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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Para quê?

por Amato, em 08.06.18

Thomas Mann

 

O homem não vive somente a sua vida individual; consciente ou inconscientemente participa também da sua época e dos seus contemporâneos. Até mesmo uma pessoa inclinada a julgar absolutas e naturais as bases gerais e ultrapessoais da sua existência e que dá ideia de as criticar tão objectivamente como Hans Castorp, pode facilmente sentir o seu bem-estar moral um tanto diminuído pelos defeitos inerentes a essas bases. O indivíduo pode visar numerosos objectivos pessoais, finalidades, esperanças, perspectivas, que lhe dêem o impulso para grandes esforços e elevadas actividades; mas quando o elementos impessoal que o rodeia, quando o próprio tempo, não obstante toda a agitação exterior, carece no fundo de esperanças e perspectivas, quando se lhe revela como desesperador, desorientado e sem saída, e responde com um silêncio vazio à pergunta que se faz consciente ou inconscientemente, mas em todo o caso se faz, a pergunta pelo sentido supremo, ultrapessoal e absoluto, de toda a actividade e de todo o esforço, então tornar-se-á inevitável, precisamente entre as naturezas mais rectas, o efeito paralisador desse estado de coisas e esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral e de afectar a própria parte física e orgânica do indivíduo. Para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapassa a medida do que é usual fazer-se, sem que a época saiba dar uma resposta satisfatória à pergunta «Para quê?», é indispensável ou um isolamento moral e uma independência, como raras vezes se encontram e têm um quê de heróico, ou então uma vitalidade muito robusta. Hans Castorp não possuía nem uma nem outra dessas qualidades e portanto deve ser considerado medíocre, posto que num sentido inteiramente louvável.

 

— Thomas Mann, A Montanha Mágica

Séneca e como os problemas de ontem são os problemas de hoje

por Amato, em 30.04.17

Quem se interessa um pouco pelo estudo da história dos povos e do saber, chega rapidamente à conclusão que a versão da história que nos dão a conhecer tem que ser obrigatoriamente muito limitada. Mais importante ainda é perceber a falsidade daquela ideia que nos é plantada desde tenra idade de que agora somos muito avançados e que há dois mil anos atrás éramos todos um conjunto de bárbaros. Quem se acredita nisto não poderia estar mais longe da verdade.

 

A própria conotação que é atribuída à palavra bárbaro é muito interessante. Foram os romanos que a usaram pela primeira vez para distinguir aqueles povos que os invadiam vindos do norte, exércitos de homens de face por barbear, prelúdio do final do império. Hoje, poucas são as pessoas que não associam à palavra um homem sem cultura, sem modos e sem educação e, todavia, as evidências apontam para que os bárbaros fossem possuidores de uma cultura e de uma educação ao nível das do império romano.

 

Algo de semelhante se passa relativamente a todas as civilizações que nos são distantes. Ainda que admitamos notáveis avanços em algumas delas, nomeadamente nas clássicas, a verdade é que o fazemos numa atitude de profundo paternalismo. Esse paternalismo é alicerçado nos nossos avanços científicos, nos gadgets absolutamente redundantes com que decoramos as nossas vidas. Todavia, se olharmos com um bocadinho de atenção, somos obrigados a modificar a nossa opinião.

 

Cientificamente falando não nos encontramos tão mais avançados como julgamos e esta conclusão é tão mais evidente se fossemos capazes de excluir o século XX desta equação, período no qual os mais relevantes avanços foram conquistados desde a antiguidade clássica. Até ao século XX, toda a Matemática que se sabia já era dominada desde a Babilónia, dois mil anos antes de Cristo, se não antes. E ainda há toda uma gigantesca e antiquíssima civilização oriental (chinesa) que nos é completamente desconhecida. Lembro-me sempre deste facto interessante: existem inscrições nas antigas pirâmides egípcias que, hoje em dia, apenas poderiam ser feitas com o auxílio de maquinaria avançada.

