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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

O país falhado

O país falhado tem o melhor sistema de saúde do mundo, virtualmente gratuito e universal. O problema é que funciona apenas para velhos e doentes. Os jovens do país falhado não se queixam muito. A saúde, que têm para dar e vender, não é coisa que lhes preocupe e, pelo contrário, preferem entreter-se com seguros e planos de saúde que descobrem, apenas quando já é demasiado tarde, serem de pouco valor em face da doença. No sistema de saúde do país falhado não existem consultas de especialidade porque ter que esperar mais de um ano pela dita é, de facto, equivalente à sua não existência. Já uma consulta de medicina geral é capaz de demorar só meio ano o que dota de uma certa ambiguidade a sua existência. Mas quando ela chega mesmo então ficamos na dúvida se a arte que se pratica será mesmo medicina ocidental ou antes uma espécie de terapia energética alternativa que se preocupa apenas com os nossos níveis de colesterol presentes no sangue. Em literalmente tudo o resto, a palavra de ordem é poupar todo o tipo de exames preventivos e confiar a sorte a uma qualquer divindade que nos seja agradável. A saúde do país falhado é, assim, uma espécie de entretenimento para aqueles que já estão doentes; um negócio obscuro de operações a cataratas e a rótulas para os mais idosos; um patrocinador ativo dos lucros dos hospitais privados para os quais empurra os cidadãos a toda a força.

 

O país falhado tem a melhor educação do mundo, com lindas taxas de aprovação e de não retenção cada vez mais virtuosas, apenas acompanhadas pelas crescentes percentagens de alunos graduados apesar da sua assustadora pobreza cultural. No país falhado os alunos são excelentes a passarem nos exames, mas medíocres numa simples conversa sobre literatura, filosofia, ciência ou outra coisa diversa que não seja, claro, nem sobre redes sociais, youtube ou outra pós modernidade qualquer dinamizada por indivíduos intelectualmente ainda mais medíocres do que eles. E, nas universidades, o país falhado orgulha-se de produzir excelentes engenheiros, arquitetos, professores, médicos e enfermeiros, orgulha-se muito, só que apenas uma parte destes ficam no país falhado. Por não ter emprego para eles e por achar que salários mínimos pagos à hora são a melhor recompensa, o país falhado faz questão em ver os seus quadros partir para outras paisagens e orgulha-se, novamente muito, em vê-los a reforçar o tecido laboral, produtivo e social dos seus países vizinhos.

 

O país falhado é o país com todos os direitos e todas as garantias. O problema é que para se poder exercer literalmente qualquer um desses direitos e qualquer uma dessas garantias, o cidadão deve navegar por um oceano de burocracias, envolvendo o preenchimento de formulários em papel, formulários online, e-mails aos diretores de duas ou três instituições oficiais, apresentação de documentos, fotocópias de documentos, de um rol de recibos e comprovativos e, mais importante, ter a sorte de não ter tido alguma herança inadequada, ou de algum dos elementos do seus agregado familiar não estar a auferir um salário que se considere imoral. No país falhado toda a gente tem os melhores direitos, mas poucos, e apenas aqueles que se sabem orientar, conseguem usufruir deles. Os direitos são para todos no papel e para poucos na prática. O país falhado proclama, com orgulho, que não tem classes sociais e que todos os seus cidadãos são iguais, mas a realidade é como o negativo da fotografia tirada à coisa.

 

O país falhado tem os melhores serviços do mundo que sabem tudo a respeito dos seus cidadãos na hora de cobrar impostos, taxas e multas, mas que se volvem subitamente amnésicos e incapazes, desconhecendo-se completamente uns aos outros, na hora de se mostrarem efetivamente úteis na satisfação de um pedido ou de um direito desses mesmos cidadãos. No país falhado são necessários seis meses para se agendar o levantamento de um cartão de cidadão. Anos passam para se obter uma reforma de uma vida de trabalho, de descontos e de contribuição para o sistema falhado do país falhado.

