Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

O PAN, a ecologia e a sociedade

por Amato, em 08.06.19

Nas últimas eleições europeias, cento e sessenta e oito mil e quinhentas e uma pessoas decidiram entregar o seu voto ao PAN, o partido chamado Pessoas-Animais-Natureza. Esta expressiva votação terá sido uma mistura entre o voto de protesto, tão costumeiro por altura das europeias, e o consubstanciar da moda do momento que são as alterações climáticas e as preocupações ambientalistas. No PAN, porém, a palavra natureza parece ser secundarizada relativamente à palavra animais e não se trata apenas duma questão de ordem na posição na sigla do partido, uma vez que a palavra pessoas, que aparece primeiro, não parece constar, nem vestigialmente, das preocupações do PAN. É, sobretudo, uma questão de prática e de prática populista.

 

O PAN procura, desde sempre, apelar a uma parte da população urbana, cada vez mais significativa, que vive mais ou menos isolada nos seus apartamentos, e que valoriza de forma exagerada, pouco saudável, a importância da companhia dos seus animais de estimação. Em regra antissociais, muitas vezes desligados da realidade que os rodeia, estas pessoas — que todos nós sabemos identificar — operam sobre os seus cães, gatos e outros uma espécie de humanização forçada, uma “gentificação” grotesca e este partido, o PAN, aproveita-se disto mesmo para medrar e crescer eleitoralmente através de propostas que, por muito irrealistas que sejam, vão de encontro a este eleitorado. Permitir que animais de estimação acedam a restaurantes, a título de exemplo, parece ser um descarado ataque aos padrões mínimos de higiene e salubridade que estruturam a sociedade moderna e que foram tão difíceis de implementar. Mas o PAN corporiza esta aparente erosão de bom senso daquela parte da sociedade que não percebe como nos empurra coletivamente com medidas como esta para as sociedades medievais de promiscuidade entre pessoas e animais.

 

Revelando-se arguto em todo este processo, os dirigentes do PAN não se arriscam a falar muito. Não se alongam nos discursos e nos problemas. Inteligentemente, agarram-se a uma ou duas palavras de ordem e não se comprometem politicamente. Com efeito, em quatro anos de mandato no parlamento português, não se conhece muito acerca do que o PAN e o seu deputado — que acho que é também líder ou porta-voz —, André Silva, pensa sobre o que quer que seja que não seja touradas ou afins.

 

Agora que o PAN vai para o Parlamento Europeu, começa-se a destapar um pouco do véu que o tem envolvido politicamente. Muitas mulheres, por exemplo, que votaram no PAN por causa dos seus Bolinhas, Snoopy ou Rex, têm, por ora, os seus cabelos em pé quando descobriram, pelos jornais, que o PAN quer pô-las a usar copos menstruais em vez dos habituais pensos e tampões. Diz André Silva: “Financeiramente, [o copo menstrual] é mais vantajoso, responde a uma necessidade cíclica feminina e minimiza os danos sobre o planeta”. Não, não responde. Qualquer mulher que tenha um mínimo de padrões de higiene e limpeza dir-lhe-á isso mesmo. Mas para as mulheres que não se acreditam no que escrevo há uma boa solução: experimentem o copo vaginal. É que só experimentarão uma vez. E essa vez que seja ao fim-de-semana, que é para não serem obrigadas a abandonar os trabalhos.

 

Há também as faturas em restaurantes de luxo que servem carne e peixe de categoria, mas isso é entrar numa área que não considero tão interessante. O que me interessa falar é sobre a parte ideológica do PAN. O problema da ecologia e dos perigos que ameaçam a sustentabilidade do nosso planeta não se reduz aos animais, nem se resolve com medidas particulares como copos menstruais. Pelo contrário, os problemas que nos afetam são problemas de fundo, são problemas estruturais que envolvem a organização das nossas sociedades, mas também do ponto de vista económico, e o nosso modo de vida que nos é incutido desde o berço. É irrealista, demagogo e populista pensar que a sobreprodução alimentar, a sobreprodução de plásticos, de bens, a hiperbolização do consumo, transversal em toda a sociedade, e a consequente produção estratosférica de resíduos, quantidades impossíveis de tratar e que vão poluir os nossos rios, mares, os solos e a atmosfera, possam ser controlados através da imposição de hábitos de reciclagem ou da utilização de sacos de papel ou copos menstruais.

