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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

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Com que subtilezas se reescreve a História

por Amato, em 04.08.20

https://www.les-crises.fr/wp-content/uploads/2015/05/poll-france-nations-contribution-nazis-defeat-1.jpg

image: www.les-crises.fr

 

Escassos dias após o final da segunda grande guerra, perguntou-se ao povo francês qual país tinha dado um maior contributo para a derrota do nazi-fascismo nesse conflito armado. Naquele momento, a União Soviética recolheu 57% dos votos, Estados Unidos da América 20% e Reino Unido 12%, um resultado absolutamente natural. Afinal, os soviéticos foram, de longe, os mais sacrificados durante todo o conflito e os que lideraram, durante a maior parte do tempo sozinhos, a longa contra-ofensiva que viria a derrotar o Terceiro Reich. Sob todos os pontos de vista, a participação do Reino Unido foi reduzida e a dos Estados Unidos vergonhosamente tardia, literalmente a meses do fim da guerra, depois de ter passado o conflito inteiro a engordar a sua economia financiando os esforços de guerra de britânicos e alemães em simultâneo.

 

A mesma pergunta viria a repetir-se mais três vezes, em 1994, 2004 e 2015, e os resultados revelar-se-iam surpreendentes… ou não. As novas gerações, filhas e netas do pós-guerra, vieram a reconhecer os Estados Unidos como os principais responsáveis da derrota de Hitler, com percentagens acima dos 50% (58% em 2004 e 54% em 2015) empurrando a União Soviética para uns desprezáveis 20% (20% em 2004 e 23 % em 2015).

 

Com efeito, a construção da memória histórica é um processo complexo carregado de subtilezas. Uma delas é que são mais importantes os sentimentos, os afetos subjetivos que se desenvolvem relativamente aos acontecimentos e às partes do que propriamente qualquer tipo de análise objetiva sobre estes e estas. Não é que tenhamos acabado de descobrir a pólvora, nem de perto, nem de longe. Não é por acaso que se diz que a História é escrita pelos vencedores das guerras e que estes, de facto, sempre se empenharam, sempre tudo investiram, desde que há memória, em processos duais de auto-glorificação, por um lado, e de demonização dos derrotados, por outro.

 

A atualidade mostra-nos um esplendor jamais visto, no que à arte e à técnica diz respeito, dessa verdadeira ciência social chamada de propaganda que influencia, com incontestável eficácia, as mentes, as reações e os sentimentos das massas. Durante décadas, Hollywood trabalhou com afinco, produzindo muitos mais filmes contra o comunismo do que contra o nazismo, e os Estados Unidos, os plenos vencedores da guerra ideológica travada ao longo do século XX, entre capitalismo e comunismo, recolhem agora os resultados do que semearam com as massas, mundo fora genericamente, a dar-lhes o crédito que não tiveram, a validarem o falso, a reconhecerem como verdadeiro o imaginário dos filmes. Não é de estranhar. Os que respondem hoje a este tipo de sondagens são, afinal, os mesmos que acham que os combates do Rocky são acontecimentos históricos e que o Rambo foi um verídico herói de guerra, para dar dois exemplos apenas. São gerações incultas educadas pela televisão e pelos media, incapazes de distinguir a ficção da realidade.

 

Escrevo estas linhas a propósito da fuga de Juan Carlos de Espanha para a República Dominicana com escala em Portugal. Juan Carlos foge do seu passado de promiscuidade com o conservadorismo mais bafiento e violento, convertido, durante décadas, no fascismo de Franco, das suas íntimas relações com a monstruosa monarquia saudita e outras coisas que tais com o condão de apoquentar a opinião pública face ao seu filho, o virginal e impoluto Felipe VI de Espanha. Acabei de poetizar a coisa, eu sei, mas não resisti. O antigo monarca foge, ao que consta, para não vir a ser acusado de crimes concretos de lesa-estado.

