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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Como a História é uma coisa curiosa, hem?

por Amato, em 04.11.18

Como a História é uma coisa curiosa, hem? Via hoje as cerimónias dos cem anos do armistício da Primeira Grande Guerra, ouvia as palavras comprometidas do nosso Presidente, incomodado que anda nestes dias com a questão de Tancos e com a omnipresente ideia de nós sabermos que ele já sabia — acho que já não oferece beijinhos, nem se disponibiliza para selfies —, ao mesmo tempo que se assistia a uma parada militar mais ou menos caricata. Onde é que já se viu celebrar a paz com uma parada militar? Não sei. Já se deve ter visto, com certeza. A mim, não se me afigura com muito sentido.

 

Mas, como a História é uma coisa curiosa, hem? Vejam bem: celebramos um armistício de uma guerra como se fosse uma guerra qualquer, como se fossemos uns como os franceses ou os ingleses, como se nos pudéssemos chamar de “aliados”, assim, com propriedade! Celebramos com um sentimento de orgulho que até parece autêntico! Não lhe denoto, com efeito, vestígio algum de fingimento! Pergunto-me: de onde vem tal sentimento?!

 

Acaso não saberemos dos contornos desastrosos, trágicos mesmo, da nossa participação na Primeira Grande Guerra? Não ensinam isto às gerações mais jovens? Ou estas já não se lembram porque nunca lhe dedicaram especial atenção? O que somos nós, afinal, no meio disto tudo, desta sociedade feita feira de entretenimento? Verbos de encher? Carne para canhão?

 

Não exageremos, pois. Carne para canhão não seremos nós na justa interpretação da idiomática expressão. Esse papel foi dedicado aos nossos antepassados que participaram na Primeira Grande Guerra, homens de trabalho, pais de família, maridos, destacados e alinhavados às pressas, para serem enviados para França, para servirem como moeda de troca para favores de política internacional. Esse batalhão mal amanhado seria, esse sim, usado literalmente como carne para canhão em batalhas na região da Flandres, com destaque morbidamente particular para a Batalha de La Lys, em abril de 1918, com a perda desnecessária, evitável, dizem os entendidos, de milhares de vidas portuguesas, joguetes nas aprumadas mãos dos generais ingleses e franceses.

 

O Presidente da República faria bem em evocar esta desgraça, esta humilhação que nos foi infligida pelos nossos “eternos aliados” que nos usaram como carne para canhão, em vez de jogar conversa fora, em vez de recitar adjetivos sobre conceitos vagos e indeterminados como é tão seu apanágio. Podia aproveitar para o fazer quando visitar Paris, na próxima semana, para participar das celebrações que lá ocorrerão. Daria ao mundo, estou certo, uma imagem bem diferente do nosso país.

 

Adicionalmente, a participação portuguesa nesta guerra cujo fim se evocou hoje terá sido o princípio do fim da Primeira República que viria a ter o seu desenlace na ditadura militar. A guerra empurrou o país para a penúria, para a miséria e para as mãos do fascismo. É claro que o Presidente da República não falará nada sobre este assunto. Não é por desconhecer. Afinal, Marcelo é o afilhado do último ditador deste país. Ele sabe.

 

Como a História é uma coisa curiosa, hem? Desculpem a repetição. Cem anos parecem ser o suficiente para lavarmos completamente as memórias de um povo e para transformar o branco em preto e o preto em branco. Estou a exagerar: hoje em dia, as redes sociais e os smartphones fazem o mesmo numa questão de horas.

Por lá e por cá

por Amato, em 14.04.18

Acho incrível como é que subsiste tanta gente que, depois de décadas de intervenções vergonhosas, indecentes e oportunistas no Médio Oriente, ainda atribui algum crédito aos Estados Unidos da América e aos seus lacaios patéticos, Reino Unido e França. É coisa que, sinceramente, nunca hei de entender!

 

Portugal assumir-se como um país sem espinha dorsal, isso já é fácil de entender. Sempre assim foi. O contrário constituiria novidade. E António Guterres, enquanto presidente das Nações Unidas, comportar-se como um verme vulgar com voz de sacristão que rouba o cesto das esmolas? Isso também é fácil de aceitar. É a natureza de cada um.