 

Um partido ambientalista que seja sério tem, portanto, que tomar posição sobre estas matérias da organização social e económica do país. Porque se o capitalismo se baseia na sobreprodução e no incentivo ao consumo, se essa é a natureza desse sistema, então um partido ecologista tem que ser capaz de rejeitá-lo e de se assumir como antissistema e anticapitalista. Não o fazendo, reduzir-se-á a um partido demagogo e populista que acabará com o fim das febres mediáticas ambientalistas, com o fim das causas de algibeira ou com uma qualquer revelação de faturas em restaurantes de luxo de peixe ou de carne.

 

Mas também isto, de facto, vai de encontro ao eleitorado que vota PAN. O PAN oferece aos seus eleitores um voto livre de responsabilidade, livre de verdadeiras escolhas e repleto de boas e vãs intenções. Por isso mesmo dizia, no princípio deste texto, que o voto no PAN era uma mistura que incluía o voto de protesto, manifestação — acrescento — de uma sociedade repleta de perfeitos incapazes de exercer a cidadania e a democracia, através da educação, da cultura, da participação política e do voto. Em concordância, observe-se aquela tentativa aberrante de pôr os cidadãos a votar a partir dos dezasseis anos de idade. Só por ignorância, ou para tentar capitalizar politicamente dessa mesma ignorância, é que se pode propor algo tão surreal.

 

Neste sentido, mais do que a eleição de André Silva, há quatro anos, para o Parlamento português que, como disse, pouco ou nada acrescentou ao nosso conhecimento da ideologia do PAN, a eleição de um eurodeputado para o Parlamento Europeu tem uma vantagem imediata: vamos saber de que lado do parlamento e em que cadeira se senta esse parlamentar. Sentar-se-á à direita ou à esquerda? De que grupo parlamentar europeu fará parte? Mesmo continuando a dizer nada de nada sobre o essencial, poderemos pelo menos ver quem serão os seus amigos na Europa. E, segundo consta, os amigos europeus do PAN não serão os mais aconselháveis...

O PCP e a cultura do miserabilismo político

por Amato, em 26.03.17

Acho que devemos ser exigentes na política, sobretudo nas áreas de que somos mais próximos. Percebo todos aqueles que assobiam para o ar e que preferem não apontar o dedo ao que é óbvio. Entendo bem. A política é uma batalha de ideais e as críticas devem-se reservar para os momentos de reflexão interna para não dar armas ao adversário. Tudo isto é verdade, mas tudo isto é inútil e contraproducente quando parece que se perde a razão ou o sentido das coisas. Repito: devemos ser ainda mais exigentes com o que nos é querido, precisamente porque para o que nos é querido queremos o melhor.

 

Há uns tempos, aquando da recondução de Jerónimo de Sousa no PCP, escrevi um artigo criticando a opção que, aos meus olhos, pareceu inconcebível. Volvidos alguns meses, todas as razões que fundamentaram a minha opinião permanecem intactas. O PCP escolheu reconduzir um secretário geral que se apresenta demasiadamente cansado e velho, que repete um discurso gasto, pejado de graçolas que já não têm graça nenhuma, uma presença infeliz e lastimável em todos os palcos que pisa, de onde se destaca negativamente o parlamento.

 

Malogradamente, esta lamentável condição do líder do PCP estende-se, quase que por contágio, a quase todos os parlamentares e políticos que representam o partido. Não sendo, muitos deles, demasiadamente velhos, a verdade é que o seu discurso parece ser escrito pela mesma pena, tamanha é a coleção de palavras comuns a todos eles. Não é isto de somenos, visto estarmos a falar da riquíssima língua de Camões, repleta de palavras sinónimas e de diferentes recursos estilísticos. Não obstante, desde os mais novos até aos mais velhos, parece que os papéis que leem são cópias de um mesmo original e o que dizem parece ter sido decorado numa espécie de ladainha de uma qualquer agregação religiosa. Novamente, entendo perfeitamente que alguma organização é necessária nestas matérias e que também é importante falar-se a uma só voz, mas isto... é demais. Todos os limites da decência intelectual são ultrapassados.

