Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

O estado da arte em 2018

por Amato, em 15.07.18

Hoje de manhã, ainda mal tinha acordado, dei por mim a percorrer a entrevista do Público ao novo diretor do Museu de Serralves, João Ribas. Foi curiosidade pura para colmatar a minha falta de conhecimento do personagem, mas também para desvendar um pouco, aspirava, do véu da direção artística do museu de arte contemporânea, o que, para a maioria de nós, é sempre de difícil acessibilidade.

 

Não cheguei ao fim da dita entrevista, confesso. Não tive estômago para continuar. Fiquei a saber que, para as entrevistadoras, Inês Nadais e Isabel Salema, as prementes questões sobre o museu, a sua oferta e a sua direção artística, são, por esta ordem, o facto do museu não ter na sua agenda a exibição de obras da Joana Vasconcelos; o facto de não existir paridade na promoção de artistas homens e artistas mulheres em Serralves; e o facto de haver pouca representatividade de corpos negros ou figuras negras.

 

Para mim, é cada vez mais difícil digerir esta realidade em que tudo é reduzido a números perfeitamente artificiais, em que tudo é avaliado por um sistema de quotas que pouca ou nenhuma relação com a realidade tem. Cada vez mais, ao que parece, perde-se o valor intrínseco das coisas. Na arte, em particular, que devia ser o espaço máximo de liberdade, as obras são sujeitas a um escrutínio a montante que nada tem a ver com o seu valor enquanto obra, enquanto objeto artístico.

 

Há tantas obras de mulheres quanto as de homens? As raças estão representadas equitativamente? A obra não é sexualmente ou religiosamente ofensiva, de algum modo? Já agora, o Cristiano Ronaldo está representado no museu? E a obra, é da Joana Vasconcelos?

 

Mas em que é que isto é relevante em termos artísticos? Em quê?!

 

Em nada.

 

Novamente, trata-se da manifestação de um politicamente correto mesquinho e profundamente ignorante que parece invadir todos os domínios da atividade humana. Mas não se enganem: este politicamente correto é parcial, é controlador dos conteúdos, inquina o pensamento e a reflexão das sociedades. É feroz opositor da liberdade. Este politicamente correto é detergente eficaz de lavagem cerebral.

 

É isto que temos. Quem diria que as sociedades ocidentais, apregoadas baluartes da democracia e da liberdade, se revelassem tão eficientemente castradoras da arte e das suas manifestações.

Porque lhes convém que não ousemos imaginar

por Amato, em 01.06.16

Para todo aquele que possui alguma clarividência sobre o assunto ou alguma cultura histórica, a discussão em torno das palavras de José Rodrigues dos Santos não seriam, em momento algum, dignas de maior valorização do que, digamos, o ladrar irritado de um cão confinado à varanda de um apartamento ou do que a buzina persistente de um automóvel bloqueado no trânsito.

 

Dizer que o fascismo tem origem marxista é tão idiota, tão intelectualmente baixo, que não merece discussão. É procurar forçar conexões onde elas não existem para além do que é natural e do que ocorre, em boa verdade, entre qualquer par de conceitos humanos, sejam eles quais forem, sociais ou culturais. Porque este blog despreza o que é ignorante e o que é vestigial em bom-senso, passamos à frente, ignoramos o conteúdo da frase.

 

Mais grave do que o conteúdo da frase e que em boa verdade não é genuinamente novo — lembro que Miguel Sousa Tavares ensaiou uma tese análoga no seu medíocre segundo romance —, mais grave é a subliminar intenção que sustenta a frase. Essa intenção consiste em operar uma colagem do fascismo ao comunismo, quase como que por decalque, com intento claro de menorização do segundo, ao mesmo tempo que se procura limpar a memória histórica de íntima ligação, e de admiração dos métodos e do conceito, da burguesia e da igreja relativamente aos regimes fascistas onde quer que estes tenham medrado.

 

Comparar os regimes fascistas aos regimes comunistas é comparar o incomparável, é observar a realidade sob uma condição de miopia política aguda. Tal tentativa de comparação ganha fôlego apenas quando olhamos superficialmente para a natureza autoritária dos regimes. As similitudes, todavia, ficam-se apenas por aqui.

 

Comparar os regimes fascistas, regimes que oprimiam os seus povos, que os votavam às trevas da ignorância, à exploração burguesa declarada de um capitalismo de estado evidente — de uma burguesia que prosperava lado a lado com o poder, que era o poder verdadeiramente —, que mergulhavam as sociedades a um retrocesso generalizado em todas as áreas do saber e da cultura, com os regimes comunistas que, quer se queira, quer não, com maior ou menor sucesso, faziam precisamente o contrário, democratizando a educação, a cultura, o acesso à saúde, fazendo uma distribuição mais justa da riqueza produzida e dos recursos, só pode ser qualificado como desonesto e embusteiro.

 

O regime soviético, porque é este que se pretende atingir, não obstante os seus pecados que justamente devem ser apontados, pegou numa sociedade extremamente atrasada, quase que medieval — a sociedade russa czarista — e projetou-a para o topo do mundo em termos económicos, industriais e sociais, numa ascensão sem precedentes pelo curto espaço de tempo em que ocorreu — menos de meio século e tendo atravessado duas guerras mundiais!

