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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Mudanças em perspetiva no eleitorado da esquerda portuguesa

por Amato, em 25.10.20

Por diversas vezes critiquei, neste mesmo espaço, aquilo a que chamo de incoerência do Bloco de Esquerda, a sua indefinição ideológica, que se traduzem, na prática, numa social democracia normalmente disfarçada de bandeiras garridas, que vão desde a mera igualdade social até aos direitos das minorias.

 

Do mesmo modo, por mais que uma vez apontei o dedo ao Bloco por este partido colocar o princípio do mediatismo e da aprovação popular à frente de todos os outros princípios, com particular incidência na atitude genérica deste partido no seio dos acordos parlamentares que corporizaram a chamada “geringonça”. O Bloco de Esquerda foi sempre um fator de instabilidade e as suas respostas revelaram ser pouco sólidas perante as várias partes em jogo. Como resultado disso, e adicionando a inesperada capitulação ideológica do PCP, o PS obteve um ascendente político perante todas as partes, ascendente esse que mantém ainda hoje.

 

Todas as críticas efetuadas mantêm-se válidas e carecem de evidências para poderem ser revistas. Dito isto, o discurso de Catarina Martins na noite de hoje e a decisão comunicada de voto contra na generalidade a este orçamento de estado merecem ser aplaudidos. Num discurso curto e pragmático, Catarina Martins parece indicar que o Bloco de Esquerda está disposto a inverter o ciclo de mais de cinco anos que vem enfraquecendo a esquerda no seu conjunto. Esquerda que se diz esquerda não pode aprovar um orçamento de um governo que insiste em defender uma sociedade axiomaticamente precarizada; que insiste em degradar o serviço nacional de saúde, num estado de permanente falta de meios humanos e materiais, eternamente suborçamentado, particularmente neste momento de crise pandémica; que insiste em injetar fortunas colossais em gestões privadas e escandalosas de bancos.

 

Na mesma semana em que o PCP vende a sua abstenção na votação global do orçamento pela antecipação de um aumento de dez (!) euros nas pensões — e, com isso, de modo bastante reacionário até, resolve o problema do governo e enterra qualquer aspiração de negociação que o Bloco poderia ainda manter —, esta afirmação do Bloco adquire uma relevância assinalável e pode resultar em deslocações de eleitorado significativas no campo da esquerda portuguesa, quer à sua direita, quer à sua esquerda, no futuro próximo.

 

 

O vírus, memórias e premonições

por Amato, em 30.09.20

À data de hoje, passam-se sensivelmente sete meses desde o primeiro caso registado do vírus no nosso país e dez meses desde os primeiros anúncios vindos da província de Wuhan na China. Já passámos pela primeira vaga, fomos forçados a um confinamento que, em muitos casos, foi o princípio de um período que ainda persiste de drástica redução de rendimentos, de grave depressão económica de consequências dramáticas e, tal como anunciado, e desta vez as previsões foram corretas, justiça lhes seja feita, a segunda vaga do vírus aí está, plenamente instalada, com um crescimento sustentado em número de infeções, internamentos e mortes.

 

É assustador perceber que zonas anteriormente muito afetadas voltam agora a ser martirizadas pelo vírus o que nos faz duvidar seriamente da existência de imunidade relevante. Do mesmo modo, os efeitos neurológicos associados ao vírus, tais como a perda do olfato ou do paladar, apontam para uma sofisticação muito para além de um mero vírus de gripe.

 

Mas mais do que alimentar teorias de conspiração — porque para nós, meros mortais, nunca serão mais que teorias de conspiração —, importa analisar o que nós, enquanto comunidade altamente organizada e burocratizada que somos, fizemos em dez meses para lidar com o famigerado vírus. O que fizemos? O que estamos a fazer?

 

Se em março deste ano a única coisa que fizemos foi realocar recursos, retirando-os das necessidades ordinárias do país e colocando-os ao serviço da pandemia, o que foi que fizemos, agora, para fazer face à segunda vaga do vírus? A resposta é simples: mais do mesmo, ou seja, nada!

