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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Uma revolução para os séculos que se apresentam adiante

por Amato, em 12.09.19

O que mais me dói é perceber esta ilusão em que vivo. Acreditem. A minha maior dor é essa. Sabem? A ilusão de que vivemos em democracia, de que somos livres, de que nascemos iguais e de que somos tratados como iguais pela lei e pela justiça. A ilusão de que existe justiça...

 

Essa dor acaba por ser natural, claro, pois o viver é como que um eterno acordar para a realidade, de um sono de ilusão que nos é imprimido desde o berço. E cada um de nós acaba por entender o alcance tangível dessa construção de castelos de nuvens sobre as nossas cabeças. Todos nós, uns mais cedo, outros mais tarde, acabamos por bater de frente com essa parede de fantasia, vítimas dessa mesma quimera que fomos alimentando ao longo da vida.

 

As publicações deste blog têm tratado abundantemente da parte política do problema. Como pode haver, afinal, democracia quando cada escolha é condicionada de antemão e quando quem efetivamente tem o poder de decisão nunca se expõe ao sufrágio popular? Deixemos, portanto, esta vertente de parte.

 

Falemos de justiça.

 

Falemos de justiça, porque a justiça constitui proverbialmente, no contexto da nossa configuração social, a espada definidora das liberdades individuais e coletivas e o escudo que protege o valor mais precioso que urge entre os homens dos nossos tempos: a igualdade. Uma justiça parcial implica, naturalmente, a diferenciação entre os homens no que às suas liberdades diz respeito. Uma justiça parcial é estruturadora de uma sociedade de classes de homens diferenciadas em influência e em poder, umas sobre as outras.

 

Olhemos, pois, para a justiça. Acompanhemos alguns casos, os que afetam as pessoas que nos são mais próximas e os outros, os mediáticos, que nos impingem olhos adentro. Recolhamos informação. Ontem mesmo, surgiu mais uma notícia que ilustra bem o estado da coisa. Uma vez mais, as grandes corporações burguesas do país, saem incólumes dos crimes cometidos e ainda se vangloriam disso mesmo em plena praça pública. Mas os casos sucedem-se em catadupa. Não façamos deste caso exemplar, porque o exemplo é o dia-a-dia da sociedade. O exemplo foi ontem, é agora e será amanhã também, seguramente.

 

Repare-se que não basta à burguesia reinante ditar as regras com que a sociedade se deve reger em seu benefício. Não. Ainda é necessário poder quebrar essas mesmas regras quando convier e garantir que a esponja purificadora dos tribunais passará sobre os seus delitos e os absolverá perante a sociedade. No passado havia a igreja que detinha esse papel de absolvição moral. Hoje, convenhamos, os tribunais prestam um melhor serviço.

 

Pensar que existe justiça na sociedade burguesa é a ilusão das ilusões. Pensar que a lei nos vê a todos como iguais é fantasia, é ficção. A nós, comuns mortais, resta-nos a nossa inteligência e o nosso senso que servem de amarras ao real e ao concreto. E manter bem viva a consciência de que não existem saídas para este sistema corrupto e despudorado dentro do próprio sistema. Não se pode reformar o que detém natureza ímpia, vil e desprezível.

 

A revolução da sociedade é o único e derradeiro caminho que nos resta. Uma revolução para os séculos que se apresentam adiante. Uma revolução que se impõe para nos catapultar para uma modernidade de bem estar, de paz, de cultura e de elevação intelectual. Para construir uma sociedade fraterna de irmãos, colocando a tecnologia ao serviço de todos, e não uma sociedade de inimigos em constante disputa por uma côdea de pão sob o olhar atento de meia dúzia que toma todos os recursos do planeta para seu próprio proveito.

O presente de Natal imaginativo

por Amato, em 24.12.16

Este governo pode ser muita coisa, mas "de esquerda" é coisa que não é. Com uma mão adiciona uns magros tostões ao salário mínimo nacional e, em simultâneo, retira com a outra uma quantidade superior de capital do bolso dos trabalhadores, daqueles que realmente trabalham neste país, para a entregar, limpinha, ao patronato, sob a forma de uma redução da TSU.

 

O povo é roubado e não dá, verdadeiramente, por isso. Pelo contrário, ainda pensa que fica melhor do que o que estava. Há que tirar o chapéu ao governo por este presente de Natal tão imaginativo.

