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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

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Suprema ironia

por Amato, em 04.06.20

Nestes tempos de pandemia assistir aos liberais, aos que são avessos ao estado limitador das liberdades, de mão estendida por uma esmola desse mesmo estado, exigindo até como se fosse seu direito, é a revelação da suprema ironia, da ironia das ironias.

 

Todos exigem.

 

Todos procuram melhor posição às cavalitas da detestável máquina estatal, agarrados às famigeradas e desprezíveis gorduras do bicho.

 

Querem livre mercado. Querem o mercado a funcionar e a regular-se a si próprio. Menos quando dá para o torto. Nesse momento, querem estado e querem estado à fartazana!

 

Que lindo mundo este em que é possível andar de cabeça levantada e continuar a tentar convencer os outros a fazer aquilo que não se faz quando a oportunidade aparece. E como apareceu a oportunidade! Fica o registo para memória futura.

 

A fatura não tardará a chegar mas para os mesmos do costume, aqueles que têm que trabalhar para sobreviver. Luta de classes ao rubro... só que não. Infelizmente.

Comentário à aprovação da eutanásia

por Amato, em 25.02.20

Os cinco projetos-lei sobre a eutanásia foram aprovados. Todos os progressistas devem-se congratular e, por uma vez que seja, admirar o parlamento que temos. É de assinalar, todavia, a dificuldade que existe e persiste em fazer aprovar uma lei que visa unicamente dar uma liberdade às pessoas, liberdade essa, sublinhe-se, que não influi, nem belisca minimamente, a liberdade dos demais. Quem quer fazer uso da eutanásia faz, e sob circunstâncias extremamente específicas. Quem não quer, não faz. Ninguém é obrigado a fazer. É tão simples quanto isto e, contudo, tão difícil foi fazer aprovar a lei.

 

Sobre a eutanásia gostaria de destacar ainda o seguinte.

 

Primeiro, claro, a argumentação absolutamente detestável do ponto de vista lógico por parte dos oposicionistas à medida. Foi uma mistura entre um discurso utópico, da defesa de um mundo idílico onde tais práticas não teriam lugar, e um discurso moralista religioso que nos dias de hoje, por esta ou aquela razão, ninguém leva muito a sério.

 

Segundo, notar como os níveis de hipocrisia, nesta discussão, bateram todos os recordes desde que há registos. Destacam-se, neste particular, as ordens profissionais dos médicos e dos enfermeiros, representantes dos cidadãos que estão na primeira fila do auditório desta dramática e terrível película que passa todos os dias, a todas as horas, em todos os hospitais deste país, onde “eutanásias” informais são aplicadas a cada instante. Não há juramento de Hipócritas, perdão, Hipócrates, que lhes valha. O que nos vale, a nós, é que estas ordens não representam, nesta matéria, a maioria dos seus profissionais, estando mais preocupadas em fazer a defesa de um certa ordem social-religiosa que ainda vigora do que fazer a representação dos seus membros.

 

Terceiro, observar a incoerência ideológica da direita política em geral, com exceção parcial da Iniciativa Liberal, sempre tão obcecados na liberalização da sociedade, na defesa de uma suposta liberdade individual do cidadão, na implosão de um estado controlador das liberdades mas que, quando há uma medida concreta, agarra-se com unhas e dentes ao mais bafiento conservadorismo religioso e esquece-se do que anda a apregoar nos outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano.

 

Quarto, apontar a inexorável desilusão com a posição já esperada do Partido Comunista Português, posição essa absolutamente injustificada do ponto de vista ideológico ou de qualquer outro. Sublinha-se também o embaraço, a vergonha de ver o PCP, partido histórico, sólido e coerente, a levar uma ensaboadela monumental, mas justificada e merecida, do líder do PAN, essa abstração parlamentar, essa inexistência política. O PCP atingiu, na passada semana, o ponto mais baixo da sua existência em democracia. E o mais dramático é que ninguém, dentro do PCP, deu por isso.

 

O processo não acaba aqui, bem entendido. Segue-se a fase da elaboração de um texto comum que seja sólido e robusto, mas antevê-se, também, alguma luta que se prepara adiante e que pode ser algo de relativamente sério ou, simplesmente, um estrebuchar final dos derrotados. Nessa fase, o Presidente da República poderá assumir-se como uma figura chave para forçar um referendo de circunstância que vise atrasar ou, no pior cenário, bloquear o processo.