 

Enquanto que o Bloco de Esquerda, mesmo ali ao lado, exibe eloquentes vozes, discursos bem preparados e apelativos, parlamentares bem-apessoados, o PCP parece abdicar por completo dessa potencialidade fundamental no processo comunicacional. Ao fazê-lo de forma tão convicta, cria uma espécie de um culto do miserabilismo político, um culto do coitadinho. O PCP perde todos os debates? Não há problema, trata-se de um partido muito honesto, incapaz de passar a sua mensagem, mas honesto. As pessoas mudam de canal quando um comunista começa a falar? Não há problema, há de cair uma luz qualquer que as fará ouvir o que se tem para dizer.

 

Não interessa que o Bloco de Esquerda seja a conglomeração política mais incerta que existe em Portugal. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. O Partido Comunista Português devia começar a olhar-se ao espelho e ver bem a figura que tem e a imagem que transmite.

 

Escrevo estas palavras motivado pelo conhecimento que tive de alguns dos candidatos do PCP a algumas das maiores autarquias da região do Porto. Ilda Figueiredo, por exemplo, é a candidata à Câmara Municipal do Porto. Ilda surge na mesma lógica da recondução de Jerónimo de Sousa: é uma figura histórica, de valor incomensurável para o PCP, mas com evidente falta de energia para tamanhas responsabilidades que o cargo exige. Mas por toda a região do grande Porto, os exemplos sucedem-se. Fosse esta situação o resultado da falta de quadros válidos e eu não estaria a escrever estas linhas. O problema é outro e é muito mais grave. É esta cultura de miserabilismo político, este fechamento interno, esta filosofia de seita religiosa, de organização piramidal, esta relação de pastor com as suas ovelhas.

 

Custa-me muito escrever estas palavras, mas acho que já chega de me tomarem por parvo, a mim e a tantos como eu, progressistas, marxistas, intelectuais altruístas sem qualquer interesse pessoal na política que não seja o de servir a comunidade.

 

Quando o PCP não faz do povo parvo, como por exemplo com Bernardino Soares em Loures, o povo responde afirmativamente. Quando o PCP começa a jogar o jogo do coitadinho, o povo responde de acordo, sempre. Esta parece ser uma lição difícil de aprender para o Partido Comunista Português.

O que a palavra escrita denuncia

por Amato, em 23.08.16

Já sei que as palavras que se seguem serão, para muitos, de difícil leitura, mas este não é um espaço semelhante a muitos dos que se destacam no universo da blogosfera. Bem entendido, o Porto de Amato não busca, em nenhum momento, aprovação das massas ou popularidade. O Porto de Amato é um espaço de opinião o mais honesta e transparente que consegue ser dentro dos próprios limites do ser humano que nele escreve. O Porto de Amato não faz fretes, critica o que entende criticar e o que considera ajustado e equilibrado que se critique no estrito contexto das fronteiras do bom senso e mesmo quando os alvos da crítica possam ser considerados pelo público como de algum modo inimputáveis por estarem do lado do politicamente correto.

 

Ontem li a entrevista de Catarina Martins, a líder do Bloco de Esquerda, ao Público. Ao contrário do que se possa imaginar, pondero sempre dez vezes — por todas as razões — antes de publicar alguma coisa potencialmente negativa sobre o Bloco de Esquerda.

 

Identificando-me genericamente com aquilo que o Bloco defende — genericamente, porque a indefinição ideológica congénita deste partido não permite uma adjetivação mais concreta —, a verdade é que o Bloco apresenta uma série de vícios de estilo que muito me desagradam. O discurso dos seus dirigentes é, em geral, redondo, pouco concreto, misturando um idealismo inocente — que por ser programado perde a genuinidade — com uma série de afirmações fortes, pouco ponderadas. O Bloco de Esquerda é o partido do diagnóstico da situação, mas quando se pergunta a legítima pergunta do “O que fazer?” ou “Que alternativa propõem?”, a coisa começa a andar em círculos e volta ao diagnóstico que, realmente, é perfeito e com o qual todo o universo da esquerda política concorda.