 

Agora, todavia, as coisas estão um pouco diferentes. Há um certo respeito que será receio, talvez, que se sente no ar. Um respeito por uma Rússia que se reergueu sem se dar por ela e que faz questão de não participar na fantochada diplomática do costume. Desengane-se quem procura adivinhar uma terceira guerra mundial: estes bombardeamentos são mero fogo de artifício para o mundo ver e, ainda assim, com aviso prévio aos russos porque isto do respeitinho... é coisa que é muito bonita.

 

Por cá, assistimos ao princípio do fim do mito a que se convencionou chamar de “geringonça”. Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português fazem-me lembrar, com efeito, aquelas esposas continuamente traídas e mal tratadas num mau casamento que se mantêm na relação por amor aos filhos — os trabalhadores e o povo, no léxico comunista. Agora, parece que o marido, o PS, prepara-se para trocar em definitivo as esposas pela amante de sempre, a direita, corporizada no PSD. Esta história do “ir mais além que as metas europeias do défice” não tem nada de novo. O que aconteceu repetidamente no passado com as cativações é de idêntica natureza. A diferença é que, agora, o PSD apresenta-se solícito para tudo aprovar em matéria de política interna, sobretudo porque esta assim vai de encontro harmonioso aos interesses da burguesia que PS e PSD tão bem representam.

 

O PS conseguiu — facto assinalável —, ao longo de todo este mandato, fazer uso de BE e de PCP a seu bel prazer até ao preciso momento em que os seus pobres parceiros se esgotaram em préstimo e serventia. Um acordo mínimo foi suficiente para agarrar BE e PCP a uma prossecução de uma governação formalmente e em toda a linha de direita — contado desta forma, ninguém acredita!

 

É sem qualquer vestígio de satisfação que reconheço que este lamentável desenlace dos acontecimentos foi aqui, neste blog, repetidamente previsto e anunciado. BE e PCP ficam muito mal na fotografia e sofrerão — acredito, esperando estar errado — sérias consequências eleitorais.

 

É, por tudo isto que foi dito, que este apoio de Portugal ao mais recente bombardeamento americano à Síria me causou uma suplementar revolta. É que, e dirigindo-me concretamente ao PCP neste ponto, tendo-se revelado incapaz de forçar as reversões que realmente importavam ao país, como o Código de Trabalho, como a Segurança Social, os direitos, os salários e as reformas, não para alguns mas para todos, tendo sido incapaz de diminuir os impostos sobre quem vive do seu trabalho, tendo, enfim, deixado cair as suas principais bandeiras ideológicas em nome de uma travagem meramente simbólica da direita e da sua austeridade, deixa agora, também, cair a sua bandeira mais identitária que é a sua matriz anti-imperialista.

 

Ano após ano, no comício da Festa do Avante!, o secretário-geral do PCP estende a sua solidariedade aos povos que resistem ao imperialismo e dirige-se, concretamente, aos povos do médio-oriente. Como é que Jerónimo de Sousa conseguirá dizer isso este ano, tendo suportado parlamentarmente um governo que se aliou a uma agressão imperialista? Como? Não será possível. Não será mais possível.

 

É verdade que o PCP distanciou-se do governo e criticou-o por esta posição, mas caramba! Exigia-se mais! Estaremos a brincar às coligações? Ou para o PCP isto do imperialismo é conversa fiada que serve apenas para encher discursos e entreter as massas?

 

Não! Isto é muito sério. E, se o PCP fosse fiel à sua própria história e ideário, António Costa, depois da sua miserável intervenção de quinta-feira, caía durante esta mesma semana do seu pedestal de poder a menos que se retratasse e retirasse o nome do país desta abjeta lama onde o mergulhou.

 

O PCP, todavia, parece permanecer fiel a este medíocre papel de esposa desonrada de que falava acima. Queixa-se do governo que tem apoiado. Queixa-se num contínuo pranto. Mas não faz nada. Não faz nada.

 

Não faz nada.

 

Liga para o apoio à vítima, PCP. Liga. O número é o 116 006. Liga: é grátis. Pode ser que te ajudem.