O vendedor de ilusões

por Amato, em 28.07.16

Ouvir o discurso de Barack Obama na convenção do Partido Democrata americano é a cereja no topo do bolo. Suponho que a democracia americana tem tanto valor quanto o valor que a sociedade atribui a este tipo de espetáculo demagógico, a este fogo de artifício vazio de política propriamente dita. Pergunto-me o que teria aquela gente toda a dizer se, do outro lado, não pontificasse a sinistra figura de Donald Trump. Nada? Provavelmente.

 

Algumas conclusões:

 

1) A política norte-americana está reduzida a espetáculo mediático puro, completamente desapossada de qualquer discussão efetivamente política, sendo certo que o cargo de Presidente dos Estados Unidos da América já foi engenhosamente formatado para ter o seu real poder muito limitado.

 

2) Os políticos norte-americanos são menos importantes que atores ou cantores pop. Este facto não deixa de ser irónico.

 

3) A resposta do Partido Democrata ao Partido Republicano de Trump é combater palhaçada com palhaçada.

 

4) Barack Obama, com o seu discurso de apoio a Hillary Clinton — enterrada até ao pescoço nas mais fétidas promiscuidades com os lobbies e os interesses que governam os americanos —, mostra aquilo que é e aquilo que sempre foi: um vendedor bem-falante de ilusões que, para o fazer, é capaz de nos mentir descaradamente.

 

http://www.harpweek.com/Images/SourceImages/CartoonOfTheDay/August/083161m.jpg

Sampaio da Nóvoa ou o paraquedista inocente e virgem

por Amato, em 21.01.16

As gentes perspiram sempre (!) duma “lógica” a preto e branco que aplicam a tudo o que veem e a tudo o que mexe. É necessário que se combata e que se desconstrua tal forma de interpretar o mundo.

 

Um exemplo pertinente do que acabo de referir é a seguinte implicação de predicados: se estamos contra Marcelo Rebelo de Sousa, e eu estou e reafirmo-o para quem possa ter dúvidas, então devemos apoiar Sampaio da Nóvoa. Não há nada de mais errado.

 

As mesmas razões que me fazem rejeitar Marcelo, servem também para rejeitar Sampaio. Essas razões podem não obstante ser muito mais claras no caso de Marcelo o que até se traduz, bem refletido, num ponto a seu favor. Depois existe um paralelismo formal evidente entre os candidatos: percursos profissionais similares, uma certa forma artificial e distante de sentir o mundo que é própria de muitos académicos, assim como uma certa comodidade na movimentação e na ascensão nesses meios. Há muito de superioridade, há muito de arrogância disfarçada ora de excentricidade, ora de distanciamento, quer num, quer noutro. Serve este parágrafo, portanto, para sublinhar o que une os dois candidatos para lá do que os sustenta nesta campanha.

 

Particularmente, Sampaio da Nóvoa, o candidato, é um oportuno nome mais ou menos desconhecido: aparece na cena política inocente e virgem do que quer que seja, parece que nada do que aconteceu terá tido alguma coisa que ver com a sua pessoa, nenhuma decisão política teve o seu aval ou apoio e, portanto, daqui se conclui, erradamente, que Sampaio mantem a sua integridade intacta. A conclusão resulta errada porque, em democracia, toda a inação deve ser interpretada como uma ação de apoio indireto à posição vencedora e porque, no mais, existe a ação concreta de Sampaio da Nóvoa. Essa ação distingue-se sobretudo por ter tido na sua pessoa o carrasco que levou a cabo o processo de fusão das universidades da capital, a clássica e a técnica, algo que não devia ser muito impressionante para a generalidade da esquerda. Para quem não tem memória, tal processo foi executado no tempo de Sócrates e é motivo de regozijo para o candidato.

 

Para além disso, menos relevantes são as interrogações que se erguem sobre a sua ascensão na carreira, sobre o seu currículo e sobre o facto de ser um dissidente comunista. É que normalmente ser ex-militante comunista não abona muito em favor de quem o é, nomeadamente no que concerne aos valores da coerência e do caráter políticos.

 

Sampaio da Nóvoa apenas tem uma vantagem relativamente a Marcelo para efeitos de segunda volta: a sua vitória poderá (?) significar um prazo de validade um pouco mais alargado para este governo e essa perspetiva já é o bastante. Será o bastante no que à segunda volta diz respeito, porque relativamente à primeira... não existem males menores, nem paraquedistas inocentes e virgens.