 

A sociedade soviética foi pioneira em diversos domínios. Evidências disto mesmo podemos observar ainda hoje no nosso estado social europeu fortemente influenciado pelos ideais marxistas corporizadas a leste. Após a queda da União Soviética a esperança média de vida de um russo recuou quase vinte anos e apenas há poucos anos a Rússia contemporânea conseguiu recuperar essa esperança perdida.

 

Mesmo relativamente à natureza política do sistema, colar o fascismo ao comunismo soviético pelo facto de serem formalmente ditaduras é extraordinariamente redutor. No regime soviético ocorriam frequentemente eleições. Elegiam-se delegados e representantes que, por sua vez, elegiam os membros do comité central do partido único que, ultimamente, elegiam o líder. É verdade: não era uma democracia como a nossa e chamar-lhe democracia não deixa de ser forçado. Mas também não era uma monarquia absolutista. Teoricamente qualquer um poderia fazer parte do sistema eletivo. Aliás, por haver um certo grau de democracia no sistema soviético é que este foi capaz de ruir, isto é, foram capazes de penetrar no sistema e ascender ao topo gente cujo objetivo, revelou-se, era dinamitar a coisa.

 

Comparar regimes com objetivos e resultados tão distintos no que ao bem-estar da pessoa humana diz respeito é pouco profundo e pouco sério. É querer pintar tudo com as mesmas cores para esconder as diferenças relevantes entre eles. É por isso mesmo, no meu ponto de vista, que a sociedade alimenta a discussão sobre estas patetices sem pés nem cabeça. Interessa ofuscar a História. Interessa difamar e interessa impedir que se saiba. Interessa prevenir a todo o custo que se ouse imaginar que é possível um outro tipo de sociedade.

Marcelo ou o último exemplo de controlo social

por Amato, em 17.01.16

Marcelo Rebelo de Sousa é o último exemplo de como esta sociedade Big Brother exerce controlo ou, pelo menos, como influencia o pensamento de cada um dos seus elementos, de cada cidadão que pisa este solo retangular e que, todos os dias, procura sobreviver debaixo deste sol.

 

Marcelo Rebelo de Sousa é exatamente aquilo que é, nem mais, nem menos, mas isto é algo de diverso do que é apresentado na generalidade dos media. Hoje, Marcelo Rebelo de Sousa aparece-nos, televisão adentro, como um grande sábio, uma excelente pessoa, muito culta e muito capaz. Esta imagem levou mais de uma década a ser construída e juntou esforços de jornais, canais de rádio e de televisão. A verdade é que, quer quiséssemos, quer não, lá estava o Professor na TV a horas certas, a mandar bitaites sobre tudo e a recomendar livros. O Professor Marcelo substituiu o Vitinho e os Patinhos ao domingo à noite e a juventude habituou-se a ir dormir a seguir às suas palavras antes de acordar para uma nova semana de trabalho.

 

Não interessa que na vida política Marcelo tenha sido uma nódoa, incapaz de segurar a liderança do seu partido e de unir as suas vontades. E não interessa que Marcelo tenha sido uma nódoa de lavagem rápida rapidamente substituído por outros de menor currículo mas, todavia, capazes de fazer o que o Professor não soube ou não conseguiu. Nem interessa que Marcelo tenha virtualmente perdido todas as eleições a que concorreu. Nada da sua efetiva participação política interessa verdadeiramente.

 

Não interessa a ascendência de Marcelo e a sua íntima relação com o antigo regime. Diz-se que o último dos ditadores do Estado Novo, Marcelo Caetano, esteve para ser seu padrinho de batismo e diz-se que se batizou o menino de Marcelo em sua honra. Mas nada disso interessa porque Marcelo, o de 2016, sempre foi um democrata dos sete costados e nem sabia nada sobre o assunto. Nada do património histórico de Marcelo interessa verdadeiramente.

 

Não interessam as suas posições políticas. Não interessa que eventualmente seja um retrógrado conservador que preferiria os tempos simples do “antigamente” em que todos fossem à missinha ao domingo e em que as mulheres fossem umas parideiras de trazer por casa e a cuidar a casa enquanto os maridos trabalhavam de sol a sol para colocar comida na mesa. Não sei se é isso que o Professor pensa porque nada do que aquilo que o Professor Marcelo realmente pensa parece interessar aos meios de comunicação social, nem os sinais que foram sendo dados, nem os lados em que o Professor se foi colocando ao longo da passagem dos tempos.

 

Nada disto interessa porque o Professor Marcelo é afável e divertido, é simpático e bonacheirão e, por isso mesmo, dará um excelente Presidente da República que será muito próximo do povo.

 

O Professor Marcelo Rebelo de Sousa é, com efeito, apenas a face visível do controlo e da influência a que estamos sujeitos. Antes, há dez anos, tivemos já a cavalgada sebastiânica de Cavaco, imaculada de nódoas políticas passadas, até à presidência da República.

 

Não é que a maioria do povo não queira Marcelo. Provavelmente quer, estou seguro disso. Essa escolha, contudo, deveria ser limpa e transparente e não sob esta permanente capa de hipocrisia, este faz-de-conta com o qual se entretêm as crianças e se obtêm os comportamentos desejáveis.

 

Quando se fala em democracia avançada é exatamente o contrário disto que temos: esta democracia infantil feita de fantoches e de falsos ídolos, feita para ignorantes.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Amato

foto do autor

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D

Mensagens