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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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O PCP e a cultura do miserabilismo político

por Amato, em 26.03.17

Acho que devemos ser exigentes na política, sobretudo nas áreas de que somos mais próximos. Percebo todos aqueles que assobiam para o ar e que preferem não apontar o dedo ao que é óbvio. Entendo bem. A política é uma batalha de ideais e as críticas devem-se reservar para os momentos de reflexão interna para não dar armas ao adversário. Tudo isto é verdade, mas tudo isto é inútil e contraproducente quando parece que se perde a razão ou o sentido das coisas. Repito: devemos ser ainda mais exigentes com o que nos é querido, precisamente porque para o que nos é querido queremos o melhor.

 

Há uns tempos, aquando da recondução de Jerónimo de Sousa no PCP, escrevi um artigo criticando a opção que, aos meus olhos, pareceu inconcebível. Volvidos alguns meses, todas as razões que fundamentaram a minha opinião permanecem intactas. O PCP escolheu reconduzir um secretário geral que se apresenta demasiadamente cansado e velho, que repete um discurso gasto, pejado de graçolas que já não têm graça nenhuma, uma presença infeliz e lastimável em todos os palcos que pisa, de onde se destaca negativamente o parlamento.

 

Malogradamente, esta lamentável condição do líder do PCP estende-se, quase que por contágio, a quase todos os parlamentares e políticos que representam o partido. Não sendo, muitos deles, demasiadamente velhos, a verdade é que o seu discurso parece ser escrito pela mesma pena, tamanha é a coleção de palavras comuns a todos eles. Não é isto de somenos, visto estarmos a falar da riquíssima língua de Camões, repleta de palavras sinónimas e de diferentes recursos estilísticos. Não obstante, desde os mais novos até aos mais velhos, parece que os papéis que leem são cópias de um mesmo original e o que dizem parece ter sido decorado numa espécie de ladainha de uma qualquer agregação religiosa. Novamente, entendo perfeitamente que alguma organização é necessária nestas matérias e que também é importante falar-se a uma só voz, mas isto... é demais. Todos os limites da decência intelectual são ultrapassados.

 

Enquanto que o Bloco de Esquerda, mesmo ali ao lado, exibe eloquentes vozes, discursos bem preparados e apelativos, parlamentares bem-apessoados, o PCP parece abdicar por completo dessa potencialidade fundamental no processo comunicacional. Ao fazê-lo de forma tão convicta, cria uma espécie de um culto do miserabilismo político, um culto do coitadinho. O PCP perde todos os debates? Não há problema, trata-se de um partido muito honesto, incapaz de passar a sua mensagem, mas honesto. As pessoas mudam de canal quando um comunista começa a falar? Não há problema, há de cair uma luz qualquer que as fará ouvir o que se tem para dizer.

 

Não interessa que o Bloco de Esquerda seja a conglomeração política mais incerta que existe em Portugal. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. O Partido Comunista Português devia começar a olhar-se ao espelho e ver bem a figura que tem e a imagem que transmite.

 

Escrevo estas palavras motivado pelo conhecimento que tive de alguns dos candidatos do PCP a algumas das maiores autarquias da região do Porto. Ilda Figueiredo, por exemplo, é a candidata à Câmara Municipal do Porto. Ilda surge na mesma lógica da recondução de Jerónimo de Sousa: é uma figura histórica, de valor incomensurável para o PCP, mas com evidente falta de energia para tamanhas responsabilidades que o cargo exige. Mas por toda a região do grande Porto, os exemplos sucedem-se. Fosse esta situação o resultado da falta de quadros válidos e eu não estaria a escrever estas linhas. O problema é outro e é muito mais grave. É esta cultura de miserabilismo político, este fechamento interno, esta filosofia de seita religiosa, de organização piramidal, esta relação de pastor com as suas ovelhas.

 

Custa-me muito escrever estas palavras, mas acho que já chega de me tomarem por parvo, a mim e a tantos como eu, progressistas, marxistas, intelectuais altruístas sem qualquer interesse pessoal na política que não seja o de servir a comunidade.

 

Quando o PCP não faz do povo parvo, como por exemplo com Bernardino Soares em Loures, o povo responde afirmativamente. Quando o PCP começa a jogar o jogo do coitadinho, o povo responde de acordo, sempre. Esta parece ser uma lição difícil de aprender para o Partido Comunista Português.