 

Há, todavia, algo que supera a ciência em importância: o pensamento. Os pensadores clássicos colocam a nossa moderna civilização numa posição embaraçosa. Primeiro, porque a nossa civilização abdicou por completo de pensar, diminui a importância da Filosofia, reduz tudo à Ciência, a saberes feitos e finais, não questionáveis, artificiais. Segundo — e isto é que é realmente interessante —, porque estes filósofos já se questionavam sobre os mesmos problemas com que hoje nos deparamos na nossa sociedade.

 

Lúcio Aneu Séneca (4 aC - 65 dC)

 

Observe-se o caso de Lúcio Aneu Séneca precetor do jovem Nero, futuro imperador romano, e um filósofo romano que influenciou decisivamente o pensamento no período do Renascimento, mil e quinhentos anos depois da sua morte. Séneca foi autor de inúmeras obras notáveis de reflexão sobre a sociedade e sobre o Homem. Numa delas, talvez a mais famosa, Da Brevidade da Vida, Séneca diz o seguinte:

 

Nenhum homem sábio deixará de se espantar com a cegueira do espírito humano. Ninguém permite que sua propriedade seja invadida e, havendo discórdia quanto aos limites, por menor que seja, os homens pegam em pedras e armas para a defender. No entanto, permitem que outros invadam suas vidas pessoais de tal modo que eles próprios conduzem os seus invasores a isto. Não se encontra ninguém que queira dividir sua riqueza, mas ao mesmo tempo a sua vida é distribuída entre muitos. São avarentos em preservar o seu património, mas quando se trata de desperdiçar o seu tempo, são muito pródigos relativamente à única coisa capaz de justificar a avareza. Por isso, diverte-me interrogar um qualquer, dentre a multidão dos mais velhos:

“Vemos que chegaste ao fim da vida, contas já cem ou mais anos. Vamos! Faz o cômputo da tua existência. Calcula quanto deste tempo foi gasto tempo com um agiota, com uma amante, com um patrão ou com um cliente, quanto tempo se subtraiu com querelas conjugais, as reprimendas aos escravos, as atarefadas perambulações pela cidade; acrescenta as doenças que nós próprios nos causamos e também todo o tempo perdido: verás que tens menos anos de vida do que os que contas. Faz um esforço de memória: quando tiveste uma resolução na tua vida que seguiste? Quão poucas vezes um dia qualquer decorreu como planeaste! Quando empregaste o teu tempo contigo mesmo? Quando mantiveste a aparência imperturbável, o ânimo intrépido? Quantas obras fizeste para ti próprio? Quantos não terão esbanjado a tua vida, sem que percebesses o que estavas perdendo; o quanto da tua vida não   subtraíram sofrimentos desnecessários, tolos contentamentos, ávidas paixões, inúteis conversações, e quão pouco não te restou do que era teu! Compreendes que morres prematuramente!” Qual é pois o motivo? O Homem vive como se fosse viver para sempre, nunca lhe ocorre que é frágil, não nota quanto tempo já decorreu; gasta o tempo como se ele fosse farto e abundante, ao passo que aquele mesmo dia que é dado ao serviço de outro homem ou outra coisa pode ser o seu último. O Homem detém simultaneamente todos os medos dos mortais e todos os desejos dos imortais

Ouvirás muitos dizerem: “Aos cinquenta anos refugiar-me-ei no ócio, aos sessenta estarei livre de meus encargos.” E que segurança têm eles de uma vida tão longa?

E quem assegurará que tudo decorrerá conforme os seus planos? Não se envergonham de reservar para si apenas as sobras da vida e destinar à meditação somente a idade que já não serve mais para nada? Quão tarde começam a viver, quando já é hora de deixar de fazê-lo. Que negligência tão louca a dos mortais, de adiar para o quinquagésimo ou sexagésimo ano os prudentes juízos, e a partir deste ponto, ao qual poucos chegarão, querer começar a viver!