 

Reparem que é justamente neste momento que devemos fazer esta análise. Em plena discussão de um plano de resiliência — parabéns ao governo pela imaginação que tem para inventar nomes! — que é justificação para os maiores gastos em obras públicas mais ou menos megalómanas, muitas delas redundantes, isto é, prendas de Natal antecipadas à burguesia ligada à construção civil; depois dos milhões da nacionalização da TAP e das indemnizações chorudas aos seus anteriores donos que afundaram a companhia; depois de mais uma injeção colossal no Novo Banco para que a sua extraordinária administração venda o património do banco ao desbarato e distribua chorudos dividendos pelos seus acionistas ao mesmo tempo que enterra a instituição; depois de tantos milhões, o serviço nacional de saúde foi reforçado com umas migalhas e permanece a rebentar pelas costuras, perfeitamente incapaz de dar uma resposta eficaz à pandemia e de retomar a sua atividade regular. Neste particular, os dados são inequívocos: o número de mortes no país tem disparado em comparação com anos anteriores, não diretamente devido ao efeito do vírus, mas devido à negligência a que têm sido votados os utentes com outras doenças que veem as suas consultas canceladas, os seus pedidos de atendimento negados e as suas cirurgias adiadas e canceladas.

 

A esta segunda vaga de covid-19 acresce a entrada eminente no período sazonal de gripe no nosso país, período no qual, sabemo-lo bem porque temos memória, os doentes amontoam-se nas salas de espera das urgências e os hospitais e centros de saúde, em regra, não conseguem dar resposta às solicitações da população mesmo sem a presença do vírus. O que irá o governo fazer? Já adivinharam? Nada. Milhões para a burguesia, migalhas (e corte de rendimentos) para o povo. Ainda dizem que este governo é de esquerda. E por falar em esquerda, onde é que ela anda? A negociar as migalhas? A negociar com este governo? Ainda? São tempos negros, estes. Que ninguém fique surpreendido com os resultados das eleições que se avizinham.

O país falhado

por Amato, em 10.09.20

O país falhado tem o melhor sistema de saúde do mundo, virtualmente gratuito e universal. O problema é que funciona apenas para velhos e doentes. Os jovens do país falhado não se queixam muito. A saúde, que têm para dar e vender, não é coisa que lhes preocupe e, pelo contrário, preferem entreter-se com seguros e planos de saúde que descobrem, apenas quando já é demasiado tarde, serem de pouco valor em face da doença. No sistema de saúde do país falhado não existem consultas de especialidade porque ter que esperar mais de um ano pela dita é, de facto, equivalente à sua não existência. Já uma consulta de medicina geral é capaz de demorar só meio ano o que dota de uma certa ambiguidade a sua existência. Mas quando ela chega mesmo então ficamos na dúvida se a arte que se pratica será mesmo medicina ocidental ou antes uma espécie de terapia energética alternativa que se preocupa apenas com os nossos níveis de colesterol presentes no sangue. Em literalmente tudo o resto, a palavra de ordem é poupar todo o tipo de exames preventivos e confiar a sorte a uma qualquer divindade que nos seja agradável. A saúde do país falhado é, assim, uma espécie de entretenimento para aqueles que já estão doentes; um negócio obscuro de operações a cataratas e a rótulas para os mais idosos; um patrocinador ativo dos lucros dos hospitais privados para os quais empurra os cidadãos a toda a força.

 

O país falhado tem a melhor educação do mundo, com lindas taxas de aprovação e de não retenção cada vez mais virtuosas, apenas acompanhadas pelas crescentes percentagens de alunos graduados apesar da sua assustadora pobreza cultural. No país falhado os alunos são excelentes a passarem nos exames, mas medíocres numa simples conversa sobre literatura, filosofia, ciência ou outra coisa diversa que não seja, claro, nem sobre redes sociais, youtube ou outra pós modernidade qualquer dinamizada por indivíduos intelectualmente ainda mais medíocres do que eles. E, nas universidades, o país falhado orgulha-se de produzir excelentes engenheiros, arquitetos, professores, médicos e enfermeiros, orgulha-se muito, só que apenas uma parte destes ficam no país falhado. Por não ter emprego para eles e por achar que salários mínimos pagos à hora são a melhor recompensa, o país falhado faz questão em ver os seus quadros partir para outras paisagens e orgulha-se, novamente muito, em vê-los a reforçar o tecido laboral, produtivo e social dos seus países vizinhos.

