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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

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Uma lâmina de dois gumes

por Amato, em 19.01.20

A vitória de Rio nas últimas eleições internas do PSD constitui um alívio para todos aqueles que fazem gosto em alguma decência no panorama político nacional. É benéfico que se entenda a oposição a Rio como ela deve e merece ser entendida e não como uma natural disputa democrática no seio de um partido político.

 

Montenegro não se perfilava apenas como um mero salteador do poder. Esta contenda não brotou apenas de uma inexorável sede de poder feita indómita pelo oportunismo da ocasião que se proporcionou após as eleições legislativas. Não. Montenegro, qual general fiel ao seu imperador caído, corporizava o regresso ao passado mais sinistro do PSD, o partido da troika, da austeridade como elemento definidor e formador de uma espécie de caráter coletivo, da ignorância das ideias acabadas e de uma arrogância concomitante. Para além disso, seria também o regresso da histeria, da crítica fácil a tudo o que acontecesse, de uma oposição desprezível e tóxica. Rio, com todas as falhas que tem, com todos os “defeitos” ideológicos de que é portador na perspetiva da esquerda é, pelo menos, alguém respeitável e sério, avesso a espalhafatos e a folhetins. Rio é, pelo menos, alguém com quem se pode falar e isto não é de somenos importância.

 

Todavia, como parece ocorrer com todas as coisas da vida, não há bela sem senão, nem feia sem sua graça, a vitória de Rio transporta manchas negras nas suas margens, manchas cujo alcance contaminador parece ser de difícil previsão a esta distância à qual nos situamos mas que, porém, ali escorrem e se vão acumulando manifestas e inequívocas. A que manchas me refiro?

 

O contexto político português é, ao contrário do que possamos pensar, de uma delicadeza preocupante. Com efeito, politicamente falando, vivemos um tempo de poderes virtualmente indisputados: a presidência da república é ocupada por uma das figuras mais universalmente aceites de sempre e que se prepara para uma reeleição sem opositores; no parlamento, uma coligação informal, mas concreta, de partidos parece ter concedido ao PS eterna carta branca para formar executivo, independentemente deste lograr um maior ou menor número de votos, e governar a seu bel-prazer, ainda que ninguém consiga perceber bem a razão de ser da coisa, o que ainda a mantém viva e a sustenta.

 

Este aparente unanimismo que tomou a política portuguesa, e para o qual a reeleição de Rio, por constituir um tipo de oposição responsável, indiretamente concorre, é dissimulador da existência de uma massa concreta de pessoas que ideologicamente não se reveem no status quo, que não se sentem representadas politicamente ou que simplesmente já não conseguem suportar mais o “politicamente correto” perfeitamente desencaixado com a realidade que todos os dias enfrentam. Estas pessoas tendem, tragicamente, a confluir para uma espécie de saco político que, avidamente, as recolhe e cresce no panorama nacional: o Chega de André Ventura.

 

Existem vários sinais preocupantes que não devemos deixar escapar. O Chega tem tido mais tempo de antena nos canais mediáticos que toda a esquerda junta. O seu líder marca a agenda política e a imprensa estende-lhe um palco permanente para plasmar as suas palavras de ordem populistas e demagógicas. Nada, nenhuma evidência do passado, nenhuma contradição, nenhuma incoerência, nenhum defeito de caráter parece afetar a crescente popularidade de Ventura que, à semelhança do que Trump dizia há um tempo, podia dar um tiro a alguém no meio da rua que, ainda assim, continuaria a crescer nas intenções de voto. Com o PSD com uma liderança moderada, o CDS defunto e a Iniciativa Liberal a assumir-se cada vez mais como uma espécie de nado-morto político, com a putativa candidatura “única” de Marcelo à presidência da república que se avizinha — dificilmente PS, PSD e CDS apoiarão outros candidatos e dificilmente a esquerda encontrará uma figura alternativa a Marcelo que seja simultaneamente coerente com o passado recente da “geringonça” —, Ventura prepara-se para capitalizar sobre a sua própria candidatura, sobre o seu próprio movimento, todo o voto divergente e obter uma votação expressiva que pode ajudar a catapultar o Chega no panorama nacional como uma relevante força política de extrema direita.