 

Mas o pior do país falhado não é nem a saúde, nem a educação, nem os serviços. O país falhado tem também a melhor das democracias, a todos dando voz, a todos dando possibilidade de se pronunciarem sobre as decisões e a política. No país falhado todos têm voz, mas não existe ninguém para ouvir. Há uma histeria permanente, uma comoção muito grande, uma cacofonia ensurdecedora que berra por liberdade, igualdade e democracia. Há uma ilusão de que o indivíduo conta, de que pode optar e dispõe de diferentes caminhos. Essa ilusão converte o país falhado na gaiola perfeita da qual ninguém quer sair, não obstante a porta estar escancarada. E a lavagem cerebral, o convencimento permanente que exerce sobre as massas de que o falhanço rotundo do seu país é, afinal, o maior dos sucessos, de que se estes não são mais expressivos a elas se devem e de que as mesmas devem agradecer diariamente as suas pobres condições de vida e aceitar o seu constante deterioramento. O pior de tudo é a ilusão.

 

Este é o país falhado. Sejam bem-vindos.

publicado às 19:34

Se tudo é, então nada é

No início de uma madrugada igual a tantas outras, entretive o espírito com um poema que me chegou ao olhar. Era um conjunto de frases elegantes, construídas com belas palavras. Falava de amor — claro, o omnipresente amor! —, dois amores, em verdade, que se confundiam: um amor carnal e um amor mais abstrato do que o primeiro, incorpóreo, por ter como objeto de afeição, nada mais, nada menos, que uma cidade. Isso mesmo: dois amores que se misturavam num só numa efervescência de palavras belas.

 

A leitura deste poema produziu em mim aquele sentimento de satisfação incompleta, um certo contentamento imperfeito, tão familiar, tão banal nos dias de hoje. Deem-me um desconto: já sou suficientemente velho para habitar em mim uma permanente impressão de que nada é novo e que tudo são variações mais ou menos descaradas de temas já amplamente tratados no passado.

 

A minha curiosidade prendeu-se, pois, não no conteúdo mas na forma do poema, mais precisamente na ausência de forma ou estrutura, sem métrica ou qualquer tipo de regularidade silábica ou a nível da rima. Aquele poema seria, assim, uma espécie de construção em verso livre. Sim: desta maneira não nos comprometemos e estamos sempre certos.

 

O que é certo é que a coisa fez germinar em mim uma dúvida fundamental: deste modo, sem regularidade que me valesse, sem estrutura para me dar um chão, como poderia eu, um leigo, qualificar o que havia lido como poesia? É que hoje em dia já ninguém escreve sonetos ou odes, ninguém perde tempo a contar sílabas, a acomodar rimas interpoladas ou cruzadas, nem a submeter-se a qualquer tipo de estrutura ou forma. O verso livre é a expressão, na poesia, desta filosofia de liberdade que alcança todas os braços da arte e se liberta com violência das restrições da forma, num culminar de toda uma evolução iniciada desde o Renascimento. Expressões similares encontramos também na pintura, na escultura, no bailado ou na música.

 

Liberdade, liberdade, liberdade! Liberdade! Foi este o caminho.

 

Ou não?

 

O problema é este: se tudo é passível de ser considerado como poesia, se tudo é poesia, se tudo é poema, então… nada é. Pensem nisto.

 

Quase tudo é definido por negação. Sabemos o que as coisas são, não através de uma epifania qualquer que nos bate nos sentidos da alma mas através do que não é. O que não é define o que é. Se tudo é poesia, então nada é poesia, esvazia-se o conceito, deixa de ser relevante a qualificação. Se qualquer sarrabisco numa tela é pintura enquanto arte, então nada é pintura. Se qualquer conjunto aleatório de sons é qualificado como música contemporânea, então até o barulho produzido pelos automóveis na hora de ponta pode ser qualificado como música e, portanto, nada mais é música porque tudo o é. Se qualquer aglomerado de pedras é escultura, então nada mais é, nada mais é escultura. É tudo uma expressão subjetiva da atividade humana de valor relativo às impressões e não à técnica que, mais não é que o domínio da forma que perece, que deixa de existir.