 

Desculpe, disse Luanda Leaks?

por Amato, em 21.01.20

Acho que no passado não havia tanta hipocrisia. Está bem que havia a religião, poderosa, a justificar tudo o que fosse necessário, a condecorar os vencedores como humildes servos de Deus e a julgar os vencidos como hereges, infiéis e outros adjetivos que tais, independentemente do sangue que escorria das armas de ambos os lados. E a religião mais não era, bem entendido, que um pretexto escrito para fundamentar aquela nossa natureza abjeta de louvarmos os vencedores ao mesmo tempo que pisamos os vencidos.

 

Mas no fundo, bem lá no fundo..., não havia tanta hipocrisia no processo. Faziam-se as guerras e aos vencedores era dado tudo, todo o espólio, na mesma proporção em que aos vencidos tudo se retirava. Era a lei tácita que existia e era compreendida e aceite como natural por todos, com um maior ou menor florear da coisa.

 

Hoje a lei que vigora é exatamente a mesma mas há uma coisa que se junta à mistura e que confunde as ideias. Vêm os jornais e os jornalistas, as televisões, as rádios e enchem-nos com teorias, tramas, provas, acusações e julgamentos e, de repente, já não se trata de uma coisa corriqueira, já não é a normal sucessão de poderes, parece que é mais do que isso, como que uma vontade de uma força superior, estado de direito, alta moralidade, coisa que tem que ser assim para que sejamos sérios e respeitáveis, disputa simplista mas superlativa do bem contra o mal. E aí, o pisotear os vencidos adquire uma outra razão de ser porque de vencidos já não trata a questão: os vencidos passam a ser um tipo de gente vil, gente que não presta e que deve ser amputada da sociedade porque infeta e apodrece como gangrena a gente boa, séria e respeitável.

 

É espirituoso assistir a episódios destes, dia após dia. As lutas pelo poder disputam-se no espaço mediático e parece que a lei tácita de que falava já não chega: é necessário convencer as massas. As narrativas que se tecem fazem tábua rasa do que foram os eventos do passado. Os padrinhos, que outrora os ergueram em braços, convertem-se em carrascos. São os mesmos e fazem-no de cara destapada e com moral elevada. E nós? Assistimos com curiosidade, como se não tivéssemos memória do dia de anteontem, e cremos piamente na supremacia de um certo ideal de moralidade, de seriedade, de bem e de justiça. Dormimos bem à noite, assim. Bons sonhos!

Descargos de consciência

por Amato, em 21.11.19

Há sempre um irritante que efervesce quando uma pessoa morre. Sabem? É aquele elogio de caráter obrigatório que brota das bocas com facilidade, porque a morte tem este peculiar condão: faz da pessoa mais vil a mais virtuosa num passo de magia, entre um estalar de dedos. Era o “amigo do seu amigo”, era o “grande homem” e outras generalidades que tais.

 

O caso de José Mário Branco não é exatamente este: pessoa generosa, altruísta e solidária, que dedicou a sua a vida à luta por esses valores e por uma sociedade bem diferente daquela onde nasceu e onde, infelizmente, não merecia ter morrido. Estes predicados foram essenciais para catapultar a sua arte na escrita e composição de canções para os sublimes patamares da eternidade.

 

Já o escrevi aqui, algures, que a diferença entre um artista comum e um grande artista é exatamente esta: a existência de um propósito maior que o egoísmo e que a ambição, a presença de valores que superem o próprio artista, que a obra produzida seja mais que um mero exercício de excreção do que vai na alma, masturbatório, egocêntrico. A grande obra é a que se inspira nas gentes e inspira as gentes. A grande obra é a que é a expressão da vida coletiva e não apenas da vida individual. E José Mário Branco tinha exatamente esse ingrediente. Muita gente desconhece, mas várias obras eternizadas na voz de Zeca Afonso e de outros grandes cantores eram da autoria de José Mário Branco. Esta, de Sérgio Godinho, também.