 

Por toda a parte, Juan Carlos é apresentado como uma figura ímpar, uma espécie de herói com uns certos vícios, de algum modo inadaptado à contemporaneidade, mas com feitos assinaláveis na construção da Espanha contemporânea. Um jornal apresenta-o na primeira página como “o rei que enterrou o franquismo”, uma ideia que já havia lido, ficcionada, no último romance de Dan Brown, A Origem.

 

A verdade é coisa que não interessa muito para o caso. Se a narrativa mediática for repetida vezes suficientes, então ela tomará naturalmente o lugar da verdade para a esmagadora maioria das pessoas nas gerações que virão. Hoje, ainda há muitos espanhóis, republicanos, que sabem bem qual foi o papel de Juan Carlos na história de Espanha, durante a guerra civil, durante a ditadura, e que se recusam, por isso mesmo, a prestar vassalagem à monarquia espanhola. Estes, serão os únicos e derradeiros guardiões da verdade. Com o passar dos anos, com o esbatimento dos ideais, dos valores, com a dispersão populacional e o seu desenraizamento progressivo, a sua instrução enviezada e a sua falta de exigência, a verdade tenderá a perder-se e até a desaparecer das notas de rodapé dos livros de História laudatórios do poder. E é precisamente deste modo que se procede à reescrita da história.

A deusa

por Amato, em 24.07.20

Ontem fui ao Pireu com Gláucon, filho de Aríston, a fim de dirigir as minhas preces à deusa e, ao mesmo tempo, com o desejo de ver de que maneira celebravam a festa (...)

— A República, início do Livro I, Platão

 

As derradeiras semanas do ano político de 2019-2020 trouxeram consigo o anúncio de mais um dos milagres da deífica União Europeia que, omnipresente, preenche cada recanto do nosso espaço político e, omnisciente, controla cada um dos passos que podemos dar. É verdade que esta divindade não preza o valor da novidade, manifestando-se sempre, repetitivamente, do mesmo modo. Os seus sopros sobre a nossa mortal poeira fazem-se sempre nos mesmos moldes, ou seja, através de muitos milhões de milhares de euros. Não há surpresa, nem é preciso. O que faz, faz bem e é eficaz para maravilhar as massas ínscias e admiradas.

 

Para o governo português, o anúncio de nova aparição da deusa nas nossas desgraçadas vidas vem no momento certo. A fé é forte entre nós, mas convém não perder o ânimo, pois a divindade mantém-se, por vezes, tempo demais afastada dos fiéis ou adota em demasia aquela atitude castigadora tão à moda do Antigo Testamento. O milagre era exatamente o que o povo, que se volvia eurocético em demasia, precisava como um bálsamo refrescante e renovador das almas.

 

A deusa é, também, generosa para com os seus presbíteros. António Costa, por exemplo, desesperava por este favor, como de água para matar a sua sede. Foi mais um ano marcado por uma inépcia assustadora para antecipar e lidar com problemas anunciados, mas o governo lá sobreviveu, dançando entre os pingos da chuva, escapando a qualquer responsabilidade, o que parece ser a sua principal “qualidade”. O desgaste, todavia, é real e, não obstante a inexistência de oposição política, começava a notar-se. Quantos meses mais de consultas e cirurgias adiadas, de serviços públicos congelados, de lay-offs e desemprego poderão os portugueses aguentar afinal? Nada como um conjunto alargado de investimentos e obras públicas para mitigar a crise económica em que estamos metidos e ainda não percebemos, injetar dinheiro fresco na economia, cerrar os olhos com força e imaginar que isto tudo se resolve com consumo interno e medidas Keynesianas que, em boa verdade, nunca resultaram em parte nenhuma do globo.

 

Até aqui a história tem muito de belo e de idílico e um viveram felizes para sempre deveria-se-lhe seguir, pelo menos para a maioria de nós, porque quando a coisa rebentar nas nossas caras — e rebentará — contentar-nos-emos com um qualquer bode expiatório para carregar de culpas e sacrificar para mal dos nossos pecados.

