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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Andamos a pregar aos peixes e ainda não demos por isso

por Amato, em 13.06.20

Sermão de Santo António aos Peixes

image: oamarense.b-cdn.net

 

De tempos a tempos retomo o pertinente tema da educação e da instrução dos nossos jovens. Será que temos consciência do que andamos a ensinar? Melhor: será que temos consciência da “bagagem” cultural com que um jovem sai do sistema educativo de que tanto nos orgulhamos? Esqueçam as pedagogias. Concentrem-se na essência. Sejamos muito pragmáticos, tanto quanto seja humanamente possível. Temo que é demasiado o tempo em que vivemos alimentando uma mentira,  dentro de uma bolha de ilusão que, mesmo que queiramos genuinamente dela sair, rebentar a bolha para observar o real com os nossos próprios olhos, não seremos capazes de distinguir a verdade da mentira, a realidade da ilusão.

           

Falava ontem com amigos estrangeiros sobre os atos de vandalismo que mancharam o final da semana, particularmente os estragos que fizeram à estátua do nosso Padre António Vieira no Rossio. Julgaram eles inicialmente esses atos na mesma proporção com que observaram os outros, mundo fora, particularmente nos Estados Unidos da América, e foi preciso que lhes explicasse que não era exatamente a mesma coisa. Sendo certo que todos estes atos de vandalismo partilham uma aguda irracionalidade, sendo certo que procuram qualquer símbolo do colonialismo e da opressão como bode expiatório para o despejar de uma fúria coletiva, a verdade é que a figura do Padre António Vieira não pode ser colocada no mesmo saco que generais esclavagistas do sul na guerra civil americana, colonialistas ingleses ou, até mesmo, o próprio Cristóvão Colombo.

 

Missionário português do século XVII, o Padre António Vieira foi um revolucionário que se destacou, naquele tempo, como o maior defensor dos povos indígenas do Brasil, lutou contra a escravatura, a sociedade de classes e contra a inquisição da “sua” igreja, entre muitas outras injustiças a meias entre a monarquia e a religião. O Sermão de Santo António aos Peixes destaca-se entre a sua vasta produção escrita como uma obra-prima fundamental da história das letras portuguesas, uma obra revolucionária que regista muito daquele que era o pensamento avançado e progressista do autor.

 

Ao espanto inicial dos meus interlocutores seguiu-se a natural exclamação: «quem fez aquilo à estátua do Padre com os três meninos indígenas seguramente que desconhece, seguramente que ignora!». Pois, pois, pois ignora. Ignoravam eles, os meus amigos, que o Sermão de Santo António aos Peixes é obra de estudo obrigatório no ensino secundário. Pois é. Mas aqueles, os que fizeram aquilo à estátua, não sabiam.

 

O que ensinamos nós aos nossos jovens? O que é que eles aprendem? De que adiantam as médias, os rankings, os números, as metas europeias, os “sucessos” escolares, os aproveitamentos, os acessos à universidade? O sucesso escolar está aqui, esteve esta semana no Chiado quando um certo conjunto de pessoas, as quais, provavelmente, tiveram contacto com a obra e a figura do Padre António Vieira, mostrou tudo aquilo que (não) aprendeu na escola. A vida real, nas ruas, a forma como nos comportamos, como nos relacionamos uns com os outros, como pensamos e questionamos o mundo, o que exigimos desta nossa sociedade, o que ousamos sonhar, tudo isto constitui o nosso verdadeiro diploma, são as verdadeiras linhas do nosso certificado de estudos. De que adiantam os outros, os pedaços de papel, se, na realidade, quando a realidade vem ter connosco e somos chamados a agir, nos comportamos como um conjunto de ignorantes, pouco mais que animais selvagens que exigem a satisfação imediata das suas necessidades aos seus donos?

 

O nosso sistema de ensino devia estar de luto, envergonhado como um todo, porque tal como no célebre Sermão do Padre António Vieira, mais lhe valia que andasse a pregar aos peixes já que os jovens, homens e mulheres, cidadãos em potência, pouco lhe ligam, pouco ou nada se interessam, apenas se interessam por “sucessos” e notas e entradas em faculdades que, em boa verdade, não significam nada.

Donald Trump e a rede de estereótipos

por Amato, em 05.05.16

Todos os “enviados especiais” e todos os “comentadores especializados em política internacional” concordam e afinam as suas opiniões sobre o assunto do momento: Donald Trump. Não existe uma ideia que introduza uma dissonância na harmonia previamente estabelecida: Trump é uma surpresa, Trump é um fanático não representativo da multiculturalidade americana e dos valores daquele país e, indubitavelmente, perderá mais cedo ou mais tarde.

