “Os comunistas aquilo...” que já venceu por KO a argumentação. Tão pouco precisava de ter apresentado um vídeo truncado a embelezar o seu elegante post no Facebook.

 

O ponto do meu post foi apenas um: mostrar que, pelo menos, existem razões concretas para se poder ter uma opinião divergente nesta matéria em particular.

 

Muito mais poderia ser escrito e, contudo, tudo o que foi escrito já foi demais. Vou terminar, também eu, com um vídeo, já antigo, que me traz memórias sobre uma certa personalidade que, na altura, comentava num programa sobre futebol. Este vídeo não é manipulado e traduz bem da capacidade dessa personalidade em aceitar as opiniões dos outros e a forma como as rebate.

 

 

O que se esconde entre o sudoku e as palavras cruzadas

por Amato, em 01.02.16

Normalmente apanho o Metro de manhã quando vou de carro, não o metropolitano, o jornal. Abro uma frincha na janela, desejo um bom dia ao rapaz que por ali anda ao pé de Serralves e sigo para o trabalho. Dou uma vista de olhos aos títulos e vou direto à página do sudoku. Ouvi dizer que é importante fazermos isso e as palavras cruzadas para exercitar a mente e não a dar à preguiça com o avançar da idade. Tenho tempo porque chego sempre muito cedo.

 

Hoje fiz o sudoku, no parque de estacionamento, em menos de dez minutos mas também não era muito difícil, devo admiti-lo em abono da verdade. Estava na segunda volta das horizontais das palavras cruzadas quando me deparo com o correio do leitor, ali mesmo ao lado na página dobrada do jornal. Não tinha dado por aquilo. Este jornal tem um espaço assim: um pequeno retângulo onde uma breve mensagem, alegadamente enviada por um leitor, é publicada.

 

O que é interessante é que o teor da mensagem é sempre o mesmo, a ideologia é sempre igual, seja qual for a alma que se dá ao trabalho de enviar a sua opinião para esse importante veículo de informação que é o Metro. Seja o António de Ermesinde, a Maria da Póvoa ou o Aníbal de Gaia. Quem os lê fica com a certeza da existência de um pensamento único vivo no seio mais profundo da população. Na verdade, é como se existisse um objetivo subliminar e uma lógica subjacente que se sobrepõe à aleatoriedade que qualquer um espera quando se depara com tal espaço opinativo.

 

O Metro não constitui caso único. Pelo contrário, se estivermos atentos, parece ser prática comum generalizada nos jornais a escolha a preceito dos artigos de opinião do público anónimo a serem publicados. Muitos dirão que se trata apenas do legítimo direito do jornal em definir os seus critérios editoriais. Para mim, esta situação coloca assertivamente a nu a natureza não democrática da generalidade dos meios de comunicação.

 

Já sabíamos que os jornalistas são escolhidos para desenvolverem o seu trabalho com um determinado “estilo”, chamemos-lhe assim, e também já sabíamos que os critérios editoriais reservam-se o direito de censurar a notícia a seu bel-prazer. Agora, ficamos também a saber que mesmo as cartas dos leitores são selecionadas segundo tal critério. Isto quer dizer que os jornais vão até às últimas consequências do seu próprio poder para manipular a opinião veiculada nas suas páginas não admitindo outra que não a que entendem por correta.

 

Por isso, dá-me vontade de rir quando ouço frases do tipo: “o jornalismo livre é a base de qualquer democracia”. É que é tanto disparate junto...

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Amato

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