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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Os muros das desigualdades

por Amato, em 10.11.19

Uma das coisas mais deliciosas que a vida ainda tem para me oferecer é poder observar as recorrentes ironias da história. A última foi este dito de Marcelo, o Presidente, que, a propósito do aniversário da queda do muro de Berlim, afirmou que ainda era preciso derrubar os muros da desigualdade e da pobreza em Portugal.

 

É irónico que Marcelo, afilhado do último presidente da ditadura de Salazar, venha fazer uso da queda do muro de Berlim para falar em desigualdade. É seguro considerar que Marcelo não desconhece que a queda do muro visou precisamente a queda de um sistema onde a igualdade era um princípio e o estabelecimento de um outro sistema, à moda do ocidente, onde o povo se pudesse diferenciar entre si, em regime de plena competitividade.

 

Por que foi que o disse, então? Terá sido a constatação óbvia dos defeitos do sistema capitalista face à lembrança do simbólico momento que marcou o fim da guerra fria? Ou terá sido simplesmente uma coincidência não ponderada, motivada por uma certa nostalgia, talvez, uma articulação inconsciente da realidade? De uma forma ou de outra, o público para quem Marcelo fala não consegue, maioritariamente, discernir este feliz acaso do emaranhado de estereótipos e preconceitos ideológicos que o satisfaz politicamente no dia-a-dia.

Uma revolução para os séculos que se apresentam adiante

por Amato, em 12.09.19

O que mais me dói é perceber esta ilusão em que vivo. Acreditem. A minha maior dor é essa. Sabem? A ilusão de que vivemos em democracia, de que somos livres, de que nascemos iguais e de que somos tratados como iguais pela lei e pela justiça. A ilusão de que existe justiça...

 

Essa dor acaba por ser natural, claro, pois o viver é como que um eterno acordar para a realidade, de um sono de ilusão que nos é imprimido desde o berço. E cada um de nós acaba por entender o alcance tangível dessa construção de castelos de nuvens sobre as nossas cabeças. Todos nós, uns mais cedo, outros mais tarde, acabamos por bater de frente com essa parede de fantasia, vítimas dessa mesma quimera que fomos alimentando ao longo da vida.

 

As publicações deste blog têm tratado abundantemente da parte política do problema. Como pode haver, afinal, democracia quando cada escolha é condicionada de antemão e quando quem efetivamente tem o poder de decisão nunca se expõe ao sufrágio popular? Deixemos, portanto, esta vertente de parte.

 

Falemos de justiça.

 

Falemos de justiça, porque a justiça constitui proverbialmente, no contexto da nossa configuração social, a espada definidora das liberdades individuais e coletivas e o escudo que protege o valor mais precioso que urge entre os homens dos nossos tempos: a igualdade. Uma justiça parcial implica, naturalmente, a diferenciação entre os homens no que às suas liberdades diz respeito. Uma justiça parcial é estruturadora de uma sociedade de classes de homens diferenciadas em influência e em poder, umas sobre as outras.

 

Olhemos, pois, para a justiça. Acompanhemos alguns casos, os que afetam as pessoas que nos são mais próximas e os outros, os mediáticos, que nos impingem olhos adentro. Recolhamos informação. Ontem mesmo, surgiu mais uma notícia que ilustra bem o estado da coisa. Uma vez mais, as grandes corporações burguesas do país, saem incólumes dos crimes cometidos e ainda se vangloriam disso mesmo em plena praça pública. Mas os casos sucedem-se em catadupa. Não façamos deste caso exemplar, porque o exemplo é o dia-a-dia da sociedade. O exemplo foi ontem, é agora e será amanhã também, seguramente.

 

Repare-se que não basta à burguesia reinante ditar as regras com que a sociedade se deve reger em seu benefício. Não. Ainda é necessário poder quebrar essas mesmas regras quando convier e garantir que a esponja purificadora dos tribunais passará sobre os seus delitos e os absolverá perante a sociedade. No passado havia a igreja que detinha esse papel de absolvição moral. Hoje, convenhamos, os tribunais prestam um melhor serviço.