 

A natureza das surpresas radica frequentemente nos quadros mentais de que dispomos para lermos e interpretarmos a realidade que nos rodeia. Quando esse quadro intelectual não é mais do que uma rede de estereótipos, então fica difícil observar com nitidez, fica difícil estabelecer relações um pouco mais complexas, estabelecendo-se, deste modo, um terreno fértil para sermos constantemente surpreendidos ainda que pelos acontecimentos mais triviais.

 

É exatamente isso que sucede com Donald Trump e com as análises que dele são feitas. É que os Estados Unidos da América constituem um país muito grande, um país de cinquenta estados, qualquer um dos quais maior do que um país europeu médio, todos diferentes entre si, com populações também muito diferentes. O que se poderá dizer a respeito disto a partir de um quartinho de hotel de Nova Iorque? Ou, pior, o que se poderá deduzir a este propósito a partir do que é dito por quem esteve hospedado no tal quartinho de hotel nova iorquino?

 

Diga-se o que se quiser, a América é a propaganda que dela é feita, é o estereótipo, já centenário, que é cuidadosamente construído em cada filme de Hollywood, em cada episódio de série exportada, em cada lugar comum, para os quais todos — os subordinados ao capitalismo — contribuímos.

 

E assim, da noite para o dia, o fenómeno Trump apanha-nos de surpresa aparvalhada. “Como é que a América dos imigrantes, da liberdade e das oportunidades aceita um tipo destes?”, perguntamos.

 

Mas a América não é só isso. A América da liberdade também é a América que tão tarde aboliu a escravatura e que até assistiu a uma guerra civil por esse motivo. A América também é o país das armas de fogo indiscriminadas e da pena de morte. A América dos imigrantes também é também a América da xenofobia, do racismo e da ku klux klan. A América das oportunidades também é a América da falta de solidariedade inerente à economia liberal de competição desenfreada. A América das oportunidades também é a América das desigualdades profundas e das classes socioeconómicas.

 

Isto mesmo seria possível vislumbrar desde a janela daquele quartinho de hotel de Nova Iorque, assim o enviado especial da TV ou da agência de notícias dobrasse o pescoço para o outro lado, deixasse o olhar fugir dos arranha-céus cinzentos de Nova Iorque. Logo ali, a seguir ao Rio Hudson, veria os guetos de Newark, em Nova Jersey. Também eles são a América. Também eles contêm americanos.

 

http://hmstummer.com/wp-content/uploads/2014/01/Binder14_File23_08.19.2000_Frame15.jpg

 

Como explicar o fenómeno Trump, então? Não precisa de explicação. Trump corporiza o ideal, o famigerado “sonho americano”, o modo de vida, um certo modo de compreender o mundo que tem tanto de sedutor quanto de ignorante. A pergunta certa não será “Como é que Trump está a ganhar?”, mas antes “Como é que Trump poderá perder?”, pois onde se sustentaria a indústria de propaganda de Hollywood se não nos ombros de Trump, ou de figura semelhante? Trump é a América por ora e, pelo menos, até ao dia em que os americanos decidam que o seu país deva ser alicerçado em princípios filosóficos muito diferentes daqueles que os têm governado. Enfrente-se a coisa de frente para lá da rede de preconceitos ocos que turvam a nossa visão sobre a América e sobre os americanos e, então, poderemos produzir opiniões lúcidas sobre o fenómeno Trump e antecipar as constantes surpresas.

 

Alguma coisa do que escrevi encontra-se por aí, distribuída por aí, entre páginas de livros e pedaços de filme. Não está nas primeiras páginas, mas vem ao de cima nas entrelinhas. Está n' As Vinhas da Ira e está nos Gangues de Nova Iorque, por exemplo, mas nem a isso os nossos enviados especiais e comentadores tiveram acesso ou tiveram a capacidade de interiorizar.

A ditadura perfeita, segundo Huxley

por Amato, em 02.05.16

Aldous Huxley

 

A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão.

 — Aldous Huxley

Sentimento de mágoa pelos povos do mundo

por Amato, em 25.03.16

Sinto-me magoado. Falo de verdade: sinto-me magoado. Existe uma dor dentro de mim, que vive dentro de mim, dentro do meu corpo, que sinto como uma presença fria entre os pulmões, o coração e o estômago. Desliza por ali, fria, por vezes gelada, e eu sei que é tristeza em forma de desespero.

