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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

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O ano-epifania

por Amato, em 29.12.18

Politicamente, o ano de 2018 marcou-me dramaticamente. Foi um ano de revelações, de inequívocas constatações que abalaram definitivamente o chão onde me tenho vindo a suportar desde que me conheço. Foi um ano dramático, repleto de choques com uma realidade intelectualmente e emocionalmente inaceitável, mas também iluminador dessa mesma realidade. A realidade é a realidade. Não é o universo imaginativo que vamos construindo ao longo do tempo, uma mistura de desejos, conceitos e conceções. Não. A realidade é coisa que nos é perfeitamente exterior sendo que, todavia, fazemos parte dela. Quando não percebemos bem isto acabamos por cair como que num encantamento que nós próprios tecemos, o real não é bem o que se apresenta diante de nós, mas é antes aquilo que conseguimos ver com os olhos do coração.

 

Acredito que, para algumas pessoas, o seu mundo conceptual ilusório seja suficientemente robusto para subsistir a uma vida inteira de pouca examinação e introspeção. Para outras, há um momento de revelação que pode ser singular, motivado por um conjunto circunspecto de experiências, ou pode ser um ponto de exaustão de uma acumulação sucessiva de experiências que vão abalando os alicerces desse seu mundo.

 

Para mim, foi um pouco o segundo caso. Politicamente, o ano de 2018 foi o ano de exaustão de muitos anos de acumulação de desilusões e desapontamentos. Transformou-se, assim, num ano-epifania que me permitiu entender porque razão as coisas acontecem e se repetem neste mundo sem que a humanidade consiga encontrar alternativas a esta existência cíclica sem sentido.

 

Em Portugal, a esquerda revelou a sua face de uma forma que nunca tinha tido oportunidade de mostrar, com a transparência de quem efetivamente teve na mão o poder de influenciar políticas e de fazer cair o governo. O que mostrou nestes quatro anos foi exatamente quem são os seus alvos políticos e quais são as suas prioridades e isso foi absolutamente desolador. A esquerda trocou o seu apoio ao governo PS por uma quantidade de medidas vãs, pequenos aumentos, pequenas reposições de direitos, para pequenos grupos de pessoas, pequenas medidas que serão facilmente apagadas por um outro executivo ou por um mero contexto de inflação. A esquerda não conseguiu alterar nada de estrutural numa política de direita, de dramática precariedade no emprego, de permanente insegurança no trabalho, na habitação, na saúde e na educação da mais importante fatia da população neste país, os trabalhadores que vivem somente do seu trabalho, os contemporâneos proletários.

 

A esquerda mostrou indelevelmente que não existe para os trabalhadores deste país. A esquerda confunde as coisas e não entende que os trabalhadores deste país, que são os mais explorados, que são aqueles que tudo têm que pagar, que não têm subsídios para nada e que, com os seus impostos, sustentam as finanças portuguesas, não são necessariamente os mais pobres aos olhos do estado. E como a esquerda não olha para esta falange de homens e mulheres, porque não lhes dedica a sua atenção, estes homens e mulheres orgulhosos, porque vivem do seu trabalho e não de ajudas externas, também não olham para a esquerda. Este grupo de pessoas chama-se a classe média e ninguém quer saber dela. Com efeito, a classe média vive hoje igual ou mesmo pior do que no tempo do ajustamento pois é ela que está a pagar toda a panóplia de impostos indiretos inventada por este governo para cobrir e substituir permanentemente todas as medidas de austeridade passadas.

 

Neste sentido, não é de estranhar o movimento dos coletes amarelos em França. É a classe média trabalhadora que, não se identificando politicamente com nenhuma força política, particularmente com a esquerda, resolve dizer basta e revoltar-se pelos seus próprios meios. Vejam bem a força que o povo trabalhador tem! E vejam bem o perigo que corremos! A esquerda esqueceu-se do proletariado e o proletariado voltou as costas à esquerda. Na falta da esquerda, outras forças tratarão de liderar as massas proletárias. A extrema direita aí está, à espera da sua oportunidade, e a história já começa a repetir-se em muitos países da Europa e do mundo.

