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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

O que vale a democracia ocidental?

Surgiu-me esta reflexão a propósito da água. Já ando para escrever a respeito da água, ou melhor, da gestão dos nossos recursos hídricos há algum tempo. Anda a ser ventilado que as autarquias já se preparam para racionar a água às populações, que as barragens estão vazias, que estamos em seca extrema e por aí adiante. Parece que todos compreendem a situação. Aparentemente, é mais uma consequência dos tempos de emergência climática! (Há tanto para falar sobre as famigeradas “alterações climáticas” que só servem para vender painéis solares e carros elétricos...)

São estes os tempos em que vivemos: apresentam-se factos consumados, nós aceitamos e obedecemos de bom grado. É esta a imagem perfeita deste simulacro de democracia de que tanto nos orgulhamos!

Seria preciso contar o resto.

Seria também preciso dizer coisas tais como que o consumo de água do povo trabalhador é uma pequena parte do consumo total de água no país. Seria preciso dizer que a maior parte da água é desbaratada pela agricultura intensiva da moda e que só serve para enriquecer uma meia dúzia à custa de mão de obra pauperrimamente paga. Seria preciso dizer que o turismo intensivo e desregrado representa uma péssima gestão das cidades e dos seus recursos. Seria preciso dizer que, devido ao encerramento das centrais de produção de energia a carvão, as nossas barragens estão a carburar mais do que o que deviam e a desbaratar os nossos recursos hídricos. Seria preciso dizer que, a propósito do conflito energético em que nos metemos, estamos a produzir mais do que o que devíamos para podermos ser chamados a ajudar os países do norte quando chegar o inverno. Ah: já me esquecia de mencionar os sempre verdejantes campos de golfe, tão úteis para o nosso país e que merecem toda a água para se manterem frescos e viçosos!

Mas nada disto é dito. Nada disto é sequer considerado no debate. Eventualmente, pesados todos os argumentos, seria possível que déssemos as mesmíssimas respostas face a este problema. Mas a questão é que nem sequer consideramos o outro lado.

O que vale a democracia ocidental? Uma ilusão de escolha livre. Uma ilusão de decisões governadas pela razão cientificamente fundamentada. Uma ilusão de ponderação de diferentes opiniões. Uma ilusão que é como uma linha intangível que acreditamos que nos separa de um qualquer sistema despótico.

publicado às 10:56

Esta maioria absoluta do PS ainda vai ficar na história deste país...

Este estado falha miseravelmente em tantos domínios diferentes que torna-se penoso assistir ao desenrolar da governação deste país. Incapaz de antecipar os problemas, agravando todas as condições materiais do país para poder fazer frente aos mesmos, prometendo milhares de medidas depois dos problemas se darem e se instalarem, para, finalmente, deixando a coisa cair de podre do ramo da árvore, não fazer rigorosamente nada, não mudar rigorosamente nada de substantivo, não gastar um cêntimo que seja e ainda conseguir poupar com a crise. Este é o plano que já revolta as entranhas de tantas vezes o vermos repetido crise após crise, surpresa após surpresa, histeria após histeria.

Agora são as urgências e as consultas de pediatria fechadas, desativadas pelo facto de andarem, em normalidade, a funcionar nos mínimos e não conseguirem enquadrar uma ou duas ausências de férias. Lembremo-nos que a história que nos foi contada era que os mega-hospitais, a concentração de meios eram a resposta para termos uma melhor saúde.

Também acontece algo do mesmo género com os aeroportos, incapazes de acolher os viajantes que ali chegam por não terem pessoal para trabalhar. Lembremo-nos que a privatização dos serviços, a subcontratação e a terceirização dos mesmos foram-nos vendidas como as soluções para termos os melhores serviços aos melhores preços.

Antes, andámos um ano inteiro com carência de professores de norte a sul do país. Lembremo-nos das capas de jornais e dos opinadores que diziam que os professores e as escolas eram demasiado onerosas para o orçamento do país, para além de que os primeiros eram um conjunto de mandriões que apenas trabalhavam vinte e duas horas por semana.