 

É neste sentido que a reeleição de Rio pode constituir-se como uma espécie de lâmina de dois gumes. Se Montenegro tivesse vencido, talvez isso fosse pior para Ventura que, assim, teria que dividir o espaço mediático populista com um concorrente de peso, com experiência e provas dadas na matéria. É verdade, também, que a derrota de Montenegro parece ser apenas uma antecâmara adequada para uma reentrada triunfal de Passos Coelho na cena política, reentrada essa que já anda a ser preparada ao detalhe. Ainda assim, é tempo demais que se dá a Ventura que se vai alimentando, todos os dias, até ao ponto de não podermos deixar mais de o ignorar ou, simplesmente, de mudar de passeio quando o encontramos de frente na rua.

Sobre as eleições internas no PS. Sobre o País

por Amato, em 03.10.14

Gosto deste tipo de acontecimentos. Gosto mesmo. Não por se assumirem como “reformistas” de uma sociedade ou por se constituírem como “fraturantes” no seio de um qualquer conjunto de valores, hábitos ou procedimentos, frequentemente adjetivados de “cristalizados”. Também não tem que ver com uma suposta abertura dos partidos políticos, entidades reais e concretas, à chamada “sociedade civil”, entidade de todo em todo abstrata e que, ao colo da sua abstração, tem o condão de a tudo e a todos poder representar, não representado, portanto, coisa nenhuma.

 

Gosto deste tipo de acontecimentos por nenhuma das razões anteriores, antes de mais, porque nenhuma delas é justificada. Não obstante, às eleições internas do PS são atribuídas estas e demais virtudes, mas efetivamente, não são mais do que bandeiras agitadas com fervor, com o sentido de esconder em seu desfraldar frenético o circo de vaidades, o vazio de debate político ou de contraditório ideológico.

 

Existe um único aspeto revolucionário a creditar estas eleições internas: a porta que se abriu, escancarada, a uma subespécie portuguesa de política “reality TV” que, tal como as congéneres televisivas, oferece uma ilusão de realidade, de contacto popular, de escolha e de decisão, quando, em verdade, tudo quanto se assume de importante se encontra já decidido nos bastidores. A escolha do carrasco político dessas decisões, essa, é que é tomada de acordo com os níveis de histeria popular.

 

Mas então, porque razão gosto tanto deste género de acontecimentos? Gosto da sua natureza reveladora. Estes acontecimentos são espelho do que é o partido político em causa, o que para mim não poderia ser mais irrelevante, mas sobretudo de que massa é constituída esta sociedade por onde caminhamos. São espelhos limpos de toda e qualquer sujidade, excetuando aquela que nos mostram, e refletem de forma nítida o povo que somos, o que escolhemos, o que achamos bem, em suma, aquela que é a nossa vontade coletiva.

 

Sobre o processo que nos conduziu a este ponto nada direi, exceto que não é algo de novo. Atrevo-me apenas a relembrar que a esmagadora maioria dos chefes de estado que no nosso país democrático ascenderam ao poder, no plano interno dos seus partidos, o fizeram esfolando a “lebre” que havia entretido o governo enquanto oposição. Em vez de “lebre” leia-se “o anterior líder de partido”. Não serve o facto de intencional desculpa. Antes, mostra que a falta de caráter faz parte dos pré-requisitos para se ser escolhido pelo povo.

 

Só que perante o facto repetido uma nova solução foi gerada abrindo, teoricamente, a todo o país a escolha do novo líder. Só que essa escolha não foi nada mais nada menos do que a escolha de uma imagem. Não foram colocadas em disputa diferentes ideias ou de projetos, na medida em que ambos estariam condicionados às diretivas extraídas de um congresso a realizar posteriormente. O que sobra, então? A imagem, os trejeitos, o corte do fato, a seriedade da face ou o olhar cativante e inspirador de confiança. O povo, pelo menos o do PS, submeteu-se a este género de escolha, a este processo ilusório chamado de eleições internas. E submeteu-se efusivamente, levantando-se como molas dinâmicas do conforto dos seus sofás! Mas mesmo que tivesse sido de forma diferente, isto é, que os candidatos que se apresentaram tivessem mais para oferecer para além de uma imagética e de uma dialética baratas, ainda assim, isso apenas se traduziria na assunção cabal de que certos partidos políticos se tornaram, há já algum tempo, em meras plataformas de movimentação de interesses e de ascensão social, varridos de qualquer vestígio de ideologia.

 

Este acontecimento diz muito acerca do nosso conceito de democracia. Diz mais do que o suficiente. E os mesmos que acorreram a participar do processo, escolhendo entre dois antónios, o primeiro o decalque perfeito do segundo, são precisamente os mesmos que normalmente respondem “são todos iguais”.

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