 

Catarina Martins é o exemplo máximo disto que escrevi. A resposta que dá quando questionada sobre o Syriza é paradigmática. O Syriza não é algo que possa ser chutado para canto ou facilmente descartável. Pelo contrário, o Syriza é uma constante e soberana oportunidade de clarificação ideológica do Bloco, porque é o pretexto ideal para se responder às perguntas anteriores “O que fazer?”, “Qual é a alternativa?”, mas Catarina volta ao diagnóstico, renega o até agora partido-irmão e aponta os pecados da sua ação. Mas isso é fácil. Repito: o que faria o Bloco se acaso estivesse no lugar do Syriza? A essa pergunta Catarina não responde. Nem pode. Não sabe. O Bloco de Esquerda apenas sabe o que não quer. O que quer, não sabe. O que quer será improviso. E se o improviso não resultar, então, tal como o Syriza na Grécia, quererá o que hoje não quer.

 

Acresce a pertinente questão de personalidade que concorre com o que já foi dito a respeito do que é ideológico. Sempre que ouço Catarina Martins soa-me a ensaiado, soa-me a forçado. Catarina Martins não fala, declama, e não há nenhuma palavra que diga que não tenha sido previamente pensada ou preparada teatralmente ao pormenor.

 

“Arrependo-me todos os dias [da coligação parlamentar]” é, talvez, o apogeu do seu discurso teatral último. É que não é autêntico, é que não é genuíno! Faz lembrar o “I regret every day” dito por Joe Biden a propósito da sua decisão de não ter entrado na corrida à Casa Branca, mas que também pode ser encontrado em alguma página de cada romance de cordel americanizado. A intenção é humanizar quem o diz mas soa a forçado e a falso, sobretudo quando se lê as linhas que se seguem na entrevista. Dá vontade de perguntar: mas então porque é que se arrepende? Porquê? Todos os dias? Porquê?!

 

Claro que isto, admito-o, tem muito de subjetivo e de pessoal. Todavia, parece-me tão evidente que considero espantoso que mais gente não se sinta do mesmo modo. E é surpreendente perceber nas palavras escritas da entrevista de Catarina Martins ao Público precisamente o mesmo grau de teatralidade. Catarina não é genuína nem fala do coração e isso ouve-se, mas mais do que sob a oralidade, denuncia-se sobremaneira pela palavra escrita. Não sendo, porém, valorizado por quem vota, é um traço que, por ventura, adequa-a mais ao meio onde se movimenta.

O formalismo é revelador

por Amato, em 06.07.16

Agora, a realidade com que nos confrontamos é que o país está sob chantagem do diretório europeu e isso exige firmeza, clareza de posições, e uma grande unidade das forças progressistas na defesa da soberania e dos interesses nacionais. Para isso, cá estamos, e todos não somos demais.

— António Filipe, in Diário de Notícias

 

Nem mais. O artigo de António Filipe de hoje sistematiza tudo o que há para dizer sobre o Bloco de Esquerda e sobre a sua conduta, da qual a patética proposta de referendo é apenas o último sound bite.

 

Muito do que é dito por António Filipe converge com o que já foi escrito aqui. Fica bem clara a diferença de atitude entre os partidos, a sua visão relativa ao respeito pela lei e a sua responsabilidade pública. Fica bem clara a diferença de posturas e a qualidade da clareza de posições.

 

O Partido Comunista Português é muito diferente do Bloco de Esquerda, é um facto, e essas diferenças, sobretudo as formais, são significativas. O formalismo, como sempre, é como um espelho revelador da consistência ideológica, da integridade e de tudo o resto.

Donald Trump e a rede de estereótipos

por Amato, em 05.05.16

Todos os “enviados especiais” e todos os “comentadores especializados em política internacional” concordam e afinam as suas opiniões sobre o assunto do momento: Donald Trump. Não existe uma ideia que introduza uma dissonância na harmonia previamente estabelecida: Trump é uma surpresa, Trump é um fanático não representativo da multiculturalidade americana e dos valores daquele país e, indubitavelmente, perderá mais cedo ou mais tarde.

