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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Um roteiro para compreender o resultado das eleições legislativas de 2019

por Amato, em 11.10.19

É muito fácil compreender o resultado das eleições cujo desfecho se veio a conhecer na noite de domingo passado. Basta seguir a linha condutora dos eventos, passo a passo, sem perder o fio à meada.

 

O PS venceu as eleições porque foi-lhe permitido, durante quatro anos, fazer uma governação que agradou, simultaneamente, a gregos e troianos. Passo a explicar.

 

A troco de meia dúzia de políticas de natureza redistributiva da riqueza produzida, PCP e Bloco de Esquerda permitiram que o PS continuasse, aprimorasse e cristalizasse estruturalmente na nossa sociedade a política de austeridade que herdou do anterior governo. Com isto o PS conseguiu duas coisas: por um lado, pôde seduzir uma parte relevante da sociedade — os mais pobres e os que mais dependem do assistencialismo do estado — com medidas como os aumentos de reformas e de salário mínimo ou os passes dos transportes públicos; por outro lado, e mais importante, logrou esvaziar a direita política, que viu na governação do PS aquela que ela própria gostava de ter feito, com os objetivos dos números e das estatísticas, do défice e do crescimento económico, que gostava de ter atingido, e cujo eleitorado capitulou definitivamente para o lado do PS com as ações desse partido no campo laboral e na forma indecente com que este lidou com as greves e com as reivindicações de certas classes de trabalhadores.

 

Não se enganem: o PS ganhou estas eleições porque esvaziou a direita, porque ganhou a direita, porque a direita escolheu votar nele e não por causa das medidas sociais ou redistributivas ou de outra coisa qualquer. Dito isto, PCP e Bloco de Esquerda devem estar de parabéns pois foram, ao longo de quatro anos de governo, os principais obreiros desta vitória do PS.

 

Não é portanto de estranhar, e quem acompanha este espaço não estranhará certamente, o resultado obtido quer pela direita, quer pela esquerda.

 

À direita não sobrava razão para ser merecedora de votos. O PS, afinal, conseguiu melhores resultados e com um clima de paz social nunca antes visto, muito devido ao adormecimento coordenado dos sindicatos afetos à CGTP. Ao CDS acresceu ainda o fardo da anterior governação que este partido decidiu orgulhosamente carregar e que, indelevelmente, resultou no seu regresso ao passado dos tempos do “Partido do Táxi”. Foi isso e terá sido também a atitude incompreensível, sempre carregada de agressividade e de hipocrisia, da sua liderança que tudo criticava na governação, mesmo as políticas que antes, enquanto governo, replicava.

 

À esquerda, creio que há dois fatores importantes a destacar.

 

Em primeiro lugar, um reconhecimento geral da inépcia dos dois partidos, PCP e Bloco de Esquerda, em negociar com o governo quando efetivamente detinham o poder de acabar com a governação do PS de um dia para o outro. Fica a ideia que o PS pouco cedeu, tão escassas e limitadas que foram as conquistas durante este período. Este facto pode ter levado o eleitorado a considerar irrelevante o reforço da votação nestes dois partidos.

 

Em segundo lugar e, para mim, mais importante, há a ideia de subversão ideológica que fica patente destes quatro anos. Sobretudo no que ao PCP diz respeito, é difícil de explicar como se legitimou um governo de direita, que deu mais uma canelada no código de trabalho, que maltratou classes inteiras de trabalhadores como os professores, os enfermeiros ou os motoristas de matérias perigosas, entre outros, incluindo descarados atropelos ao direito à greve, sindicâncias pidescas a ordens profissionais, despachos ministeriais em favor das entidades patronais, etc. Tudo isto se passou sob o nariz de PCP e de Bloco de Esquerda e isto, que para os demais até pode ser de somenos, tem muito peso para o militante de base, aquele que viveu uma vida inteira lutando por um ideal sem lucrar nada com isso, bem pelo contrário, sofrendo na própria pele a devoção para com as suas ideias, e para o qual a honestidade ideológica está acima de tudo. Talvez seja por aqui, acredito, que se possa explicar alguns dos milhares de votos a menos nestes partidos.