2 de maio de 1944

por Amato, em 03.05.16

Daqui por pouco mais de um mês, a 6 de junho, a comunicação social capitalista fará eco de mais um aniversário do Dia D, ou o Desembarque da Normandia das tropas aliadas norte atlânticas e a tomada da Alemanha ocidental nazi em 1944. Este constitui, com efeito, um dos momentos mais marcantes da História do Homem, infelizmente não pelas razões mais óbvias.

 

Mais de dois meses antes da ocorrência deste evento, ocorrera outro, a 2 de maio, que consistiu no final da Batalha de Berlim, que tivera o seu início a 16 de abril, e que resultou numa derrota tão definitiva do Terceiro Reich às mãos do Exército Vermelho soviético que o próprio Hitler, conjuntamente com um punhado dos seus mais próximos oficiais, pôs termo à sua vida, ainda a batalha não tinha assistido ao seu último tiro. Neste dia, 2 de maio de 1944, Berlim caíra, o regime nazi havia sido decapitado do seu cérebro e era uma questão de tempo para que a Segunda Grande Guerra se visse terminada.

 

http://cdn.theatlantic.com/assets/media/img/photo/2011/10/world-war-ii-the-fall-of-nazi-germany/w01_3c21804u/main_1200.jpg

 

 Chegados a este ponto, erguem-se duas questões:

  1. Por que razão os meios de comunicação ocidentais ignoram este evento — ontem passou completamente despercebido?
  2. Por que razão houve sequer necessidade para se fazer o Desembarque da Normandia e porque é que este evento é mais valorizado do que o anterior?

 

Para responder a estas perguntas e a outras é necessário desmistificar a forma como tradicionalmente a História é recontada.

 

A história oficial da Segunda Grande Guerra coloca os aliados europeus, Reino Unido e França, contra o eixo Alemanha-Itália, aos quais se juntaram ainda Estados Unidos da América e União Soviética, aos primeiros, e Japão, aos segundos. A verdade, porém, não poderia estar, desde logo, mais longe do que é contado.

 

A verdade é que, durante a maior parte da guerra, a União Soviética lutou sozinha contra a Alemanha nazi, a qual ia sendo suportada pela maior parte da Europa colaboracionista, incluindo Portugal, Espanha, França, Áustria, Polónia e tantos outros países europeus ou não, incluindo os Estados Unidos da América, cujas empresas conheceram um prospero período de crescimento enviando embarcações de mantimentos e munições para o outro lado do Atlântico que circulavam num comboio marítimo ininterrupto.

 

Enquanto o Terceiro Reich avançava pelos territórios russos quase sem oposição, massacrando milhares de soviéticos, os aliados ocidentais nada fizeram. Quando Hitler começou a bombardear Londres, ainda assim, poucos se começaram a levantar e os Estados Unidos, em particular, nada fizeram.

 

Nada disto é de estranhar. Para quem estuda a letra da História para lá das páginas mais superficiais percebe facilmente o fascínio que o Terceiro Reich e a figura de Hitler exerciam sobre os grandes dirigentes britânicos e americanos, sobre o capitalismo ocidental em geral, incluindo o “herói” Winston Churchill. Releiam-se os seus discursos. Neles encontrarão sempre uma preocupação maior com a ameaça comunista do que com a ameaça nazi. Se procurarem bem, asseguro-vos que também encontrarão elogios vários à personalidade de Hitler e às virtudes do nazismo.

 

Em boa verdade, os Estados Unidos nem chegam a entrar na Segunda Grande Guerra: entraram, isso sim, num conflito separado com o Japão em resposta a uns bombardeamentos. A interferência dos Estados Unidos no teatro de guerra europeu foi nula até... ao famigerado Dia D.

 

É neste contexto que o Dia D acontece. A Segunda Grande Guerra havia sido vencida pelos soviéticos que libertaram a europa do regime nazi e era necessário criar uma distração, fazer um desembarque épico com muitas mortes, muitas explosões ao bom estilo de Hollywood, para dar a impressão de se estar a ganhar qualquer coisa, a fazer qualquer coisa pela Guerra. E foi o que se fez. Sabe-se até que a intenção original era fazer o Dia D em maio, logo após a vitória soviética, mas tal não foi possível. Era impossível preparar todos aqueles adereços cinematográficos a tempo, em cima da hora.