 

O país falhado é o país com todos os direitos e todas as garantias. O problema é que para se poder exercer literalmente qualquer um desses direitos e qualquer uma dessas garantias, o cidadão deve navegar por um oceano de burocracias, envolvendo o preenchimento de formulários em papel, formulários online, e-mails aos diretores de duas ou três instituições oficiais, apresentação de documentos, fotocópias de documentos, de um rol de recibos e comprovativos e, mais importante, ter a sorte de não ter tido alguma herança inadequada, ou de algum dos elementos do seus agregado familiar não estar a auferir um salário que se considere imoral. No país falhado toda a gente tem os melhores direitos, mas poucos, e apenas aqueles que se sabem orientar, conseguem usufruir deles. Os direitos são para todos no papel e para poucos na prática. O país falhado proclama, com orgulho, que não tem classes sociais e que todos os seus cidadãos são iguais, mas a realidade é como o negativo da fotografia tirada à coisa.

 

O país falhado tem os melhores serviços do mundo que sabem tudo a respeito dos seus cidadãos na hora de cobrar impostos, taxas e multas, mas que se volvem subitamente amnésicos e incapazes, desconhecendo-se completamente uns aos outros, na hora de se mostrarem efetivamente úteis na satisfação de um pedido ou de um direito desses mesmos cidadãos. No país falhado são necessários seis meses para se agendar o levantamento de um cartão de cidadão. Anos passam para se obter uma reforma de uma vida de trabalho, de descontos e de contribuição para o sistema falhado do país falhado.

 

Mas o pior do país falhado não é nem a saúde, nem a educação, nem os serviços. O país falhado tem também a melhor das democracias, a todos dando voz, a todos dando possibilidade de se pronunciarem sobre as decisões e a política. No país falhado todos têm voz, mas não existe ninguém para ouvir. Há uma histeria permanente, uma comoção muito grande, uma cacofonia ensurdecedora que berra por liberdade, igualdade e democracia. Há uma ilusão de que o indivíduo conta, de que pode optar e dispõe de diferentes caminhos. Essa ilusão converte o país falhado na gaiola perfeita da qual ninguém quer sair, não obstante a porta estar escancarada. E a lavagem cerebral, o convencimento permanente que exerce sobre as massas de que o falhanço rotundo do seu país é, afinal, o maior dos sucessos, de que se estes não são mais expressivos a elas se devem e de que as mesmas devem agradecer diariamente as suas pobres condições de vida e aceitar o seu constante deterioramento. O pior de tudo é a ilusão.

 

Este é o país falhado. Sejam bem-vindos.

Seis meses para levantar um cartão de cidadão

por Amato, em 08.09.20

Um país em que são necessários seis meses para levantar — leu bem, levantar, não é fazer! — um cartão de identidade, a que se chama de cidadão, que se renova por mais de dezasseis euros, não é um país: é uma abjeção, é uma anedota, é uma vergonha. E não, não venham com a desculpa do covid, porque o covid agora serve para justificar tudo, mas não é para aqui chamado: as coisas já estavam péssimas muito antes do vírus aqui chegar.

 

O país foi ficando assim, governação após governação, foi-se destruindo a pouco e pouco, desmantelando peça por peça, e hoje, funcionando sempre nos mínimos do admissível, é algo de resolutamente inviável, perfeitamente incapaz de lidar com qualquer situação inesperada. Os serviços públicos chegaram ao fundo do poço. Seis meses para se levantar um cartão de cidadão já feito é algo de surreal, de distópico. Eu sei que com a saúde é pior e mais grave. Eu sei que também se podia falar na educação e que há coisas mais importantes que um cartão de cidadão. Mas é simbólico. Se isto não funciona, o que é que pode funcionar? Aguardar seis meses para se levantar um cartão de cidadão é assustador, tenebroso. São cinco minutos: mostrar o papel, confirmar os dados, assinar. Mas são cinco minutos que, tragicamente, os serviços do nosso país não têm.

 

Contas certas? Défices zero? Excedentes orçamentais? Isto, demorar seis meses para levantar um cartão de cidadão, devia ser o maior embaraço para qualquer governante, a prova maior da sua total inépcia, da sua insofismável incompetência para liderar um país.

«Faça-se!»

por Amato, em 31.07.20

1. O parlamento, inspirado numa certa ideologia animalista em voga, aprova uma lei que proíbe o abate de animais em canis municipais. Poucas serão as pessoas que não concordarão com a bondade desta lei. Na madrugada de 19 de julho um incêndio em Santo Tirso mata dezenas de animais em dois canis locais onde os mesmos viviam, ao que tudo indica, em péssimas condições.

