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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Os momentos definidores da história dos homens

por Amato, em 17.10.19

Os meus mais profundos sentimentos de solidariedade e de fraternidade estão novamente com o povo da Catalunha e com a justiça da sua milenar luta por autodeterminação e independência.

 

Estes são os momentos definidores da história dos homens. Estes são os momentos em que desaba a fachada do sistema, em que cai a máscara dos seus advogados e defensores, em que se esvaziam de significado as palavras que usam como bandeiras... liberdade... democracia... direitos do homem... É a força dos povos que, unidos em torno de um ideal que lhes é superior, derruba as zonas de conforto, os comodismos e sai à rua, dá o corpo à luta, de mãos dadas, com filhos ao colo, porque o que defendem é tão precioso que os pequenos também têm que o sentir, têm que assistir ao vivo, também têm que fazer parte disso.

 

Pois ali está um povo, do outro lado da fronteira, que está a ser punido e perseguido por querer ser independente, por fazer um referendo, por querer ser ouvido. Para este povo, tão perto de nós, em plena Europa, não existe direito à autodeterminação, não existe democracia, nem liberdade. E, para a maioria de nós, é indiferente que assim seja.

 

Estes são os momentos em que percebemos que não é possível transformar o sistema desde dentro do sistema. O sistema e as suas estruturas nunca permitirão nenhuma transformação, pois a sua razão de ser é precisamente conservar o poder nas mãos onde ele repousa. Acreditem nisto que vos escrevo. Não existem revoluções pacíficas.

 

Como português que conhece a sua história, sei o quanto nós, enquanto país independente, vos devemos, Catalunha. Deixo-vos aqui toda a minha força e solidariedade!

Uma revolução para os séculos que se apresentam adiante

por Amato, em 12.09.19

O que mais me dói é perceber esta ilusão em que vivo. Acreditem. A minha maior dor é essa. Sabem? A ilusão de que vivemos em democracia, de que somos livres, de que nascemos iguais e de que somos tratados como iguais pela lei e pela justiça. A ilusão de que existe justiça...

 

Essa dor acaba por ser natural, claro, pois o viver é como que um eterno acordar para a realidade, de um sono de ilusão que nos é imprimido desde o berço. E cada um de nós acaba por entender o alcance tangível dessa construção de castelos de nuvens sobre as nossas cabeças. Todos nós, uns mais cedo, outros mais tarde, acabamos por bater de frente com essa parede de fantasia, vítimas dessa mesma quimera que fomos alimentando ao longo da vida.

 

As publicações deste blog têm tratado abundantemente da parte política do problema. Como pode haver, afinal, democracia quando cada escolha é condicionada de antemão e quando quem efetivamente tem o poder de decisão nunca se expõe ao sufrágio popular? Deixemos, portanto, esta vertente de parte.

 

Falemos de justiça.

 

Falemos de justiça, porque a justiça constitui proverbialmente, no contexto da nossa configuração social, a espada definidora das liberdades individuais e coletivas e o escudo que protege o valor mais precioso que urge entre os homens dos nossos tempos: a igualdade. Uma justiça parcial implica, naturalmente, a diferenciação entre os homens no que às suas liberdades diz respeito. Uma justiça parcial é estruturadora de uma sociedade de classes de homens diferenciadas em influência e em poder, umas sobre as outras.

 

Olhemos, pois, para a justiça. Acompanhemos alguns casos, os que afetam as pessoas que nos são mais próximas e os outros, os mediáticos, que nos impingem olhos adentro. Recolhamos informação. Ontem mesmo, surgiu mais uma notícia que ilustra bem o estado da coisa. Uma vez mais, as grandes corporações burguesas do país, saem incólumes dos crimes cometidos e ainda se vangloriam disso mesmo em plena praça pública. Mas os casos sucedem-se em catadupa. Não façamos deste caso exemplar, porque o exemplo é o dia-a-dia da sociedade. O exemplo foi ontem, é agora e será amanhã também, seguramente.

 

Repare-se que não basta à burguesia reinante ditar as regras com que a sociedade se deve reger em seu benefício. Não. Ainda é necessário poder quebrar essas mesmas regras quando convier e garantir que a esponja purificadora dos tribunais passará sobre os seus delitos e os absolverá perante a sociedade. No passado havia a igreja que detinha esse papel de absolvição moral. Hoje, convenhamos, os tribunais prestam um melhor serviço.