 

É fastidioso escrever sobre uma realidade tantas e tantas vezes repetida. Os milagres da deusa revelam-se sempre truques de ilusionismo barato e os seus presentes — quais Cavalos de Troia — provam ser sempre envenenados. Se o passado fosse, para nós, um mestre, a primeira pergunta seria: a troco de quê? Muitos foguetes seriam poupados, muitas garrafas de espumante permaneceriam invioladas, muitas celebrações — perigosas e desaconselhadas em tempos de pandemia — seriam evitadas, fosse essa importante pergunta produzida. Mas não é. E talvez esteja bem assim: para a maioria de nós vale mais festejar em antecipação do que não festejar nunca.

 

Comecemos pelo facto de que, por cada euro dado pela União Europeia, Portugal ter que se endividar para adicionar igual quantia ao investimento. Em tempos em que os juros são praticamente inexistentes, vem-me à memória a velha fábula em forma de poema da aranha que convida a mosca para a sua sala. Endividemo-nos, pois, e rezemos à deusa e aos santos mercados para que estes não se lembrem de, do dia para a noite, começar a cobrar juros incomportáveis para o nosso país. Este filme não é original: é um remake do que vimos em 2011 onde, então, uma crise da dívida seguiu-se a um incentivo, vindo da União Europeia, ao endividamento e ao investimento públicos.

 

O que vem depois também não é inédito. Aliás, todas as dádivas da deusa foram acompanhadas de exigências de fé resoluta, que é como quem diz de renúncia absoluta do nosso livre-arbítrio, da nossa autonomia e soberania. Desta feita, novamente nos subjugamos em toda a linha aos planos económicos da Alemanha — a predileta da deusa, porque não somos todos iguais perante Ela. Chamam-se de “economia verde” e é preciso realmente muita fé para crer que deles brotará, nas nossas praias, qualquer coisa que seja bondosa e sumarenta, pelo menos para nós.

 

Há também o pacote de impostos, de taxas e de taxinhas que se pretende implementar no plano europeu, mas não sei se também serão verdes ou de uma outra cor qualquer. A história repete-se. A União Europeia tem sido muito boa para isto: líderes nacionais incapazes fazerem brilharetes com os seus povos ao mesmo tempo que os enterram em dívidas e vendem as suas almas a troco de uns euros. Seria uma boa altura para os velhos, que já conhecem o filme de cor, chegarem-se à frente e falar. Caso contrário, continuaremos a ser guiados por uma certa juventude para a qual tudo é novo e promissor, tudo é anúncio de um amanhã de esperança. E o ciclo continuará.

 

Se tudo é, então nada é

por Amato, em 02.07.20

No início de uma madrugada igual a tantas outras, entretive o espírito com um poema que me chegou ao olhar. Era um conjunto de frases elegantes, construídas com belas palavras. Falava de amor — claro, o omnipresente amor! —, dois amores, em verdade, que se confundiam: um amor carnal e um amor mais abstrato do que o primeiro, incorpóreo, por ter como objeto de afeição, nada mais, nada menos, que uma cidade. Isso mesmo: dois amores que se misturavam num só numa efervescência de palavras belas.

 

A leitura deste poema produziu em mim aquele sentimento de satisfação incompleta, um certo contentamento imperfeito, tão familiar, tão banal nos dias de hoje. Deem-me um desconto: já sou suficientemente velho para habitar em mim uma permanente impressão de que nada é novo e que tudo são variações mais ou menos descaradas de temas já amplamente tratados no passado.

 

A minha curiosidade prendeu-se, pois, não no conteúdo mas na forma do poema, mais precisamente na ausência de forma ou estrutura, sem métrica ou qualquer tipo de regularidade silábica ou a nível da rima. Aquele poema seria, assim, uma espécie de construção em verso livre. Sim: desta maneira não nos comprometemos e estamos sempre certos.