 

Pensar que existe justiça na sociedade burguesa é a ilusão das ilusões. Pensar que a lei nos vê a todos como iguais é fantasia, é ficção. A nós, comuns mortais, resta-nos a nossa inteligência e o nosso senso que servem de amarras ao real e ao concreto. E manter bem viva a consciência de que não existem saídas para este sistema corrupto e despudorado dentro do próprio sistema. Não se pode reformar o que detém natureza ímpia, vil e desprezível.

 

A revolução da sociedade é o único e derradeiro caminho que nos resta. Uma revolução para os séculos que se apresentam adiante. Uma revolução que se impõe para nos catapultar para uma modernidade de bem estar, de paz, de cultura e de elevação intelectual. Para construir uma sociedade fraterna de irmãos, colocando a tecnologia ao serviço de todos, e não uma sociedade de inimigos em constante disputa por uma côdea de pão sob o olhar atento de meia dúzia que toma todos os recursos do planeta para seu próprio proveito.

Se eu fosse francês, não votaria Macron

por Amato, em 24.04.17

Corria o ano de 1986 e, volvida a primeira volta das terceiras eleições presidenciais portuguesas após o vinte e cinco de abril de 1974, Diogo Freitas do Amaral e Mário Soares apresentaram-se para disputar uma segunda volta. É curioso notar as semelhanças entre essas eleições e as eleições francesas deste ano.

 

Na altura, doze anos depois da revolução, o CDS era um partido que metia medo. Hoje não é assim, hoje o CDS não passa de um gabinete de advogados promíscuos com o poder. Mas em 1986, o fascismo sobrevivia em democracia através desse partido, os fascistas tinham encontrado no CDS o seu abrigo primordial e Freitas do Amaral corporizava num temor as memórias do antigo regime. Quando aquela segunda volta das eleições aconteceu todas as pessoas minimamente progressistas e todas aquelas que não queriam o fascismo de volta não tiveram dúvidas em cerrar fileiras em torno de Soares e de lhe dar a vitória, o que veio a suceder. Estava em causa a democracia. Estava em causa a liberdade.

 

Se já na altura, depois das governações imediatamente anteriores de Soares, que trataram de destruir qualquer vestígio de socialismo do país, já o era evidente, a história tratou de mostrar o quão enganados estávamos. Soares foi um péssimo presidente quase tanto quanto o Primeiro-ministro que tinha sido. Da sua ação não frutificaram quaisquer evidências de progresso, pelo contrário: abriu Portugal ao regresso da burguesia salazarenta, retomando uma espécie de capitalismo de estado no país, alicerçou-o a uma corrupção endémica, enraizada, e lançou Portugal numa eterna vassalagem pela dívida — que tanto discutimos hoje — perante a banca e as potências europeias, simbolizadas pela entrada serventual de Portugal na União Europeia. Pelo contrário e apesar de nunca o podermos saber, Freitas do Amaral poderia ter sido um presidente mais sério, é certo que com as suas retrógradas ideias, mas mais sério e mais culto e sábio, seguramente. Pergunto-me, portanto, se Portugal terá tomado a opção correta, então.

 

Depois há outro ponto que não é de somenos. Em política é normalmente mais perigoso escolher um assim-assim do que alguém que é declaradamente posicionado ideologicamente. É que um governante apenas pode fazer o que o povo permite e, usualmente, um povo adormecido é a melhor receita para se governar à vontade. Veja-se o que se passa em Portugal: as maiores transformações legislativas acontecem com o PS no governo e não — como seria expectável — com o PSD. É verdade: olhe-se para o código de trabalho e para a segurança social, só para dar dois exemplos. É que o PSD, mesmo em contexto de maioria absoluta, tem que enfrentar as forças sociais para aprovar o que quer que seja. Com o PS, por esta ou aquela razão, o mesmo não acontece.

 

É por estas razões que, se eu fosse francês, não votaria Macron. Le Pen é xenófoba, fascista e tudo o mais que lhe queiram chamar. Macron é igual a Le Pen, adicionado de muita falsidade e hipocrisia. As políticas preconizadas por Macron conduzem à divisão social, ao empobrecimento da população, à concentração de riqueza. Macron diz que gosta muito das minorias só para as atrair, com as suas políticas — qual canto de sereia —, para guetos de baixos salários, de indigência e de indignidade. Macron é a lei do lucro a qualquer custo. Macron é a razão de ser da França ser o absurdo de sociedade que é hoje, dos seus lemas, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, serem autênticas anedotas e é a razão de ser da existência de Le Pen e da Frente Nacional.