As partes do capitalismo

por Amato, em 29.07.15

 

Tudo no capitalismo é ilusão. Tudo. Do princípio ao fim. A cabeça, o tronco e os membros.

 

Vamos à cabeça.

 

A ilusão começa na ideia de progressão social. Ou melhor: na possibilidade de progressão social.

 

O capitalismo é a ilusão de um sistema de competição pura, livre e justa; é a ilusão de um jogo em que qualquer um pode vencer, não obstante a sua origem e as suas condições aprioristas.

 

A probabilidade de vitória no jogo, a probabilidade real, até pode ser qualquer coisa como de um para um bilião, mas não interessa. A ilusão de vencer na vida, por muito retorcido que seja esse conceito no mundo capitalista, é o suficiente para fazer ferver o sangue e... jogar o jogo.

 

O tronco.

 

Há também uma ilusão obtusa de justiça associada ao jogo capitalista, como se os guetos sociais que resultam evidentes do jogo competitivo, fossem uma mera miragem aos olhos do jogador. Para este, independentemente do seu posicionamento no tabuleiro, tudo é justo e tudo é bom. A ilusão que resulta é que o capitalismo parte e reparte da forma mais honesta possível, mesmo que essa honestidade se manifeste num rácio medonho de distribuição de riqueza: menos de um ponto percentual da população mundial detém cerca de metade da riqueza produzida em todo o mundo!

 

Os membros.

 

E no final de todas estas ilusões emerge a maior de todas elas: a ilusão de que o sistema é consistente, que, de alguma forma mágica, a engrenagem funciona sempre, sem problemas sistémicos ou de outra ordem. Mais: existe agora a ilusão, parida desta última crise financeira, de que, não fora a falibilidade inerente ao ser humano, a máquina capitalista seria perfeita, isto é, nada que com uma dose adequada de “supervisão” não seja corrigido. Esta é a ilusão das ilusões, uma ilusão que persiste, tenaz, não obstante todas as crises recorrentes, sistémicas, que traduzem a evidência de que o capitalismo não é nada mais, nada menos, do que aquilo que em Matemática se chama de um sistema dinâmico que rapidamente converge para o monopólio, para a sobreprodução, para a exaustão de recursos e, ultimamente, para a sua própria implosão.

 

E é assim o capitalismo, um sistema de cabeça demente, iludida, de tronco tenro, débil e raquítico, e membros incapazes, podres como leprosos. Isto é o que podemos sentir, ver, ouvir e cheirar. Mas não há órgão do sentido, seja o tato ou paladar, a visão, a audição ou o olfato, que se sobreponham a um sentido mais íntimo, mais primário, uma ideia de ser, uma ilusão, um sentido que seduz e governa todos os outros. E é nesse sentido, nessa ilusão, que radica o sucesso do capitalismo.

 

Quando essa ilusão se esfuma, o que nem sempre sucede, somos já demasiado velhos e cansados para fazer alguma coisa por isso. E, no processo, tornámo-nos demasiado egoístas para nos preocuparmos, tão materialmente egoístas que nem morrer em paz podemos.

Temos de saber...

por Amato, em 08.10.14

“Mas acima de tudo, se queremos estar na vida em perfeita coordenação com ela, temos de saber que nada na Natureza é justo ou injusto. Que nada tem significado. (...) O homem de amanhã será um homem natural, limpo de todas as ilusões e tranquilo.”
— Vergílio Ferreira, Na Tua Face

Liberdade: noção concreta ou abstrata?

por Amato, em 07.10.14

O que é a liberdade? O que caracteriza alguém “livre”? Como definimos o conceito? Não me interessa, neste ponto, admitindo com naturalidade ser algo de “desejável”, qual o caminho para atingirmos a liberdade. Não me interessa o formalismo. Antes importa sabermos do que estamos a falar para, então, formularmos uma estratégia.

 

No dicionário da priberam vem a definição que se segue.

 

Liberdade, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013:

  1. Direito de proceder conforme nos pareça, contanto que esse direito não vá contra o direito de outrem.
  2. Condição do homem ou da nação que goza de liberdade.
  3. Conjunto das ideias liberais ou dos direitos garantidos ao cidadão.
  4. [Figurado] Ousadia.
  5. Franqueza.
  6. Licença.
  7. Desassombro.
  8. Demasiada familiaridade.”