 

Pensar que existe justiça na sociedade burguesa é a ilusão das ilusões. Pensar que a lei nos vê a todos como iguais é fantasia, é ficção. A nós, comuns mortais, resta-nos a nossa inteligência e o nosso senso que servem de amarras ao real e ao concreto. E manter bem viva a consciência de que não existem saídas para este sistema corrupto e despudorado dentro do próprio sistema. Não se pode reformar o que detém natureza ímpia, vil e desprezível.

 

A revolução da sociedade é o único e derradeiro caminho que nos resta. Uma revolução para os séculos que se apresentam adiante. Uma revolução que se impõe para nos catapultar para uma modernidade de bem estar, de paz, de cultura e de elevação intelectual. Para construir uma sociedade fraterna de irmãos, colocando a tecnologia ao serviço de todos, e não uma sociedade de inimigos em constante disputa por uma côdea de pão sob o olhar atento de meia dúzia que toma todos os recursos do planeta para seu próprio proveito.

Com a bênção de todos

por Amato, em 12.08.19

Não deixa de ser irónico que, na viragem do século, o fascismo tenha, enfim, descoberto na democracia o seu habitat mais confortável para se manter e desenvolver.

 

À vista de todos, com a bênção de todos.

Brexit: esqueçam o fish and chips

por Amato, em 21.06.19

Em julho 2016, já lá vão três anos, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, renunciou ao seu cargo quando o povo que representava decidiu, em referendo, pela saída do Reino Unido da União Europeia. Do alto da sua sapiência, a velha “democracia” britânica, a mesma que sustenta uma câmara de quase oito centenas de lordes que mais não fazem do que mandar um bitaite aqui e ali, decidiu — David Cameron tinha formado governo há pouco tempo, afinal — nomear o nome que se seguia na hierarquia do Partido Conservador, no caso, uma senhora a fazer lembrar a ignóbil Margaret Thatcher, chamada de Theresa May.

 

May ocupou o seu tempo enquanto primeira-ministra do Reino Unido a negociar um acordo para a saída do seu país da União Europeia procurando, deste modo, cumprir a vontade do povo que representava. Com efeito, podemos afirmar com propriedade que em tudo o resto as ilhas britânicas congelaram: durante três longos anos — e a farsa parece que ainda está para durar — a política daquele país reduziu-se ao brexit. De forma um tanto ou quanto surpreendente, volvidos três anos sobre o referendo, todos os acordos que May conseguiu estabelecer com os seus interlocutores europeus foram sucessivamente rejeitados pelo parlamento britânico que, inclusivamente, rejeitou também a possibilidade de saída do país sem acordo.

 

Não restou, portanto, outra alternativa ao pálido deja vu de Thatcher que não o de apresentar a sua demissão, algo que viria a acontecer em maio passado. Sem vislumbres de querer defender a senhora, a verdade é que por estas horas, Theresa May deve andar a perguntar-se porque cargas de água se meteu nestes trabalhos, porque razão deixou de fazer as suas coisas e levar os seus netinhos à escola, porquanto a sensação que efervesce é que, fizesse o que fizesse, conseguisse o acordo que conseguisse, o resultado final seria sempre o mesmo e o parlamento far-lhe-ia a cama bem feita como, aliás, fez. Foram três anos bastante inúteis, inexoravelmente perdidos, para o Reino Unido.

 

Chegados a este ponto, há uma conclusão que emerge como óbvia e que resulta quer de todo o processo dirigido por May quer dos recentes resultados das eleições europeias que concederam uma incontestável vitória ao partido do brexit formado especialmente para a ocasião: o Reino Unido necessita de uma clarificação política. Não se trata apenas de nomear o próximo na lista de sucessão ao cargo: trata-se de remodelar o parlamento de acordo com a vontade popular e isso só poderá ser feito antecipando eleições e dando voz ao povo britânico.

 

Todavia, a velha “democracia” britânica, seguramente aconselhada de forma superior pela sua câmara de quase oitocentos lordes, prepara-se para ignorar o óbvio e dar lugar ao próximo. Que lição — particularmente dedicada a todos aqueles apaixonados pelo exemplo inglês — que esta democracia nos dá!