 

Os franceses votaram em dois cancros sociais e agora querem que tome posição? Não. Não farei essa escolha. Se eu fosse francês, votaria em branco. Se Le Pen ganhasse, não sentiria remorsos: podia ser que os franceses juntassem juízo e passassem a ser mais atentos à política e à governação. E podia ser que se unissem em torno daquilo que realmente deviam considerar precioso, Igualdade, Liberdade, Fraternidade, mas não em texto, não como ladainha para adormecer ou como medalhas em lapela bolorenta. Como realidade social, como prática diária, nos empregos, nas famílias, em cada canto do país.

Como a população forma a sua opinião

por Amato, em 11.10.16

O facto mais interessante que podemos retirar deste diferendo entre táxis e Uber é constatar que a esmagadora maioria da população forma a sua opinião com respeito ao assunto unicamente com base na sua opinião pessoal relativamente à classe profissional dos taxistas.

 

Num assunto de todo em todo técnico, que só tem que ver com a noção de equidade perante a lei ou, eventualmente, com o tipo de sociedade que mais apraz a cada um, seja mais socialista, seja mais liberal, o povo emite a sua sentença, diz de sua justiça, negligenciando tudo isto, e tomando em consideração, simplesmente, a impressão empírica que tem sobre o serviço prestado pelos táxis e a simpatia dos taxistas.

 

Se bem que estas constituem-se como informações da maior relevância para a discussão do serviço em si, apesar da sua natureza empírica, nada têm que ver com a discussão em causa. Isto diz muito, todavia, sobre a psicologia das sociedades. Isto explica muita coisa sobre o funcionamento da democracia.

Festa do Avante!

por Amato, em 29.08.16

É uma pena a Festa do Avante! durar apenas três dias. É uma pena que o seu espírito não se propague pelo país e pelo mundo como um indomável fogo.

 

Quem passa a vida a articular conceitos como liberdade ou democracia, igualdade ou fraternidade, devia passar por lá, pela Quinta da Atalaia, pelo menos uma vez em vida. Toda a artificialidade dos seus conceitos cairia por terra e, então, seriam capazes de ter uma ideia mais clara, um pouco mais aproximada, do que realmente é isso de liberdade, democracia, igualdade ou fraternidade.

 

Pela minha parte, não tenho certezas nenhumas sobre as definições, mas sei que os conceitos estão lá e encontram-se por toda a parte, sinto-os à flor da pele, na Festa do Avante!.

 

 

Sobre a mediocridade à venda nos CTT

por Amato, em 19.07.16

Hoje aconteceu ver a minha rotina quebrada com uma visita a um posto dos correios. Fiquei deveras espantado: é incrível a mediocridade em forma de livro que lá é vendida. Há de tudo: romances de cordel, biografias patéticas e autobajulantes, manuais de autoajuda... escolha-se o que seja de melhor agrado.

 

https://silverbirchpress.files.wordpress.com/2013/08/mick-stevens-i-m-looking-for-a-book-by-t-what-s-his-face-boyle-new-yorker-cartoon.jpg

Assim, é fácil perceber como certos autores são tão bem sucedidos nas vendas: até nos CTT estão lá, arreganhados com a tag “sugestão da semana” em cima. Já não chegava os continentes e os pingo doces a colocá-los junto às promoções do dia, já não bastava que as livrarias comerciais também não tivessem um pouco de ética nas suas escolhas de montras e expositores, já não bastava, enfim, a fossa em que a qualidade literária média caiu na sociedade contemporânea. É assim que se constrói o unanimismo. É assim que se constroem os falsos ídolos no que à literatura diz respeito.