 

O que é certo é que a coisa fez germinar em mim uma dúvida fundamental: deste modo, sem regularidade que me valesse, sem estrutura para me dar um chão, como poderia eu, um leigo, qualificar o que havia lido como poesia? É que hoje em dia já ninguém escreve sonetos ou odes, ninguém perde tempo a contar sílabas, a acomodar rimas interpoladas ou cruzadas, nem a submeter-se a qualquer tipo de estrutura ou forma. O verso livre é a expressão, na poesia, desta filosofia de liberdade que alcança todas os braços da arte e se liberta com violência das restrições da forma, num culminar de toda uma evolução iniciada desde o Renascimento. Expressões similares encontramos também na pintura, na escultura, no bailado ou na música.

 

Liberdade, liberdade, liberdade! Liberdade! Foi este o caminho.

 

Ou não?

 

O problema é este: se tudo é passível de ser considerado como poesia, se tudo é poesia, se tudo é poema, então… nada é. Pensem nisto.

 

Quase tudo é definido por negação. Sabemos o que as coisas são, não através de uma epifania qualquer que nos bate nos sentidos da alma mas através do que não é. O que não é define o que é. Se tudo é poesia, então nada é poesia, esvazia-se o conceito, deixa de ser relevante a qualificação. Se qualquer sarrabisco numa tela é pintura enquanto arte, então nada é pintura. Se qualquer conjunto aleatório de sons é qualificado como música contemporânea, então até o barulho produzido pelos automóveis na hora de ponta pode ser qualificado como música e, portanto, nada mais é música porque tudo o é. Se qualquer aglomerado de pedras é escultura, então nada mais é, nada mais é escultura. É tudo uma expressão subjetiva da atividade humana de valor relativo às impressões e não à técnica que, mais não é que o domínio da forma que perece, que deixa de existir.

 

A forma é, pois, importante. As regras são importantes. As restrições à liberdade, também na arte, são determinantes para dotar o ser humano de liberdade, precisamente, na criação. A arte mostra-nos como a liberdade sem limites é um método infalível para coartar a própria liberdade, por paradoxal que isto possa soar. Se quisermos matar a criação humana, basta dar-lhe toda a liberdade, destruir as estruturas, matar as formas. Veja-se como é infértil a arte contemporânea, sobrevivendo, envergonhada, sem o assumir, à custa das formas célebres do passado. O verso livre é infértil, assim como as expressões contemporâneas da música, da pintura ou da escultura, perfeitamente incompreendidas por um público sem norte. Porque sem forma, não há arte. Sem restrições à liberdade, não há liberdade. Porque se tudo é, então nada é.

Dia da vitória

por Amato, em 09.05.20

imagem: telegraph.co.uk

imagem: telegraph.co.uk

 

No dia 2 de maio de 1945, após uma longa e heroica contraofensiva, o exército vermelho tomou a capital da Alemanha nazi e hasteou a sua bandeira vermelha do alto do palácio do Reichstag, o parlamento alemão. A Alemanha estava rendida e a total capitulação do nazismo e o fim da guerra estavam iminentes.

 

Uma rendição incondicional viria a ser assinada pelo marechal Keitel entre os dias 8 e 9 de maio. Adolf Hitler já se havia suicidado, encontrado morto com um tiro na cabeça a 30 de abril, aquando do avanço imparável das tropas soviéticas, dois dias depois de Benito Mussulini, o fiel aliado fascista italiano, ter sido executado pelas forças da resistência italiana.

 

O dia de 9 de maio é, pois, celebrado numa parte do mundo como o Dia da Vitória sobre o nazi-fascismo. Na Rússia, por exemplo, de longe o país que mais sofreu com a segunda grande guerra às mãos do nazi-fascismo, hoje é feriado nacional.

 

É importante, todavia, sublinharmos que nem todo o mundo celebra este dia e, por ventura, a sua maior parte não o celebrará. Portugal, por exemplo, não o celebra e duvido que algum meio de comunicação faça menção à data.