Isto não pode ser entendido como um acaso, são muitos, demasiados, sintomas concordantes numa doença comum: os sucessivos governos, e este em particular, estão a arruinar o estado, estão a destruir os serviços, a dá-los de barato aos privados. São décadas e décadas acumuladas de desinvestimento brutal, de transformação de pessoas essenciais em tarefeiros ao dia, de gestão empresarial que é o mesmo que gestão danosa sem cuidado, sem limpeza, sem ética. Há um plano bem concertado entre muitos dos poderes de facto deste país para acabar com o estado, e suas instituições populares, saído do 25 de abril. E esse plano está a dar os frutos que temos visto e que já víamos antes da pandemia.

A este respeito as reações dos vários meios de informação são bastante elucidativas: não atacam o problema, não apontam as questões fundamentais, têm feito um grande alarido sempre com o sentido de “mais privado” e de “menos estado”, quando o “mais privado” tem sido uma das razões, um dos meios, para estarmos na situação em que estamos. Esta maioria absoluta do PS ainda vai ficar na história deste país. Ela tem o respaldo para conseguir levar a cabo as vontades dos poderes que realmente governam o país e que as massas populares, bem entretidas que andam, vão suportando: um estado cada vez mais incapaz de fazer cumprir uma qualquer noção de igualdade, de solidariedade e de cidadania, governando um país partido entre os muito ricos e os muito pobres. E enquanto os muito ricos ainda mais enriquecem, os muito pobres vão apontando dedos uns aos outros.

publicado às 14:58

Alguma coisa não estará certa

Não era mesmo Israel o país com virtualmente 100% dos seus habitantes vacinados? E cujos cidadãos já podiam andar sem máscara? E que volta agora atrás porque as coisas não estão a correr bem?

 

Não sei, mas parece que há qualquer coisa aqui sobre as vacinas e os seus reais efeitos que não está bem explicada. Serão as estirpes? De um modo ou de outro, a este ritmo de desenvolvimento (deste super vírus!), serão necessárias tomas de vacina a cada três meses... ou menos.

 

É um caso para refletir, sem dúvida, mais a mais quando ouvimos o nosso “general” das vacinas a falar em atingirmos a imunidade de grupo no final do verão. Prestadas as devidas continências, alguém que lhe diga que Israel tem 100% da população vacinada e está a ficar outra vez com problemas.

publicado às 10:05

Uma cultura enraizada

Começam a vir à tona as contrapartidas gizadas pela União Europeia para nos conceder as generosas verbas previstas para os próximos anos e que compõem a chamada “bazuca”.

 

São de uma estirpe muito particular os inventores destes termos, destes epítetos tão graciosos. Podiam ter chamado de “avença”, “renda” ou, até, “esmola”, mas decidiram-se por “bazuca”, como uma arma potente para destruir qualquer coisa, qualquer coisa de muito mau, no contexto de uma guerra.

 

Como dizia no princípio, começam a vir à tona as contrapartidas para “tanto” dinheiro. Fala-se, por exemplo, num acordo para um plano reformista ao nível do que foi implementado no tempo da troika e no contexto de um plano de continuada liberalização da sociedade. Raquel Varela referia, n'O Último Apaga a Luz, que está prevista, por exemplo, a liberalização das profissões liberais tais como, por exemplo, os profissionais da área da medicina, cuja atividade deixaria de ser regulada pela respetiva Ordem. Já sabemos que, em circunstâncias análogas, só conheceremos os detalhes quando os mesmos estiverem prestes a bater-nos, de modo inevitável, na cara. Para já, ainda é cedo. Quem é que, todavia, precisa deles para ter a certeza do que se está cozinhar?

 

Quando se fala na “bazuca” ou se discutem os dinheiros vindos de Bruxelas notamos uma cultura instalada, solidamente sedimentada ao longo dos tempos, que é de uma falta de patriotismo, de um provincianismo e, fundamentalmente, de uma ignorância aterradores. O pensamento dominante é de que este dinheiro “nos é dado” e, adicionalmente, de que “ainda bem que nos impõem regras, que é para não ser a corrupção do costume”.

 

O que se pode dizer? Que estudem? Adiantará de alguma coisa? Que a nossa posição de submissão económica no contexto da União Europeia nos faz, de facto, credores e não devedores face aos proveitos das grandes economias europeias? Será que adianta dizer isto? E dizer que não se pode defender a democracia para a Bielorrússia num dia e no outro defender a imposição autoritária e não sufragada de políticas decididas por potências externas sobre o nosso povo? Será que adianta? Lamento, mas hoje não me sinto particularmente otimista. Os ignorantes não se cansam em repetir constantemente os seus discos. Eu já me canso rapidamente. E já aí está a religião do povo, prestes a começar com uma homilia cantada tão alto que faz parecer tudo o resto muito pouco importante.

publicado às 14:45

Pergunto-me...