 

Em Portugal não há coletes amarelos, mas isso não quer dizer que a insatisfação não exista, não medre e não se manifeste de outros modos. Em Portugal, mais e mais mulheres perdem os seus empregos por ficarem grávidas; mais e mais trabalhadores veem-se expulsos das suas casas e das suas cidades para os subúrbios e para os subúrbios dos subúrbios por não conseguirem fazer face aos aumentos indiscriminados das rendas de casa, ao mesmo tempo que os seus salários ou valores-hora permanecem cristalizados ad aeternum; mais e mais cidadãos abandonam os seus percursos universitários por não terem acesso ao sistema ou não poderem pagar propinas; mais e mais cidadãos veem-se privados de cuidados de saúde pelo facto do sistema não lhes dar resposta razoável e por não se poderem dar ao luxo de faltar ao trabalho uma hora que seja para consultarem um médico.

 

Esta é a realidade e um dia esta realidade vai rebentar.

Como a História é uma coisa curiosa, hem?

por Amato, em 04.11.18

Como a História é uma coisa curiosa, hem? Via hoje as cerimónias dos cem anos do armistício da Primeira Grande Guerra, ouvia as palavras comprometidas do nosso Presidente, incomodado que anda nestes dias com a questão de Tancos e com a omnipresente ideia de nós sabermos que ele já sabia — acho que já não oferece beijinhos, nem se disponibiliza para selfies —, ao mesmo tempo que se assistia a uma parada militar mais ou menos caricata. Onde é que já se viu celebrar a paz com uma parada militar? Não sei. Já se deve ter visto, com certeza. A mim, não se me afigura com muito sentido.

 

Mas, como a História é uma coisa curiosa, hem? Vejam bem: celebramos um armistício de uma guerra como se fosse uma guerra qualquer, como se fossemos uns como os franceses ou os ingleses, como se nos pudéssemos chamar de “aliados”, assim, com propriedade! Celebramos com um sentimento de orgulho que até parece autêntico! Não lhe denoto, com efeito, vestígio algum de fingimento! Pergunto-me: de onde vem tal sentimento?!

 

Acaso não saberemos dos contornos desastrosos, trágicos mesmo, da nossa participação na Primeira Grande Guerra? Não ensinam isto às gerações mais jovens? Ou estas já não se lembram porque nunca lhe dedicaram especial atenção? O que somos nós, afinal, no meio disto tudo, desta sociedade feita feira de entretenimento? Verbos de encher? Carne para canhão?

 

Não exageremos, pois. Carne para canhão não seremos nós na justa interpretação da idiomática expressão. Esse papel foi dedicado aos nossos antepassados que participaram na Primeira Grande Guerra, homens de trabalho, pais de família, maridos, destacados e alinhavados às pressas, para serem enviados para França, para servirem como moeda de troca para favores de política internacional. Esse batalhão mal amanhado seria, esse sim, usado literalmente como carne para canhão em batalhas na região da Flandres, com destaque morbidamente particular para a Batalha de La Lys, em abril de 1918, com a perda desnecessária, evitável, dizem os entendidos, de milhares de vidas portuguesas, joguetes nas aprumadas mãos dos generais ingleses e franceses.

 

O Presidente da República faria bem em evocar esta desgraça, esta humilhação que nos foi infligida pelos nossos “eternos aliados” que nos usaram como carne para canhão, em vez de jogar conversa fora, em vez de recitar adjetivos sobre conceitos vagos e indeterminados como é tão seu apanágio. Podia aproveitar para o fazer quando visitar Paris, na próxima semana, para participar das celebrações que lá ocorrerão. Daria ao mundo, estou certo, uma imagem bem diferente do nosso país.

 

Adicionalmente, a participação portuguesa nesta guerra cujo fim se evocou hoje terá sido o princípio do fim da Primeira República que viria a ter o seu desenlace na ditadura militar. A guerra empurrou o país para a penúria, para a miséria e para as mãos do fascismo. É claro que o Presidente da República não falará nada sobre este assunto. Não é por desconhecer. Afinal, Marcelo é o afilhado do último ditador deste país. Ele sabe.