 

A natureza das surpresas radica frequentemente nos quadros mentais de que dispomos para lermos e interpretarmos a realidade que nos rodeia. Quando esse quadro intelectual não é mais do que uma rede de estereótipos, então fica difícil observar com nitidez, fica difícil estabelecer relações um pouco mais complexas, estabelecendo-se, deste modo, um terreno fértil para sermos constantemente surpreendidos ainda que pelos acontecimentos mais triviais.

 

É exatamente isso que sucede com Donald Trump e com as análises que dele são feitas. É que os Estados Unidos da América constituem um país muito grande, um país de cinquenta estados, qualquer um dos quais maior do que um país europeu médio, todos diferentes entre si, com populações também muito diferentes. O que se poderá dizer a respeito disto a partir de um quartinho de hotel de Nova Iorque? Ou, pior, o que se poderá deduzir a este propósito a partir do que é dito por quem esteve hospedado no tal quartinho de hotel nova iorquino?

 

Diga-se o que se quiser, a América é a propaganda que dela é feita, é o estereótipo, já centenário, que é cuidadosamente construído em cada filme de Hollywood, em cada episódio de série exportada, em cada lugar comum, para os quais todos — os subordinados ao capitalismo — contribuímos.

 

E assim, da noite para o dia, o fenómeno Trump apanha-nos de surpresa aparvalhada. “Como é que a América dos imigrantes, da liberdade e das oportunidades aceita um tipo destes?”, perguntamos.

 

Mas a América não é só isso. A América da liberdade também é a América que tão tarde aboliu a escravatura e que até assistiu a uma guerra civil por esse motivo. A América também é o país das armas de fogo indiscriminadas e da pena de morte. A América dos imigrantes também é também a América da xenofobia, do racismo e da ku klux klan. A América das oportunidades também é a América da falta de solidariedade inerente à economia liberal de competição desenfreada. A América das oportunidades também é a América das desigualdades profundas e das classes socioeconómicas.

 

Isto mesmo seria possível vislumbrar desde a janela daquele quartinho de hotel de Nova Iorque, assim o enviado especial da TV ou da agência de notícias dobrasse o pescoço para o outro lado, deixasse o olhar fugir dos arranha-céus cinzentos de Nova Iorque. Logo ali, a seguir ao Rio Hudson, veria os guetos de Newark, em Nova Jersey. Também eles são a América. Também eles contêm americanos.

 

http://hmstummer.com/wp-content/uploads/2014/01/Binder14_File23_08.19.2000_Frame15.jpg

 

Como explicar o fenómeno Trump, então? Não precisa de explicação. Trump corporiza o ideal, o famigerado “sonho americano”, o modo de vida, um certo modo de compreender o mundo que tem tanto de sedutor quanto de ignorante. A pergunta certa não será “Como é que Trump está a ganhar?”, mas antes “Como é que Trump poderá perder?”, pois onde se sustentaria a indústria de propaganda de Hollywood se não nos ombros de Trump, ou de figura semelhante? Trump é a América por ora e, pelo menos, até ao dia em que os americanos decidam que o seu país deva ser alicerçado em princípios filosóficos muito diferentes daqueles que os têm governado. Enfrente-se a coisa de frente para lá da rede de preconceitos ocos que turvam a nossa visão sobre a América e sobre os americanos e, então, poderemos produzir opiniões lúcidas sobre o fenómeno Trump e antecipar as constantes surpresas.

 

Alguma coisa do que escrevi encontra-se por aí, distribuída por aí, entre páginas de livros e pedaços de filme. Não está nas primeiras páginas, mas vem ao de cima nas entrelinhas. Está n' As Vinhas da Ira e está nos Gangues de Nova Iorque, por exemplo, mas nem a isso os nossos enviados especiais e comentadores tiveram acesso ou tiveram a capacidade de interiorizar.