Com tanto óbito derivado da pandemia, direta ou indiretamente, com as agências funerárias sem mãos a medir, continuamente, há tantos meses, pergunto-me se há intenção de reduzir a idade da reforma devido às consequências evidentes sobre a esperança média de vida?

 

Não, claro que não. A pergunta era retórica. A idade da reforma continuará a aumentar paulatinamente, independentemente de vivermos mais ou menos anos, até que a sua existência seja uma mera conceção teórica na vida de quem trabalha, uma abstração que nunca se efetivará. Cada vez mais, a segurança social assume-se como uma agência de proteção da atividade económica pelo lado do patronato e não pelo lado de quem trabalha e efetivamente para ela desconta.

 

Serve a questão apenas para mostrar como a argumentação da esperança média de vida para diminuir reformas e aumentar as idades de acesso é frouxa e só funciona para um dos lados. Luta de classes precisa-se. Urgentemente.

publicado às 14:41

Desconfiemos das panaceias

Uma vacina demora normalmente anos a ser desenvolvida e outros tantos a ser devidamente certificada tendo eficácias moderadas-altas. As vacinas da gripe, por exemplo, têm uma eficácia a rondar os 67%. Leu bem: 67%. As vacinas para a covid-19 foram desenvolvidas e certificadas em menos de um ano e anunciam taxas de eficácia acima dos 90%. Preparam-se vacinações massivas a toda a população. António Damásio, a referência mundial na área da neurologia, alerta esta semana para os perigos da “velocidade” na criação da vacina. O povo, enquanto cobaia dos interesses da burguesia, revelará na sua própria pele, a seu tempo, os efeitos reais do que está a ser cozinhado no mundo com esta pandemia.

publicado às 15:22

O país falhado

O país falhado tem o melhor sistema de saúde do mundo, virtualmente gratuito e universal. O problema é que funciona apenas para velhos e doentes. Os jovens do país falhado não se queixam muito. A saúde, que têm para dar e vender, não é coisa que lhes preocupe e, pelo contrário, preferem entreter-se com seguros e planos de saúde que descobrem, apenas quando já é demasiado tarde, serem de pouco valor em face da doença. No sistema de saúde do país falhado não existem consultas de especialidade porque ter que esperar mais de um ano pela dita é, de facto, equivalente à sua não existência. Já uma consulta de medicina geral é capaz de demorar só meio ano o que dota de uma certa ambiguidade a sua existência. Mas quando ela chega mesmo então ficamos na dúvida se a arte que se pratica será mesmo medicina ocidental ou antes uma espécie de terapia energética alternativa que se preocupa apenas com os nossos níveis de colesterol presentes no sangue. Em literalmente tudo o resto, a palavra de ordem é poupar todo o tipo de exames preventivos e confiar a sorte a uma qualquer divindade que nos seja agradável. A saúde do país falhado é, assim, uma espécie de entretenimento para aqueles que já estão doentes; um negócio obscuro de operações a cataratas e a rótulas para os mais idosos; um patrocinador ativo dos lucros dos hospitais privados para os quais empurra os cidadãos a toda a força.

 

O país falhado tem a melhor educação do mundo, com lindas taxas de aprovação e de não retenção cada vez mais virtuosas, apenas acompanhadas pelas crescentes percentagens de alunos graduados apesar da sua assustadora pobreza cultural. No país falhado os alunos são excelentes a passarem nos exames, mas medíocres numa simples conversa sobre literatura, filosofia, ciência ou outra coisa diversa que não seja, claro, nem sobre redes sociais, youtube ou outra pós modernidade qualquer dinamizada por indivíduos intelectualmente ainda mais medíocres do que eles. E, nas universidades, o país falhado orgulha-se de produzir excelentes engenheiros, arquitetos, professores, médicos e enfermeiros, orgulha-se muito, só que apenas uma parte destes ficam no país falhado. Por não ter emprego para eles e por achar que salários mínimos pagos à hora são a melhor recompensa, o país falhado faz questão em ver os seus quadros partir para outras paisagens e orgulha-se, novamente muito, em vê-los a reforçar o tecido laboral, produtivo e social dos seus países vizinhos.