 

Relativamente aos partidos mais pequenos, também é muito fácil entender os seus resultados.

 

O PAN, cavalgando a histeria momentânea da emergência climática, cresceu como era esperado. O seu voto é um voto de protesto baseado numa ideia mais ou menos vaga, em convicções mais ou menos genéricas, porque ninguém, em consciência, sabe o que é que o PAN defende, porque o que defende é muito moldável, altera-se de uma hora para a outra, e porque ninguém quer prestar muita atenção a coisas de política. Nesta legislatura o PAN fará exatamente o mesmo que fez na anterior: abster-se-á em tudo o que for discutido e, no meio, fará uma ou duas intervenções mais ou menos apalhaçadas com adereços ou outras coisas que tais. As pessoas votaram nisto: é um voto nulo que elegeu quatro deputados.

 

A eleição de um deputado do Chega era também esperado e, se acaso não ocorresse agora, aconteceria numa próxima eleição. É o voto de protesto contra o politicamente correto e contra uma sociedade cada vez mais desorganizada e doente, sobretudo na capital do país onde há maior concentração populacional. Para muitos, a resposta mais tentadora a problemas concretos que nunca são abordados no espaço público é a extrema direita neofascista e xenófoba, securitista e ignorante. É triste, é desolador, mas era esperado.

 

Quanto à Iniciativa Liberal, o seu resultado até acaba por ficar aquém daquele que podia ter atingido com alguma naturalidade. Repare-se que a IL constituiu-se como o espaço de recolha do “passismo”, dos seus quadros, dos seus think tanks, opinion makers e influenciadores de redes sociais. Toda essa gente, que atingiu patamares de relevância e influência políticas no tempo da troika e de Passos Coelho e Paulo Portas, viu-se, com a constituição da geringonça e, posteriormente, a eleição de Rui Rio no PSD, sem emprego, sem serventia. Santana Lopes ainda tentou chamá-los para a Aliança, mas foi na IL que eles encontraram o seu nicho provisório. Deste processo ter resultado apenas um deputado, parece-me modesto, medíocre mesmo.

 

Por fim, o Livre apresenta, à partida, o resultado talvez mais inesperado de todos, mas que pode ser entendido. No plano nacional, este partido ideologicamente muito vago e algo oportunista com a questão da “esquerda verde”, viu a sua mensagem essencial ser, de certo modo, extinguida. Com efeito, o Livre apresentava-se há quatro anos como o promotor de uma grande coligação de esquerda, algo que veio a verificar-se com a geringonça e sem a sua participação. Volvidos estes quatro anos o Livre não tinha nada de substantivo para apresentar no plano nacional. Mas a questão é que esta eleição da deputada do Livre não se explica pelas propostas nacionais do partido que representa que, aliás, pouca ou nenhuma visibilidade mediática tiveram. Será antes em razão da influência local na área de Lisboa da personalidade notável de Joacine Moreira que, com a sua capacidade dinâmica e mobilizadora de massas, terá congregado suficiente eleitorado para conseguir a sua própria eleição. Não menosprezar também alguns votos perdidos e extraviados da área de Bloco e PCP.

 

Gostava de terminar este texto com uma nota. A vitória do PS não significa necessariamente a conquista de uma governação mais estável, antes pelo contrário. Com o PCP a voltar às ruas, as quais nunca devia ter abandonado, com Rio preso por arames no PSD, com o Bloco sedento, como sempre e mais do que nunca agora depois de perder cinquenta mil votos, por protagonismo, o caminho mais fácil e mais natural para o PS, que é tornar-se mais autista e prepotente na sua governação de direita, pode muito bem vir a tornar-se no prenúncio para um fim precoce e inglório do seu segundo quadriénio governativo.

Com a bênção de todos

por Amato, em 12.08.19

Não deixa de ser irónico que, na viragem do século, o fascismo tenha, enfim, descoberto na democracia o seu habitat mais confortável para se manter e desenvolver.

 

À vista de todos, com a bênção de todos.