 

É um sentimento que, todavia, não é genuinamente meu, vem de fora, é-me impingido, injetado, de todos os lados, por toda a parte, aonde quer que eu vá, por todos com quem troco duas palavras. Explicar-me-ei melhor: esta tristeza é reação ao mundano que me agride.

 

Por muito que os acontecimentos se repitam, por muito que essa repetição seja recorrente e que essa recorrência seja mais e mais acelerada, parece que o mundo persiste num conjunto de reações acéfalas, incapaz delas evoluir. Parece que não há aprendizagem qualquer sobre a semelhança dos acontecimentos, sobre as suas causas, e persiste-se no abraço da ignorância plena, da cultura do medo, do estímulo ao racismo, à xenofobia, à intolerância. Para qualquer lado que nos viremos é isto que podemos observar, é disto que inspiramos, doses massivas disto, ferindo os pulmões como lâminas finas e afiadas.

 

É natural que assim seja, porque não querendo tratar das razões dos problemas, restam apenas o racismo, a xenofobia e a intolerância como armas derradeiras de conservação do poder. É apenas disso que se trata, bem entendido: perpetuar o mais possível os mecanismos de exploração dos povos, de escravização da mão de obra, continuando para isso a destruir socialmente sociedades inteiras, incitando e alimentando conflitos e guerras sempre que tal seja necessário.

 

O que não deveria ser natural perante a repetição de factos e de acontecimentos, não obstante, era esta aceitação popular generalizada, este acolher tenebroso da dialética do medo. Se pensarmos bem, todavia, também isto é compreensível. O povo está cada vez mais identificado com a cultura da posse, inspirado na avareza mais pura, educado a preceito e formado com honras na teologia do capital. A palavra solidariedade foi apagada do dicionário dos povos. E quão importante é esta palavra, não apenas para o remedeio dos problemas, mas sobretudo para a sua prevenção!

 

Não há nada de mais irónico do que constatar, para além de qualquer dúvida, que em nenhum momento da História como hoje o povo foi tão eficazmente manietado agindo em perfeito acordo com os mais íntimos interesses do poder vigente e contra os seus próprios interesses. Nem na idade média, a das trevas, nem nos negros tempos da inquisição ou da escravatura — o poder descobriu a forma perfeita e, sublinhe-se, inatacável de escravizar os povos do mundo: dar-lhes a liberdade de escolha sob o véu ilusório da igualdade.

O caso Reino Unido - União Europeia, ou o ciclo de vida da libelinha

por Amato, em 05.03.16

As recentes negociações da União Europeia com um seu estado membro não aderente ao euro, o Reino Unido, são de uma relevância extraordinária. Como todos os acontecimentos de extraordinária relevância, o resultado de tais negociações foi genericamente ignorado pela comunicação social.

 

Nem comentadores, nem ninguém. A notícia, dada como subestimada nota de rodapé de enfadonho jornal, mereceria outro tratamento, outra análise e aprofundada discussão.

 

Assume particular relevo, no contexto dos tratados assinados no seio da União, considerados ao extremo de suas literais interpretações para países de marginal importância como Portugal, que um estado membro possa garantir, por acordo, o incumprimentos desses contratos e reverter a lógica de poder que reina para todos os outros, isto é, que possa subjugar todas as decisões europeias ao crivo do seu próprio parlamento, da sua própria autonomia, da sua própria lei.

 

Resulta desde logo lúgubre que discutamos este ponto desta forma, quando deveria ser a norma e não a exceção que qualquer estado formalmente soberano pudesse discutir as decisões conjuntas europeias no seu parlamento através dos representantes do seu povo. Miseravelmente, assim nos encontramos a discutir o natural como se o natural fosse absurdo, visto a União Europeia ser este castelo de absurdos que é para não lhe chamar outra coisa pior, do género, império autoritário e despótico contemporâneo, ou uma versão de quarto Reich que se impõe e domina todos os outros não pelo poder das armas mas pelo poder do capital e da dívida.

 

A questão que se coloca, contrariamente ao que foi sendo timidamente suscitado, não é por que razão se obsequia aos Britânicos tais privilégios, mas antes pelo contrário, por que razão não usufruem todos os estados membros da União Europeia, formalmente pares iguais, de tais prerrogativas que deveriam ser naturais e ordinárias porque se constituem, afinal, como os eixos da soberania de qualquer estado.