 

A forma é, pois, importante. As regras são importantes. As restrições à liberdade, também na arte, são determinantes para dotar o ser humano de liberdade, precisamente, na criação. A arte mostra-nos como a liberdade sem limites é um método infalível para coartar a própria liberdade, por paradoxal que isto possa soar. Se quisermos matar a criação humana, basta dar-lhe toda a liberdade, destruir as estruturas, matar as formas. Veja-se como é infértil a arte contemporânea, sobrevivendo, envergonhada, sem o assumir, à custa das formas célebres do passado. O verso livre é infértil, assim como as expressões contemporâneas da música, da pintura ou da escultura, perfeitamente incompreendidas por um público sem norte. Porque sem forma, não há arte. Sem restrições à liberdade, não há liberdade. Porque se tudo é, então nada é.

publicado às 18:39

O meu 25 de abril não é o mesmo que o teu

Aproxima-se rapidamente o dia em que se comemoram 46 anos desde o 25 de abril de 1974, uma data histórica e ímpar para Portugal e que, independentemente das opiniões, marcou a entrada do país na modernidade.

 

A história de Portugal é marcada por um conservadorismo recorrente e insistente, de braço dado com um não menos irritante provincianismo. O país dos “brandos costumes”, das fezadas sebastiânicas em noites de nevoeiro, sempre de olhinhos brilhantes, boquiabertos, em direção à virtude estrangeira relativamente à incapacidade nacional e sempre, sempre, fazendo mundos e fundos, gastando o que tinha e o que não tinha, para impressionar os poderes além fronteiras. Ainda hoje vemos isso mesmo, vemos claro este padrão comportamental diante de nós, como nos ajoelhamos perante a autoridade europeia e não apenas, como fazemos de tudo para sermos os bons alunos de políticas que, em última análise, apenas lesam os nossos legítimos interesses.

 

Fomos para além da troika. Somos conservadores relativamente aos próprios conservadores, porque só assim podemos ser os bons alunos. Só assim podemos ser reconhecidos. Nada se compara com a espetacularidade do cortejo que, pelas ruas de Roma, marcou a entrada da embaixada portuguesa no Vaticano em 1514, um desfile que incluía leopardos, cavalos persas e um elefante indiano. Nada se compara com isso. Mas é exatamente esse deslumbramento, esse desesperado desejo de reconhecimento que eu chamo de atitude provinciana e que tem sido nota dominante na nossa, em todo o caso, brilhante e longa história enquanto nação.

 

A esta história de serventualismo impuseram-se exceções não muito frequentes e, ainda assim, por ventura mais odiadas do que admiradas. Uma delas, a mais recente, foi o 25 de abril de 1974. A revolução abriu portas a uma criação cultural e artística sem precedentes, a dinâmicas sociais que se julgavam inexistentes e permitiu que lográssemos compor uma lei fundamental que ainda hoje, virado um milénio de costumes, é motivo de estudo e é altamente considerada pelo seu alcance progressista.

 

O 25 de abril foi, com efeito, muito mais do que uma simples revolução para operar uma mudança de regime. Para muitos, foi uma revolução que pretendia a transformação das dinâmicas da sociedade, foi o resultado natural da falência de um modelo económico, mais do que de um regime político. Para muitos a revolução tinha um alcance diferente, lançando as bases para uma sociedade mais igualitária, sem classes, avessa à concentração de riqueza, pelo desenvolvimento do país e pelo bem estar de todos os cidadãos. Os conceitos de liberdade e de democracia não se esgotavam em meras encenações protocolares quadrienais: eram conceitos materializados no fim da fome, na habitação, educação, cultura e saúde para todos, no pleno emprego.

 

Este 25 de abril, pode-se dizer, foi efémero mas, todavia, as ondas de choque que provocou na nossa sociedade, que nunca deixou de lado o seu conservadorismo e o seu provincianismo de estimação, foram suficientes para influenciar o rumo do país durante décadas. O estado social criado, os direitos civis e laborais conquistados aí estão como prova viva do que escrevo.

 

É com tristeza que assisto ao desmantelar contínuo desse legado do 25 de abril de 1974 operado através da própria democracia. É com tristeza que vejo os ponteiros do relógio inverterem o seu movimento.

 

E é por isso que existem dois 25 de abril, duas revoluções. Existe a revolução dos progressistas, dos sonhadores, dos revolucionários, dos utópicos. Essa ficou aquém dos sonhos e da utopia mas foi maravilhosamente transformadora. E, depois, existe a revolução dos provincianos, dos conservadores, dos servis, daqueles que, em boa verdade, também estavam bem providos com o estado novo. Para esses, a revolução foi apenas uma transição, uma mudança de caras e hoje, mais velhos, mostram-se incapazes de esconder um certo saudosismo.