 

Estes autores — não interessa estar aqui a discriminar — são literalmente enfiados pela goela abaixo dos leitores menos avisados culturalmente, que, por não lhes ser dado a conhecer nada de melhor, confundem o que leem com qualquer coisa parecida com destreza artística. A História, porém, como crivo de mediocridade que é e que nunca deixará de ser, não deixará registo de um único exemplar daqueles que pontificam nas prateleiras dos CTT. É pena é que ninguém seja responsabilizado por isso.

Os eventos do fim-de-semana

por Amato, em 28.06.16

Depois de um auspicioso princípio — com a vitória do Brexit —, este fim-de-semana que passou acabou de uma forma que deixou um travo amargo na minha boca. Deitei-me tarde no domingo e adormeci com a forte convicção de que, em Espanha, o Unidos Podemos cresceria para se tornar na segunda força política.

 

Havia uma esperança consubstanciada de que a coligação entre Podemos e Esquerda Unida seria capaz de coletar pequenas percentagens por toda a Espanha e transformá-las em lugares no parlamento. A realidade, todavia, não deixou de ser cruel, nem que por um dia apenas, e acordei para ela, na segunda-feira.

 

Em Espanha, podemos dizê-lo para abreviar, ficou tudo mais ou menos na mesma, que é o mesmo que dizer que ficou tudo péssimo. Nenhuma consequência minimamente visível foi trazida a qualquer uma das forças partidárias, talvez excetuando aquela abjeção a que chamam de Ciudadanos que levou uma forte machadada em votos. No mais, tudo sensivelmente igual.

 

O problema está não no que aconteceu mas no que não aconteceu: o PSOE não foi severamente penalizado e o Unidos Podemos não cresceu. Este singular facto demonstra cabalmente que o povo espanhol, pelo menos o que está mais à esquerda no espectro político, não está virado para grandes mudanças de paradigma. Quer as coisas como estão e como sempre estiveram. Neste particular, é risível quando nos chamam, a nós, portugueses, o povo dos “brandos costumes”.

 

Pelo contrário, e a concorrer com o anterior, o PP, com seu mentecapto líder, viu a sua votação reforçada. Isto não é algo de somenos sobretudo após toda a panóplia dos recentes escândalos envolvendo os ministros do governo espanhol de gestão.

 

Esta sequência de eventos faz-me pensar que o que aquilo que o povo realmente quer é o Bloco Central. Aqui, em Portugal, também o queriam e ficaram muito revoltados quando tal não aconteceu. Chamaram Geringonça e outros nomes feios ao que veio a acontecer. Mas reforço: se a Geringonça fosse uma perspetiva clara e viável antes das eleições, acredito que o povo ter-se-ia expressado de forma muito diferente.

 

Observação: ainda sobre o Brexit, gostava de perceber o que leva um português a defender a União Europeia quando, há dias, ouviu o presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, colocar de lado sanções à França dizendo “A França é a França”, ao mesmo tempo que Portugal é diariamente ameaçado com essas mesmas sanções.

 

Por cá, ocorreu a convenção do Bloco de Esquerda. A vaia que dedicaram à delegação do Syriza é triste mas expectável, em certa medida. Começando pelo fim, é expectável porque traduz a reação mais natural do Bloco à camisa de forças em que se meteu quando apoiou cegamente aquele partido grego e a ele se colou enquanto foi politicamente interessante. Agora, perante a evidência da realidade política, o Bloco sentiu necessidade de se descolar do Syriza e, diga-se, fê-lo da pior das formas. E é por isso mesmo que é triste: o Bloco mostrou aqui a sua completa e endémica imaturidade política, não obstante os anos que já leva enquanto partido.

 

Destaco ainda mais uma bomba mediática que, como não poderia deixar de ser — estamos a falar do Bloco de Esquerda —, tinha que ser lançada: a questão do referendo à União Europeia ou ao Tratado Orçamental. Esta bomba, completamente infundada do ponto de vista constitucional e desmontada por António Filipe, deputado comunista, para além de visar o mediatismo, como é timbre característico do Bloco, é mais um absurdo ideológico. Falamos de um partido que nunca colocou em causa a permanência de Portugal no Euro, quanto mais na União Europeia! Não há muito mais a dizer sobre o assunto: o Bloco cavalga a onda do mediatismo, seja ela qual for. Neste momento, essa onda chama-se Brexit.

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