 

A reboque das narrativas históricas vindas do ocidente, aflitas por justificar os comportamentos inconsistentes, criminosos e genocidas dos seus estados ao longo da segunda grande guerra, também Portugal prefere deixar a data cair no esquecimento. De que outro modo seria possível, afinal, explicar os bombardeamentos atómicos genocidas sobre Hiroshima e Nagasaki a 6 e 9 de agosto de 1945 ou, até, aquela operação militar desnecessária e sem sentido, que resultou num massacre de soldados aliados, que ficou conhecida como o Desembarque na Normandia ou Dia D a 6 de junho de 1944? Fica difícil.

 

Mas não o fazer, implicaria conceder à Rússia, então União Soviética, um papel determinante no desfecho da guerra que entra em contradição com toda a propaganda produzida no final do século passado. Importa camuflar a realidade. Importa esconder a admiração que os líderes ocidentais sempre nutriram pela Alemanha de Hitler; importa abafar os aplausos e o apoio concedido ao terceiro reich quando este chegava às portas das principais cidades russas; importa esconder o facto de que a União Soviética lutou sozinha contra a Alemanha nazi durante a maior parte da guerra sem ninguém que lhe valesse; que o seu povo foi mártir e que, sozinho, derrotou heroicamente esse inimigo da humanidade que hoje, e apenas hoje, é reconhecido como tal.

 

Sigamos atentamente os próximos passos da reescrita da História. Hoje, diga-se o que se disser, assinala-se o Dia da Vitória!

O meu 25 de abril não é o mesmo que o teu

por Amato, em 23.04.20

Aproxima-se rapidamente o dia em que se comemoram 46 anos desde o 25 de abril de 1974, uma data histórica e ímpar para Portugal e que, independentemente das opiniões, marcou a entrada do país na modernidade.

 

A história de Portugal é marcada por um conservadorismo recorrente e insistente, de braço dado com um não menos irritante provincianismo. O país dos “brandos costumes”, das fezadas sebastiânicas em noites de nevoeiro, sempre de olhinhos brilhantes, boquiabertos, em direção à virtude estrangeira relativamente à incapacidade nacional e sempre, sempre, fazendo mundos e fundos, gastando o que tinha e o que não tinha, para impressionar os poderes além fronteiras. Ainda hoje vemos isso mesmo, vemos claro este padrão comportamental diante de nós, como nos ajoelhamos perante a autoridade europeia e não apenas, como fazemos de tudo para sermos os bons alunos de políticas que, em última análise, apenas lesam os nossos legítimos interesses.

 

Fomos para além da troika. Somos conservadores relativamente aos próprios conservadores, porque só assim podemos ser os bons alunos. Só assim podemos ser reconhecidos. Nada se compara com a espetacularidade do cortejo que, pelas ruas de Roma, marcou a entrada da embaixada portuguesa no Vaticano em 1514, um desfile que incluía leopardos, cavalos persas e um elefante indiano. Nada se compara com isso. Mas é exatamente esse deslumbramento, esse desesperado desejo de reconhecimento que eu chamo de atitude provinciana e que tem sido nota dominante na nossa, em todo o caso, brilhante e longa história enquanto nação.

 

A esta história de serventualismo impuseram-se exceções não muito frequentes e, ainda assim, por ventura mais odiadas do que admiradas. Uma delas, a mais recente, foi o 25 de abril de 1974. A revolução abriu portas a uma criação cultural e artística sem precedentes, a dinâmicas sociais que se julgavam inexistentes e permitiu que lográssemos compor uma lei fundamental que ainda hoje, virado um milénio de costumes, é motivo de estudo e é altamente considerada pelo seu alcance progressista.