Patria o muerte!

por Amato, em 29.11.16

Fidel costumava dizer, em jeito de lema, “Patria o muerte!”. Dizia-o não com a superioridade com que o dizem os fascistas, não. Aquelas palavras não tinham nada de xenofobia ou de racismo. Pelo contrário, fosse qual fosse o momento, fossem quais fossem as circunstâncias, Cuba estava sempre preparada para enviar os seus médicos, os seus engenheiros, os seus quadros em geral, para acudir e ajudar todos os povos do mundo. Assistimos a isso mesmo, catástrofe após catástrofe, emergência após emergência.

 

Aquelas palavras transbordavam sim em amor àquela ilhota a flutuar entre o norte e o sul das Américas, amor pelas pessoas que lá viviam. “Patria o muerte!” significa “tudo pelo nosso país, tudo para sermos melhores, tudo para vivermos melhor, para sermos mais sábios e mais felizes”. Significa “orgulho, princípios e identidade”.

 

Disto temos muito pouco em Portugal. Com a visita dos reis de Espanha a Portugal ficou provado, aliás, que a nossa identidade é tão sólida como pasta de papel. As palminhas, as bandeirinhas espanholas, os “adeus”, a cavalaria da guarda — aliás, devem ter tido que alugar uma meia dúzia de cavalos à pressa para o efeito —, o Rolls Royce, as jantaradas nos palácios, os beija-mão e as vénias, foi tudo um espetáculo demasiado deprimente protagonizado pela nossa República de fingir.

 

De tudo, o mais grave, o mais nojento, pela simbologia, pelo desrespeito para com a nossa História, foi aquele momento de orgasmo incontido em que Rui Moreira, o presidente da Câmara do Porto, oferece as chaves da cidade ao Rei de Espanha! Reparem bem: o presidente da Câmara da segunda cidade de Portugal ofereceu as chaves da cidade ao Rei do país vizinho. Não há noção nem há um pingo de decência.

 

Para gente deste calibre, para gente desta qualidade, as palavras “Patria o muerte!” de Fidel só podem soar a grotesco por serem completamente incompreensíveis.

O que a palavra escrita denuncia

por Amato, em 23.08.16

Já sei que as palavras que se seguem serão, para muitos, de difícil leitura, mas este não é um espaço semelhante a muitos dos que se destacam no universo da blogosfera. Bem entendido, o Porto de Amato não busca, em nenhum momento, aprovação das massas ou popularidade. O Porto de Amato é um espaço de opinião o mais honesta e transparente que consegue ser dentro dos próprios limites do ser humano que nele escreve. O Porto de Amato não faz fretes, critica o que entende criticar e o que considera ajustado e equilibrado que se critique no estrito contexto das fronteiras do bom senso e mesmo quando os alvos da crítica possam ser considerados pelo público como de algum modo inimputáveis por estarem do lado do politicamente correto.

 

Ontem li a entrevista de Catarina Martins, a líder do Bloco de Esquerda, ao Público. Ao contrário do que se possa imaginar, pondero sempre dez vezes — por todas as razões — antes de publicar alguma coisa potencialmente negativa sobre o Bloco de Esquerda.

 

Identificando-me genericamente com aquilo que o Bloco defende — genericamente, porque a indefinição ideológica congénita deste partido não permite uma adjetivação mais concreta —, a verdade é que o Bloco apresenta uma série de vícios de estilo que muito me desagradam. O discurso dos seus dirigentes é, em geral, redondo, pouco concreto, misturando um idealismo inocente — que por ser programado perde a genuinidade — com uma série de afirmações fortes, pouco ponderadas. O Bloco de Esquerda é o partido do diagnóstico da situação, mas quando se pergunta a legítima pergunta do “O que fazer?” ou “Que alternativa propõem?”, a coisa começa a andar em círculos e volta ao diagnóstico que, realmente, é perfeito e com o qual todo o universo da esquerda política concorda.

 

Catarina Martins é o exemplo máximo disto que escrevi. A resposta que dá quando questionada sobre o Syriza é paradigmática. O Syriza não é algo que possa ser chutado para canto ou facilmente descartável. Pelo contrário, o Syriza é uma constante e soberana oportunidade de clarificação ideológica do Bloco, porque é o pretexto ideal para se responder às perguntas anteriores “O que fazer?”, “Qual é a alternativa?”, mas Catarina volta ao diagnóstico, renega o até agora partido-irmão e aponta os pecados da sua ação. Mas isso é fácil. Repito: o que faria o Bloco se acaso estivesse no lugar do Syriza? A essa pergunta Catarina não responde. Nem pode. Não sabe. O Bloco de Esquerda apenas sabe o que não quer. O que quer, não sabe. O que quer será improviso. E se o improviso não resultar, então, tal como o Syriza na Grécia, quererá o que hoje não quer.

