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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Eixos dos ataques a Paris

por Amato, em 17.11.15

Primeiro eixo: a sociedade capitalista.

 

Devemos começar pelo princípio e o princípio é o capitalismo enquanto sistema. O princípio está nos valores que são semeados e que frutificarão nas ações do futuro. A nossa sociedade não fomenta a solidariedade nem se sustenta num projeto de desenvolvimento inclusivo. Pelo contrário, tem como lema a competitividade. Uma sociedade em que os fins justificam os meios é geradora de guetos sociais carregados de gente colocada à margem, de gente que serve para o que serve enquanto serve e que, quando deixa de servir, passa a constituir empecilho, como um sorvedouro dos recursos de todos. A sociedade capitalista é, quer queiramos, quer não, um caldeirão onde se cozinha a xenofobia, o racismo e a intolerância em doses industriais.

 

Há vinte anos, quando visitei a França pela primeira vez, já Paris estava repleta de emigrantes. As ruas, o metro, o comércio, já naquela altura, antes do virar do século, constituíam uma cena impressionante. Hoje, Paris tem toda uma geração de franceses fruto dessa emigração e é sobre isso que devemos refletir, sobre a forma como ali chegaram, a forma como foram inseridos socialmente e a forma como vivem.

 

O problema não está na emigração. O problema não está a montante, mas sim a jusante. O problema está nos locais de acolhimento. O problema está no facto de cada um dos emigrantes ir ocupar uma vaga na sociedade de acolhimento que é mal paga e não lhe permite sobreviver com dignidade. É aí mesmo, na diferença entre a dignidade de uns e de outros, que os guetos sociais e culturais emergem. É aí mesmo que o problema começa.

 

Não é alheia ao problema a crise económica que se vive. Não é alheio ao problema o facto dos grupos terroristas encontrarem num universo de pessoas desenraizadas culturalmente e desempregadas, por vezes de longa duração, um terreno fértil para recrutamento. São pessoas sem um propósito e sem uma utilidade na sociedade capitalista em que vivem e que, desconfiam não ser a sua. Parece que há portugueses a aderir a tais grupos. Não é uma questão de religião ou de nacionalidade. É uma questão de emprego. É uma questão de trabalho. É uma questão de propósito. A nossa juventude veio a este mundo e ninguém tem um propósito para ela. Somos coletivamente responsáveis por empurrar os nossos jovens para os mais sinistros propósitos.

 

 

Segundo eixo: a política dos exércitos de mercenários.

 

Chega de filmes de Hollywood. Chega dos Rambo's e dos Rocky's, dos James Bond's, dos MacGyver's e dos outros de que já não me lembro. Hoje podemos ver bem os falsos heróis que eram. A política de criação de exércitos-sombra, armados massivamente, para fomentar o caos nas sociedades inimigas e catalisar uma mudança de regime político foi utilizada vezes demais no médio-oriente, no leste europeu, na América latina e, ainda hoje, continua a ser aplicada em força. Por mais do que uma vez o feitiço virou-se contra o feiticeiro. Não obstante, os media ocidentais continuam deleitados a propagandear oratória oca sobre os conflitos em curso.

A indecência intelectual continua

por Amato, em 03.09.15

Não há volta a dar. Não existe um assunto, um acontecimento, um fenómeno que seja, que usufrua da mais que singela bondade de ser tratado com decência. E dessa decência também não exigimos muito. Queremos apenas que seja de natureza intelectual.

 

Não fugindo à regra, deparamo-nos com o tratamento dado à questão dos “migrantes”! Veja-se bem! Atente-se na nomenclatura extraída do dicionário: “migrantes”. É que a falta de decência começa logo aqui, na forma como apelidamos aqueles seres humanos que fogem à guerra e às terríveis condições de vida ditadas pelo seu destino.