 

Para os primeiros é verdadeiramente impensável não se celebrar esta data histórica tão transformadora que foi, tão influenciadora que ainda hoje é. E é impensável que essa celebração não ocorra na casa da república e da democracia representativa que o 25 de abril concebeu. Para os segundos é mais que natural que tal celebração não tenha lugar ainda por cima quando tal disputa retira múmias dos respetivos sarcófagos, reaviva fantasmas, potencia fraturas sociais tão apetitosas politicamente nos dias de hoje.

 

O essencial da polémica em torno das celebrações do 25 de abril é este. O resto é conversa fiada de gente sem respeito e sem amor à data e para os quais a revolução não significa nada.

publicado às 17:01

Foi exatamente para isto que o muro caiu

É oficial. Todos os governos de cariz minimamente progressista que, desde o início do século, conquistaram vários países da América latina, foram derrotados. Não interessa os milhões que retiraram da pobreza, da miséria e da iliteracia. Não interessa nada. Todos foram derrotados. O único que ainda resiste é a Venezuela, mas a que expensas? Um país destruído, uma sociedade devastada por uma guerrilha urbana, permanente, de mercenários a soldo do capitalismo monopolista americano, imobilizada por bloqueios económicos vários. Ah, claro, também há a valente ilha de Cuba, mas não a considero para estas contas particulares.

 

Ontem foi a vez da Bolívia. Nesse governo de vanguarda, liderado pelo índio Evo Morales, coisa ímpar em todo o mundo, os números mostravam crescimento económico acompanhado de distribuição de riqueza, de educação e de cultura pelo povo à custa dos lucros das multinacionais do gás natural. Pois era exatamente aí residia o problema de Evo Morales e do seu governo boliviano. Era exatamente por isso que era insultado de ditador e de outros nomes que tais. Foi esse o seu pecado. A receita aplicada nesse país foi o corrompimento dos militares. Trata-se de um presidente que venceu sucessivas eleições e que nem a promessa de novas eleições demoveu os militares na sua ação de deposição do governo. A democracia só interessa quando é favorável ao poder burguês.

 

Antes tinha sido o Equador e a Argentina, estes pela via democrática. Normalmente, a democracia é muito vantajosa para o capital, cuja principal aptidão reside na propaganda apelativa e sedutora. No Brasil, mesmo com toda a propaganda, ainda se reforçaram as hipóteses de vitória — daquela figura sinistra chamada de Bolsonaro — com um impeachment perfeitamente injustificado a um presidente legítimo — até aos dias de hoje absolutamente nenhuma ação judicial foi movida contra a Presidente deposta Dilma Rousseff — e a invenção de um processo criminal ao principal candidato da esquerda, Lula da Silva, que resultou no seu oportunístico e também injustificado encarceramento que o impediu de concorrer às eleições.

 

Cada caso tem uma estratégia própria, adaptada à realidade e ao folclore local. Em todos eles, os media constituíram-se como agentes ativos para os golpes de estado, para a indecência, providenciando argumentário, adjetivação e respaldo para a perpetração das patifarias, com lavagem cerebral em massa da melhor. Outra coisa não seria de esperar. O problema é nosso por esquecermos para quem os jornais e as televisões trabalham, quem são os seus donos e senhores.

 

Tudo isto mostra como o jogo democrático é viciado. Tudo isto mostra como as estruturas são corruptíveis, como é fácil ao capital corromper, perverter, degenerar, adulterar o sistema para seu proveito. Qual estado de direito, qual quê? Onde está a independência dos poderes? Democracia, golpe de estado, propaganda, perseguição judicial, guerrilha urbana. Basta escolher. Este é o fim da história, é o fim da história que as populações humanas escolheram.

 

Há uns anos caiu o muro de Berlim e festejámos, lembram-se? Foi exatamente para isto que o muro caiu. Continuem a festejar, até que o sistema entre pela vossa casa adentro para aumentar os seus lucros às vossas custas e às custas dos vossos filhos.

publicado às 17:40

Os momentos definidores da história dos homens

Os meus mais profundos sentimentos de solidariedade e de fraternidade estão novamente com o povo da Catalunha e com a justiça da sua milenar luta por autodeterminação e independência.