 

— Séneca, Da Brevidade da Vida, III (tradução não oficial)

 

Quando se lê um texto deste calibre há apenas uma conclusão a retirar: se há dois mil anos atrás os povos já se confrontavam com este tipo de problemas que hoje são tão reais nas nossas sociedades, hiperbolizados ao limite do imaginável com fenómenos como as chamadas redes sociais, então isso significa que o Homem de há dois mil anos atrás não era substancialmente diferente do Homem de hoje em dia, que as sociedades eram muito parecidas e que os problemas com que se deparavam então eram os mesmos com que nos deparamos hoje.

 

Um conhecimento profundo e genuíno da nossa história, comprova-se com textos deste tipo, apenas pode contribuir para o entendimento e resolução dos problemas do Homem e das sociedades humanas. O desprezo pela História e pela Filosofia, tem apenas como objetivo cristalizar a vida humana num modo de funcionamento que é o mesmo, perene, imutável com o passar dos milénios, e que apenas serve aos poderes que governam e lideram as massas para eles próprios se manterem, expandirem e cristalizarem. Pela evolução real do Homem e das sociedades, é imperioso que sejamos capazes de compreender isto e que não nos deixemos ofuscar por iphones e outros artifícios tecnológicos perfeitamente inúteis.

Uma triste figura

por Amato, em 08.10.16

A primeira vez que ouvi o nome de Mário Vargas Llosa foi a propósito da atribuição do prémio Nobel da literatura a este escritor. O ano de 2010 precipitava-se para o seu términos. Na altura não percebi a razão de ser da atribuição deste prémio. Continuo a não perceber. Talvez um dia, quando a força das circunstâncias assim o exigir, pegarei um livro seu em mãos e, então, serei capaz de ajuizar sobre a justeza de tal atribuição.

 

A verdade é que o prémio Nobel não significa muito. Sejamos honestos e não dispersemos com a rudeza das palavras escritas: quantos prémios Nobel da literatura ficaram para a história? Quantos? Conseguem nomeá-los? Até vos faço um favor: percorram a lista da wikipedia e digam-me, honestamente, quantos dos laureados consideram que serão imortalizados acima do escorrer das areias do tempo? Admirados? São poucos?

 

Tal facto apenas vem concorrer para aquilo a que o prémio se tornou ao longo dos anos: um prémio totalmente politizado — no mau sentido —, travestido de qualquer sentido de arte, a leste de qualquer conceito de literatura, com o objetivo único de premiar não o escritor, mas aquilo que o escritor representa, isto é, de usar o escritor como uma bandeira para influenciar politicamente os povos.

 

Claro que, pelo meio, há Steinbeck, há Neruda, há Saramago, há Russel, Sartre e Shaw e ainda Hemingway e García Márquez e existirão outros, com certeza, mas estes acabam por ser exceções a uma regra vil e pérfida que se vem tornando mais carregada, mais descarada, a cada ano que passa.

 

Voltando a Llosa, devo confessar que “comecei” mal com o personagem. Ter como ponto alto do seu currículo uma altercação com Gabriel García Márquez, pareceu-me sempre pouco abonatório com respeito à sua pessoa. Dizem que se tratou de uma “questiúncula de saias”. Nunca consegui interiorizar bem a coisa, todavia. Como é que alguém poderia se chatear com um dos mais queridos, com um dos mais admirados, escritores latino-americanos, o mestre criador do realismo mágico que nos presenteou com algumas das mais preciosas obras literárias? Claro que as coisas não são bem assim, claro que o escritor e o homem não se constituem como entidades indissociáveis com propriedades transferíveis.

 

Hoje percebo melhor a questão. Vargas Llosa poderá ser um excelente escritor, mas é um indivíduo de uma pobreza intelectual assustadora. As recentes declarações sobre o Podemos espanhol e o que realmente pensa sobre o mapa geopolítico na América Latina, na qual se inclui o seu posicionamento sobre as FARC e o processo de paz na Colômbia, são um bom exemplo disso. Qualquer ignorante diria o mesmo. Qualquer ignorante talvez o dissesse melhor, descontados quaisquer assombros de pseudo-intelectualidade.