 

O Desembarque da Normandia foi, com efeito, um ato bárbaro, uma operação militar que teve tanto de espetacular como de idiota, de suicidária, tendo enviado para a morte milhares de militares desnecessariamente. Nenhum general minimamente inteligente tomaria tal decisão. Foi um exibicionismo triste que serviu unicamente para marcar posição e como mote para o reescrever da História da Segunda Grande Guerra. E deu resultado. O desfecho da Guerra Fria, décadas mais tarde, também ajudou, é certo, mas deu resultado.

O que fez Obama?

por Amato, em 03.02.16

Falava há uns dias com uma querida amiga sobre o legado de Obama como Presidente dos Estados Unidos da América. Dizia-me ela: “Obama sempre foi melhor do que Bush...”; ao que eu retorqui: “Foi? O que fez Obama?”. A conversa prosseguiu sem que surgisse uma resposta clara à minha inocente pergunta.

 

“O que fez Obama?”.

 

Foi melhor do que Bush? Eventualmente. Mas será que foi mesmo? Será que, para lá da sua eloquência e superior capacidade oratória, existem diferenças políticas realmente substantivas?

 

Bush ficou marcado pelo onze de setembro e pela sua selvática e idiota reação que empurrou a América e meio mundo para bombardeamentos sem fim no Afeganistão e no Iraque. Mas Obama fez essencialmente o mesmo na Líbia e, agora, na Síria. Pode não ser tão violento nos métodos, preferindo armar e pagar a grupos de mercenários para por ele sujarem as mãos e causarem o caos político nesses países, mas essencialmente trata-se da mesma coisa. No mais, em termos de política externa, são como faces da mesma moeda.

 

Obama veio com a ilusão de ser o primeiro Presidente da América negro e, a reboque, trouxe inúmeras promessas, três das mais relevantes foram: um sistema público de saúde (obamacare), o retirar as tropas do Iraque e do Afeganistão e o encerramento da prisão de Guantanamo (o gulag norte-americano). A pouco tempo de terminar o seu segundo mandato, o saldo de tudo isto resume-se... ao facto de Obama ter sido, com efeito, o primeiro Presidente da América negro. Sim... a lista termina aqui.

 

Há quem diga que enfrentou e derrotou a seríssima crise financeira e económica, a crise do subprime, que assolou a América e que contagiou o resto do mundo capitalista. Teve o azar de ter tido que enfrentar uma destas crises cíclicas que afetam o capitalismo. Tudo isto é verdade, mas também é verdade que resolveu o problema, por ora, à custa de um exponencial aumento de dívida. Acrescente-se que a dívida americana, se já era um monstro incontrolável, com Obama tornou-se numa besta de duas ou três cabeças. Convenhamos que resolver uma crise económico-financeira é muito mais fácil se pudermos proceder a injeções virtualmente ilimitadas de capital no sistema.

 

Há, contudo, uma singular e preciosa ação de Obama que ficará para sempre nos anais da História e que talvez apenas ele pudesse ter levado a cabo e que consistiu no retomar das relações diplomáticas dos Estados Unidos da América com Cuba. Já não sobrava qualquer argumento justificativo para tal atitude e, com o patrocínio do Papa Francisco, bastou a Obama tomar esse evidente passo, todavia ainda grotescamente difícil, enfrentando uma violenta oposição interna. Obama ficará na História política por isto. O facto de ser o primeiro negro a ocupar o cargo tornar-se-á apenas numa mera curiosidade antropológica.

 

Poderemos sempre argumentar sobre o papel de Obama no processo. Terá sido um agente mais ativo ou mais passivo? Ou terá sido simplesmente apanhado pelo discorrer indelével das areias do tempo? Ou do destino?

 

Os Estados Unidos só voltarão a dialogar connosco quando tiverem um presidente negro e quando houver no mundo um Papa latino-americano.

— Fidel Castro, 1973

 

 

Guerra contemporânea

por Amato, em 09.06.15

 “Existem duas formas de conquistar e escravizar um país. Uma é através da espada. A outra é através da dívida.”
  — John Adams (segundo presidente e primeiro vice-presidente dos estados unidos da américa)

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