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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Este governo é um logro

por Amato, em 02.09.18

Este governo é um logro. Aceitem o facto. Dormirão melhor, logo à noite, se o fizerem. Nada é sincero. Nada é franco. Nada é honesto.

 

A última novidade já nem foi capaz de produzir em mim vestígio de indignação. Pelo contrário, serviu de pretexto para uma boa barriga de risadas. No final da semana, anuncia-se entusiasticamente que se pretende fazer retornar os nossos emigrantes através de uma redução ao nível do IRS. A medida, patética à partida, porque apenas um débil mental pode imaginar a existência de um emigrante que seja que volte ao nosso país por causa de um alívio tópico no imposto, nem foi capaz de se sustentar por mais que um dia! No dia seguinte, com efeito, os jornais gritaram em uníssono que tal medida era pior do que o regime fiscal para estrangeiros que já existe.

 

O que dizer disto?

 

Relembremos as cativações orçamentais que representam evidentes engodos aos orçamentos de estado, e suas intenções, apresentados e negociados no parlamento.

 

Relembremos as promessas sobre as carreiras dos professores, feitas apenas para ludibriar por mais um ano os sindicatos e os parceiros parlamentares e não para serem cumpridas.

 

Relembremos a proposta das reformas antecipadas, um autêntico escárnio sobre quem trabalha e sobre a realidade do mercado de trabalho contemporâneo e que não afetará, seguramente, mais que uma mão cheia de cidadãos.

 

Relembremos o que dizia Mário Centeno há quatro anos e o que diz agora, enquanto presidente do eurogrupo.

 

É isto. Nada é sincero. Nada é franco. Nada é honesto.

 

Olhemos em nosso redor para o que é concreto e para o que é palpável: carga fiscal e mercado laboral idênticos aos tempos da troika. O povo que trabalha concordará se tiver os olhos abertos. Em quatro anos, vê o seu salário igual, inalterado, congelado. Em quatro anos, vê os preços dos produtos, da alimentação, da gasolina, da renda de casa, muitíssimo mais caros. O resto é propaganda.

 

Este governo é um logro.

A proeza deste governo

por Amato, em 09.07.18

Nestes anos de geringonça, o PS conseguiu a proeza de enganar o PCP e o BE de inúmeras formas no contexto do reduzido e muito limitado entendimento que estabeleceram entre si.

 

Depois das cativações nos sucessivos orçamentos de estado, que representaram políticas de investimento ainda mais conservadoras do que no tempo do governo PSD-CDS; depois das inúmeras promessas feitas aos sindicatos da função pública que foram quebradas a posteriori; depois de uma legislatura inteira com uma componente fiscal pelo menos tão pesada como nos tempos do ajustamento, quebrando o compromisso geral estabelecido de desenvolver políticas contra a austeridade; depois destas e de outras patifarias, chega-nos agora a notícia que nos dá conta da triste realidade de que a redução do horário de trabalho na função pública para 35 horas foi toda feita à custa da deterioração dos serviços por escassez grosseira de pessoal.

 

Traídos de tantas formas e feitios, não sei a que é que PCP e BE ainda se agarram para continuarem a manter a sua parte deste acordo, um acordo que sustenta um governo de gente tão desonesta capaz de dizer uma coisa pelas frentes e de fazer o seu oposto pelas costas. Não sei. O que sei é que o que quer que seja feito agora será sempre demasiado pouco e demasiado tarde. PCP e BE não deram apenas um governo ao PS. Deram-lhe também carta branca para governar, de facto, à direita e uma oportunidade para limpar a sua imagem política.

O cúmulo da desonestidade política

por Amato, em 09.10.17

Em julho deste ano, portanto há cerca de três meses, a oposição venezuelana convocou ilegalmente um referendo popular que visava colocar em causa a legitimidade política de um governo reiteradamente eleito de forma democrática. O referendo em causa, todavia não seguindo os pressupostos legais, não teve qualquer oposição por parte do estado venezuelano e pôde decorrer com a normalidade possível. Não obstante terem sido violados variados princípios éticos na organização do referendo — as televisões mostravam pessoas a votar nas ruas e sem confidencialidade garantida, por exemplo —, os seus resultados esmagadores contra o governo venezuelano tiveram um eco fenomenal em toda a Europa, particularmente em Portugal e em Espanha.

 

Em síntese, os resultados de um referendo ilegal, mal aplicado, violando princípios básicos de qualquer sistema democrático, foram recebidos com êxtase pelo mundo ocidental e serviram para exigir a demissão a um governo democraticamente eleito, bem como a convocação de eleições antecipadas. Antes de prosseguir, é bom deixar isto bem claro.

 

Volvidos menos de três meses, a Catalunha convocou um referendo sobre a sua independência. O referendo foi, como todos tivemos oportunidade de verificar, fortemente reprimido pelo estado espanhol. Ainda assim, o governo catalão encontrou formas hábeis de conseguir consultar o seu povo.

 

É evidente que, devido à inqualificável ação do governo espanhol, tais resultados não serão representativos, nem o referendo dispôs de todas as condições para ser aplicado com transparência e normalidade. Mas o que é estupendo é que as mesmas forças políticas, as portuguesas e as espanholas, que procuraram legitimar o referendo venezuelano e com base neste exigiram a demissão do governo daquele país chamando-o de “ditadura”, entre outros insultos, são agora lestas a descredibilizar o referendo catalão e a apelidá-lo de “ilegal”.

 

A duplicidade de critérios é absolutamente surreal. Estes políticos — é fácil saber quem são — deviam ser simplesmente proibidos de falar e de exercer atividade pública. São uns crápulas. Ontem ouvi alguns naquele programa de debate, o Eurodeputados da RTP. Houve um que até teve coragem de ensaiar uma resposta indignada perante este mesmo facto que foi apontado pelo eurodeputado comunista.