 

Acresce a pertinente questão de personalidade que concorre com o que já foi dito a respeito do que é ideológico. Sempre que ouço Catarina Martins soa-me a ensaiado, soa-me a forçado. Catarina Martins não fala, declama, e não há nenhuma palavra que diga que não tenha sido previamente pensada ou preparada teatralmente ao pormenor.

 

“Arrependo-me todos os dias [da coligação parlamentar]” é, talvez, o apogeu do seu discurso teatral último. É que não é autêntico, é que não é genuíno! Faz lembrar o “I regret every day” dito por Joe Biden a propósito da sua decisão de não ter entrado na corrida à Casa Branca, mas que também pode ser encontrado em alguma página de cada romance de cordel americanizado. A intenção é humanizar quem o diz mas soa a forçado e a falso, sobretudo quando se lê as linhas que se seguem na entrevista. Dá vontade de perguntar: mas então porque é que se arrepende? Porquê? Todos os dias? Porquê?!

 

Claro que isto, admito-o, tem muito de subjetivo e de pessoal. Todavia, parece-me tão evidente que considero espantoso que mais gente não se sinta do mesmo modo. E é surpreendente perceber nas palavras escritas da entrevista de Catarina Martins ao Público precisamente o mesmo grau de teatralidade. Catarina não é genuína nem fala do coração e isso ouve-se, mas mais do que sob a oralidade, denuncia-se sobremaneira pela palavra escrita. Não sendo, porém, valorizado por quem vota, é um traço que, por ventura, adequa-a mais ao meio onde se movimenta.

O formalismo é revelador

por Amato, em 06.07.16

Agora, a realidade com que nos confrontamos é que o país está sob chantagem do diretório europeu e isso exige firmeza, clareza de posições, e uma grande unidade das forças progressistas na defesa da soberania e dos interesses nacionais. Para isso, cá estamos, e todos não somos demais.

— António Filipe, in Diário de Notícias

 

Nem mais. O artigo de António Filipe de hoje sistematiza tudo o que há para dizer sobre o Bloco de Esquerda e sobre a sua conduta, da qual a patética proposta de referendo é apenas o último sound bite.

 

Muito do que é dito por António Filipe converge com o que já foi escrito aqui. Fica bem clara a diferença de atitude entre os partidos, a sua visão relativa ao respeito pela lei e a sua responsabilidade pública. Fica bem clara a diferença de posturas e a qualidade da clareza de posições.

 

O Partido Comunista Português é muito diferente do Bloco de Esquerda, é um facto, e essas diferenças, sobretudo as formais, são significativas. O formalismo, como sempre, é como um espelho revelador da consistência ideológica, da integridade e de tudo o resto.

Donald Trump e a rede de estereótipos

por Amato, em 05.05.16

Todos os “enviados especiais” e todos os “comentadores especializados em política internacional” concordam e afinam as suas opiniões sobre o assunto do momento: Donald Trump. Não existe uma ideia que introduza uma dissonância na harmonia previamente estabelecida: Trump é uma surpresa, Trump é um fanático não representativo da multiculturalidade americana e dos valores daquele país e, indubitavelmente, perderá mais cedo ou mais tarde.

 

A natureza das surpresas radica frequentemente nos quadros mentais de que dispomos para lermos e interpretarmos a realidade que nos rodeia. Quando esse quadro intelectual não é mais do que uma rede de estereótipos, então fica difícil observar com nitidez, fica difícil estabelecer relações um pouco mais complexas, estabelecendo-se, deste modo, um terreno fértil para sermos constantemente surpreendidos ainda que pelos acontecimentos mais triviais.

 

É exatamente isso que sucede com Donald Trump e com as análises que dele são feitas. É que os Estados Unidos da América constituem um país muito grande, um país de cinquenta estados, qualquer um dos quais maior do que um país europeu médio, todos diferentes entre si, com populações também muito diferentes. O que se poderá dizer a respeito disto a partir de um quartinho de hotel de Nova Iorque? Ou, pior, o que se poderá deduzir a este propósito a partir do que é dito por quem esteve hospedado no tal quartinho de hotel nova iorquino?