 

Estes são os momentos definidores da história dos homens. Estes são os momentos em que desaba a fachada do sistema, em que cai a máscara dos seus advogados e defensores, em que se esvaziam de significado as palavras que usam como bandeiras... liberdade... democracia... direitos do homem... É a força dos povos que, unidos em torno de um ideal que lhes é superior, derruba as zonas de conforto, os comodismos e sai à rua, dá o corpo à luta, de mãos dadas, com filhos ao colo, porque o que defendem é tão precioso que os pequenos também têm que o sentir, têm que assistir ao vivo, também têm que fazer parte disso.

 

Pois ali está um povo, do outro lado da fronteira, que está a ser punido e perseguido por querer ser independente, por fazer um referendo, por querer ser ouvido. Para este povo, tão perto de nós, em plena Europa, não existe direito à autodeterminação, não existe democracia, nem liberdade. E, para a maioria de nós, é indiferente que assim seja.

 

Estes são os momentos em que percebemos que não é possível transformar o sistema desde dentro do sistema. O sistema e as suas estruturas nunca permitirão nenhuma transformação, pois a sua razão de ser é precisamente conservar o poder nas mãos onde ele repousa. Acreditem nisto que vos escrevo. Não existem revoluções pacíficas.

 

Como português que conhece a sua história, sei o quanto nós, enquanto país independente, vos devemos, Catalunha. Deixo-vos aqui toda a minha força e solidariedade!

publicado às 16:51

Uma revolução para os séculos que se apresentam adiante

O que mais me dói é perceber esta ilusão em que vivo. Acreditem. A minha maior dor é essa. Sabem? A ilusão de que vivemos em democracia, de que somos livres, de que nascemos iguais e de que somos tratados como iguais pela lei e pela justiça. A ilusão de que existe justiça...

 

Essa dor acaba por ser natural, claro, pois o viver é como que um eterno acordar para a realidade, de um sono de ilusão que nos é imprimido desde o berço. E cada um de nós acaba por entender o alcance tangível dessa construção de castelos de nuvens sobre as nossas cabeças. Todos nós, uns mais cedo, outros mais tarde, acabamos por bater de frente com essa parede de fantasia, vítimas dessa mesma quimera que fomos alimentando ao longo da vida.

 

As publicações deste blog têm tratado abundantemente da parte política do problema. Como pode haver, afinal, democracia quando cada escolha é condicionada de antemão e quando quem efetivamente tem o poder de decisão nunca se expõe ao sufrágio popular? Deixemos, portanto, esta vertente de parte.

 

Falemos de justiça.

 

Falemos de justiça, porque a justiça constitui proverbialmente, no contexto da nossa configuração social, a espada definidora das liberdades individuais e coletivas e o escudo que protege o valor mais precioso que urge entre os homens dos nossos tempos: a igualdade. Uma justiça parcial implica, naturalmente, a diferenciação entre os homens no que às suas liberdades diz respeito. Uma justiça parcial é estruturadora de uma sociedade de classes de homens diferenciadas em influência e em poder, umas sobre as outras.

 

Olhemos, pois, para a justiça. Acompanhemos alguns casos, os que afetam as pessoas que nos são mais próximas e os outros, os mediáticos, que nos impingem olhos adentro. Recolhamos informação. Ontem mesmo, surgiu mais uma notícia que ilustra bem o estado da coisa. Uma vez mais, as grandes corporações burguesas do país, saem incólumes dos crimes cometidos e ainda se vangloriam disso mesmo em plena praça pública. Mas os casos sucedem-se em catadupa. Não façamos deste caso exemplar, porque o exemplo é o dia-a-dia da sociedade. O exemplo foi ontem, é agora e será amanhã também, seguramente.

 

Repare-se que não basta à burguesia reinante ditar as regras com que a sociedade se deve reger em seu benefício. Não. Ainda é necessário poder quebrar essas mesmas regras quando convier e garantir que a esponja purificadora dos tribunais passará sobre os seus delitos e os absolverá perante a sociedade. No passado havia a igreja que detinha esse papel de absolvição moral. Hoje, convenhamos, os tribunais prestam um melhor serviço.