Consciência de si

por Amato, em 23.10.18

Desde muito cedo, quando este blog ainda mal tinha acabado de ser lançado, criei a tag “consciência de si” para classificar as temáticas de alguns dos primeiros posts que ia escrevendo. Volvidos mais de quatro anos sobre esses posts, a tag “consciência de si” é uma das mais usadas neste blog. Parece que quase tudo quanto escrevo acaba por levar esta etiqueta. Não se trata de uma questão estilística, no entanto.

 

Uma das coisas que mais me fascina na humanidade é a frequente falta evidente desta qualidade. Não temos consciência do que somos. Não conseguimos observar a nossa condição desde fora, desde longe. Fruto talvez da nossa ilimitada imaginação, somos capazes de criar qualquer mundo fantástico, qualquer história ficcional, de imaginarmos o que quer que queiramos ser, e, nesse processo, perdemos a noção do chão que pisamos, de onde estamos, do que somos e de para onde vamos.

 

Paralelamente, julgamo-nos sempre de outro modo diverso do que aos outros. Somos diferentes e especiais. O que se diz dos outros não se aplica à nossa pessoa. Porque a nossa pessoa é diferente. Porque a nossa pessoa é especial.

 

Escrevo estas palavras a propósito de umas declarações que li de Bolsonaro, o energúmeno que se prepara para ascender ao poder no Brasil. Disse ele, com todas as palavras, que “vamos fuzilar a pretalhada”, “acabar com os subsídios” [da pretalhada] e que vai imperar “a lei do lombo” [para a pretalhada].

 

Esqueçamos, por ora, para não arruinar a prosa, o caráter ofensivo e racista da palavra. O que mais me fascina no meio disto tudo é pensar que Bolsonaro vai ganhar as eleições num país onde a esmagadora maioria da população é mulata ou negra, o que me leva a admitir o óbvio: quando os negros ou mulatos ouvem a palavra “pretalhada”, devem pensar que é para os outros, para o amigo do lado. Deve haver sempre alguém com a tez mais escura, afinal. Os brasileiros acham que “pretalhada” é para os outros. Cada brasileiro deve considerar-se branco, caucasiano até. Os outros todos é que são negros!

 

Vem-me à memória aquela frase de John Steinbeck:

 

“O socialismo nunca formou raízes na América porque os pobres vêem-se a si próprios não como proletários explorados mas como milionários atravessando um período difícil.”

 

E vem-me também à memória aquele poema de Bertold Brecht:

 

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

 

O ser humano é assim mesmo. Nunca é connosco. É sempre com os outros. Quando reparamos que é connosco é sempre tarde demais. Não temos consciência do que somos.

Marcelismo da era moderna: a transformação silenciosa do sistema

por Amato, em 10.11.17

A cada aparição despropositada do Presidente da República, seja nos hospitais por causa da legionella, seja nas barragens a propósito da seca, seja nas localidades vítimas dos incêndios, Marcelo parece que diz: “Estes tipos — os do governo, os das instituições públicas, os médicos e os bombeiros — não são de fiar para fazer o que é preciso, mas não se preocupem, o Presidente está aqui para tomar conta do acontecimento. Se houver problema, a culpa é deles, mas estarei aqui para apontar o dedo.”

 

Bem vistas as coisas, o papel a que o Presidente se presta é de todo em todo indecente. Ao mesmo tempo que apoia o governo, tudo faz para o relegar para um plano secundário a roçar o desprezível. Faz tudo parte do plano de Marcelo: uma transformação silenciosa do sistema, que visa instituir um regime presidencialista, ainda que informal — até ver! —, no país. Depois dos ignóbeis cavaquismo, socratismo e passismo, quem diria que viria um marcelismo da era moderna tomar conta de Portugal, a reavivar o fantasma do padrinho do Presidente, o último ditador fascista assumido deste país?

Sobrestimar o povo

por Amato, em 22.09.16

De vez em quando caio na real. Acontece. É importante cair na real.

 

O meu problema é sobrestimar o povo.