 

2. O governo decide reabrir as escolas para aulas presenciais no novo ano letivo obrigando os espaços educativos a imporem uma ética reforçada de higienização e desinfeção e os alunos a manterem um distanciamento entre um e dois metros. Ao mesmo tempo, o governo anunciou a intenção de proceder a um reforço no pessoal docente que, todavia, parece não se vir a concretizar, pelo menos em número suficiente. O número de alunos por turma não será alterado. O número de funcionários mantém-se. Não se percebe como se poderá levar a cabo as diretivas governamentais.

 

3. Centros de Saúde, hospitais, maternidades operam diariamente sem médicos, enfermeiros ou pessoal auxiliar em número suficiente, particularmente em tempos de pandemia.

 

4. O governo ou o parlamento diz «Faça-se!» e a coisa fica-se por isso mesmo. Não há verdadeiro escrutínio. Aprovam-se demasiadas leis, tomam-se demasiadas medidas neste país quando não há vontade política para disponibilizar os recursos para que essas leis e medidas sejam levadas à prática. O processo legislativo está convertido numa farsa.

 

5. Este governo é particularmente hábil no ardil que envolve este modo de atuar. Em particular, ficará para a história como o governo que elevou a infâmia das cativações orçamentais a um estatuto próprio e intocável no que diz respeito à norma de governação do país.

 

6. Sublinhe-se também a facilidade com que António Costa sacrifica os seus subordinados governativos, os presidentes ou diretores das instituições várias que polvilham o tecido das responsabilidades do estado na governação deste país. Nos tempos que correm, demitir uma destas figuras equivale ao sacrifício de um cordeiro ou de um par de pombas brancas pela paz ou pela remissão dos pecados do homem.

 

7. O governo diz «Faça-se!». Não se faz. Ou, se se faz, alguma outra coisa deixará de ser feita. A otimização de recursos tem um limite para lá do qual só existem fábulas, histórias de encantar e universos mágicos.

A falta de ética é coisa que se tornou normal

por Amato, em 10.06.20

https://www.iol.pt/multimedia/oratvi/multimedia/imagem/id/581bb76d0cf277d677a4c9a8/

image: www.iol.pt

 

Quase oito meses depois da tomada de posse enquanto ministro das finanças do XXII governo constitucional e depois de uma ainda mais longa novela, principiada ainda em tempos de campanha eleitoral, em torno da sua suposta continuidade no cargo e alimentada por uma certa ambição pessoal relativamente à apetecível posição de governador do Banco de Portugal, eis que, aos nove dias do mês de junho de 2020, Mário Centeno apresenta a sua demissão das funções governativas que exercia anunciando-a ao país de braço dado com o primeiro-ministro António Costa.

 

A situação é-nos apresentada, transversalmente, com uma naturalidade desconcertante. Mais à esquerda dizem-nos que o mais importante são as políticas e não as figuras. Sendo uma verdade evidente, não deixa de ser também uma cobarde fuga ao enfrentamento da questão. Da direita ensaiam-se tímidas acusações de promiscuidade abafadas por um vasto currículo nessa insalubre matéria de transferências diretas entre a política e as instituições públicas e privadas.

 

Parece, com efeito, ter-se estabelecido como ato natural a demissão de um cargo político para perseguir outros objetivos de carreira. A prestação de funções governativas está reduzida, pois, a mais um parágrafo no curriculum vitae, a mais um degrau na carreira profissional, a mais um pré-requisito — um pré-requisito valioso, é certo — para se alcançar ambições pessoais maiores. Longe vai a necessidade de aparentar somente um certo sentido de missão ao país e ao povo. Há um pragmatismo que está completamente instalado, há uma ausência de hipocrisia que é salutar por um lado, mas que, por outro, é simplesmente a inexistência declarada de um qualquer pingo de vergonha.

 

O “Ronaldo das finanças”, o ás de trunfo do primeiro-ministro para a sua reeleição não foi mais do que um engodo, uma baixeza para ludibriar o eleitorado e para o PS vencer as legislativas e que sai agora precisamente na antecâmara para a discussão do orçamento suplementar, que é palavra bonita para se não dizer retificativo. O ministro das finanças deixa ficar o guião para que outros o defendam, aprovem e sigam, perfeitamente desresponsabilizado das consequências que dele advenham: uma indecência.

 

Não exageremos, todavia, na crítica ao ministro das finanças. É provável que a sua demissão tivesse que ter sido antecipada para o dia de ontem. É que havia legislação a ser aprovada ontem, justamente ontem, dois projetos de lei do PAN e do PEV, contendo regras mais restritivas para a nomeação do governador do Banco de Portugal e que podiam colocar em causa as aspirações de Mário Centeno.