 

Pensar que existe justiça na sociedade burguesa é a ilusão das ilusões. Pensar que a lei nos vê a todos como iguais é fantasia, é ficção. A nós, comuns mortais, resta-nos a nossa inteligência e o nosso senso que servem de amarras ao real e ao concreto. E manter bem viva a consciência de que não existem saídas para este sistema corrupto e despudorado dentro do próprio sistema. Não se pode reformar o que detém natureza ímpia, vil e desprezível.

 

A revolução da sociedade é o único e derradeiro caminho que nos resta. Uma revolução para os séculos que se apresentam adiante. Uma revolução que se impõe para nos catapultar para uma modernidade de bem estar, de paz, de cultura e de elevação intelectual. Para construir uma sociedade fraterna de irmãos, colocando a tecnologia ao serviço de todos, e não uma sociedade de inimigos em constante disputa por uma côdea de pão sob o olhar atento de meia dúzia que toma todos os recursos do planeta para seu próprio proveito.

publicado às 08:34

Sociedade burguesa

Temos democracia, temos liberdade, a de expressão e as outras, temos riqueza, temos tudo, segundo apregoam, nesta sociedade capitalista, apogeu da sociedade burguesa. Não falta quem nos repita que não há modelo de sociedade melhor, que chegámos à meta onde havíamos de chegar e que a procura acabou. Este pensamento é-nos gravado na cabeça desde a nascença.

 

E depois há Julian Assange.

 

A mesma sociedade acima descrita, o mesmo modelo político defendido por todos, é capaz de fazer isto a um homem que, simplesmente, ousa dizer a verdade. Passados sete anos de cativeiro forçado, o que sobrava deste grande e corajoso homem foi levado como um animal para um outro tipo de cárcere. Por ele espera um rol de acusações forjadas com vista, anuncia-se já, à pena de morte. Em particular, observem como Assange é tratado pelos seus pares jornalistas! Vejam o desprezo e a indiferença que lhe dedicam!

 

É isto que esta sociedade capitalista burguesa faz a um jornalista que diz o que não convém. É isto o apogeu da liberdade, da democracia e da humanidade. Cai a máscara, revelam-se os contornos da ilusão em que vivemos.

 

Tome cuidado o leitor destas palavras, tome cuidado com os passos futuros que der: poderá tornar-se, sem querer, o próximo alvo a abater. É verdade: pode não tocar só aos outros. Não há honra, nem princípios, nem ética, nem caráter. Vale tudo para a burguesia manter e perpetuar o seu poder.

publicado às 22:20

O que a democracia ateniense nos ensina

Noutro dia, dei por mim a refletir sobre a democracia ateniense. Tomei conhecimento desta primeira experiência democrática documentada na história das civilizações ocidentais algures ao longo do ensino médio e devo referir que foi uma das descobertas históricas que mais me fascinaram.

 

Recordo-me vividamente como a professora de História apresentou a experiência: ao mesmo tempo que considerava notável o facto de uma democracia direta assente sob os pilares da isonomia, isegoria e isocracia — que é o mesmo que dizer igualdade perante a lei, no direito à palavra e na participação no exercício do poder — ter existido mais de 500 anos antes de Cristo, criticava as limitações dessa democracia que se aplicava apenas a uma pequena parte da população da região da Ática. Com efeito, apenas um subconjunto dos cidadãos atenienses podia exercer o voto, estando este vedado às restantes classes — aos escravos e aos metecos que eram uma classe constituida sobretudo por estrangeiros, considerados homens livres, que se dedicavam sobretudo a profissões liberais e ao comércio.

 

Lembro-me que também eu, jovem, perfilhei esta visão. Nenhuma democracia poderia ser considerada como tal se deixasse de fora a maioria da população e apenas servisse uma elite mas, ao mesmo tempo, admirava aqueles gregos, aquele povo tão avançado no seu tempo, capazes de levar à prática um conceito que, na Europa, apenas viria a ser recuperado mais de 2400 anos depois!

 

Confesso que ao refletir, novamente, sobre o tema, comecei a vislumbrar virtudes nas críticas que axiomaticamente se apontam à democracia ateniense. É que para que qualquer tipo de democracia direta funcione, como era o caso da democracia ateniense, é condição inexorável que quem vote seja livre. Se quem vota não é livre, então as escolhas que resultam do voto são artificiais, isto é, artificialmente democráticas. Sem liberdade para votar, os vencedores dos escrutínios serão simplesmente aqueles que tiverem uma maior influência sobre a população e não propriamente os promotores das melhores ideias para a sociedade. E isto de ser livre é mais que uma palavra dita de forma eloquente, é mais que um decreto real ou presidencial, é mais que uma boa intenção.