 

Na verdade, não sei se terá sido a tal “questiúncula de saias” a responsável pelo afastamento de Márquez e Llosa. Talvez sim. Para mim, contudo, a razão essencial terá sido, antes, o facto de Márquez ter visto a vivas cores a natureza medíocre de Llosa. De todas as atoardas que Llosa lançou nos últimos dias, a que para mim se reveste de maior dramatismo é a seguinte: “As utopias não trazem o paraíso à terra. Criam o inferno.”

 

Com esta tirada não sobra mais nada para se dizer. Para Llosa, contentem-se com o que temos: não vale a pena ambicionar mais nada. Ficamos por aqui. Para mim, é extraordinariamente triste ouvir tais palavras.

 

Acima, escrevi que Llosa talvez fosse um excelente escritor. Esqueçam. Quem diz uma coisa destas não pode ser um excelente escritor, tão pouco um razoável escritor. Tão pouco um razoável ser humano. Esqueçam a diferença que existe entre o escritor e o ser humano. Não se aplica. Llosa apenas poderá ser um medíocre, um triste escritor, um triste homem... uma triste figura.

Quantos pobres são precisos, afinal, para produzir um, somente um, rico?

por Amato, em 09.09.16

Almeida Garrett

 

E eu pergunto aos economistas-políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico.

 

— Almeida Garrett, in Viagens na Minha Terra.

Timshel: tu podes

por Amato, em 12.08.16

— Então não compreende? — perguntou em voz alta. — De acordo com a tradução da Bíblia americana, ordena-se ao homem que triunfe sobre o pecado, a que se pode chamar ignorância. A tradução de King James com o seu tu dominarás sobre ela promete ao homem uma vitória certa sobre o pecado. Mas a palavra hebraica timshel — tu podes — deixa a escolha. Talvez seja a palavra mais importante do mundo. Significa que o caminho está aberto. A responsabilidade incumbe ao homem, pois, se tu podes, também é verdade que tu não podes, compreendem?

— John Steinbeck, A Leste do Paraíso

Condição para medir a felicidade nos homens

por Amato, em 29.07.16

“Heródoto descreve, nas Guerras Pérsicas, a maneira como Creso [último rei da Lídia, reino antigo que ocupava uma porção da Ásia Menor], o rei mais rico e mais privilegiado do seu tempo, fez a Sólon de Atenas [um dos sete sábios da Grécia antiga] uma pergunta capital. Ele não teria feito a pergunta, se a respostas não o preocupasse: «Quem», perguntou, «é o homem mais feliz do mundo?» Ele devia estar sequioso de obter uma certeza. Sólon citou-lhe os nomes de três homens que tinham sido felizes no passado. É mais do que certo que Creso nem sequer o escutou, pois o único nome que ansiava por ouvir era o seu. Por isso, quando viu que Sólon não o mencionava, Creso sentiu-se obrigado a perguntar: «Então não me consideras um dos afortunados?»

 

Sólon respondeu sem hesitar: «Como te posso responder se ainda não morreste?»

 

Tal resposta deve ter obcecado Creso quando viu desaparecer a felicidade, as riquezas e o seu reino. E ao subir à fogueira, evocou o nome de Sólon, compreendendo a verdade da resposta e a inutilidade da pergunta feita.

 

Na nossa era, se morre um homem que possuía fortuna, influência, poderio e todos os demais atributos que despertam a inveja, se os vivos fazem o inventário da vida desse homem, logo surge naturalmente a pergunta: «A sua vida foi boa ou foi má?», o que consiste em dar outra fórmula à pergunta de Creso. Morta a inveja, o padrão usado é o seguinte: «Foi amado ou odiado? A sua morte for uma perda, ou só é motivo de júbilo?»”

 

— John Steinbeck, A Leste do Paraíso

Há mais beleza na verdade

por Amato, em 21.06.16

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Há mais beleza na verdade, mesmo que seja uma verdade medonha. Os mendigos que contam histórias às portas da cidade mascaram tão bem a vida que ela acaba por parecer boa e fácil aos preguiçosos, aos teimosos e aos covardes, o que só pode concorrer para lhes agravar as enfermidades. Por esse processo nada se aprende, nada se cura, e o coração nunca se abre.

 

— John Steinbeck, A Leste do Paraíso

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