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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Sobre os Le Pens e os Macrons

por Amato, em 10.05.17

A fórmula mais eficaz para enganar o povo é fazê-lo crer numa sociedade a preto e branco, dividida entre bons e maus. Para ser bem sucedida, essa simplificação centra-se em um ou dois aspectos, no máximo, considerados como fundamentais e é bombardeada pelos media a todas as horas e a todos os minutos do dia até que o povo ceda, nem que por cansaço, até que deixe de questionar a formulação apresentada para apenas prosseguir a sua vida sem conflitos internos com a voz dominante.

 

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A minha opinião é que nos preocupamos demasiado com Le Pens, quais demónios encarnados em figura de gente, e muito pouco com Macrons, os que se opõem ao mal e, portanto, os bons. Enquanto isso, os Macrons vão trilhando a sua ação política de desregulação das sociedades, de desequilíbrio económico, de favorecimento de classe — a banca, a alta finança, os donos dos grandes grupos económicos, os capitalistas, a burguesia —, e conduzindo essas mesmas sociedades a pontos de rotura, já sem qualquer vislumbre nem de pátria, nem de nação, nem de coisa nenhuma. Os Le Pens são consequência dos Macrons e não o contrário. Se consideram que o primeiro é o mal e o segundo é o bem, é bom que pensem melhor.

 

Mas é mais fácil pensar assim, admito. Este pensar entretém por mais um tempo. Os exploradores e os explorados permanecem explorados e explorados. Há uma ira que vai fermentando por debaixo deste pensar, é certo, mas nos entretantos, enquanto não rebentar a bolha que se vai formando, esta sociedade burguesa vai continuando o seu caminho.

 

Em Portugal assiste-se a fenómenos parecidos todos os dias. Por um lado, enojamo-nos — e bem! — com qualquer coisa que soe a fascismo declarado. Por outro, batemos palmas ao personagem que, por ora, vai ocupando os Paços do Concelho do Porto, fazendo a apologia de ditaduras para pôr o país em ordem. Rui Moreira gosta, aliás, de proferir os maiores disparates histórico-políticos nas palestras para as quais é convidado amiúde. Não sabe mais, compreenda-se. Todavia, as plateias aplaudem-no. Diz que podemos precisar de ditaduras “para termos a nossa soberania económica, na segurança”. Diz que espera que não seja assim mas... o país pode querer aquilo, refere, do alto da sua sapiência, não deixando de fazer objetivamente um elogio aos méritos que, segundo ele, o sistema tem. Diz ele, também, que uma solução para as sociedades é passarmos a ter democracias diretas em que todas as pessoas votariam através de uma app de um telemóvel, como se estivessem a jogar Pokemon Go. E as pessoas aplaudem! Profere ainda outras frases de igual estirpe, mas estas que selecionei são realmente impressionantes. É inenarrável a decadência, a mediocridade intelectual do personagem, mas ainda mais grotesco é ver aquela plateia de alunos e professores do ensino superior a aplaudir estas alarvidades como se não dispusessem de mais do que um neurónio para raciocinar.

 

As pessoas aplaudem, é um facto. Depois de ser reeleito para a Câmara Municipal do Porto, vê-lo-emos, Rui Moreira, a tentar uma cadeira do poder central e é provável que consiga. As pessoas aplaudem-no, não se esqueçam! E prestem atenção: Rui Moreira não é um Le Pen, é um Macron.

 

Os ditadores não são os Le Pens, acreditem. Estes raramente chegam ao poder. Os ditadores são os Macrons e vão a votos e ganham. E são aplaudidos.

Consistência dos conceitos

por Amato, em 15.11.14

Falamos muitas coisas, falamos sobre muitas coisas, mas sobretudo falamos de forma leviana. Utilizamos os conceitos como se eles fossem entidades mais ou menos vagas ou com uma definição subentendida, mas que resulta em entendimento nenhum. Refiro-me a conceitos como “democracia” ou “liberdade”. Questiono-me muitas vezes sobre o entendimento que sobre eles temos. Porque o conceito é o conceito e não depende da conjuntura ou do contexto em que é usado.

 

Mas conceitos como “democracia” ou “liberdade” costumam ter uma interpretação na vida particular, outra na vida social, outra ainda na vida laboral e, enfim, uma outra na vida religiosa. Como se fossem palavras homónimas descrevendo conceitos muito diferentes, por vezes antagónicos, não obstante serem denominados pelo mesmo substantivo. Assumem ainda em diferentes momentos da linha temporal interpretações distintas.

 

Para concretizar vejamos o seguinte. Existe uma maioria de vozes que rejeita os dogmas, o autoritarismo, por exemplo, em diversos contextos, nomeadamente a nível político. Rejeitaram-se as monarquias absolutistas e as ditaduras, os reis-deus e os líderes supremos. Sublinho esta tomada de consciência como um dos mais importantes passos dados pela humanidade, sobretudo pelos povos europeus, no século XX. Contudo, uma parte considerável dessas mesmas vozes, importantes alicerces sociais, abraça esses mesmos dogmatismo e autoritarismo no preciso segmento onde, quem sabe, os valores da liberdade e da democracia serão mais relevantes: as suas vidas espirituais. Com efeito, aí, submetem-se frequentemente e de livre vontade, sem questionar, sem indagar o que quer que seja, à palavra de terceiros justificada por um qualquer texto dito “sagrado” em nome de uma qualquer entidade dita “deus”. Não critico o que quer que seja, bem entendido. Apenas observo a realidade. As pessoas rejeitam certos conceitos num contexto e aceitam-nos noutros, quando à primeira vista não há qualquer razão substantiva para essa dicotomia.

 

Tudo isto quando, em pleno século XXI, as celebrações religiosas poderiam ser já assembleias de diálogo e de debate, de troca de ideias, entreajuda e solidariedade, enfim, seguindo uma evolução semelhante à que os sistemas políticos sofreram, aproximando-se dos mesmos. Ao invés, mantêm-se as mesmas tradições milenares de injeção vertical de pensamentos, do pastor para o rebanho. Mantêm-se os hábitos, bem entendido, pela expressa vontade das comunidades que sustentam esses cultos. Assim elas quisessem e não haveria dogma qualquer que subsistisse.

 

Esta ambivalência de interpretações não deixa de ser desconcertante porque com ela adivinhamos a inconsistência do ponto de vista prático dos conceitos supramencionados. Adivinhamos que, por exemplo, fornecido o contexto apropriado, o que chamamos hoje de democracia e de liberdade poderá ter uma interpretação muito diferente no dia de amanhã, o que, aliás, não é inédito. Efetivamente, os anos da troika, que ainda prosseguem, vieram trazer interpretações distintas a outros conceitos e valores que uma parte do povo julgava por adquirido.

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