 

Com efeito, como poderia um escravo escolher livremente se, por definição, tinha a sua vida sob controlo de outrem? Como poderia um escravo escolher em sentido contrário ao dos interesses do seu senhor, se essa escolha se refletiria na sua própria vida? O escravo não tinha liberdade para escolher, ainda que tivesse a melhor das intenções. O seu voto estava condicionado à partida.

 

E como poderiam os metecos votar livremente e de acordo com o bem comum tendo as suas vidas dedicadas aos negócios? Como poderiam escolher livremente se a sua escolha se refletiria no seu próprio negócio e interesse? Como poderiam votar em sentido contrário ao do poder económico com quem faziam negócio? Adicionalmente, como poderia um estrangeiro votar de acordo com o bem comum da pólis ateniense se, sobretudo naquele tempo, as cidades-estado vizinhas se digladiavam em interesses contraditórios?

 

Sob este prisma, torna-se fácil compreender a razão de ser das restrições à democracia ateniense. As restrições não serviam para limitar a democracia, mas sim para fortalecê-la, protegendo-a. É claro que esta democracia foi construída sobre um sistema aristocrático forte que mantinha as suas raízes bem enterradas na sociedade ateniense. O problema residia exatamente aqui. Mas a ideia basilar é, não obstante, admirável: o voto era restringido aos cidadãos eventualmente não por uma questão de sangue mas por uma questão de liberdade. Os cidadãos atenienses — os aristocratas — não estavam amarrados a nenhum condicionalismo. Dedicavam a sua vida ao estudo, à filosofia, à ciência e às artes, tinham uma vida estatutariamente garantida, não dependiam economicamente de ninguém e tinham, por todas estas razões, toda a liberdade para fazer as suas escolhas democráticas, intelectualmente informadas, avalizadas e de acordo com o bem de todos. Não sofriam pressões de ninguém. Não dependiam de ninguém. Eram livres. Os outros, os que não podiam votar, não tinham essa liberdade.

 

O que estava errado na democracia ateniense não era este princípio, mas sim o formalismo da sociedade sobre a qual esta democracia era aplicada, concretamente as classes aristocráticas rígidas, a iniquidade social e económica. O que estava errado era a inexistência de uma tendência de alastramento da democracia a todos os quadrantes sociais acompanhada de uma vontade de abolição, de facto e não apenas no plano teórico, das classes sociais e económicas da sociedade ateniense.

 

Mais de 2500 anos depois da democracia ateniense, espanta-me que as nossas contemporâneas democracias se preocupem tão pouco com este princípio que os gregos nos legaram e se concentrem sobretudo num formalismo que tem tanto de perfeição idílica quanto de vacuidade aplicacional.

 

É verdade aquilo que escrevo. Olhem para a juventude que sai das nossas escolas e das nossas universidades. Olhem para o pouco que sabem, em geral. Olhem para a nulidade que sabem de história e de filosofia, em particular. Olhem para o nada que se importam com o que os rodeia, com as ideologias e com a política. E vejam também o quão dependentes se encontram socialmente e economicamente, sem a mínima estabilidade no trabalho, atormentados pela ameaça omnipresente do desemprego, ou dos despejos na habitação ou dos custos cavalgantes no acesso à saúde. Vejam bem como esta juventude está tão dogmaticamente inapta a participar de uma democracia, a fazer uma democracia direta funcionar com um mínimo de coerência e vejam como a nossa sociedade acha tudo isto normal e não vê qualquer problema no estado das coisas. Pelo contrário, há quem consiga encontrar aqui evidência clara de evolução dos tempos...

publicado às 22:54

O estado da arte em 2018

Hoje de manhã, ainda mal tinha acordado, dei por mim a percorrer a entrevista do Público ao novo diretor do Museu de Serralves, João Ribas. Foi curiosidade pura para colmatar a minha falta de conhecimento do personagem, mas também para desvendar um pouco, aspirava, do véu da direção artística do museu de arte contemporânea, o que, para a maioria de nós, é sempre de difícil acessibilidade.