 

Diga-se o que se quiser, a América é a propaganda que dela é feita, é o estereótipo, já centenário, que é cuidadosamente construído em cada filme de Hollywood, em cada episódio de série exportada, em cada lugar comum, para os quais todos — os subordinados ao capitalismo — contribuímos.

 

E assim, da noite para o dia, o fenómeno Trump apanha-nos de surpresa aparvalhada. “Como é que a América dos imigrantes, da liberdade e das oportunidades aceita um tipo destes?”, perguntamos.

 

Mas a América não é só isso. A América da liberdade também é a América que tão tarde aboliu a escravatura e que até assistiu a uma guerra civil por esse motivo. A América também é o país das armas de fogo indiscriminadas e da pena de morte. A América dos imigrantes também é também a América da xenofobia, do racismo e da ku klux klan. A América das oportunidades também é a América da falta de solidariedade inerente à economia liberal de competição desenfreada. A América das oportunidades também é a América das desigualdades profundas e das classes socioeconómicas.

 

Isto mesmo seria possível vislumbrar desde a janela daquele quartinho de hotel de Nova Iorque, assim o enviado especial da TV ou da agência de notícias dobrasse o pescoço para o outro lado, deixasse o olhar fugir dos arranha-céus cinzentos de Nova Iorque. Logo ali, a seguir ao Rio Hudson, veria os guetos de Newark, em Nova Jersey. Também eles são a América. Também eles contêm americanos.

 

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Como explicar o fenómeno Trump, então? Não precisa de explicação. Trump corporiza o ideal, o famigerado “sonho americano”, o modo de vida, um certo modo de compreender o mundo que tem tanto de sedutor quanto de ignorante. A pergunta certa não será “Como é que Trump está a ganhar?”, mas antes “Como é que Trump poderá perder?”, pois onde se sustentaria a indústria de propaganda de Hollywood se não nos ombros de Trump, ou de figura semelhante? Trump é a América por ora e, pelo menos, até ao dia em que os americanos decidam que o seu país deva ser alicerçado em princípios filosóficos muito diferentes daqueles que os têm governado. Enfrente-se a coisa de frente para lá da rede de preconceitos ocos que turvam a nossa visão sobre a América e sobre os americanos e, então, poderemos produzir opiniões lúcidas sobre o fenómeno Trump e antecipar as constantes surpresas.

 

Alguma coisa do que escrevi encontra-se por aí, distribuída por aí, entre páginas de livros e pedaços de filme. Não está nas primeiras páginas, mas vem ao de cima nas entrelinhas. Está n' As Vinhas da Ira e está nos Gangues de Nova Iorque, por exemplo, mas nem a isso os nossos enviados especiais e comentadores tiveram acesso ou tiveram a capacidade de interiorizar.

Regresso a uma espécie de normalidade

por Amato, em 17.03.16

Parece que amanhã o Presidente da República recém eleito promulgará o retorno dos dois feriados nacionais de caráter de Estado, a saber: o Cinco de Outubro, dia da Implantação da República, e o Um de Dezembro, dia da Restauração da Independência. Para além destes, também os dois feriados religiosos, o Corpo de Deus e o dia de Todos os Santos, voltam, como que a reboque dos primeiros.

 

O ato não é mais do que simbólico, mas dizer-se simbólico não é dizer algo de somenos. Parece que se respira uma certa retoma de normalidade.

 

Parece que com a retirada dos feriados, flagelávamos um pouco da nossa identidade coletiva e fazíamo-lo em nome de interesses externos. A retirada dos feriados era como um castigo que se aplica a um menino da escola primária, servindo apenas para nos fazer ver que a culpa da situação era somente nossa e que a partir daí teríamos de melhorar o comportamento.

 

Com a reintrodução dos feriados, dá impressão de que este paternalismo político de natureza profundamente hipócrita e mentecapta aliviou um pouco. Dá a impressão de um retomar, ainda que tímido, do caminho, enquanto povo com identidade própria que é aquilo que é e não aquilo que os outros querem que seja. Dá impressão que retornámos a uma espécie de normalidade.

O que ambicionamos ser, como desejamos que nos vejam...

por Amato, em 13.10.14
“Most people are other people. Their thoughts are someone else's opinions, their lives a mimicry, their passions a quotation.”
― Oscar Wilde

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