 

Por que comecei, então, do modo como comecei? Porque os elogios que se multiplicam a José Mário Branco são vazios. Porque as palavras não têm correspondência com a realidade. Porque não se pode elogiar a vida de um homem ao mesmo tempo que se vive a própria vida de um modo diametralmente oposto. Ou, se se pode, trata-se de uma autocrítica. Caso contrário, é hipocrisia pura. É oportunismo. É falso elogio. A sociedade que abundantemente elogia José Mário Branco é a antítese dos seus valores, é a razão de ser das suas angústias.

 

Querem elogiar José Mário Branco? Vivam a própria vida como ele viveu a dele. Tomem as opções que ele tomou em cada dia. E, no mais, deixem-se de palavras. As palavras são fáceis. São descargos de consciência.

 

José Mário Branco. Foto tirada de https://vilanovaonline.pt/wp-content/uploads/2019/11/jos%C3%A9-m%C3%A1rio-branco-fb-Webp.net-resizeimage-ec.jpg

 

Sociedade de inquisidores

por Amato, em 08.11.19

Causa-me bastante aversão esta sociedade de inquisidores, de moralistas para os outros, sempre para os outros e nunca para consigo mesmos. Os media são, simultaneamente, espelho refletor e agente catalisador destes comportamentos.

 

«Abandonaram um bebé no lixo à saída do hospital!»

 

«Mas não se preocupem, há câmaras de vigilância no local!»

 

«Vamos apanhar a criminosa!»

 

«A polícia já deteve a criminosa!»

 

E julga a jornalista, julga o bombeiro, julga o transeunte ocasional, todos se comportam como agentes da autoridade, carrascos da justiça e, sobretudo, da moralidade!

 

Esperem um pouco... lá está Marcelo no meio aos beijinhos a tudo o que mexe. Quão hipócritas são aqueles “afetos”! Servem para criar um manto de ilusão. As massas encantam-se. Os problemas mantêm-se e agravam-se.

 

Não faço parte — recuso-me com todas as minhas forças! — desta sociedade que, com os seus dedos indicadores em riste, nem soletrar sabe a palavra solidariedade, incapazes de se colocar no lugar do outro, quanto mais de lhe estender a mão e o ajudar a reerguer-se. No fim do dia, ou da semana, ainda vão à missa rezar e fazer a apologia do contrário do que são.

Amazónia, imperialismo e PAN

por Amato, em 31.08.19

O governo português, na pessoa dos seus mais altos representantes, é, em certos domínios, rápido e assertivo, contundente mesmo, no conteúdo e na forma como aborda determinadas situações internacionais. Ao ouvir as palavras que o seu ministro dos negócios estrangeiros proferiu, por exemplo, aquando dos momentos mais quentes, entretanto esfriados, da tentativa de golpe de estado na Venezuela, fica-se com a ideia de estarmos perante um representante de um país relevante no quadro internacional, tamanha foi a contundência empregue e o tom que até soava a ameaça. Presentemente, é pena que o governo português não estenda a sua eloquência ao drama que se vive no Brasil, país irmão de Portugal, onde um dos maiores patrimónios naturais mundiais é, neste momento em que escrevo, irremediavelmente destruído e, pelo contrário, escolha remeter-se ao mais gutural silêncio.

 

Podemos ser levados a pensar que esta diferença de comportamentos se deve à própria experiência deste governo de Portugal no que concerne a fogos florestais. Afinal, neste escasso período de quatro anos, sob o olhar e a responsabilidade deste governo, arderam tantos hectares de floresta quantos os que havia para arder, incluindo alguns de floresta milenar como o pinhal de Leiria, o que, à nossa escala, terá representado, não sei, talvez duas ou três Amazónias juntas. Mas desengane-se o leitor. A razão não é mera vergonha na cara ainda que essa seja mais que justificada.

 

A razão de ser deste comportamento dúbio é simples. O governo não serve em primeiro lugar o estado, o país ou o seu povo: serve prioritariamente os interesses do capitalismo mundial e do imperialismo. É o imperialismo que alimenta a revolta na Venezuela tentando colocar as suas unhas no petróleo daquele país. É o imperialismo que arma as populações, que forma e paga milícias populares. Por isso, o governo português apoia a revolta contra um estado soberano e um governo democraticamente eleito. Por isso, reconhece à margem de qualquer lei ou direito internacionais autoproclamados presidentes da Venezuela.