Ser grande

por Amato, em 14.11.14
Quem não for capaz de defender uma ideia com a sua própria vida, a força do seu braço, o correr do seu sangue, não está à altura dessa mesma ideia.”
— Thomas Mann, A Montanha Mágica

Sobre as eleições internas no PS. Sobre o País

por Amato, em 03.10.14

Gosto deste tipo de acontecimentos. Gosto mesmo. Não por se assumirem como “reformistas” de uma sociedade ou por se constituírem como “fraturantes” no seio de um qualquer conjunto de valores, hábitos ou procedimentos, frequentemente adjetivados de “cristalizados”. Também não tem que ver com uma suposta abertura dos partidos políticos, entidades reais e concretas, à chamada “sociedade civil”, entidade de todo em todo abstrata e que, ao colo da sua abstração, tem o condão de a tudo e a todos poder representar, não representado, portanto, coisa nenhuma.

 

Gosto deste tipo de acontecimentos por nenhuma das razões anteriores, antes de mais, porque nenhuma delas é justificada. Não obstante, às eleições internas do PS são atribuídas estas e demais virtudes, mas efetivamente, não são mais do que bandeiras agitadas com fervor, com o sentido de esconder em seu desfraldar frenético o circo de vaidades, o vazio de debate político ou de contraditório ideológico.

 

Existe um único aspeto revolucionário a creditar estas eleições internas: a porta que se abriu, escancarada, a uma subespécie portuguesa de política “reality TV” que, tal como as congéneres televisivas, oferece uma ilusão de realidade, de contacto popular, de escolha e de decisão, quando, em verdade, tudo quanto se assume de importante se encontra já decidido nos bastidores. A escolha do carrasco político dessas decisões, essa, é que é tomada de acordo com os níveis de histeria popular.

 

Mas então, porque razão gosto tanto deste género de acontecimentos? Gosto da sua natureza reveladora. Estes acontecimentos são espelho do que é o partido político em causa, o que para mim não poderia ser mais irrelevante, mas sobretudo de que massa é constituída esta sociedade por onde caminhamos. São espelhos limpos de toda e qualquer sujidade, excetuando aquela que nos mostram, e refletem de forma nítida o povo que somos, o que escolhemos, o que achamos bem, em suma, aquela que é a nossa vontade coletiva.

 

Sobre o processo que nos conduziu a este ponto nada direi, exceto que não é algo de novo. Atrevo-me apenas a relembrar que a esmagadora maioria dos chefes de estado que no nosso país democrático ascenderam ao poder, no plano interno dos seus partidos, o fizeram esfolando a “lebre” que havia entretido o governo enquanto oposição. Em vez de “lebre” leia-se “o anterior líder de partido”. Não serve o facto de intencional desculpa. Antes, mostra que a falta de caráter faz parte dos pré-requisitos para se ser escolhido pelo povo.

 

Só que perante o facto repetido uma nova solução foi gerada abrindo, teoricamente, a todo o país a escolha do novo líder. Só que essa escolha não foi nada mais nada menos do que a escolha de uma imagem. Não foram colocadas em disputa diferentes ideias ou de projetos, na medida em que ambos estariam condicionados às diretivas extraídas de um congresso a realizar posteriormente. O que sobra, então? A imagem, os trejeitos, o corte do fato, a seriedade da face ou o olhar cativante e inspirador de confiança. O povo, pelo menos o do PS, submeteu-se a este género de escolha, a este processo ilusório chamado de eleições internas. E submeteu-se efusivamente, levantando-se como molas dinâmicas do conforto dos seus sofás! Mas mesmo que tivesse sido de forma diferente, isto é, que os candidatos que se apresentaram tivessem mais para oferecer para além de uma imagética e de uma dialética baratas, ainda assim, isso apenas se traduziria na assunção cabal de que certos partidos políticos se tornaram, há já algum tempo, em meras plataformas de movimentação de interesses e de ascensão social, varridos de qualquer vestígio de ideologia.

 

Este acontecimento diz muito acerca do nosso conceito de democracia. Diz mais do que o suficiente. E os mesmos que acorreram a participar do processo, escolhendo entre dois antónios, o primeiro o decalque perfeito do segundo, são precisamente os mesmos que normalmente respondem “são todos iguais”.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Amato

foto do autor

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D

Mensagens