 

Hoje, na viagem de regresso, vinha a ouvir na Antena 2 um dos seus interessantíssimos programas. O de hoje à tarde versava a Inquisição. A Inquisição foi um movimento repressivo e reacionário da Igreja Católica que perseguiu todos aqueles que poderiam ameaçar a manutenção do seu poder sobre os estados, sobretudo os europeus. Neste sentido, perseguiu, torturou e executou, para além de membros de outras religiões, muitas das mais brilhantes mentes, homens e mulheres das ciências, das artes e da cultura, mas também defensores de um quadro de direitos e de liberdades mais avançados, humanistas e progressistas. A ação da Inquisição perdurou durante toda a Idade Média, atravessou o Renascimento e cada outro período até meados do século XIX. Disse bem, século XIX.

 

No programa de rádio, o locutor dizia que apenas uma pequena parte das denúncias populares conduziram a processos inquisitórios. Com efeito, o povo constituiu-se sempre como o principal aliado da barbárie, denunciando vizinhos e amigos, com ou sem justificação, e rejubilando com as queimadas públicas. Fazendo fast forward no tempo, vamos encontrar semelhante comportamento nos bufos da PIDE, no fascismo português. Não era preciso muito para alguém denunciar um companheiro por uma conversa de café. Não era o fascismo, nem era a PIDE. Era o povo que o fazia de bom grado.

 

O meu problema, repito, é sobrestimar o povo. Distraio-me muitas vezes e acredito que o povo pode ser capaz de muito mais do que aquilo que realmente pode. A Inquisição foi há menos de duzentos anos. O fascismo nem cinquenta anos de distância tem. Esperamos demais deste povo. Duzentos anos, cinquenta anos, não são nada em termos históricos. E o problema é que no interior do povo ainda estão bem vivas as mesmas motivações, o mesmo tipo de justificações coletivas, que conduziram às experiências reacionárias do passado.

Governos Vichy e colaboracionistas contemporâneos

por Amato, em 07.06.16

Quando o Terceiro Reich conquistou a França, foi dissolvida a terceira república francesa e instaurado o chamado État Français. O governo fantoche, então criado, passou a ser conhecido como o governo Vichy, por ser sediado nessa cidade francesa que fica a sudeste de Paris, próximo de Clermont-Ferrand.

 

http://i.telegraph.co.uk/multimedia/archive/03072/vichy_3072505b.jpg

 

Hoje, a História é recontada simplesmente em jeito de vitimização do povo francês. A realidade, contudo, está longe, bem longe, desse processo oportuno de vitimização.

 

O governo Vichy não era simplesmente um governo resignado às contingências da sua realidade: era um governo ativo, bem mandado, colaboracionista. E não era, não foi, um governo isolado popularmente — longe disso! Há quem diga que o povo está sempre com quem ganha, seja no futebol, seja na política. Seja por isso ou por outra razão qualquer, o governo Vichy tinha num despertar massivo de franceses fascistas e anticomunistas um suporte que era concreto, que era substancial e não vestigial como a História recontada nos diz. Mesmo muitos daqueles que pudessem não ser nem uma coisa nem outra — o que frequentemente resulta em sê-lo por omissão — apoiavam declaradamente o governo Vichy e a sua natureza antidemocrática e fascista. Diziam, então, que era algo necessário para que a França conservasse alguma da sua autonomia.

 

Para os franceses perder a sua liberdade era algo necessário para que a França conservasse alguma da sua autonomia. Não me enganei no que escrevi. É curioso que exatamente a mesma argumentação surge na boca dos defensores da austeridade alemã/europeia nos dias que correm: a austeridade é algo necessário para conservarmos alguma da nossa autonomia. Muito curioso...

 

O que pretendo com esta entrada é desmontar aquela ideia, frequentemente associada à História capitalista da Segunda Grande Guerra, de que uma boa parte do conflito se deveu a dois ou três desequilibrados que enganaram a maioria do povo. Não foi assim. A Segunda Grande Guerra foi feita pelas pessoas, as mesmas a que chamamos de “normais”. E os governos colaboracionistas foram muito reais. A Alemanha Nazi teve o apoio de inúmeros países europeus que literalmente lhe estendeu passadeiras vermelhas para que marchassem Europa fora.