 

Como a História é uma coisa curiosa, hem? Desculpem a repetição. Cem anos parecem ser o suficiente para lavarmos completamente as memórias de um povo e para transformar o branco em preto e o preto em branco. Estou a exagerar: hoje em dia, as redes sociais e os smartphones fazem o mesmo numa questão de horas.

Por lá e por cá

por Amato, em 14.04.18

Acho incrível como é que subsiste tanta gente que, depois de décadas de intervenções vergonhosas, indecentes e oportunistas no Médio Oriente, ainda atribui algum crédito aos Estados Unidos da América e aos seus lacaios patéticos, Reino Unido e França. É coisa que, sinceramente, nunca hei de entender!

 

Portugal assumir-se como um país sem espinha dorsal, isso já é fácil de entender. Sempre assim foi. O contrário constituiria novidade. E António Guterres, enquanto presidente das Nações Unidas, comportar-se como um verme vulgar com voz de sacristão que rouba o cesto das esmolas? Isso também é fácil de aceitar. É a natureza de cada um.

 

Agora, todavia, as coisas estão um pouco diferentes. Há um certo respeito que será receio, talvez, que se sente no ar. Um respeito por uma Rússia que se reergueu sem se dar por ela e que faz questão de não participar na fantochada diplomática do costume. Desengane-se quem procura adivinhar uma terceira guerra mundial: estes bombardeamentos são mero fogo de artifício para o mundo ver e, ainda assim, com aviso prévio aos russos porque isto do respeitinho... é coisa que é muito bonita.

 

Por cá, assistimos ao princípio do fim do mito a que se convencionou chamar de “geringonça”. Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português fazem-me lembrar, com efeito, aquelas esposas continuamente traídas e mal tratadas num mau casamento que se mantêm na relação por amor aos filhos — os trabalhadores e o povo, no léxico comunista. Agora, parece que o marido, o PS, prepara-se para trocar em definitivo as esposas pela amante de sempre, a direita, corporizada no PSD. Esta história do “ir mais além que as metas europeias do défice” não tem nada de novo. O que aconteceu repetidamente no passado com as cativações é de idêntica natureza. A diferença é que, agora, o PSD apresenta-se solícito para tudo aprovar em matéria de política interna, sobretudo porque esta assim vai de encontro harmonioso aos interesses da burguesia que PS e PSD tão bem representam.

 

O PS conseguiu — facto assinalável —, ao longo de todo este mandato, fazer uso de BE e de PCP a seu bel prazer até ao preciso momento em que os seus pobres parceiros se esgotaram em préstimo e serventia. Um acordo mínimo foi suficiente para agarrar BE e PCP a uma prossecução de uma governação formalmente e em toda a linha de direita — contado desta forma, ninguém acredita!

 

É sem qualquer vestígio de satisfação que reconheço que este lamentável desenlace dos acontecimentos foi aqui, neste blog, repetidamente previsto e anunciado. BE e PCP ficam muito mal na fotografia e sofrerão — acredito, esperando estar errado — sérias consequências eleitorais.

 

É, por tudo isto que foi dito, que este apoio de Portugal ao mais recente bombardeamento americano à Síria me causou uma suplementar revolta. É que, e dirigindo-me concretamente ao PCP neste ponto, tendo-se revelado incapaz de forçar as reversões que realmente importavam ao país, como o Código de Trabalho, como a Segurança Social, os direitos, os salários e as reformas, não para alguns mas para todos, tendo sido incapaz de diminuir os impostos sobre quem vive do seu trabalho, tendo, enfim, deixado cair as suas principais bandeiras ideológicas em nome de uma travagem meramente simbólica da direita e da sua austeridade, deixa agora, também, cair a sua bandeira mais identitária que é a sua matriz anti-imperialista.

 

Ano após ano, no comício da Festa do Avante!, o secretário-geral do PCP estende a sua solidariedade aos povos que resistem ao imperialismo e dirige-se, concretamente, aos povos do médio-oriente. Como é que Jerónimo de Sousa conseguirá dizer isso este ano, tendo suportado parlamentarmente um governo que se aliou a uma agressão imperialista? Como? Não será possível. Não será mais possível.