 

Mas seria bom, não, seria excelente se o problema se resumisse à mentecapta escolha da nomenclatura. O problema é muito mais grave. A história continua, continua porque eles não param de dar às costas europeias, apenas por isso, mas continua. E continua naquilo que também é costume: uma acéfala reação sentimentalista por parte das massas. Chamo-lhe de acéfala porque tal reação “viral” tão depressa surge como desaparece. Já conhecemos esta história. Chame-se-lhe “casa pia”, chame-se-lhe “gripe das aves” ou “ébola”, chame-se-lhe “tsunami” ou “terramoto”, ou chame-se-lhe isto: os “migrantes”. É o ataque de histeria típico antes do esquecimento amnésico permanente.

 

Todavia a acefalia da coisa também não se reduz ao acima exposto. Ninguém quer saber pívia da razão de ser destes “migrantes”. Todos fogem das causas, uns por encapotada ausência de solidariedade na espinha, outros pela covardia inerente de não terem coragem de apontar o dedo a quem de direito e a quem tem que prestar contas pelas suas responsabilidades na questão.

 

Quem andou a semear guerras desde o virar do século, umas atrás das outras, nenhuma das quais justificada por nada que não seja a exploração e o lucro? Confronte-se agora com os países de origem destes refugiados. Bingo!

 

É que isto agora é tudo muito bonito, é “dividir o mal pelas aldeias”. Agora é que temos que ser todos solidários. Estamos delapidados de toda e qualquer decência intelectual e, pior, quem comenta estas questões não tem vergonha. Falta-lhes vergonha e escondem a lacuna atirando para o ar lugares comum tão ocos quanto, por ventura, a sua moralidadezinha barata.

 

Uma nota para comentar aquela piada que António Costa lançou para o ar. Dizia ele que devíamos acolher massivamente os refugiados para compensar a falta de natalidade no nosso país. A piada é muito boa. Certa vez, mandaram vir imigrantes brasileiros para uma terra chamada Vila de Rei, dizendo que era para repovoar. Fizeram uma reportagem e tudo. Estava tudo muito feliz. É verdade: esses imigrantes não se quedaram por Vila de Rei nem um ano. Abalaram tão depressa quanto puderam para as grandes cidades de Portugal. Há uma quantidade de gente que pensa que os imigrantes talvez por serem eventualmente pobres ou, então, por serem simplesmente imigrantes, que também são estúpidos. O que leva os portugueses a fugirem do interior, a fugir do país, a migrar e a emigrar, é o mesmo que os leva a eles a fazerem o mesmo. Sem bons salários e boas condições de vida não há como segurar gente a este punhado de terra chamado de Portugal.

 

Esta piada de António Costa diz muito sobre o que ele está disposto a fazer quando tiver o poder e sobre a sua visão sobre Portugal. Diz o suficiente.

Um olhar em redor

por Amato, em 15.08.15

Já viram no que nos estamos a tornar? A sério: já repararam? Já pararam para olhar à vossa volta? Já repararam nas vossas cidades e vilas, nos vossos vizinhos, nos desconhecidos com que se cruzam no metro no caminho para o trabalho? E na vossa cultura? Os livros que se escrevem, as transformações na língua, as músicas que passam na rádio, as novelas da televisão, as peças de teatro, o cinema?

 

Repito: já repararam no mundo que se estende em vosso redor?

 

Comparem com que existe aí dentro, com o que subsiste no vosso íntimo, com as imagens que guardam de anos passados. Comparem. É fácil: basta fechar os olhos e pensar um pouco, recordar. Por vezes basta apenas um som, uma melodia, um vislumbre de uma coisa qualquer, para se desenrolar um novelo de memórias, das memórias do que é “ser português”. Abram os olhos, então, escrevam as primeiras palavras que vêm à cabeça e comparem com o que os olhos veem.