 

O 25 de abril foi, com efeito, muito mais do que uma simples revolução para operar uma mudança de regime. Para muitos, foi uma revolução que pretendia a transformação das dinâmicas da sociedade, foi o resultado natural da falência de um modelo económico, mais do que de um regime político. Para muitos a revolução tinha um alcance diferente, lançando as bases para uma sociedade mais igualitária, sem classes, avessa à concentração de riqueza, pelo desenvolvimento do país e pelo bem estar de todos os cidadãos. Os conceitos de liberdade e de democracia não se esgotavam em meras encenações protocolares quadrienais: eram conceitos materializados no fim da fome, na habitação, educação, cultura e saúde para todos, no pleno emprego.

 

Este 25 de abril, pode-se dizer, foi efémero mas, todavia, as ondas de choque que provocou na nossa sociedade, que nunca deixou de lado o seu conservadorismo e o seu provincianismo de estimação, foram suficientes para influenciar o rumo do país durante décadas. O estado social criado, os direitos civis e laborais conquistados aí estão como prova viva do que escrevo.

 

É com tristeza que assisto ao desmantelar contínuo desse legado do 25 de abril de 1974 operado através da própria democracia. É com tristeza que vejo os ponteiros do relógio inverterem o seu movimento.

 

E é por isso que existem dois 25 de abril, duas revoluções. Existe a revolução dos progressistas, dos sonhadores, dos revolucionários, dos utópicos. Essa ficou aquém dos sonhos e da utopia mas foi maravilhosamente transformadora. E, depois, existe a revolução dos provincianos, dos conservadores, dos servis, daqueles que, em boa verdade, também estavam bem providos com o estado novo. Para esses, a revolução foi apenas uma transição, uma mudança de caras e hoje, mais velhos, mostram-se incapazes de esconder um certo saudosismo.

 

Para os primeiros é verdadeiramente impensável não se celebrar esta data histórica tão transformadora que foi, tão influenciadora que ainda hoje é. E é impensável que essa celebração não ocorra na casa da república e da democracia representativa que o 25 de abril concebeu. Para os segundos é mais que natural que tal celebração não tenha lugar ainda por cima quando tal disputa retira múmias dos respetivos sarcófagos, reaviva fantasmas, potencia fraturas sociais tão apetitosas politicamente nos dias de hoje.

 

O essencial da polémica em torno das celebrações do 25 de abril é este. O resto é conversa fiada de gente sem respeito e sem amor à data e para os quais a revolução não significa nada.

Nas sombras da pandemia

por Amato, em 19.04.20

Deixem-me dizer-vos o que aí vem, o que já vai em preparação adiantada nas sombras da pandemia. Deixem que deixe isto aqui escrito, registado para memória futura e correndo o risco de se revelar, mais tarde, depois do desfecho da coisa, estar completamente a leste do paraíso.

 

O que é interessante no capitalismo, esta organização da vida que escolhemos, é precisamente esta sua natureza cíclica mas, simultaneamente, impossível de prever exatamente, impossível de responder ao quando? e ao como? E, em verdade, sabíamos perfeitamente que à crise ou às crises — talvez assim sejamos mais precisos — de 2011 seguir-se-iam outra ou outras. Disso não sobrava qualquer dúvida. Todavia, dando de barato a nossa impotência preditiva para responder à primeira questão, relativamente à segunda era mais expectável que as crises surgissem do rebentar da bolha imobiliária, que vinha enchendo assustadoramente transversalmente no mundo ocidental, associada, no nosso país, à outra bolha que, por aqui, persistia num crescimento que parecia não ter sustentabilidade: o turismo. Pois o que pouca gente esperava era que a próxima crise tivesse origem num mero vírus da gripe.

 

E aí está, os estados, em geral, vão replicando no momento atual as respostas dadas por eles próprios em 2011. Claro que há diferenças, há um estilo, uma linguagem, idiossincrasias e um contexto próprios, mas a substância das medidas é inegavelmente a mesma: injeções de capital nas empresas quer através de linhas de crédito, quer através da torneira da segurança social, sempre abundante para acudir a burguesia. Esqueçam os juros: isto é dinheiro do qual o estado não voltará a ver a cor.