 

É verdade que o PCP distanciou-se do governo e criticou-o por esta posição, mas caramba! Exigia-se mais! Estaremos a brincar às coligações? Ou para o PCP isto do imperialismo é conversa fiada que serve apenas para encher discursos e entreter as massas?

 

Não! Isto é muito sério. E, se o PCP fosse fiel à sua própria história e ideário, António Costa, depois da sua miserável intervenção de quinta-feira, caía durante esta mesma semana do seu pedestal de poder a menos que se retratasse e retirasse o nome do país desta abjeta lama onde o mergulhou.

 

O PCP, todavia, parece permanecer fiel a este medíocre papel de esposa desonrada de que falava acima. Queixa-se do governo que tem apoiado. Queixa-se num contínuo pranto. Mas não faz nada. Não faz nada.

 

Não faz nada.

 

Liga para o apoio à vítima, PCP. Liga. O número é o 116 006. Liga: é grátis. Pode ser que te ajudem.

Dias desinteressantes

por Amato, em 25.06.17

Estes dias têm sido desinteressantes. Entre o histerismo com a tragédia de Pedrogão, histerismo pueril porque se extingue rapidamente sem que nada daí resulte, e o histerismo com o futebol, esse verdadeiro ópio do povo, e com a seleção, já não tenho paciência para ouvir ou ler as notícias. Não tenho mais paciência para esta sucessão bipolar de histerismos, de masturbação mediática da tragédia. Desculpem-me a frontalidade mas a comunicação social mete-me nojo e revolta-me ainda mais a forma como nós nos prestamos tão bem a este papel de marionetas desmioladas dos media.

 

Vem-me sempre à memória aquela citação de Saramago que já aqui coloquei uma vez no blog.

 

   Este país preocupa-me, este país dói-me. E aflige-me a apatia, aflige-me a indiferença, aflige-me o egoísmo profundo em que esta sociedade vive. De vez em quando, como somos um povo de fogos de palha, ardemos muito, mas queimamos depressa.

 

   — José Saramago, Jornal de Letras, Artes e Ideias (1999)

 

Entre outras notícias menores, há a astróloga que foi eleita deputada em França pelo “partido” da meritocracia de Macron. Não somos só nós que somos néscios aqui por Portugal. Também os franceses, os franceses da França de Descartes e Voltaire, o são!

 

Por cá, parece que o PCP começa a cair na real e a apontar o dedo às políticas deste governo que, afinal, nunca deixaram de ser de direita, ao que parece. Não sei se o PCP vai a tempo de se descolar da geringonça. Esperemos, para bem do país, que esteja enganado.

Sobre os Le Pens e os Macrons

por Amato, em 10.05.17

A fórmula mais eficaz para enganar o povo é fazê-lo crer numa sociedade a preto e branco, dividida entre bons e maus. Para ser bem sucedida, essa simplificação centra-se em um ou dois aspectos, no máximo, considerados como fundamentais e é bombardeada pelos media a todas as horas e a todos os minutos do dia até que o povo ceda, nem que por cansaço, até que deixe de questionar a formulação apresentada para apenas prosseguir a sua vida sem conflitos internos com a voz dominante.

 

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A minha opinião é que nos preocupamos demasiado com Le Pens, quais demónios encarnados em figura de gente, e muito pouco com Macrons, os que se opõem ao mal e, portanto, os bons. Enquanto isso, os Macrons vão trilhando a sua ação política de desregulação das sociedades, de desequilíbrio económico, de favorecimento de classe — a banca, a alta finança, os donos dos grandes grupos económicos, os capitalistas, a burguesia —, e conduzindo essas mesmas sociedades a pontos de rotura, já sem qualquer vislumbre nem de pátria, nem de nação, nem de coisa nenhuma. Os Le Pens são consequência dos Macrons e não o contrário. Se consideram que o primeiro é o mal e o segundo é o bem, é bom que pensem melhor.