 

Não há vergonha nem há decência. Não devíamos aceitar este tipo de baixeza na política. Ou sim, ou não. Ou a favor, ou contra. Dizer sim nuns casos e não noutros, ser a favor perante um interesse ou um amigo e contra noutra circunstância, não pode ser. É o cúmulo da desonestidade política.

Post scriptum para a entrada anterior

por Amato, em 03.06.16

Ontem à tarde foi votada a lei da reposição das trinta e cinco horas de trabalho para a função publíca. Note-se que o PCP apresentou uma proposta para que o horário de trabalho de trinta e cinco horas fosse estendido a todos os trabalhadores, públicos ou privados, independentemente do tipo de vínculo laboral. Esta proposta foi rejeitada pelo PS. Realço esta nota para calar aquelas vozes que gostam de acusar a esquerda de só querer proteger a função pública.

 

Em jeito de post scriptum para o post anterior, importa sublinhar o voto contra do CDS, o partido da família, da natalidade e dos idosos. Assunção Cristas teve um dia em cheio: de manhã na SIC Notícias a propagandear as cinquenta e tal medidas para salvaguardar os idosos e, de tarde, a votar contra a redução do horário de trabalho semanal.

 

Para o CDS tratar bem dos idosos não é uma questão de tempo, nem de dinheiro. Tratar bem dos idosos é uma questão de heranças...

Sobre a desonestidade intelectual que, como um espesso nevoeiro, envolve a sociedade

por Amato, em 02.06.16

Palavra de honra que não entendo esta sociedade! E que a não aceito e que a não reconheço e que a não suporto!

 

Um partido que teve responsabilidades governamentais repartidas nos últimos quatro anos, que inclusivamente teve a seu cargo a pasta da segurança social e do trabalho, entre outras, vem agora com pacotes de medidas para proteger os idosos e para promover o envelhecimento ativo, isto depois de, há menos de dois meses, ter apresentado também um conjunto de medidas para promover a natalidade. Refiro-me ao CDS, como é óbvio.

 

Não há vergonha na cara — simplesmente não há!

 

Em simultâneo, volvidos seis meses de governação deste governo, o CDS apresentou-se contra toda e qualquer medida de reposição salarial ou de alívio da austeridade. Para o CDS a natalidade é uma questão de humor, de incentivo motivacional, não de dinheiro. Por ventura, é como a sua visão económica: não interessa se o governo anterior quintuplicou a dívida, o que interessa é a confiança dos mercados! Do mesmo modo, não interessa o poder económico das famílias, o que interessa é a sua confiança para procriar e para parir.

 

Quanto aos idosos — é interessante verificar, neste ponto, que o partido dos idosos está de volta depois de lhes ter cortado as reformas — a questão é muito parecida. Neste particular, o CDS persiste em empurrar o problema social para um problema conflitual geracional, colocando o ónus da questão nos “filhos que não tratam bem os pais”. Estes, no entender do CDS, deviam ser privados de receber as heranças a que têm direito, caso o idoso fosse mal tratado em algum sentido. Esta visão da problemática é tão decadente, tão desumana, tão intelectualmente reles, que me vou abster de prosseguir na sua desconstrução, quedando-me no sublinhar do seu caráter absolutamente bizarro.

 

Mas o CDS é exatamente isto. É um partido que, enquanto oposição, alimenta-se dos medos e das revoltas mais primárias que afligem as populações. Não é por acaso que o CDS se diz da democracia cristã. Os seus porta-vozes fazem uso daquelas mesmas cartilhas retrógradas que os padres mais antigos usavam para assustar as populações. É a “extrema esquerda”, são “os comunistas” que “vos vão ao bolso”, quando — a realidade demonstra-o tão bem! — são eles próprios que vão ao bolso do povo para o entregar de mão beijada à banca e à burguesia em geral.

 

Mas a discussão particular é de todo em todo inútil. O CDS não apresentou pacotes de medidas: apresentou pacotes de fogo-de-artifício e foguetes. Se não é assim, então porque razão o seu ministro Mota Soares — o ministro que inicialmente ia de lambreta para o trabalho mas que depois passou a ir de Audi A7 — não tomou em tempo oportuno estas mesmas medidas?

 

Por que não?!

 

Para assinar protocolos e acordos à pressa no último ano de mandato com entidades privadas — incluindo os famigerados contratos de associação com os colégios, mas também todas as privatizações que se fizeram em cima do joelho — houve todo o tempo do mundo, mas pelos vistos, para a natalidade e para a velhice não sobrou tempo nenhum para se legislar.

 

Relativamente a esta situação de contrassenso, que é muito clara para a compreensão de todos, existe toda a cobertura dos jornais e da televisão. Nem há contraditório, nem ética profissional, nem formação especial na BBC ou noutro lado qualquer. Nem uma pergunta! Pelo contrário: Assunção Cristas passeia-se pelos meios de comunicação, concede entrevistas, faz a sua propaganda, com altivez, boa disposição e sentido de propriedade! Ela, afinal, parece que até tem quatro filhos e que cuida muito bem dos seus velhos e tudo! Fazer perguntas para quê?

 

Está na altura de alterarmos o dito popular: “à mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta” está perfeitamente ultrapassado. Devemos passar a dizer: “à mulher de César não é necessário que seja honesta, basta parecer honesta” — do ponto de vista intelectual, bem entendido.

 

É a comunicação social que temos e, inerentemente, é a democracia que temos!

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Amato

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