 

A isto acresce a situação de estado de emergência, a verdadeira novidade na atuação do governo, que é como que uma carta branca para o despedimento, para o abuso, para a falcatrua laboral, para a ausência de responsabilidade social no que concerne o trabalho, um verdadeiro regime de exceção à lei e à democracia.

 

Em simultâneo, à promoção de um clima de consumo exacerbado, de histeria mediática impulsionadora desse mesmo consumo, juntou-se uma permissividade grosseira na agiotagem, no inflacionamento dos preços da generalidade dos bens. Todos os institutos, agências e organismos de supervisão criados para o efeito revelam descaradamente o seu papel decorativo no contexto do sistema.

 

Não tenham, todavia, pena do estado. Quando isto começar a dar para o torto, que é como quem diz quando se começar a fazer o rescaldo da pandemia, quando tudo voltar a uma certa normalidade no que ao funcionamento da sociedade diz respeito, então aí o plano será outro. Aí, os holofotes mediáticos concentrar-se-ão nas imparidades, nos buracos orçamentais, nos desequilíbrios das contas públicas e das balanças comerciais e, então, bem convencidos da necessidade dos nossos sacrifícios para a salvação do país, assistiremos a uma nova versão do brutal aumento de impostos de Gaspar, Passos e Portas, a uma sempre renovada necessidade de flexibilizar a economia e o trabalho para gerar mais competitividade e emprego e o resto. Todos nós conhecemos esta ladainha do costume de princípio a fim.

 

Quando erguermos novamente a cabeça veremos um país destroçado em emprego, em custo de vida, em poder de compra; veremos um povo com as suas poupanças delapidadas, com os seus direitos novamente reduzidos, com as suas reformas de novo adiadas e minguadas, com as suas perspetivas novamente revistas. Vamos ver os serviços públicos, em particular a saúde, ainda mais mirrados e isto passar-se-á mesmo após a pandemia nos ter mostrado o quão determinantes e importantes estes são. O povo assistirá a tudo isto, só não sentirá o cheiro daqueles milhões de euros de superavit anunciados no último orçamento de estado. Esse refinado odor terá sido já, por essa altura, exclusivamente aspirado pelas ávidas narinas da burguesia do país.

Infelizmente, não há muito a dizer sobre o covid-19

por Amato, em 01.04.20

No preciso momento em que escrevo, encontramo-nos em pleno ano vigésimo do vigésimo primeiro século do calendário gregoriano. Importa escrever estes números por extenso para sermos forçados a soletrar, para sermos compelidos à interiorização da realidade. No ano dois mil e vinte esse ente coletivo a que chamamos de humanidade pode elencar com orgulho as inúmeras desventuras por que passou, o sem fim de odisseias ultrapassadas pela força, abnegação, sofrimento e, também, imaginação e engenho, enfim, o interminável rol de enfrentamentos por que passou para chegar a este ponto, o ano de dois mil e vinte.

 

Na Ciência, essa construção humana suprema, alicerçada sucessivamente no conhecimento dos nossos antepassados, encontramo-nos a atravessar aquele limiar mitológico aspirado apenas nos sonhos mais loucos dos antigos, aquele limiar que separa a vulgar mortalidade da eternidade dos deuses. Aquilo que era não mais que um intangível sonho, somente descrito na loucura febril da literatura fantástica, é hoje realidade: manipulação do código genético dos animais e dos seres humanos, clonagem de órgãos e seres completos, a internet, um planeta envolvido por uma rede de conexão instantânea, tecnologia robótica microscópica, máquinas que tomam decisões autónomas com algoritmos que conseguem evoluir e aprender com a experiência, a lista continua, não tem fim.