 

O país falhado é o país com todos os direitos e todas as garantias. O problema é que para se poder exercer literalmente qualquer um desses direitos e qualquer uma dessas garantias, o cidadão deve navegar por um oceano de burocracias, envolvendo o preenchimento de formulários em papel, formulários online, e-mails aos diretores de duas ou três instituições oficiais, apresentação de documentos, fotocópias de documentos, de um rol de recibos e comprovativos e, mais importante, ter a sorte de não ter tido alguma herança inadequada, ou de algum dos elementos do seus agregado familiar não estar a auferir um salário que se considere imoral. No país falhado toda a gente tem os melhores direitos, mas poucos, e apenas aqueles que se sabem orientar, conseguem usufruir deles. Os direitos são para todos no papel e para poucos na prática. O país falhado proclama, com orgulho, que não tem classes sociais e que todos os seus cidadãos são iguais, mas a realidade é como o negativo da fotografia tirada à coisa.

 

O país falhado tem os melhores serviços do mundo que sabem tudo a respeito dos seus cidadãos na hora de cobrar impostos, taxas e multas, mas que se volvem subitamente amnésicos e incapazes, desconhecendo-se completamente uns aos outros, na hora de se mostrarem efetivamente úteis na satisfação de um pedido ou de um direito desses mesmos cidadãos. No país falhado são necessários seis meses para se agendar o levantamento de um cartão de cidadão. Anos passam para se obter uma reforma de uma vida de trabalho, de descontos e de contribuição para o sistema falhado do país falhado.

 

Mas o pior do país falhado não é nem a saúde, nem a educação, nem os serviços. O país falhado tem também a melhor das democracias, a todos dando voz, a todos dando possibilidade de se pronunciarem sobre as decisões e a política. No país falhado todos têm voz, mas não existe ninguém para ouvir. Há uma histeria permanente, uma comoção muito grande, uma cacofonia ensurdecedora que berra por liberdade, igualdade e democracia. Há uma ilusão de que o indivíduo conta, de que pode optar e dispõe de diferentes caminhos. Essa ilusão converte o país falhado na gaiola perfeita da qual ninguém quer sair, não obstante a porta estar escancarada. E a lavagem cerebral, o convencimento permanente que exerce sobre as massas de que o falhanço rotundo do seu país é, afinal, o maior dos sucessos, de que se estes não são mais expressivos a elas se devem e de que as mesmas devem agradecer diariamente as suas pobres condições de vida e aceitar o seu constante deterioramento. O pior de tudo é a ilusão.

 

Este é o país falhado. Sejam bem-vindos.

publicado às 19:34

Uma vez mais, a Alemanha

Nos últimos anos têm-se vindo a multiplicar os protestos populares na Roménia, sobretudo nas suas cidades mais cosmopolitas com expoente máximo na capital Bucareste. A razão de ser de tais manifestações é uma corrupção governamental crescente tão vergonhosa, que o primeiro-ministro local chegou ao descaramento de influenciar o processo legislativo para evitar ser preso ou julgado pelos seus crimes de lesa-pátria. O povo saiu à rua em força, gritou com toda a força que guardava nos pulmões, mas à parte da Roménia, ninguém aqui, na Europa civilizada, ouviu o que quer que fosse, escassas notícias foram impressas sobre o assunto, nenhum comentário foi emitido no noticiário sobre a situação, nenhum vestígio de indignação. Absolutamente nada.

 

Um pouco mais a norte, no enfiamento do mesmo meridiano, a pouco mais de quinhentos quilómetros, a Bielorrússia tem vindo a ser tema de conversa desses mesmos jornais e noticiários de televisão. Aparentemente, as eleições locais geraram suspeita. Aparentemente, tem havido manifestações diárias de dezenas, não, centenas!, não, milhares!, não, dezenas de milhares!, não não, centenas de milhares! — assim é que é! —, reprimidas pelo estado. Há opositores políticos encarcerados e outros no exílio. Há isso e há muito mais. O pacote que os media nos oferecem nestes contextos é já bem conhecido e aplica-se de modo notável neste caso particular. A Bielorrússia, provavelmente o país mais ordenado e organizado da Europa, com uma taxa de crime praticamente nula, está convertida no inferno na Terra, pelo menos, a confiar no que nos dizem os nossos canais informativos.