 

O próximo a aguardar impacientemente a sua vez parece ser um tal de Boris Johnson, uma imitação infeliz de Donald Trump, que será o que tem sido ao longo da sua oportunista carreira política: uma voz pouco sensata, pouco culta e pouco inteligente no panorama britânico e europeu. Mas, em boa verdade, o nome do próximo em linha de sucessão não é muito relevante aqui para o caso: o impasse parlamentar permanece perene com a mudança de nomes e não parece ter uma resolução à vista caso se mantenha a correlação de forças que existe atualmente.

 

Talvez seja esta a ideia. Talvez a estratégia britânica passe mesmo por uma procrastinação indeterminada da tomada de decisão com respeito à sua saída da União Europeia. Afinal, manter um pé dentro e um pé fora da Europa sempre foi a especialidade britânica. Esqueçam lá o fish and chips.

Sociedade burguesa

por Amato, em 12.04.19

Temos democracia, temos liberdade, a de expressão e as outras, temos riqueza, temos tudo, segundo apregoam, nesta sociedade capitalista, apogeu da sociedade burguesa. Não falta quem nos repita que não há modelo de sociedade melhor, que chegámos à meta onde havíamos de chegar e que a procura acabou. Este pensamento é-nos gravado na cabeça desde a nascença.

 

E depois há Julian Assange.

 

A mesma sociedade acima descrita, o mesmo modelo político defendido por todos, é capaz de fazer isto a um homem que, simplesmente, ousa dizer a verdade. Passados sete anos de cativeiro forçado, o que sobrava deste grande e corajoso homem foi levado como um animal para um outro tipo de cárcere. Por ele espera um rol de acusações forjadas com vista, anuncia-se já, à pena de morte. Em particular, observem como Assange é tratado pelos seus pares jornalistas! Vejam o desprezo e a indiferença que lhe dedicam!

 

É isto que esta sociedade capitalista burguesa faz a um jornalista que diz o que não convém. É isto o apogeu da liberdade, da democracia e da humanidade. Cai a máscara, revelam-se os contornos da ilusão em que vivemos.

 

Tome cuidado o leitor destas palavras, tome cuidado com os passos futuros que der: poderá tornar-se, sem querer, o próximo alvo a abater. É verdade: pode não tocar só aos outros. Não há honra, nem princípios, nem ética, nem caráter. Vale tudo para a burguesia manter e perpetuar o seu poder.

Como é que o Brexit se tornou num enxovalho à democracia?

por Amato, em 16.03.19

Como é que foi?

 

Quer dizer, fez-se um referendo, fez-se campanha pelo sim, fez-se campanha pelo não, o povo foi chamado a dizer de sua justiça, a maioria disse sim e, passados três anos da consulta popular, nada aconteceu.

 

Bem entendido, o primeiro-ministro demitiu-se, foi substituído, a substituta andou durante a maior parte destes três anos a negociar não se sabe bem o quê — tenho ideia que a ideia será fazer o Brexit mantendo tudo na mesma no que à alta finança diz respeito — e agora anda a tentar aprovar esse deal no seu parlamento onde tem sido objeto de debate por brexiters e remainers que não se entendem — claro que não se entendem! Como é que se haviam de entender? — a não ser em rejeitar continuamente qualquer acordo e qualquer alternativa.

 

Como é que o Brexit se tornou num enxovalho, neste lamentável enxovalho, à democracia?

 

Se o povo britânico decidiu sair da União Europeia, coisa à qual nunca, verdadeiramente, pertenceu, então que saia. A saída devia ser inevitável e inexorável com ou sem acordo entre as partes. Depois, então, negociaria tudo aquilo que entende negociar com a União Europeia assim como o faz com qualquer outro país. Mas não era exatamente isso que era pretendido, autonomia e soberania? Claro que há consequência económicas envolvidas! É natural que as haja: afinal, cada opção política que se toma tem um preço. Podemos não o ver nitidamente — como nós, portugueses, não o vimos quando aderimos à União —, mas ele existe — começamos a vê-lo agora, claramente. Ao invés, a classe política do Reino Unido prefere alimentar este folhetim parlamentar degradante ao mesmo tempo que não dá cumprimento ao desejo expresso do seu povo.