 

Chegámos a este ponto. Tomámos em mãos poderes divinos. E, todavia, não conseguimos ter uma ideia clara sobre um vírus de gripe chamado de covid-19. Decifrámos com sucesso cada proteína do ácido desoxirribonucleico da pessoa humana, mas parecemos ter dificuldades inultrapassáveis com a compreensão da estrutura de um minúsculo ser vivo de umas poucas centenas (?) de nanómetros de diâmetro e que já anda por aí a criar o caos há, pelo menos, quatro meses.

 

Não sei o que vos parece mas, a mim, tudo isto é estranho, é bizarro.

 

Em boa verdade, não há muito a dizer sobre este covid-19, quer dizer, sobre o vírus em si. Podemos dizer muitas coisas sobre o modo como estamos a lidar com ele, sobre a forma como está a afetar a nossa sociedade, o nosso modo de vida, os negócios, os empregos. Podemos perorar sobre a inexorável e definitiva incapacidade estrutural das nossas sociedades em lidar com este vírus ou com situações análogas. Podemos comprovar como um simples vírus põe a nu as assimetrias e iniquidades do sistema que escolhemos para nos organizarmos coletivamente e como, nestas alturas, a validade e atualidade dos conceitos de luta de classes, proletariado e burguesia emerge aos olhos de quem os tem abertos e atentos. Note-se como as grandes empresas, as grandes multinacionais permanecem mais ou menos intocáveis. Para o povo, a luz não vai deixar de ser paga, nem a água, nem os planos de comunicações, de TV e de internet, nem as rendas, nem os impostos. Para as grandes empresas, linhas de crédito, dinheiro de graça, nenhuma PPP ou renda estatal será  suspensa assim, leis escritas à medida incluindo layoff’s de conveniência para se deixar de pagar e para se despedir de forma organizada ao mesmo tempo que se recebem apoios para não se despedir trabalhadores. Tudo isto o covid-19 deixa claro, isto e que os homens não nascem todos iguais particularmente em tempos de crise imbuídos de um espírito de falsa solidariedade.

 

Mas sobre o vírus propriamente dito não, não é possível dizer muito. Este é um vírus que já foi capaz de envergonhar as autoridades nacionais e estrangeiras de saúde que já tiveram que retirar, corrigir e refazer cada afirmação inicial que fizeram sobre ele. Ainda hoje, a multiplicidade de notícias díspares e contraditórias que contaminam o espaço informativo é superlativa. Há notícias que apontam para várias estirpes diferentes do vírus que afetam diferentes geografias. Ao mesmo tempo surgem artigos que ensaiam defesas inequívocas de que este covid-19 tem uma origem natural, que é um produto natural da mãe natureza. Qual é a probabilidade que assim seja? A sério, qual é a probabilidade de um vírus aparecer de modo natural assumindo características tão diferentes em países como o Irão, Itália ou China?

 

Tudo isto é bizarro como é bizarro que países diferentes adotem formas bastante diferentes para lidar com o problema e, aqui, nem me refiro a casos surreais como o do Brasil de Bolsonaro. Não, refiro-me à Suécia ou à Holanda, sempre tidos como exemplos na Europa e no mundo. Tudo isto é bizarro. Tudo isto é estranho. E é, por isto mesmo, que não há muito a falar sobre o covid-19.

 

Sinto-me verdadeiramente próximo daqueles camponeses que viviam algures na idade média sob o jugo de um conde com poder absoluto e da igreja mais obscurantista que dizia que tudo era obra de um deus sempre zangado connosco por muito que vivêssemos e morrêssemos a trabalhar. Sinto-me muito próximo desse camponês. Hoje, não há condes, nem igreja, nem deus. Todavia, vivemos identicamente mergulhados num lodaçal, num vazio de informação e de conhecimento. Temos acesso a muita coisa, a muita informação sem critério, mas não sabemos nada de nada e tudo o que sabemos é-nos plantado na consciência. Sobeja-nos apenas uma noção clara das incongruências, das inconsistências, uma perceção de que estamos efetivamente a ser enganados.

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