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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Sobre o PEC, o mundo real e as abstrações idílicas

Coloco-me, uma vez mais, contra este governo e contra este estado de coisas e colocar-me-ei as vezes que forem precisas para acalmar a fúria que sinto dentro de mim, para poder, enfim, dormir um sono pesado à noite, em paz comigo mesmo.

 

Em tudo o que é estrutural neste país, não houve nenhuma reversão. Vieira da Silva diz que “mexer no Código de Trabalho não é prioritário”, como não poderia deixar de dizer, pois claro. Esta novela em torno do aumento do salário mínimo, então, é absolutamente dramática, pois desmascara as verdadeiras intenções do governo: fingir que dá ao povo, para o roubar pelas costas.

 

Nunca se viu um governo subsidiar os patrões deste país para que se aumente o salário mínimo. Nunca! É nojento. Derrotada a benesse da TSU no Parlamento, por intermédio de inesperados protagonistas, é certo, já se prepara uma diminuição do Pagamento Especial por Conta e comunistas e bloquistas aplaudem, desta feita, a medida!

 

Comunistas e bloquistas acham bem que uma porção considerável das empresas deste país subsistam ano após ano apresentando prejuízos e consideram que o PEC é injusto. É nestas coisas que apetece gritar aos ouvidos de PCP e Bloco, sobretudo aos do PCP por ser mais coerente e politicamente experiente, «Caiam na real! Este não é o mundo perfeito que imaginam e estas pessoas que aqui vivem não são as virgens impolutas que vocês imaginam que são!».

 

As leis têm também que ir ao encontro do mundo real e não apenas de uma qualquer abstração idílica. Devemos caminhar em direção à utopia, é certo, mas com os pés bem assentes na terra. Não devemos legislar por desconfiança, mas devemos encarar o mundo de frente, observar com sabedoria, e não fingir que não se vê.

 

Quanto menos estas empresas tiverem de pagar, menos pagarão, não porque não podem ou porque não é justo, mas porque faz parte da sua natureza e está ao seu alcance a evasão a essa responsabilidade. Não querer ver isso apoiando a diminuição ao PEC é uma estupidez e seguramente sairá muito caro ao país, não apenas em termos de receita fiscal, mas sobretudo a nível de equilíbrio social.

publicado às 20:15

Não se pode ser de esquerda apenas em parte

Por mais do que uma vez, tenho escrito que não se pode ser de esquerda apenas em parte, que a esquerda não é algo que se possa materializar numa sociedade em porções, nem que seja capaz de cobrir por camadas as injustiças, uma por uma. Quem interpreta a esquerda deste modo, o que está a fazer, com efeito, é a criar novas injustiças, substituindo, quanto muito, as existentes. Quando o paradigma liberal, capitalista, permanece intacto e acorremos a cada injustiça com uma panaceia que nos parece apropriada, apenas semeamos novas injustiças que as gerações seguintes tratarão de colher.

 

Veja-se, a título de exemplo, o caso das pensões mais baixas que, ao que parece, verão um aumento concreto ao longo do próximo ano, por ação da esquerda parlamentar. É evidente que as pensões mais baixas são objetivamente insuficientes para uma sobrevivência minimamente decente seja para quem for. É evidente. Por ser evidente, deixemos a evidência de lado. Importa refletir sobre a razão pela qual tais pensões são as mais baixas e a razão é óbvia: são pensões atribuídas a quem durante a vida toda pouco ou nada descontou para o sistema. Ora, quando pensamos no assunto deste modo, a evidência anterior, não perdendo por completo a sua natureza, começa a abandonar alguma da sua robustez.

 

Não é muito justo que o Estado acorra em auxílio de quem viveu uma vida inteira à margem do sistema. Estou a generalizar, claro. É certo que, muitas vezes, não se trata de uma opção voluntária. Outras tantas vezes, todavia, é.

 

É aqui que se separa o trigo do joio. É aqui que se vê o que é esquerda do que é mera alquimia política.

 

Se entendemos que o estado deve ser assistencialista e deve acudir a todos os casos e garantir um mínimo de rendimento a todos, pois então o sistema de redistribuição da riqueza deve ser equitativo, justo, ponderado, e globalmente transversal. Devem ser claras as transferências de verbas das classes economicamente superiores para os estratos mais baixos.

 

Se assim não for, isto é, se formalmente a sociedade permanecer esboçada segundo a arte liberal, se se continuar a permitir a concentração de riqueza, o estabelecimento de monopólios económicos e se se continuar a proteger a burguesia, a classe dominante, então quem acaba por pagar todos estes aumentos são sempre os mesmos explorados do costume, aqueles que trabalham de dia e de noite, aos sábados e feriados, só porque foi essa a educação que lhe deram e porque veem no trabalho uma especial virtude. Porque não conseguiriam viver de uma outra forma, de mão estendida, por muito explorados que sejam.

 

Com a intenção de desfazer injustiças, a esquerda agudiza injustiças já existentes ou cria outras totalmente novas. Isto não é esquerda, é outro tipo de exploração dos trabalhadores.

 

Porque não existe esquerda aos bocados.

 

Porque não se pode ser de esquerda apenas em parte.

publicado às 22:44

Como a população forma a sua opinião

O facto mais interessante que podemos retirar deste diferendo entre táxis e Uber é constatar que a esmagadora maioria da população forma a sua opinião com respeito ao assunto unicamente com base na sua opinião pessoal relativamente à classe profissional dos taxistas.

 

Num assunto de todo em todo técnico, que só tem que ver com a noção de equidade perante a lei ou, eventualmente, com o tipo de sociedade que mais apraz a cada um, seja mais socialista, seja mais liberal, o povo emite a sua sentença, diz de sua justiça, negligenciando tudo isto, e tomando em consideração, simplesmente, a impressão empírica que tem sobre o serviço prestado pelos táxis e a simpatia dos taxistas.

 

Se bem que estas constituem-se como informações da maior relevância para a discussão do serviço em si, apesar da sua natureza empírica, nada têm que ver com a discussão em causa. Isto diz muito, todavia, sobre a psicologia das sociedades. Isto explica muita coisa sobre o funcionamento da democracia.

publicado às 22:42

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