 

O meu problema não é eu ter um certo afeto pela Bielorrússia e não ter assim tanta afinidade pela Roménia. Afinidades, como os amores, não se discutem, nem se escolhem. Ademais, não ponho as mãos no fogo pela liderança atual da Bielorrússia, nem tomo esse país como um modelo a seguir. Mas isso também não é para aqui chamado, não será assim? Se calhar o nosso problema é precisamente este: permitimos sermos guiados pela emoção em vez da razão e essa será a chave para quem nos governa conseguir perpetuar os seus poderes, manipulando-nos constantemente e, assim, sobrevivendo a cada eleição e a cada escândalo.

 

O meu problema é a diferença de critério, são os dois pesos e as duas medidas, porque não é só a Ucrânia que está entre a Roménia e a Bielorrússia, há algo de mais substantivo que separa estes dois países e que justifica as evidentes diferenças de tratamento aplicadas a um e a outro.

 

Qualquer observador atento da realidade política internacional que não conheça as lengalengas contadas usualmente a propósito da criação das comunidades várias que deram origem à União Europeia, dirá que o objetivo principal desta última terá sido coser na perfeição um manto protetor feito à medida da Alemanha. Com esse manto chamado União Europeia, a Alemanha foi capaz de camuflar os seus interesses expansionistas fazendo uma espécie de reset àquilo que foi a memória coletiva mundial pós duas guerras mundiais. Tudo na União Europeia, as suas regras, as suas políticas produtivas comuns, as suas distribuições de renda, a moeda única, a admissão de novos membros, etc, tudo foi feito na justa medida dos melhores interesses germânicos. Até mesmo em termos de política externa, a Alemanha encontrou um intermediário ideal que, falando em nome do grupo, defende, de facto, os seus interesses.

 

A diferença é esta. A Roménia já se libertou da influência russa desde o início dos anos noventa e, com isso, entregou, paulatinamente, todos os seus recursos naturais, todo o seu património empresarial nas capazes mãos alemãs. A Roménia está, portanto, do lado certo. Já a Bielorrússia é talvez o derradeiro aliado europeu da Rússia e mantém em seu poder a exploração dos seus recursos e a organização do seu país. A Bielorrússia está, como é evidente, do lado errado da História. Daí, as gritantes diferenças de tratamento.

 

A Roménia não é, bem entendido, o único exemplo que podemos fornecer. Aliás, o retrato traçado sobre a Roménia poderia ser reproduzido com muitas semelhanças relativamente a muitos outros países vizinhos. Desde o final da guerra fria, cada país do leste europeu que descobriu e se converteu às maravilhas do capitalismo do ocidente foi um país que engrossou o protetorado alemão. E sentem-se bem desse modo. Não se importam de já não terem fábricas suas, nem companhias aéreas, nem matérias primas. Adoram imaginar-se alemães. A Alemanha está efetivamente a conseguir pela via económica o que nunca conseguiu pela via militar.

 

Nos últimos dias, tivemos conhecimento do envenenamento de mais um opositor de Putin, desta feita em solo germânico. Pela forma como a notícia nos é apresentada, não restam quaisquer dúvidas para ninguém de que a Rússia será a culpada. Se assim é, será possível reconhecer também a total incompetência dos russos nestes envenenamentos que nunca cumprem plenamente os seus intentos, deixando sempre as vítimas vivas e um rasto de provas irrefutáveis. É estranho. E neste mar de estranhezas sucessivas, alimentadas ora por americanos, ora por britânicos, ora por franceses, ora por alemães, prosseguem estes últimos um rumo fixo e determinado de dominação ideológica e económica do leste europeu.

publicado às 18:01

Com que subtilezas se reescreve a História

https://www.les-crises.fr/wp-content/uploads/2015/05/poll-france-nations-contribution-nazis-defeat-1.jpg

image: www.les-crises.fr

 

Escassos dias após o final da segunda grande guerra, perguntou-se ao povo francês qual país tinha dado um maior contributo para a derrota do nazi-fascismo nesse conflito armado. Naquele momento, a União Soviética recolheu 57% dos votos, Estados Unidos da América 20% e Reino Unido 12%, um resultado absolutamente natural. Afinal, os soviéticos foram, de longe, os mais sacrificados durante todo o conflito e os que lideraram, durante a maior parte do tempo sozinhos, a longa contra-ofensiva que viria a derrotar o Terceiro Reich. Sob todos os pontos de vista, a participação do Reino Unido foi reduzida e a dos Estados Unidos vergonhosamente tardia, literalmente a meses do fim da guerra, depois de ter passado o conflito inteiro a engordar a sua economia financiando os esforços de guerra de britânicos e alemães em simultâneo.