 

O episódio de Mário Centeno não é o primeiro e, bem entendido, não será o último nesta dança promiscua entre o governo e as instituições públicas e privadas, nacionais e supranacionais. A forma como a situação foi gerida, desde o princípio, carregou-a de um simbolismo indelével, um simbolismo de uma assumida falta de respeito pelos cargos, de uma declarada falta de consideração pelo povo e pelo país e de um descaramento de cabeça erguida que é perturbador. É como se a falta de ética se tivesse tornado coisa normal, perfeitamente natural e aceitável.

O marxismo pelas ruas da amargura

por Amato, em 15.05.20

Há já muito tempo — há tempo demais — que o marxismo revolucionário é coisa varrida das ruas, às quais devia pertencer por natureza, sendo apenas tema de predileção de uns poucos de intelectuais da academia.

 

O pós guerra fria teve um impacto dramático na generalidade dos partidos comunistas europeus, a esmagadora maioria dos quais renovou-se, reformulando e renegando os seus princípios, submetendo-se ao capitalismo vitorioso, convertendo-se à ideologia da propriedade privada. Como consequência óbvia, cada um deles desapareceu e desapareceu inclusivamente mais depressa do que se esperava não deixando rasto que se veja nos dias de hoje.

 

Em seu lugar surgiram forças políticas à esquerda de natureza bastante indefinida e com proposta inconsistente, alicerçadas numa certa intelectualidade de uma nova geração nascida num seio de direitos adquiridos, estranha e avessa a conceitos tão transformadores e fundamentais como a luta de classes e perfeitamente incapaz de recuperar a organização de massas, o entranhamento popular tão característico das forças marxistas tradicionais. As escassas vitórias destas novas forças políticas apenas tiveram como serventia a confirmação inequívoca de todas as suspeitas acima elencadas, sendo que, em cada caso, observou-se um total alinhamento e subserviência para com o sistema capitalista, as suas estruturas e os seus processos e nem um mero resquício de prática e ação políticas revolucionárias da sociedade.

 

Da ausência de consistência política, de marxismo revolucionário, as consequências para as ruas, para o movimento sindical, para o convencimento das massas trabalhadoras foram dramáticas. Os direitos conquistados após a segunda grande guerra através da luta de classes quer localmente, pela disputa em cada país entre proletários e burgueses, quer internacionalmente, na concorrência entre superpotências, foram sendo rapidamente suprimidos às populações com — o que é mais grave — o pleno consentimento destas. É fácil pedir a um europeu médio que olhe para si próprio e, em seguida, para os seus pais e avós e avalie a diferença, mas é difícil, contudo, fazer com que esse mesmo europeu perceba o quanto a sua qualidade de vida recuou em 30 anos, tão entretido que está com o consumismo inebriante instalado.

 

Em Portugal o partido comunista local adotou uma estratégia diferente, conseguindo manter-se fiel durante muito tempo ao seu ideário apesar de todas as pressões e o resultado foi diametralmente oposto. Não só o PCP não desapareceu do panorama político como se manteve com uma relevante votação e uma particular influência a nível autárquico e sindical e assumindo-se, a nível internacional, como uma voz preponderante.

 

Esta opção do PCP não foi, claro está, fácil. Não mudando, o PCP teve que enfrentar externamente uma poderosa corrente de propaganda anticomunista e fê-lo através de um processo de acantonamento, fechando-se sobre si próprio, blindando-se com a sua interpretação própria dos eventos históricos e isolando-se em torno de uma narrativa e uma linguagem suas. Combatendo divisões internas, tentativas recorrentes de “renovação” do partido que mais contribuíram para um certo afunilamento, a narrativa passou a valer mais do que as ideias, a disciplina partidária, a obediência à organização piramidal do partido, passaram a ser os valores primeiros quando, em boa verdade, a sua promoção foi devida à necessidade de proteger o ideário marxista da ação corruptiva por parte da sociedade e dos poderes capitalistas.