 

É assustador. Ainda vivos assistimos ao enterro resoluto e inexorável da nossa identidade coletiva. Vemo-lo claramente. As nossas cidades enchem-se de legiões e legiões de imigrantes, centuriões sem escudo mas com a espada afiada de uma necessidade superlativa que vem de assalto aos trabalhos dos mais miseráveis salários. De um modo de todo em todo semelhante, as gerações nativas mais jovens emigram também, como que impelidas a pás cheias, procurando as condições de vida dignas que não encontram no seu país. Reforço a similitude entre os que chegam e os que partem. São iguais, procuram o mesmo tendo, todavia, referenciais de conforto e de qualidade de vida diversos. Uns escrevem-se com “e”, os outros com “i” e a diferença esgota-se aqui.

 

Os nativos que permanecem mal sobrevivem e já nem sonham tão pouco com a vida dos pais e dos avós. Não têm filhos. Não podem. Não têm dinheiro. Não aceitam trazer para este seu mundo nem uma só criança. Os seus padrões de bem-estar, de cultura, não poderão ser alcançados. Pelo contrário, os imigrantes que chegam, os imigrantes dos salários baixos, das sociedades menos desenvolvidas, do chamado terceiro mundo, conhecem vivências e culturas muito distintas. Para eles, muitas vezes, o número de filhos é diretamente proporcional a um certo entendimento de riqueza e, por isso, reproduzem-se abundantemente sem as considerações prévias que os primeiros tecem antes de ter filhos.

 

Numa geração uns suplantam os outros e o país chamado Portugal já quer dizer outra coisa distinta, uma coisa que se escreve da mesma forma, com as mesmas letras, mas sem o mesmo significado. Numa geração, a palavra Portugal transforma-se noutra diferente, homógrafa.

 

Escrevo sobre Portugal como poderia escrever sobre Espanha, Itália, França ou outros tantos países. Escrevo sem nenhum conteúdo xenófobo. Nenhum! Antes pelo contrário. Escrevo porque vejo esta realidade forçada sobre nós. Não é uma realidade natural. Não se trata de um fenómeno do domínio do inevitável. Não! Nada disto é natural. Nada disto é inevitável. Nada disto é desejado nem por uns, nem por outros, tivessem ambos a opção de escolher. Tudo isto é o resultado de políticas muito concretas, políticas de exploração de uns, dos que chegam, e de outros, dos que partem. E nada disto, sublinho, se desenvolve no sentido do bem estar dos cidadãos. Pelo contrário: tudo isto é uma estratégia de empobrecimento das sociedades e de concentração da riqueza e do poder.

 

Com efeito, estas transformações devem ser percebidas como sintoma ou consequência das políticas redistributivas da riqueza das economias destes países.

 

Os imigrantes que acorrem aos países ocupando os trabalhos de salários baixos, insuficientes para garantir uma vida decente nesses mesmos países, fazem-no porque alguém os chama. Existe um punhado de gente, gente que no fim do ano ilustra as páginas da revista Forbes na lista dos mais ricos do planeta, que esfrega as mãos de contentamento com a chegada dos vagões destes imigrantes, legiões de gente que se digladia pela mais singela migalha ao mais baixo preço. Os governos locais, por seu turno, permitem que este ciclo se perpetue, sendo agentes ativos no processo, permitem-se assistir à exploração declarada de uns e à evasão massiva de outros. Assistem numa poltrona privilegiada ao processo.

 

É essencialmente isto, não obstante tudo o resto, de toda a guerra que se vai semeando mundo fora com naturais consequências nos movimentos demográficos dos povos. É essencialmente isto em Portugal, como em Espanha, Itália, França e noutros países. Muitos outros. É essencialmente isto a que assistimos impávidos, serenos, ao nosso redor, nas nossas cidades e vilas, nos nossos vizinhos e desconhecidos com que nos cruzamos no metro a caminho do trabalho. Se olharmos não reconhecemos. Não reconhecemos a nossa cultura, os livros que se escrevem, as transformações na língua, as músicas que passam na rádio, as novelas da televisão, as peças de teatro, o cinema. Não reconhecemos. Não sei se não vemos ou se fingimos não ver.