 

A mesma pergunta viria a repetir-se mais três vezes, em 1994, 2004 e 2015, e os resultados revelar-se-iam surpreendentes… ou não. As novas gerações, filhas e netas do pós-guerra, vieram a reconhecer os Estados Unidos como os principais responsáveis da derrota de Hitler, com percentagens acima dos 50% (58% em 2004 e 54% em 2015) empurrando a União Soviética para uns desprezáveis 20% (20% em 2004 e 23 % em 2015).

 

Com efeito, a construção da memória histórica é um processo complexo carregado de subtilezas. Uma delas é que são mais importantes os sentimentos, os afetos subjetivos que se desenvolvem relativamente aos acontecimentos e às partes do que propriamente qualquer tipo de análise objetiva sobre estes e estas. Não é que tenhamos acabado de descobrir a pólvora, nem de perto, nem de longe. Não é por acaso que se diz que a História é escrita pelos vencedores das guerras e que estes, de facto, sempre se empenharam, sempre tudo investiram, desde que há memória, em processos duais de auto-glorificação, por um lado, e de demonização dos derrotados, por outro.

 

A atualidade mostra-nos um esplendor jamais visto, no que à arte e à técnica diz respeito, dessa verdadeira ciência social chamada de propaganda que influencia, com incontestável eficácia, as mentes, as reações e os sentimentos das massas. Durante décadas, Hollywood trabalhou com afinco, produzindo muitos mais filmes contra o comunismo do que contra o nazismo, e os Estados Unidos, os plenos vencedores da guerra ideológica travada ao longo do século XX, entre capitalismo e comunismo, recolhem agora os resultados do que semearam com as massas, mundo fora genericamente, a dar-lhes o crédito que não tiveram, a validarem o falso, a reconhecerem como verdadeiro o imaginário dos filmes. Não é de estranhar. Os que respondem hoje a este tipo de sondagens são, afinal, os mesmos que acham que os combates do Rocky são acontecimentos históricos e que o Rambo foi um verídico herói de guerra, para dar dois exemplos apenas. São gerações incultas educadas pela televisão e pelos media, incapazes de distinguir a ficção da realidade.

 

Escrevo estas linhas a propósito da fuga de Juan Carlos de Espanha para a República Dominicana com escala em Portugal. Juan Carlos foge do seu passado de promiscuidade com o conservadorismo mais bafiento e violento, convertido, durante décadas, no fascismo de Franco, das suas íntimas relações com a monstruosa monarquia saudita e outras coisas que tais com o condão de apoquentar a opinião pública face ao seu filho, o virginal e impoluto Felipe VI de Espanha. Acabei de poetizar a coisa, eu sei, mas não resisti. O antigo monarca foge, ao que consta, para não vir a ser acusado de crimes concretos de lesa-estado.

 

Por toda a parte, Juan Carlos é apresentado como uma figura ímpar, uma espécie de herói com uns certos vícios, de algum modo inadaptado à contemporaneidade, mas com feitos assinaláveis na construção da Espanha contemporânea. Um jornal apresenta-o na primeira página como “o rei que enterrou o franquismo”, uma ideia que já havia lido, ficcionada, no último romance de Dan Brown, A Origem.

 

A verdade é coisa que não interessa muito para o caso. Se a narrativa mediática for repetida vezes suficientes, então ela tomará naturalmente o lugar da verdade para a esmagadora maioria das pessoas nas gerações que virão. Hoje, ainda há muitos espanhóis, republicanos, que sabem bem qual foi o papel de Juan Carlos na história de Espanha, durante a guerra civil, durante a ditadura, e que se recusam, por isso mesmo, a prestar vassalagem à monarquia espanhola. Estes, serão os únicos e derradeiros guardiões da verdade. Com o passar dos anos, com o esbatimento dos ideais, dos valores, com a dispersão populacional e o seu desenraizamento progressivo, a sua instrução enviezada e a sua falta de exigência, a verdade tenderá a perder-se e até a desaparecer das notas de rodapé dos livros de História laudatórios do poder. E é precisamente deste modo que se procede à reescrita da história.

publicado às 15:23

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