 

As parcas vozes que tocaram com acanho no assunto esforçaram-se por esquadrinhar — imagine-se! — justificações desconexas em favor de tal tratamento desigual. Entre outros, referiram a situação dos refugiados, que hipoteticamente atinge com maior gravidade Inglaterra, e invocaram um certo estatuto singular do arquipélago britânico face ao continente europeu.

 

Acresce ainda em pertinência tal discussão pelo contexto económico atual de países como Portugal, verdadeiros escravos de tratados que, como grilhões e grilhetas, impedem o seu crescimento económico e os amarram a um serviço de dívida insustentável, indefensável, absurdo.

 

No final do dia, entende-se bem as razões porque tal discussão nunca teve lugar, de todo, ou por falta de lucidez, ou por falta de capacidade, ou até por falta de seriedade: convém ao poder burguês que governa a Europa a não discussão do assunto, convém que este passe despercebido.

 

Agora, volvidas uma ou duas semanas sobre o resultado das negociações, já ninguém fala sobre o assunto. A coisa aconteceu e morreu em pouco mais que um dia, qual fugaz ciclo de vida da libelinha, abafada já pela retórica capitalista de cumprimento do serviço da dívida que continua pujante, como sempre, jactante em cada jornal, em cada rádio, em cada televisão, megafones do sistema.

Guerra contemporânea

por Amato, em 09.06.15

 “Existem duas formas de conquistar e escravizar um país. Uma é através da espada. A outra é através da dívida.”
  — John Adams (segundo presidente e primeiro vice-presidente dos estados unidos da américa)

Escravatura, exploração, modernidade, democracia

por Amato, em 22.05.15

É tão interessante passar uma manhã numa qualquer repartição de finanças deste país. É interessante por ser instrutivo.

 

Muitas vezes não temos a noção, ou perdemo-la entretanto, do que nos tornámos. E no que nos tornámos foi numa gigantesca massa de falsos patrões de nós próprios. E, então, torna-se esclarecedor, caímos na real, como uma bastonada bem aplicada nas fontes, mas que bate muito mais fundo do que a superfície da cabeça.

 

Então, é vê-los, um por um, depois de tirar a senha respectiva e de esperar o tempo que tiver que ser, a pagar o que deve. Alguns, ainda muitos, não fazem ideia das suas obrigações. Viviam iludidos que aquilo que recebiam era seu e podiam gastá-lo como bem entendessem. Isso era dantes. Isso era quando eles eram trabalhadores e tinham direitos. Agora são patrões de si próprios. Lembram-se? Agora pagam por si os deveres que os seus clientes, leia-se reais patrões, deviam pagar. Então, como dizia, é vê-los, um por um, chocados com a dívida que não sabiam ser sua. E falam também no que têm de pagar à segurança social, mas dizem-lhes: “a segurança social não é aqui, tem que sair e virar à direita, que é logo ali no final dessa rua”.

 

Mas no fim observam com clareza, com uma transparência que é dura e fria: os dez euros à hora não eram assim um tão bom negócio, contas feitas... e pensam em vender o carro porque, afinal, o que fazem não chega para o gasóleo de ir dali para acolá, todos os dias, todas as semanas, assim tipo saltimbanco, de biscate em biscate.

 

E, finalmente, pensam que as férias estão aí a chegar, e com o que tiveram que pagar de coimas não lhes chega nem para a renda, nem para a lata de atum... porque nos meses de julho e agosto e mais de metade de setembro, ainda, não há negócio, não há trabalho e, portanto, não se recebe.

 

Sinto-me, portanto, instruído. Foi uma boa manhã. Agora, já não falo em ilusões, na ilusão de modernidade e de democracia que todos os dias é vendida nos jornais e na televisão deste país. Quando falo, penso na realidade daquela repartição de finanças. Penso na geração dos recibos-verdes. Estes são os modernos explorados, são os escravos legais dos dias de hoje.

Mas não termino esta breve exposição sem um epíligo que considero da maior relevância. Não basta tomar consciência do problema. É necessário perceber bem onde radica o mesmo. A raiz dos recibos-verdes está numa opção governativa de longa data de favorecimento descarado da classe dominante, os donos do capital, relativamente às classes trabalhadoras e isto é feito no quadro de organização social solidária do pós vinte e cinco de abril. O problema não está nos impostos em si, não obstante ser essa, erradamente, a posição dominante entre os explorados, mas na forma como eles são repartidos. E a justeza dessa repartição foi ferida de morte com a invenção dos falsos recibos-verdes, colocando apenas uma parte, justamente aquela que é mais desfavorecida, a contribuir para o sistema.

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