 

Como é que o Brexit se tornou num enxovalho à democracia?

 

É fácil.

 

Primeiro, porque a classe política britânica utilizou o Brexit, e lançou-o no seio das suas populações, como arma populista de jogatana política.

 

Segundo, porque grande parte da população viu no Brexit, muitos de forma verdadeiramente inocente, a solução das suas frustrações sociais legítimas jamais atendidas pelas políticas centrais britânicas.

 

Terceiro, porque o Brexit veio a corporizar um sentimento de inveja, xenófobo e racista latente na sociedade britânica, fruto de muitas transformações que ao longo de décadas mudaram a sua face.

 

Quarto, porque um segmento da sociedade britânica considera absolutamente intolerante esta crescente veia autoritária, prepotente, arrogante e opressora da União Europeia, desta União Europeia germânica que com um banal agitar de dedos faz dançar o patético fantoche francês sobre o seu colo.

 

Quinto, porque a classe política, aquela que no primeiro ponto desencadeou todo este processo, está mais preocupada em assegurar os interesses da sua gorda burguesia do que em cumprir a vontade do seu povo.

 

Conheço várias personalidades — vocês também devem conhecer, estou certo — que gostam de fugir às questões e ao debate apontando a agulha para o chamado “exemplo britânico” no que a uma democracia “madura” diz respeito. Pessoalmente, sempre abominei este provincianismo de se pensar que os outros são melhores do que nós e que é no estrangeiro que se encontra a virtude. A minha resposta é sempre a mesma: viaja! Vai ver o mundo! Porque é mesmo isto: quando não viajamos acreditamo-nos no que nos dizem.

 

No século XV, por exemplo, antes da epopeia dos descobrimentos, dizia-se que o mar abaixo de Marrocos não era navegável, que era repleto de monstros marinhos que engoliam embarcações de uma só vez e que terminava num precipício sem fim. E nós acreditávamos. Foi preciso ir até lá para se ver a verdade. Voltando à questão, nunca tomei lições do que quer que fosse, muito menos de democracia, de um país monárquico com uma câmara de mais de setecentos lordes sustentados a peso de ouro pelo erário público. Sempre me causou impressão. Mas para os outros, aqueles que andam sempre com o “exemplo britânico”  na ponta da língua, a situação atual deve causar algum embaraço.

Gente sem valores, sem princípios e sem ética

por Amato, em 25.01.19

As pessoas têm todo o direito de ser contra o Maduro e o Chavismo. Todo o direito. Eu próprio nunca morri de amores pelo estilo e pela forma quer de um, quer de outro. Também têm todo o direito de apoiar o golpe de estado vergonhoso que se quer impor a todo o custo naquele país soberano. Agora podiam parar é de bater no peito sempre que se fala em democracia. Podiam parar com a hipocrisia de se dizerem democratas. O que essas pessoas são é tudo menos isso.

 

Goste-se ou não, está-se a tentar depor um presidente que ainda no ano passado foi eleito com mais de 60% de votos para o substituir por alguém não legitimado por qualquer ato eleitoral. Sim, e a oposição “democrática”, em dezenas de escrutínios, ganhou apenas um. E sim, a maioria dessas eleições foi observada de perto por agências internacionais e pelas Nações Unidas e isso é muito mais do que o que se passa no nosso país ou noutros ditos “democráticos”. E não, não consta que tenha havido qualquer anomalia nesses sufrágios. Mas o conceito de democracia para o povo é mesmo assim, é plástico, é maleável ao seu próprio interesse.

 

Costumamos pensar que o futebol é um fenómeno emotivo particular dentro da sociedade, que o que vale para o futebol não vale para o resto mas, por ventura, estaremos enganados. É ao contrário. A sociedade em geral é que é um fenómeno particular dentro do futebol, mascarada de hipocrisias e coberta de véus de politicamente correto. Se o nosso clube é favorecido, se infringe as leis, se joga sujo, tudo bem. Ao contrário é o fim do mundo. O mesmo se passa com os nossos interesses. Somos seres muito mais primários do que julgamos. Somos gente sem valores, sem princípios e sem ética. A democracia só serve se servir os nossos interesses. Ponto final.

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