 

O ponto 1 define, de forma condicional, o conceito. O condicionalismo relativo à liberdade dos outros é absorvente pois induz que o conceito se desenvolve num contexto de um equilíbrio de um grande número de partes, como se a liberdade fosse aquele momento em que uma balança de inúmeros pratos se encontra, enfim, em equilíbrio. Note-se que o condicionalismo é tão poderoso que podemos, em tese, estar a definir um conceito impraticável. Não obstante, permanece aquela noção inicial euclidiana indicadora do que será a liberdade: o “direito de proceder conforme nos pareça”.

 

Enquanto que o ponto 2 é uma mera imposição linguística, o ponto 3 já apresenta duas ideias assaz curiosas. Liberdade como “conjunto de ideias liberais ou de direitos garantidos ao cidadão”. Em primeiro lugar a que “ideias liberais” nos referimos? Refere-se o texto, claramente, ao conceito primitivo do século XIX e não ao contemporâneo, até mesmo pela referência que se lhe segue aos “direitos garantidos”, incompatível com o segundo. Esta é a referência mais curiosa de todas. Efetivamente, conduz-nos a entender o direito da liberdade como subordinado à existência de outros direitos. Que direitos serão esses, afinal? O “direito de proceder conforme nos pareça” é, ultimamente, a possibilidade de efetuar uma escolha não em quaisquer condições mas dentro de um conjunto maximal de escolhas possíveis. Como é possível fazê-lo? Poderá um de nós efetuar essa escolha num contexto qualquer?

 

Recordo aqui parte da letra da música “Liberdade” celebrizada por Sérgio Godinho e recentemente recuperada pelo próprio:

 

“Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão
habitação
saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir”.

 

Poderá um temente pela vida, um faminto, sem abrigo, enfermo ou ignorante, ser verdadeiramente livre? Quero dizer: poderá ser capaz de escolher de acordo com a sua vontade e ter ao seu dispor todo o universo de opções potenciais? “A paz, o pão, habitação, saúde, educação,...” são estes, com segurança, os direitos pressupostos no ponto 3 da definição, pois sem eles o conjunto das opções de que falava quando se exerce a escolha, isto é, o direito chamado de liberdade, vê-se reduzido de forma drástica.

 

Os pontos 4 a 8 referem-se à liberdade enquanto adjetivo de personalidade estando relacionados, obviamente, com o que foi dito anteriormente.

 

Mas chegados aqui, parece que o conceito ficou muito bem definido. Parece que domesticamos o substantivo e que podemos, seja essa a nossa vontade, construir tal sociedade livre desde que nos asseguremos dos alicerces descritos anteriormente. Mas será que podemos? Frequentemente questiono-me...

 

Existem modelos sociais que não contemplam qualquer das garantias referidas, onde são claras as diferenças sociais atingindo proporções dramáticas onde cinco pontos percentuais da população detém noventa e cinco pontos percentuais da riqueza global gerada e, contudo, são modelos tidos como exemplares com perceções populares muito favoráveis no que à liberdade diz respeito. Pelo contrário, também existem experiências simétricas, isto é, de modelos sociais “garantidistas” e, frequentemente, estes são acusados quer no plano interno quer no externo de não serem promotores de liberdade. Perante isto, o que pensar? Não será o concreto da palavra liberdade puramente ilusório? Contrariamente a tudo o que se discutiu, não será a liberdade um conceito puramente abstrato? Poderá existir liberdade e não se sentir a liberdade? E o contrário? E o que será mais importante: a liberdade em concreto ou a perceção que dela temos? Até mesmo aqui serão as palavras de Descartes absolutamente premonitórias? Isto é, no que diz respeito também à liberdade, é o essencial invisível aos olhos? Chegados a este ponto e, sendo a liberdade nada mais do que o poder da escolha, termino este breve ensaio com as palavras do Merovingian, personagem da trilogia The Matrix, as quais subscrevo, sobre a escolha, ou seja, sobre a liberdade.

 

“Choice is an illusion, created between those with power, and those without”

— The Merovingian, in Matrix Reloaded.

 

Nota final: as três derradeiras linhas da letra da música cantada por Sérgio Godinho merecem uma reflexão própria a fazer daqui por uns tempos.

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