 

Como é vulgar nestas circunstâncias — já todos tivemos oportunidade de ler histórias e fábulas com esta lição de moral implícita —, o guardião facilmente se torna no carrasco do valor que é suposto proteger e relativamente ao PCP não foi diferente. Assistir à atuação política do PCP na última legislatura e, agora, nesta que decorre é verdadeiramente confrangedor. Em tantos anos de vida nunca esperei ver o partido tão subjugado ao poder burguês, comportando-se como um fiel cão de guarda do governo PS, desculpando cada enormidade, justificando cada ato de incompetência, dando respaldo a cada escândalo que este governo vai aprontando e permitindo que prossiga numa governação que, no essencial, é extraordinariamente lesiva dos trabalhadores e do povo. Pior do que tudo, é ver o marxismo pelas ruas da amargura, traído, derrotado pelos seus supostos guardiões, assistir a décadas de história de um partido atraiçoadas, a pergaminhos valiosos rasgados, aos sindicatos adormecidos, aos proletários completamente abandonados a sucessivos ataques do capital.

 

Vemos bem como os grandes grupos económicos são protegidos por este governo, assistimos a negociata atrás de negociata à custa do dinheiro da segurança social e dos trabalhadores, às injeções de milhões na banca e na TAP que se preparam, aos layoffs fraudulentos patrocinados,  por um governo que apenas o é, que apenas faz o que faz, porque o PCP o permite, porque o PCP, não sendo o único, é certo, assim o viabiliza.

 

O definhamento do PCP é assustador mas natural num partido que passou a valorizar mais o militante cumpridor de regras e respeitador da estrutura do que o militante conhecedor e fiel aos ideais marxistas. Consequentemente, os representantes do partido são, com honrosas exceções, medíocres, medíocres na apresentação, medíocres na oratória, medíocres na defesa intelectual que deles se exige dos valores marxistas, porque não são essas as características que são valorizadas. Antes, valoriza-se o seguidismo e a obediência.

 

O autismo dentro do partido atinge, por isso, níveis que tocam o absurdo. Em entrevista ao Porto Canal, esta semana, o secretário-geral coloca isto mesmo a nu quando se refere ao caso do funcionário e militante Miguel Casanova. O partido que, supostamente, faz da defesa dos direitos dos trabalhadores a sua bandeira porta-se desta forma, que nem me atrevo a descrever ou a qualificar, com um funcionário seu arrastando um processo de despedimento sem justa causa em sucessivos recursos. Trata-se, pois, de um partido que, claramente, já não sabe o que representa, quem representa, nem tem sequer a noção do que lhe fica bem perante a sociedade. Se o PCP tivesse um mínimo de consciência coletiva, este processo nunca teria chegado a tribunal. E tudo isto porquê? Ao que tudo indica, porque o funcionário não concordava com a linha política do partido.

 

Noutros tempos, seguir-se-iam a esta entrevista títulos de jornais acusando o partido de autoritarismo descarado, comentadores profissionais vários teriam tema para discorrer durante dias e dias. Os tempos, todavia, são outros. Também aqui se nota a simpatia com que os canais de informação tratam o PCP, os mesmos órgãos de propaganda da burguesia. Também aqui se vê como algo de muito errado se passa com o Partido Comunista Português. Não interessa denegrir o partido como era hábito no passado, porque o partido não faz mal a ninguém. Pelo contrário, o PCP é peça importante na solução governativa que serve a burguesia e, por isso, o que interessa é preservá-lo como está.

 

O XXI congresso do PCP que se prepara para o final deste ano surge, portanto, num quadro verdadeiramente dramático. Dramático porque, se dele não emanar uma radical mudança com resoluto alinhamento marxista revolucionário, o partido prosseguirá o seu caminho de definhamento, de perda de quadros, de distanciamento do povo com consequências devastadoras para a sociedade e para o futuro de todos. Dramático, também, porque não é minimamente expectável que tal mudança venha a acontecer.

 

Não escrevo estas linhas para dizer mal por dizer. Muito tenho deixado por escrever. Muito tenho deixado esquecido na gaveta, tal é a quantidade de material que, infelizmente, a atual conjuntura fornece. Escrevo, simplesmente, pela ténue esperança que estas palavras possam servir de inspiração para que a mudança necessária aconteça, que fiquem registadas como uma singela contribuição para um congresso no qual o PCP possa renascer, menos obcecado com o aqui e o agora, com o preservar dos pequenos poderes adquiridos e, antes, com os olhos apontados ao amanhã, ao futuro que é preciso construir, deixando de lado esse embuste da “política patriótica e de esquerda” e recuperando os valores do marxismo tão necessários, tão fundamentais, para a transformação que a sociedade clama.

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