 

Apenas com uma visão lúcida sobre a História poderemos ser capazes de evitar que a mesma se repita. E ela aí está, a repetir-se, mesmo diante dos nossos olhos!

 

Hoje a ideologia Nazi não se manifesta abertamente, declaradamente, mas está aí: a xenofobia, a ideia de superioridade física e moral dos povos nórdicos perante todos os outros. Vemo-lo na questão da dívida. Vemo-lo na questão dos refugiados. A Alemanha não conquista hoje pelo poder das armas, não usa tanques de guerra, blimps ou motos com sidecar: conquista pelo poder da banca e das dívidas soberanas. E os governos Vichy... aí estão eles, completamente vergados à vontade alemã, completamente entregues, com os seus políticos colaboracionistas, cegamente a defender a austeridade, cegamente a defender a vontade alemã/europeia.

 

Nesta semana, soubemos que Manfred Weber, o líder do PPE, o Partido Popular Europeu, partido com assento no Parlamento Europeu que agrega os partidos da social democracia e da democracia cristã, e do qual fazem parte o PSD e o CDS, enviou uma carta a Jean-Claude Juncker, o Presidente da Comissão Europeia, a solicitar a aplicação de sanções aos países da zona euro que não tenham cumprido o défice de 3% em 2016, Portugal incluído.

 

Que papel é este a que os eurodeputados portugueses do PPE, os do CDS e do PSD, se prestam se não o de contemporâneos colaboracionistas? Que papel é este?! Por que não se demarcam? Por que não abandonam o PPE imediatamente? Noutros tempos, tais atitudes seriam tratadas de uma forma bem diferente e bem “definitiva” por configurarem conspiração e traição à Pátria. Hoje, contudo, parece que é normal...

 

Aí temos, diante de nós, a História a repetir-se, a voltar ao ponto de partida, como um satélite na sua órbita elítica. Aí temos, diante de nós, o contemporâneo Terceiro Reich a ocupar toda a Europa sem que uma bala sequer seja disparada. E, com ele, os contemporâneos governos Vichy, a gerir os territórios de acordo com os ditames alemães, e os colaboracionistas que — democraticamente — os suportam e os justificam hoje como ontem.

Paralelo com mil novecentos e dez

por Amato, em 09.03.16

Dizia-se da primeira República, a de Teófilo Braga, Manuel de Arriaga e Bernardino Machado, que dececionara o povo de tal forma que se constituíra como uma versão mais cara e corrupta da monarquia defunta. Tais razões, aliás, estão na base, segundo se crê, da ascensão aclamada ao poder da ditadura militar fascista.

 

É, todavia, paradoxal. A esta hora que escrevo, acompanho em direto a tomada de posse do quinto Presidente da República (a terceira República) desde o Vinte e Cinco de Abril, e a cerimónia assemelha-se mais à tomada de posse de um rei, rodeado de suas promíscuas cortes, do que de outra coisa qualquer. Está lá o chefe dos padres, estão lá os representantes nacionais e internacionais, está lá o povo, do lado de fora, a bater palminhas e a tirar fotografias. Não falta nada ao sinistro quadro.

 

Os níveis de despesismo não são diferentes daqueles que grassavam no ano de mil novecentos e dez e seguintes. Qualquer um facilmente percebe isto, basta tomar atenção nos números da despesa das várias presidências que se comparam com as mais faustosas monarquias europeias.

 

Por ventura, as razões que outrora, não há muito tempo, conduziram Portugal ao fascismo não serão tão simples de entender. Por ventura, serão mais profundas. Não será simplesmente o despesismo e a corrupção ou a indecência e a pompa, visto que estes, por ora, são entendidos e aceites como naturais. Será outra coisa qualquer.

 

Não há decoro. Simplesmente não há. Mas o povo parece gostar.

 

https://largodoscorreios.files.wordpress.com/2013/10/5-de-outubro-3.jpg

 

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