 

Mas é mais fácil pensar assim, admito. Este pensar entretém por mais um tempo. Os exploradores e os explorados permanecem explorados e explorados. Há uma ira que vai fermentando por debaixo deste pensar, é certo, mas nos entretantos, enquanto não rebentar a bolha que se vai formando, esta sociedade burguesa vai continuando o seu caminho.

 

Em Portugal assiste-se a fenómenos parecidos todos os dias. Por um lado, enojamo-nos — e bem! — com qualquer coisa que soe a fascismo declarado. Por outro, batemos palmas ao personagem que, por ora, vai ocupando os Paços do Concelho do Porto, fazendo a apologia de ditaduras para pôr o país em ordem. Rui Moreira gosta, aliás, de proferir os maiores disparates histórico-políticos nas palestras para as quais é convidado amiúde. Não sabe mais, compreenda-se. Todavia, as plateias aplaudem-no. Diz que podemos precisar de ditaduras “para termos a nossa soberania económica, na segurança”. Diz que espera que não seja assim mas... o país pode querer aquilo, refere, do alto da sua sapiência, não deixando de fazer objetivamente um elogio aos méritos que, segundo ele, o sistema tem. Diz ele, também, que uma solução para as sociedades é passarmos a ter democracias diretas em que todas as pessoas votariam através de uma app de um telemóvel, como se estivessem a jogar Pokemon Go. E as pessoas aplaudem! Profere ainda outras frases de igual estirpe, mas estas que selecionei são realmente impressionantes. É inenarrável a decadência, a mediocridade intelectual do personagem, mas ainda mais grotesco é ver aquela plateia de alunos e professores do ensino superior a aplaudir estas alarvidades como se não dispusessem de mais do que um neurónio para raciocinar.

 

As pessoas aplaudem, é um facto. Depois de ser reeleito para a Câmara Municipal do Porto, vê-lo-emos, Rui Moreira, a tentar uma cadeira do poder central e é provável que consiga. As pessoas aplaudem-no, não se esqueçam! E prestem atenção: Rui Moreira não é um Le Pen, é um Macron.

 

Os ditadores não são os Le Pens, acreditem. Estes raramente chegam ao poder. Os ditadores são os Macrons e vão a votos e ganham. E são aplaudidos.

A França de hoje em dia

por Amato, em 28.04.17

Compreender a vontade dos povos é um exercício que exige uma boa dose de honestidade, mais do que qualquer outra coisa.

 

Todos os analistas dizem que os franceses estão muito desiludidos com o governo do invertebrado Hollande e, por isso penalizaram o PS francês. Têm razão em estar desiludidos. Têm razão para penalizar o PS francês com uma humilhante derrota eleitoral. Hollande prometeu uma política “à esquerda” e tornou-se no lambe-botas primordial da Alemanha de Merkel, bem como o seu principal imediato na propaganda da austeridade por toda a Europa. Mas, então, perante o exposto, os franceses escolhem Macron?! Um ex-ministro da economia de... Hollande?! O mesmo indivíduo que fez campanha eleitoral pela liberalização do mercado laboral e da sociedade francesa?!

 

“Ah, Macron é independente e tal...”, antes de se dizer disparates olhe-se para a forma como Macron tem subido na carreira política e profissional, veja-se aí a sua independência política e não noutro lado qualquer.

 

A única explicação plausível para esta escolha — ainda mais grave quando verificamos que a segunda candidata foi a da extrema direita e não um candidato moderado ou de esquerda — é que os franceses penalizam o PS francês de Hollande por não ter sido suficientemente “à direita” na sua ação, por não ter sido suficientemente liberalizador da sociedade, por não ter sido mais nacionalista, por não ter vedado suficientemente a entrada de emigrantes, etc.

 

É importante que tenhamos plena consciência desta conclusão. Esqueça-se a França das revoluções e transformações sociais. Esqueça-se a França da Liberté, égalité, fraternité. A França de hoje em dia é muito diferente desses ideais mais ou menos intangíveis. A França de hoje em dia é maioritariamente de direita extrema, da falta de solidariedade, da desigualdade e, talvez — veremos —, da falta de liberdade também.