 

Não cheguei ao fim da dita entrevista, confesso. Não tive estômago para continuar. Fiquei a saber que, para as entrevistadoras, Inês Nadais e Isabel Salema, as prementes questões sobre o museu, a sua oferta e a sua direção artística, são, por esta ordem, o facto do museu não ter na sua agenda a exibição de obras da Joana Vasconcelos; o facto de não existir paridade na promoção de artistas homens e artistas mulheres em Serralves; e o facto de haver pouca representatividade de corpos negros ou figuras negras.

 

Para mim, é cada vez mais difícil digerir esta realidade em que tudo é reduzido a números perfeitamente artificiais, em que tudo é avaliado por um sistema de quotas que pouca ou nenhuma relação com a realidade tem. Cada vez mais, ao que parece, perde-se o valor intrínseco das coisas. Na arte, em particular, que devia ser o espaço máximo de liberdade, as obras são sujeitas a um escrutínio a montante que nada tem a ver com o seu valor enquanto obra, enquanto objeto artístico.

 

Há tantas obras de mulheres quanto as de homens? As raças estão representadas equitativamente? A obra não é sexualmente ou religiosamente ofensiva, de algum modo? Já agora, o Cristiano Ronaldo está representado no museu? E a obra, é da Joana Vasconcelos?

 

Mas em que é que isto é relevante em termos artísticos? Em quê?!

 

Em nada.

 

Novamente, trata-se da manifestação de um politicamente correto mesquinho e profundamente ignorante que parece invadir todos os domínios da atividade humana. Mas não se enganem: este politicamente correto é parcial, é controlador dos conteúdos, inquina o pensamento e a reflexão das sociedades. É feroz opositor da liberdade. Este politicamente correto é detergente eficaz de lavagem cerebral.

 

É isto que temos. Quem diria que as sociedades ocidentais, apregoadas baluartes da democracia e da liberdade, se revelassem tão eficientemente castradoras da arte e das suas manifestações.

publicado às 12:54

1 de outubro de 2017: cai a máscara da democracia espanhola

Fico sempre muito triste, muito chocado, ao ver a polícia a investir sobre multidões perfeitamente pacíficas. O que se passou na Catalunha, durante a manhã de hoje, o que se continua a passar ainda, é chocante.

 

Por um lado, a polícia mostra que mais não é que um conjunto de animais treinados, seres acéfalos amestrados, capazes de exercer violência gratuita por razões meramente tecnocráticas, de erguer e agitar bastões sobre cidadãos indefesos, seres incapazes de empatia, solidariedade ou compaixão para quem luta sem armas e sem vestígio de violência.

 

Por outro lado, enfatiza-se nestas ocasiões o papel real que a polícia e as forças de segurança têm, com efeito, nas sociedades contemporâneas: servem apenas para proteger o poder e os poderosos das massas e não para estabelecer qualquer noção, por ténue que seja, de justiça ou de paz.

 

https://ogimg.infoglobo.com.br/in/21894081-118-3b8/FT1086A/420/x71993636_People-scuffle-with-Spanish-Civil-Guard-officers-outside-a-polling-.jpg.pagespeed.ic.VmPzSkJzwN.jpg

 

O que se passa na Catalunha é absolutamente chocante. Mostra como são falsas estas democracias de papel, como são erigidas sobre alicerces débeis, de circunstância e de hipocrisia. Em Espanha, como na Europa e no resto do mundo, a democracia que tanto se apregoa serve, afinal, até ao momento que deixa de servir. Quando a democracia ameaça os poderes instalados, num ápice põe-se em suspenso, num ápice esmagam-se as vozes que se erguem, num ápice esvaziam-se os conceitos ocos que outrora serviam para defender o regime.

 

Como são débeis estes conceitos que nos vendem à boca cheia! Liberdade, democracia... Como são débeis...

 

O dia de hoje, 1 de outubro de 2017, fica marcado como o dia em que cai a máscara da democracia espanhola. Não deixa de ser irónico, todavia, que a monarquia espanhola tenha sido sempre tão vocal e veemente a apontar o dedo à Venezuela num passado recente: um país que não permite um simples referendo chama de ditadura um país que se desmultiplica em eleições e consultas populares. Onde estão essas vozes, tanto lá como cá, agora?

publicado às 15:21

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