 

Do mesmo modo, é o imperialismo que, por ora, incendeia a Amazónia para expandir o seu negócio de exploração de gado e de plantações de cereais geneticamente manipulados. É o imperialismo que suporta e alimenta este governo absurdo, este presidente absurdo que desgoverna o Brasil, porque têm a promessa de altos dividendos económicos futuros. Por isso, o governo português, neste caso, mantém-se calado.

 

Bolsonaro foi eleito à custa de um golpe de estado descarado e sem vergonha movido pelo sistema judicial brasileiro e apoiado pelos media que derrubou um governo democraticamente eleito sob pretextos dúbios e absolutamente irrelevantes no contexto do país. Bolsonaro foi eleito tendo por base um programa político que se podia reduzir à frase “privatizar tudo”. O tudo incluía, evidentemente, a Amazónia. O mundo assistiu a tudo isto e achou piada. Agora lançam-se umas bocas para o ar e nada se faz. Porquê? Porque o mundo está, em geral, ao serviço dos interesses do imperialismo e é o imperialismo que está a queimar a Amazónia. Deixem-se de tretas e de hipocrisias.

 

Ai se isto estivesse a acontecer na Venezuela...

 

É por isso que me dá vontade de rir quando ouço André Silva, do PAN, os “ecologistas progressistas”, dizer que não é de esquerda nem de direita, que esses conceitos estão ultrapassados. Só há duas possibilidades para este André Silva: ou faz parte desta nova vaga de políticos que pretende enganar o povo com esta conversa de chacha “apartidária” ou trata-se, simplesmente, de um triste ignorante. Por ventura, será uma mistura dos dois. Infelizmente, parece ser essa a receita que o nosso povo mais gosta.

Haja imaginação

por Amato, em 09.06.19

É necessária uma dose generosa de imaginação para pensar que o governo, sendo acionista com metade do capital da TAP, nada sabia sobre os prémios obscenos distribuídos esta semana pela empresa aos seus “gestores de topo”.

 

Em boa verdade, é irrelevante aqui para o caso que o governo detenha 50%, ou 25%, ou 10% que sejam, do capital da empresa. Até poderia nem ser acionista. Por um lado, toda a gente conhece a substância de abjeta promiscuidade entre o mundo dos negócios e o governo. Ao longo dos tempos, temos assistido — vimo-lo, ninguém nos contou — a abundantes exemplos de nomeações, passagens diretas de membros de variados governos para as administrações de bancos e empresas que, em tese, nada teriam a ver com o estado. Mas aconteceram. Por outro lado, também é claro que esta reversão da privatização da TAP anunciada no início deste governo mais não consistiu do que uma encenação em que se fingiu que o governo continuaria a mandar na empresa através da nomeação de uma série de personagens para uma comissão executiva ou de gestão. Na prática — seria importante que disto tivéssemos plena consciência — a TAP, tal como a conhecíamos, foi desmantelada para sempre. Foi entregue a um grupo de cavalheiros de trémulo “prestígio” na “gestão” de empresas do género no continente americano, e este grupo de cavalheiros fará na TAP o que desta empresa bem entender. Tendo-lhe aberto a porta do negócio europeu, o governo terá uma próxima palavra a dizer quando — e apenas quando — for preciso avançar com o dinheiro para tapar os proverbiais buracos que hão de chegar. Até lá, e porque o capital recompensa sempre os seus servos, ei-los, os prémios de produtividade para os “gestores de topo” da TAP, responsáveis por supressão de rotas, concentração da atividade em Lisboa, definhamento dos serviços essenciais ao desenvolvimento do país e, claro, de um ano recorde em termos de prejuízos. Reparem que isto é obra: na Caixa Geral de Depósitos, por exemplo, Paulo Macedo reduziu o maior banco do país a metade e, com isso, apresentou lucros. Na TAP nem isso foi conseguido. Há que valorizar o facto!

 

Mas voltando ao princípio do texto, é extraordinário pensar que o governo, depois de ser acionista maioritário, depois de ter a “família” espalhada pelos conselhos de gestão ou administração da empresa, depois de terem sido lavrados os contratos que preveem precisamente estes prémios que foram pagos aos “gestores de topo”, venha agora, depois de o assunto vir a público — sublinhe-se este facto, porque é sempre depois, nunca é antes —, dizer-se muito chocado e muito contra.

 

Haja imaginação. Haja imaginação que é o que é preciso.

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