Muros da hipocrisia

por Amato, em 30.07.15

A nove de novembro de 1989 o mundo rejubilou com o princípio do fim do muro de Berlim. O muro, símbolo da apelidada “cortina de ferro”, que dividia o mundo ocidental capitalista do mundo oriental comunista, havia sido fortemente criticado ao longo dos seus quase trinta anos de existência. As críticas, orquestradas desde o lado ocidental, eram justificadas e alicerçadas em boa parte numa argumentação de razão e de lógica. Havia mesmo um certo unanimismo em torno da abjeção da existência desse muro e a queda do mesmo veio justamente a emergir como um acontecimento dos mais marcantes do final do vigésimo século.

 

Não deixa de ser curioso observar o mundo na sua plena atualidade. Não deixa de ser dramático verificar que todas aquelas razões justas, toda aquela argumentação lógica, não constituíam mais que um oportuno enredo hipócrita para movimentar as massas de população e vencer uma guerra política. Senão vejamos.

 

Israel tem, já desde há muito tempo, as suas fronteiras com Egito, na Palestina, e ultimamente com a Síria, blindadas por muros. A Hungria anunciou há cerca de um mês a construção de um muro anti-refugiados ao longo da fronteira com a Sérvia. Nos Estados Unidos ameaçam mais uma vez com a construção de um muro anti-emigrantes na fronteira com o México e, agora... agora temos a mente brilhante de David Cameron. O Reino Unido, em fino decalque do comportamento da União Europeia relativamente à questão das vagas descontroladas de emigração africana, anunciou a construção de uma “vedação” impeditiva dos referidos emigrantes tentarem o atravessar do canal da mancha. É esta a brilhante solução para o problema.

 

A máscara da hipocrisia pode demorar a cair mas o seu destino final é inevitável. Aqui o temos: claro, transparente, límpido. O lema deste mundo que resultou da queda daquele primeiro muro de que falava inicialmente e que, lamentavelmente, é o único que figura nos livros de história, é o de que os fins justificam os meios. E para os fins do capital, para o suportar do seu poder, qualquer muro vê a sua construção perorada e justificada.

Até dos emigrantes temos inveja

por Amato, em 12.06.15

Falava há uns dias com um amigo que me dizia que isto da emigração de hoje em dia nada tem de semelhante com a emigração dos anos sessenta no tempo da velha senhora. Dizia-me que os jovens que emigram hoje é “porque querem”, para ganhar mais dinheiro e porque não aceitam os trabalhos que há por cá e que não faltam. Esta é, aliás, uma opinião que grassa pelas tristes ruas deste triste país.

 

É uma opinião que é um facto. Efetivamente, os tempos são diferentes e, portanto, é natural que o que move a população não seja igual. Mas será isso errado? Será isso um problema?

 

Vejamos que hoje as necessidades de um português médio não se reduzem às que decorrem da mera sobrevivência. É verdade: o português médio tem uma série de necessidades de segunda e terceira ordem das quais não abdica. A sua referência não é mais o trabalhar para o pão do dia-a-dia. Também quer ir ao cinema, gastar dinheiro com tecnologias da moda, viajar, enfim, poder aproveitar um pouco a vida. Mas parece que na expressão deste facto se ergue uma opinião de que assim é que está errado, de que o português médio de dois mil e quinze se deveria contentar com aquilo que contentava o seu avô ou bisavô em mil novecentos e sessenta. E até parece que, nesta lógica da mais pura e vil inveja, até dos desterrados que procuram noutras paragens a vida que para si consideram digna e que lhes é negada no seu país, país que lhe oferece metade do rendimento dos seus pais e avós, até destes temos inveja. A diferença parece estar aqui.

 

Parece que até dos emigrantes temos inveja.

 

Até às próximas férias...

por Amato, em 07.01.15

 

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