 

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Se eu fosse francês, não votaria Macron

por Amato, em 24.04.17

Corria o ano de 1986 e, volvida a primeira volta das terceiras eleições presidenciais portuguesas após o vinte e cinco de abril de 1974, Diogo Freitas do Amaral e Mário Soares apresentaram-se para disputar uma segunda volta. É curioso notar as semelhanças entre essas eleições e as eleições francesas deste ano.

 

Na altura, doze anos depois da revolução, o CDS era um partido que metia medo. Hoje não é assim, hoje o CDS não passa de um gabinete de advogados promíscuos com o poder. Mas em 1986, o fascismo sobrevivia em democracia através desse partido, os fascistas tinham encontrado no CDS o seu abrigo primordial e Freitas do Amaral corporizava num temor as memórias do antigo regime. Quando aquela segunda volta das eleições aconteceu todas as pessoas minimamente progressistas e todas aquelas que não queriam o fascismo de volta não tiveram dúvidas em cerrar fileiras em torno de Soares e de lhe dar a vitória, o que veio a suceder. Estava em causa a democracia. Estava em causa a liberdade.

 

Se já na altura, depois das governações imediatamente anteriores de Soares, que trataram de destruir qualquer vestígio de socialismo do país, já o era evidente, a história tratou de mostrar o quão enganados estávamos. Soares foi um péssimo presidente quase tanto quanto o Primeiro-ministro que tinha sido. Da sua ação não frutificaram quaisquer evidências de progresso, pelo contrário: abriu Portugal ao regresso da burguesia salazarenta, retomando uma espécie de capitalismo de estado no país, alicerçou-o a uma corrupção endémica, enraizada, e lançou Portugal numa eterna vassalagem pela dívida — que tanto discutimos hoje — perante a banca e as potências europeias, simbolizadas pela entrada serventual de Portugal na União Europeia. Pelo contrário e apesar de nunca o podermos saber, Freitas do Amaral poderia ter sido um presidente mais sério, é certo que com as suas retrógradas ideias, mas mais sério e mais culto e sábio, seguramente. Pergunto-me, portanto, se Portugal terá tomado a opção correta, então.

 

Depois há outro ponto que não é de somenos. Em política é normalmente mais perigoso escolher um assim-assim do que alguém que é declaradamente posicionado ideologicamente. É que um governante apenas pode fazer o que o povo permite e, usualmente, um povo adormecido é a melhor receita para se governar à vontade. Veja-se o que se passa em Portugal: as maiores transformações legislativas acontecem com o PS no governo e não — como seria expectável — com o PSD. É verdade: olhe-se para o código de trabalho e para a segurança social, só para dar dois exemplos. É que o PSD, mesmo em contexto de maioria absoluta, tem que enfrentar as forças sociais para aprovar o que quer que seja. Com o PS, por esta ou aquela razão, o mesmo não acontece.

 

É por estas razões que, se eu fosse francês, não votaria Macron. Le Pen é xenófoba, fascista e tudo o mais que lhe queiram chamar. Macron é igual a Le Pen, adicionado de muita falsidade e hipocrisia. As políticas preconizadas por Macron conduzem à divisão social, ao empobrecimento da população, à concentração de riqueza. Macron diz que gosta muito das minorias só para as atrair, com as suas políticas — qual canto de sereia —, para guetos de baixos salários, de indigência e de indignidade. Macron é a lei do lucro a qualquer custo. Macron é a razão de ser da França ser o absurdo de sociedade que é hoje, dos seus lemas, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, serem autênticas anedotas e é a razão de ser da existência de Le Pen e da Frente Nacional.

 

Os franceses votaram em dois cancros sociais e agora querem que tome posição? Não. Não farei essa escolha. Se eu fosse francês, votaria em branco. Se Le Pen ganhasse, não sentiria remorsos: podia ser que os franceses juntassem juízo e passassem a ser mais atentos à política e à governação. E podia ser que se unissem em torno daquilo que realmente deviam considerar precioso, Igualdade, Liberdade, Fraternidade, mas não em texto, não como ladainha para adormecer ou como medalhas em lapela bolorenta. Como realidade social, como prática diária, nos empregos, nas famílias, em cada canto do país.

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